quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pedro Hispano: um Homem fora de tempo



O nome de Pedro Julião não é conhecido entre os portugueses, mas se em vez do nome de baptismo referirmos o nome que posteriormente lhe foi atribuído, talvez alguns já o reconheçam, como aquele que foi o único Papa português: Pedro Hispano (nome dado por ser originário da Hispânia, Península Ibérica). Pedro Julião nasceu na cidade de Lisboa, entre os anos 1205 e 1220, não havendo consenso para o ano exacto do seu nascimento. Filho de Julião Rebelo, médico e de Teresa Gil, iniciou os seus estudos na Escola Episcopal da Catedral de Lisboa. Frequentou a Universidade de Paris (alguns historiadores defendem que pode ter também frequentado a Universidade de Montpellier), onde fez os cursos de Teologia e de Medicina, tendo dado especial relevo à dialética, lógica, física e metafísica de Aristóteles. Este estabelecimento de ensino era no século XIII o maior centro de saber e transmissão de conhecimentos de toda a Europa, contando no seu leque de professores e mestres com nomes como Alexandre de Hales (filósofo e teólogo inglês), João de Parma (teólogo italiano), Alberto Magno (teólogo, naturalista, filósofo, químico e alquimista germânico) e Roger Bacon (filosofo inglês). Foi colega de estudos de Tomás de Aquino. Os anos passados em Paris, num meio pleno de cultura e diferentes saberes, permitiram-lhe tornar-se num conceituado nome dentro das esferas elitistas de Paris. Foi professor na Universidade desta cidade e também na Universidade de Siena, em Itália, onde permaneceu entre 1245 e 1250, exercendo ao mesmo tempo a prática clínica. 
Escreve a sua primeira obra intitulada Summulae Logicales (Súmulas Lógicas) uma sistematização da lógica de Aristóteles, que se tornou no manual de ensino da lógica, utilizado pelas principais universidades europeias até ao século XVI. Foram feitas mais de 260 edições deste tratado que foi traduzido para grego e hebraico. Segundo Prantl (História da lógica no ocidente;1867) Summulae logicales é o compêndio de lógica que maior influência exerceu na Europa cristã ocidental na Idade Média. Gilson (Philosophie du Moyen-Age,1922)  relata que Summulae logicales do português Petrus Hispanus foi de imenso sucesso e cuja influência se exercerá durante vários séculos, sendo não apenas utilizada largamente nas Universidades medievais, como foi frequentemente comentada e, coisa digna de nota, pelos representantes de todas as escolas filosóficas e teológicas rivais, indício seguro de que sua dialéctica não parecia ligada a nenhuma doutrina metafísica particular. Outra das obras importantes de Pedro Hispano, intitula-se Scientia libri de anima onde desenvolve teorias sobre o conhecimento de uma forma antropológica, epistemológica e gnosiológica (sujeito como conhecedor do objecto). Esta obra foi considerada por muitos como a psicologia mais rica, completa e sistematizada. Para Gilson, trata-se da obra mais importante de Pedro Hispano. Muitos mais estudos e obras escreveu dentro das áreas de Filosofia, Teologia e Psicologia. Regressa a Portugal onde ingressa no sacerdócio. Em 1261 é eleito Decano da Sé de Lisboa, e em 1263, Afonso III oferece-lhe o priorado da Igreja de Santo André de Mafra. É elevado posteriormente a Cónego e Deão da Sé de Lisboa,  mais tarde Tesoureiro-Mor  da Sé do Porto e Prior Mor da Colegiada Real de Guimarães. A sua ascensão é meteórica e o seu nome passa a ser conhecido nos meios eclesiásticos e  nas cúpulas da decisão politica. Em 1273 é nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X, e foi com esta categoria que em 1274, se desloca a Lyon em França, para participar no Concílio Ecuménico. Neste importante Concílio é nomeado Cardeal de Tusculum-Frascati uma das províncias italianas mais importantes. Durante a sua estadia em Lyon, presta cuidados médicos ao Papa Gregório X, que apresentava problemas oftalmológicos. Os seus tratamentos obtêm grande sucesso e em 1275 torna-se médico principal do Papa, cargo denominado de Arquiathros.Terá sido por esta altura que começa a escrever as suas obras relacionadas com a Medicina. 
Das onze obras que se pensa terem sido escritas por Pedro Hispano, há uma que se destaca:Thesaurus pauperum  (Tesouro dos pobres), uma compilação de tratamentos preconizados por mais de trinta médicos, incluindo ele próprio. Coligi fielmente de todos os que pude encontrar, nos livros dos antigos físicos e mestres e modernos experimentadores, (...) e pretendo tratar das enfermidades da cabeça, descendo até os pés,  disse Pedro Hispano acerca da sua obra. O seu grande objectivo era permitir aos mais pobres o acesso à medicina e à sua prática, através de métodos naturais, com a utilização de produtos vegetais, animais e minerais como medicamento. Neste tratado Pedro Hispano define o cérebro como a raiz de todo o corpo (...) a sede da alma dos poetas; os olhos como as janelas da alma, e servem para se verem através deles como por uma varanda, as cores e as figuras, as montanhas e a verdura; o coração é o termo de todas as operações da alma racional. As operações do espírito começam no cérebro e recebem o seu complemento no coração. Defende que  deve ser evitado todo o serviço intolerável e o que quer que faça a alma entristecer-se, porque o coração é o principio da vida e o termo da morte. As suas palavras demonstram que era de facto um homem sensível, um médico poeta. O Tesouro dos Pobres, foi traduzido para mais de dez línguas, teve mais de setenta cópias manuscritas e mais de oitenta impressas, sendo a primeira datada de 1497 e impressa na cidade de Antuérpia. Quando em 18 de Agosto de 1276, morre o Papa Adriano V, Pedro Hispano é aclamado Papa com a unanimidade dos oito Cardeais presentes, a 13 de Setembro de 1276, sendo coroado a 20 do mesmo mês. Adopta o nome de João XXI, apesar de nunca ter havido um Papa João XX...
O seu pontificado é caracterizado pela simplicidade, recebendo em audiência tanto ricos como pobres. Mais interessado nos seus estudos do que nas tarefas pontifícias, delega no Cardeal Orsini, futuro Papa Nicolau III os assuntos da Sé Apostólica. O seu pontificado ficaria marcado pela defesa da cultura; pelo empenho em obter a paz entre nações em conflito com especial relevo para Filipe III de França e Afonso X de Castela; na tentativa de união entre os cristãos do ocidente e do oriente; pela preparação de uma nova cruzada a Jerusalém para libertar a cidade. Cedo começou a causar polémica entre os meios mais conservadores. Um matemático, filósofo, médico com um vasto conhecimento cultural e intelectual transformado em Papa, foi uma lufada de ar fresco nas ideias retrógradas e conservadoras da época. Os seus profundos conhecimentos em ciências naturais valeram-lhe a alcunha de Mago, por entre o inculto clero. Muitos desconfiavam dos seus métodos e ideias. Na tentativa de se isolar para poder continuar os seus estudos, mandou erguer um quarto na ala mais distante do Palácio Papal em Viterbo, cidade muitas vezes visitada pelos Papas. 
No dia 14 de Maio de 1277, durante uma vistoria às obras que decorriam no palácio, ocorre um desmoronamento e Pedro Hispano fica soterrado debaixo dos escombros. Morre seis dias depois a 20 de Maio de 1277, com cerca de 51 anos. Terminava assim bruscamente o pontificado do primeiro Papa português, que durou pouco mais de 8 meses. Sepultado na Catedral de Viterbo, junto ao altar-mor, é transferido  no século XVI, durante as obras da Catedral, para um local mais modesto, onde permanece até 28 de Março de 2000, quando a Câmara de Lisboa lhe manda construir um mausoléu que é novamente  colocado junto ao altar-mor. Ali permanece o Papa que Dante homenageou na sua obra Divina Comédia quando colocou a alma de João XXI no Paraíso apelidando-o de aquele que brilha em doze livros, referência aos doze tratados escritos pelo erudito português. Cerca de 300 anos depois Miguel Ângelo, ao pintar o famoso tecto da Capela Sistina, desenvolve graves problemas de olhos, tendo encontrado tratamento no Tratado de Pedro Hispano, o Tesouro dos Pobres. Pedro Julião, Pedro Hispano ou João XXI todos estes nomes representam um mesmo homem: um homem fora do seu tempo!