domingo, 29 de abril de 2012

O Galo lendário


Não há Galo mais famoso do que o de Barcelos. Símbolo de Portugal, aparece representado nas mais diferentes formas e feitios que se possam imaginar. De barro, de vidro, de plástico, desenhado em panos, em aventais, em camisolas, canecas, copos ...o Galo do Minho, é uma estrela nacional, cujo nome é conhecido além fronteiras. De cor preta ou vermelha como base, enfeitado com flores ou corações de cores garridas (azul, amarelo, verde) com uma crista vermelha serrilhada assim como a cauda, olha-nos de cima do seu pedestal sempre que entramos numa loja de produtos tradicionais portugueses, pontos de turismo ou chegamos a qualquer aeroporto nacional. Ele é um símbolo português! A origem de tanta fama provém de uma lenda minhota das terras de Barcelos, pela primeira vez descrita em 1877, por Domingos Joaquim Pereira, : Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, (...) havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de uma galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. (..) Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida. Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:- Em nome d'El-rei, estás preso. Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça. Depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor. Nesse dia foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Ao dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudiu a salsa e começou a cantar  num abrir e fechar de olhos. Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!... O réu via-se dependurado da viga fatal... Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado (in Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos). 
Segundo a tradição popular o galego regressou uns anos mais tarde a Barcelos, onde esculpiu o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento datado do inicio do século XVIII, que actualmente se encontra  no Museu Arqueológico de Barcelos, onde estão representados Santiago a amparar um enforcado com uma das mãos, encimados por um galo. Desde então o Galo passou a ser um símbolo da justiça, da honestidade e da fé para as gentes da terra. No entanto o galo foi desde sempre sinónimo de virilidade, coragem, fertilidade e de espírito guerreiro. Anunciador do nascer do dia, representa a  vitória da luz sobre as trevas; vigilante e desafiador, ainda hoje podemos vê-lo no cimo das igrejas e dos telhados de muitas casas. Como descreve Rocha Peixoto, o galo pela (...) nobreza de porte, costumes dominadores e másculos. Altivo e majestoso, vigilante e cupidíneo, todo o povo o celebra, em contos, em superstições, em cantares. (...) Foi ele quem afirmou a divindade de Jesus quando os apóstolos, à mesa, duvidavam; é ele quem se antecipa a anunciar as alvoradas. E grande ainda é o seu poder sobre as entidades maléficas das trevas, já celebrado nos hinos da Igreja e nos cantos populares, antigo e extenso na simbologia grega, por exemplo, (e) no Avesta em que o canto do galo obriga os demónios a fugir, desperta a aurora e faz erguer os homens. Talvez por todas estas características, rapidamente o Galo de Barcelos se tornou um símbolo do povo português. Para homenagear tão importante figura começaram-se a produzir pequenas estátuas em barro representando o galo da Lenda. Apesar de envolver alguma controvérsia, pensa-se que o pai do Galo de Barcelos, foi Domingos Côta ( João Domingues da Rocha é o seu nome verdadeiro) que nasceu em 1877, na freguesia de Galegos em Barcelos e que desde pequeno trabalhava o barro. Estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao meu irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e a gente virou p’ra isto que aí vê e assim terá nascido a famosa representação. Perante tanta adoração, não deixa de ser estranho que o Galo seja um dos pratos predilectos dos portugueses. Mas diz o povo, que assim é, por ordem do próprio, ao deixar o famoso Testamento do Galo (escrito em folhetos de cordel no século XIX, sem autor conhecido), ainda hoje recordado em terras portuguesas, que na altura do Entrudo usam este testamento para ironizar e satirizar, fazendo assim pequenos ajustes de contas. Nesse testamento podemos ler: 
Em tudo quanto vos disser
Tomai sentido e tento
Que eu principio agora
A fazer meu testamento 
As penas das minhas asas 
Que são rijas a valer
São pró nosso regedor
Para penas de escrever
Deixo as unhas dos pés
Para as mulheres viúvas
Se arranharem de noite
Quando lhes morderem as pulgas
Deixo, e é minha vontade
Seja a minha sepultura
Dentro dos corpos humanos
Que é melhor que na terra dura.

E a sua vontade foi cumprida pelos fiéis portugueses!