domingo, 22 de abril de 2012

De Cale a Gaia

O concelho de Gaia (...) anda esquecido dos portugueses. A esta palavra, Gaia, (...) liga-se apenas uma povoação que dista tantas léguas do Porto. Supõe-se que Gaia está imersa numa cheia de vinho e que, nesse tão histórico e tão lindo trato de terra portuguesa, só há armazéns vinícolas. E todavia se há concelho de Portugal digno de estudo, merecedor de ser passeado e preferido é Gaia: ele contem tudo - a azafama industrial e o remanso umbroso dos seus aspectos rurais, o tráfego ribeirinho e o sossego costeiro das praias, adormecendo na sua almofada de areia o rumor do trabalho; embarcadiços e exportadores, o gracioso tipo feminil da Madalena e o exemplar bretão do comércio exportador; zona comercial e zona agrícola, zona seca e zona molhada, a variedade, o contraste, a vida com o seu labor, as suas soalheiras, as encostas difíceis de luta e das colinas, sombras, flores e monumentos. É uma relíquia do passado arqueologico, historico, administrativo e um pégão (alicerce) do futuro ( Joaquim Leitão, in Mea Villa de Gaya,  1909). De facto as palavras de Joaquim Leitão poderiam ser transpostas para o ano 2012. O que se sabe de Gaia? Tradicionalmente vista como cidade sombra do Porto, albergue das famosas Caves do Vinho do Porto e...pouco mais. Mas Gaia é possuidora de uma história muito rica!
Na sua origem está um castro, localizado na margem sul do rio (ainda que existam correntes que contradizem esta) , que aquando da sua integração no Império Romano, tomou o nome de Cale ou Gale, já que no latim não existe distinção de som entre as letras c e g. Tal designação parece ter como raiz etimológica, a palavra celta Gall, com a qual os celtas se designavam a eles próprios (tal como surge em Galiza, Galway, Gália). O próprio nome do rio Douro, que banha a cidade poderá ter origem na palavra celta Dwr, que significa água. Durante o tempo da administração romana a grande maioria da população vivia na margem sul do rio Douro, existindo uma pequena minoria que vivia junto ao porto de águas fundas na outra margem, local da actual Miragaia. Segundo alguns historiadores, a designação de Portus Cale atribuída posteriormente à cidade do Porto, queria designar o porto (em latim portus) de Gaia (Cale). Independentemente de qual das margens era designada por Cale (a direita ou a esquerda) o nome de Portugal, provém da conjugação destas duas denominações: Portus e Cale.  O nome Cale aparece pela primeira vez no Itinerarium do Imperador romano Antonino Pio (138-161), que identifica as vias militares existentes. Na estrada romana que ligava Olissipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), Cale está descrita como sendo a última estação a sul do Douro, no termo da estrada, onde se fazia a travessia do rio. Foi nas margens do rio Douro que por diversas vezes se decidiram os destinos do território ao longo das sucessivas invasões sofridas: romanos, suevos, visigodos e mouros. 
No século IX, após o término do domínio mouro pela intervenção de Vímara Peres, surge uma figura lendária para Gaia, o Rei Ramiro. Segundo a Lenda, no ano de 932, o rei D. Ramiro raptou Zahara, a bela irmã do mouro Alboazar, que vivia no castelo de Cale. Este por sua vez, como vingança  raptou a rainha Gaia, com quem Ramiro era casado. Alboazar trouxe a raptada para o seu castelo e, quando Ramiro regressou a casa e não encontrou a mulher, combinou com o filho, D.Ordonho e outros vassalos ir libertar a rainha e castigar o mouro raptor. Embarcaram em naus e vieram até à margem, cobertos com panos verdes para se confundirem com as árvores. Para vencer  Alboazar , D. Ramiro disfarçou-se de romeiro e combinou com os seus companheiros de armas que acorressem ao castelo quando o ouvissem tocar uma trompa. Ramiro esperou  junto de uma fonte, perto do castelo. Uma donzela que servia a rainha veio buscar à fonte água a mando dela. Aí, encontrou o romeiro que lhe pediu água para beber, desejo que ela satisfez. Aproveitando a oportunidade, Ramiro lançou no recipiente da água a metade de um anel que havia em tempos repartido com a rainha. A rainha Gaia, ao encontrar o anel na bilha da água, mandou chamar o romeiro à sua presença. Apaixonada pelo mouro, e decidida a desfazer-se do marido cristão, prendeu-o num quarto, que foi aberto à chegada de  Alboazar , que sorrindo, lhe perguntou o que ele, um rei cristão, faria se tivesse nas suas mãos o seu inimigo. Tendo em mente o combinado com os seus homens Ramiro respondeu que o faria comer um capão, beber uma caneca de vinho, e depois coloca-lo-ía no topo da torre do castelo a tocar uma trompa até rebentar.  Alboazar  achou graça e garantiu-lhe que seria essa a sua morte. Abriu os portões do castelo convidando todos os moradores a assistir. Ramiro comeu, bebeu, foi conduzido ao alto do castelo e tocou a trompa até que as suas gentes, ao ouvir o sinal combinado, irromperam pelos portões abertos do castelo, chacinando as tropas do mouro desprevenidas e destruindo o castelo. O próprio Ramiro matou  Alboazar  e, tomando a sua mulher, embarcou, seguido pelos seus homens. A rainha, quando as naus se afastavam, começou a chorar olhando o castelo onde fora feliz. O rei perguntou porque chorava ela, vindo a saber que era por amor do bom mouro que tinha sido morto. Ramiro, doido de ciúmes, atou-lhe uma pedra ao pescoço, e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. D.Ramiro voltou para Leão onde se casou com a Zahara, entretanto baptizada, de quem teve vasta descendência. 
Ainda de acordo com essa tradição, a encosta que o rei teria subido em Gaia, denomina-se actualmente por Rua do Rei Ramiro e a fonte por fonte do Rei Ramiro. Nas armas da cidade de Gaia figuram uma torre encimada por um cavaleiro tocando uma trompa.  O Castelo de Gaia situava-se no que ainda hoje é designado por Monte de Gaia. A primeira referência surge com príncipe D.Afonso, filho de D.Dinis, a 4 de Janeiro de 1322; D.Pedro apoderou-se do castelo após a morte de D.Inês, altura em que surge o registo do primeiro alcaide do Castelo, de nome Rodrigo Anes de Sá, em 29 de Julho de 1357. O castelo sofre obras de remodelação em 1366, segundo o registo feito pelo abade do Mosteiro de Pedroso, que contribuiu com 20 carros de lenha, carros e bois para a execução da obra. Em 1385 os moradores do Porto, em desacordo com o alcaide Aires Gomes de Sá, assaltam o castelo e a destruição foi de tal forma grande que nunca mais houve um alcaide no castelo. O escrivão de D.João III, João de Barros, descreveu o castelo: Tem a cidade, o arrabalde de Vila Nova, cuja paróquia é Santa Marinha e junto dela está o Castelo de Gaia em um lugar alto e mui aprazível. Este castelo é já derrubado, que a cidade já derrubou. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César. E nele estavam umas pedras com o nome de Caio César. Mas foi na Guerra Liberal que o castelo sofreu a sua  destruição final . As forças de D.Miguel fortificaram-se na zona do castelo de Gaia, e daí bombardearam o Palácio das Carrancas, quartel general de D.Pedro. As forças leal a D.Pedro retaliaram e da bateria colocada nas Virtudes desfizeram o reduto miguelista, incluindo o que restava do tão maltratado castelo. 
Recuando ao século XI, depois de 1035, com a pacificação do território a sul do Douro, surgiram duas povoações na margem esquerda do rio: Gaia e Vila Nova, que após a fundação do Reino Portucalense se mantiveram autónomas. Gaia, denominado Concelho de Cima, recebeu o seu foral do Rei D.Afonso III em 1255 e Vila Nova, o Concelho de Baixo, recebeu do Rei D.Dinis o foral em 1288. Segundo a tradição estes dois concelhos eram separados pela Fonte dos Cabeçudos, localizada na actual Travessa Cândido dos Reis. O arqueólogo Gonçalves Guimarães (1995), descreve as profissões existentes nas duas povoações, Gaia e Vila Nova. Gaia tinha um barqueiro, um calafate, um estendeiro e um tanoeiro, enquanto Vila Nova tinha quatro carpinteiros, dois tendeiros, um marmeleiro, um cesteiro, um barbeiro e um oleiro. Contudo, são na sua maioria por natureza e tradição lavradores (NOGUEIRA, 1987).
No século XIX, mais uma vez Gaia e Vila Nova estiveram no centro de batalha durante a Guerra Peninsular e depois no Cerco do Porto, com o Douro novamente a marcar a fronteira. No final da Guerra Liberal, a 20 de Junho de 1834, Gaia e Vila Nova fundem-se, nascendo Vila Nova de Gaia. O seu primeiro Presidente do Município foi António da Rocha Leão, antigo mestre tanoeiro e fundador da casa de Comércio de Vinhos do Porto. No século XIX, Pinho Leal descreve no dicionário Portugal Antigo e Moderno, GAIA ou VILLA NOVA DE GAIA – villa, Douro, comarca e em frente do Porto, separada d’esta cidade apenas pelo Douro, e sobre a margem esquerda d’este rio, 1 800 fogos, 7 000 almas, … há n’esta villa grande numero de armazéns, que podem conter mais de 100 000 pipas. Vila Nova de Gaia tornou-se em meados do século XVIII numa terra de homens do mar, de artifices, mercadores e de homens de negócios. A localidade prosperava, começando a atrair cada vez mais estrangeiros, especialmente ingleses, que desenvolveram o comércio do Vinho do Porto com a construção de armazéns e companhias exportadoras de tão famoso vinho. A zona ribeirinha de Gaia, com as suas caves, tornou-se mundialmente conhecida. Quando, em 1886, foi inaugurada a ponte D. Luís I para ligar o Porto a Vila Nova de Gaia pela parte alta das duas cidades,  nas duas margens, foram abertas avenidas que alteraram o crescimento urbano. 
Ao longo da então chamada Avenida de Campos Henriques (actual Avenida da Republica), situada em Gaia, foram construídos palacetes edificados pela burguesia emergente. O crescimento populacional, económico e industrial deste novo concelho estava em franco progresso. Em 1841 é feito o primeiro pedido de elevação a cidade, durante o reinado de D. Maria II, que foi recusado. Vários pedidos se foram sucedendo à medida que a Vila aumentava de população e de importância, mas apenas a 28 de Junho de 1984 Vila Nova de Gaia foi elevada a cidade, mantendo no entanto a designação de Vila Nova. 
Actualmente com 168,7 km² de área, Vila Nova de Gaia é o maior concelho do Grande Porto. Subdividido em 24 freguesias, está limitado a norte pelo município do Porto, a nordeste por Gondomar, a sul por Santa Maria da Feira e Espinho e a oeste pelo oceano Atlântico. Este contexto permite-lhe ser um concelho de grandes contrastes, entre zonas interiores, rio e mar, bem como entre áreas urbanas, industriais e rurais (Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner). Da original Cale já pouco resta. Mas a história desta cidade está impressa nas pedras graníticas da zona ribeirinha, nos muros da Serra do Pilar,na alma das suas gentes e no vinho que leva a sua história a todo o mundo. Cale ou Gaia, não importa o nome que lhe é atribuído. Descrita por Almeida Garrett, Ramalho Urtigão, Luis Pereira Brandão e João Vaz, entre muitos outros, é terra com história e de muitas estórias.