segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma árvore sem raízes


Quando um livro chega a ter êxito, aquilo que nele havia de mais activo, em momentos anteriores, torna-se menos claro e é ultrapassado por aquilo que nele é mero produto dessa actividade. É por isso que é bom olhar de vez em quando para trás. Tudo o que em nós há de original, conservar-se-á tanto melhor e será tanto mais apreciado, quanto mais formos capazes de não perder de vista os nossos antepassados (Johann Wolfgang von Goethe, in Máximas e Reflexões). O Homem pode ser visto como um livro: uma obra complexa, resultado da conjugação de esforços de diferentes pessoas. O seu êxito depende não só do quem o escreve, mas da forma como é divulgado e do público que o lê. Um livro apesar de ter sido escrito no século XVIII ou XIX, mantém a sua história, partilha as suas palavras e transmite a mesma magia que tinha quando foi editado.Transforma-se umas vezes em obra prima, outras vezes num livro empoeirado e guardado na prateleira! 
Um livro não desaparece e não é esquecido por ser antigo ou por ser passado...mas o homem sim. 

Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se no novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam. 
(Conceição Evaristo,poetisa brasileira)

A cultura ocidental dá pouco ou mesmo nenhum valor aos antepassados. A vida passa-se toda no presente e direccionada para o futuro, sem haver qualquer olhar, nem que seja de relance, ao passado. Tudo se esquece rapidamente, e as pessoas que nos deram origem não são mantidas na memória. 
Quem sabe a história dos seus antepassados? Quem sabe o nome dos seus bisavós e trisavós? Como foram as suas vidas, o que fizeram, do que gostavam? Raras são as pessoas que o sabem, e felizmente eu sou uma delas. Desenterrei nomes, locais de nascimento, profissões, modos de vida e trouxe até mim aqueles que me permitiram aqui estar e ser como sou. Compreendi os seus modos de vida, as suas lutas e as suas aventuras. Percebi que não são meras fotografias, nem simples nomes esquecidos num registo ou numa carta, amarelados pela passagem do tempo. Tiveram história e deixaram história. Tiveram vida e deram vida. Mesmo sendo esquecidos pelo tempo, permanecem vivos em cada um de nós em minúsculas proteínas chamadas genes, que são o seu maior legado, e que definem muito do que somos. Perceber o nosso passado, ajuda-nos a viver melhor o nosso presente e planear o nosso futuro. 



Como disse Meishu-Sama (filósofo e religioso japonês) numa árvore, as raízes são os antepassados, o tronco são os pais e os galhos são os filhos. E se uma árvore não vive sem raízes, porque havemos nós de viver?