sábado, 7 de julho de 2012

Barco Rabelo ou o Barco de Rabo


O barco Rabelo e o Rio Douro são amigos inseparáveis de longa data. O rio de mau navegar, como era conhecido aquele que banha as margens das cidades de Vila Nova de Gaia e do Porto, desenhou o barco de Rabo ou Rabelo. De águas traiçoeiras, com correntes rápidas e turbulentas, o Douro sempre tornou difícil a navegação nas suas águas. Parecia dizer a quem o pretendia utilizar como via de comunicação que aqui mando eu, e só navega nas minhas águas quem eu quero! De construção simples e tosca, o barco Rabelo conquistou o Douro. De fundo chato, boca aberta e com as tábuas do costado ligadas em trincado, a popa é mais alta que a proa para facilitar o manejo da espadela que serve de remo e de leme, governada pelo arrais ou feitor, que vai em cima de uma espécie de ponte - a apegada. Tem um único mastro onde arma uma grande vela. As dimensões usuais dos Rabelos situam-se entre os 19 e os 20 metros de comprimento, com 4,5 metros de boca (Museu da Marinha)Sem quilha e de fundo chato, a sua construção de tábuas sobrepostas (a chamada técnica da  tábua trincada ou de clinker built segundo os ingleses) construídos pelos próprios marinheiros de rio, tem origem nórdica. 

No Museu Marítimo de Oslo, estão expostos dois barcos Vikings, os chamados Drakkars, que segundo Armando Matos autor do livro O barco Rabelo, podem estar na origem dos nossos Rabelos. A origem deste barco confunde-se com o próprio rio. Estrabão, na sua obra intitulada a Geografia (considerada a primeira enciclopédia de geografia escrita em 17 volumes) refere a existência de magnis scaphis (grandes barcos) que subiam e desciam o rio Douro transportando pessoas e haveres, sendo a única forma de comunicação com as terras do interior. Desde o século XIII que existem relatos sobre as viagens destes históricos barcos, que percorrem incansavelmente e alheios aos perigos, as águas que serpenteiam as encostas verdejantes do Alto Douro e que desaguam na foz junto às cidades nortenhas de Porto e Gaia. Em três dias conseguia percorrer os 150 quilómetros que separavam a Régua do Porto (Museu da Marinha)São estes barcos estrambólicos que fazem o tráfego do Douro. carregam pipas, cortiça, casca, madeira, gente; e quando vem o inverno e anda o rio grande, o movimento nunca se interrompe. Os homens intrépidos de pé sobre a pégada - o nome da gaiola onde vai o arrais - manobram com precisão a espadela, metendo a charroa na água e imprimindo a direcção ao barco. É preciso fazê-lo sem um movimento falso, sem um segundo de hesitação nos sítios perigosos (...) entre montanhas de bronze que põem a alma negra e que estão à espera que se passe uma tragédia (...) tendo de descer lá do alto até ao Porto com aquelas pipas todas, agarrado à espadela, olho na água, olho nas pedras agudas como dentes...o barco oscila, põe-se de pé - e ele lá vem ,lá desce. Como se aguenta? Arriscando a vida (Maria Angelina e Raúl Brandão in Portugal pequenino, 1929)Para ultrapassar os perigosos rápidos do Douro, os Rabelos tinham que ser colocados na água com grande precisão, e quando apanhados pela força da corrente a tripulação esperava e rezava para que o rio de mau navegar os transportasse em segurança. 
Quando não havia corrente o barco de Rabo, recorria à sua vela e à ajuda de ventos favoráveis para poder navegar. Quando precisava de lutar contra a correnteza da água, recorria ao reboque: os tripulantes saiam do barco e com recurso a cordas arrastavam o barco escalando as margens rochosas e traiçoeiras do Alto Douro. Se navegasse junto a terrenos férteis e planos, faziam soar a buzina do barco Rabelo para alertar os agricultores locais da necessidade de ajuda ao mesmo tempo que em voz alta clamavam Eh boieiro!! Uma parelha de bois, seria então atrelada ao barco que subiria o rio a reboque da força animal. Muitos homens perderam a vida nesta perigosa travessia, apesar de toda a mestria e valentia que possuíam. O próprio Barrão Forrester (grande reformador do comércio do vinho do Porto) morreu junto ao Cachão da Valeira  em 1861, quando o barco Rabelo que o transportava virou, não se conseguindo salvar por causa do seu famoso cinto de dinheiro, que estando cheio o arrastou para o fundo. A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, publicou em 1792 alvarás onde legisla a actividade do barcos Rabelo, tal é a dimensão do transporte e o número de barcos existentes. Ficam assim determinados os limites de carga a transportar, dando ordem de extinção dos barcos de maior porte (aqueles com capacidade de transporte de 100 pipas ou mais) e a proibição de navegação nocturna, pelos riscos que esta implicava.
Associado ao barco Rabelo está o famoso Vinho do Porto. Transportado em pipas de madeira empilhadas nos Rabelos, desde as terras de socalco viradas para o Douro até às caves de Gaia, tornaram ainda mais famosos os barcos de Rabo. O colorido sóbrio e pitoresco, os trajes dos seus marinheiros e a grandeza da paisagem, transformaram-no numa das embarcações típicas mais conhecidas em todo o mundo (Museu da Marinha). Quando observamos actualmente o majestoso navegar deste belo e tosco barco, nas águas límpidas do Douro, com o seu porte altivo e gracioso, rapidamente esquecemos a luta que as gentes do rio tiveram ao longo dos anos para realizar a sua travessia. A eles devemos o sucesso do Vinho do Porto, a travessia de gentes e carga entre as remotas terras do Alto Douro vinhateiro e as cidades costeiras, durante longos anos. A eles devemos um olhar diferente sobre o tipico barco, que agora percorre o rio para deleite dos turistas mesclando-se com a beleza das pontes e das margens que vão desfilando ao logo da sua travessia. Alves Redol escreveu que cedo o homem descobriu o rio...aprendeu a lidar com os seus humores e a beneficiar das suas potencialidades. Depois o homem construiu o barco Rabelo, sem requintes de beleza, mas repleto de realidade e poesia!

Nota: As imagens a preto e branco utilizadas foram retiradas de etnografiaemimagens.blogspot.com