segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Nação Italiana em Lisboa

A Igreja do Loreto, também conhecida como a Igreja dos Italianos, está situada junto ao Largo do Chiado e à Praça de Camões, em frente ao Bairro Alto, na cidade de Lisboa. O culto à Nossa Senhora do Loreto, muito importante em Itália, foi introduzido em Portugal por mercadores venezianos e genoveses, no século XIV. Lisboa era nesta altura, uma das mais importantes cidades europeias, com um enorme fluxo comercial, atraindo inúmeros estrangeiros, particularmente italianos. Em 1517, após terem obtido permissão do Papa Leão X e do rei D. Manuel I, a comunidade italiana fundou a sua primeira Igreja, numa ermida de evocação a Santo António, que ficava contígua às antigas Portas de Santa Catarina, ainda na parte exterior das muralhas da cidade. Após obras de ampliação da pequena ermida, e tendo ficado sob administração directa do Papa Leão X (1518) e agregada à Basílica de São João de Latrão (Catedral do Bispo de Roma), o novo templo abriu ao culto a 8 de Janeiro de 1522, tendo-se celebrado a primeira missa já no reinado de D.João III. A Igreja do Loreto tornou-se rapidamente o pólo aglutinador de toda a comunidade italiana residente em Lisboa(1). Ao longo dos anos, esta comunidade foi recheando a sua Igreja com obras de arte de artistas italianos e com pinturas de frescos nos tectos e paredes. Para poderem financiar todos estes gastos, criaram uma taxa de 4% sobre todas as mercadorias italianas que chegavam a Lisboa, e que revertiam a favor da Igreja. 
Anos mais tarde, requereram que a Igreja do Loreto fosse elevada à categoria de Paróquia de todos os italianos residentes em Lisboa. A rejeição a  esta proposta pela parte do Cabido de Lisboa foi pronta, e foi feita queixa ao Papa Paulo III, que encaminhou o processo para o Tribunal da Rota (tribunal que funcionava como instância superior no grau de apelo junto da Sé Apostólica, para tutelar os direitos na Igreja), tendo este decidido que a criação de tal Paróquia só poderia ser aceite com o consentimento do Cabido de Lisboa. O certo é que 5 anos passaram, e o Cabido autorizou a criação da Paróquia do Loreto, sem nunca se ter sabido ao certo o que levou à mudança de atitude. Os italianos conseguiram finalmente o que há muito lutavam: uma Paróquia italiana em plena cidade de Lisboa. Era uma Paróquia que não tinha freguesia designada, já que eram seus paroquianos, todos os indivíduos da Nação Italiana residentes na cidade, independentemente do local onde vivessem. Segundo a opinião dos escritores da altura, a Igreja do Loreto, era um templo faustoso e digno do lugar que ocupava na cidade. Tornou-se um lugar singular onde os italianos integrados na vida lisboeta, tinham a possibilidade de regressar às suas origens e ouvir a sua língua materna. Sempre presididos por padres provenientes de Itália, aí eram baptizados, casavam e eram sepultados, sempre em solo italiano, dado que o local da Igreja era pertença da Nação Italiana. Em 29 de Março de 1651 um violento incêndio, reduz a Igreja a cinzas, tendo-se apenas salvado o cofre do Santíssimo Sacramento. Os prejuízos foram enormes, mas as obras de reconstrução começaram poucos dias depois e ao fim de 25 anos a Igreja estava novamente de pé. Todas as obras foram financiadas pelos habitantes da Nação Italiana. 
No dia 1 de Novembro de 1755, deu-se o grande terramoto de Lisboa, que dizimou milhares de pessoas. A Igreja do Loreto sofreu poucos danos estruturais com o terramoto, e a comunidade italiana que assistia à missa, pouco ou nada sofreu. Graças a esta Igreja, estou a escrever este texto, já que o meu 6º avô materno, de nome Francesco George Dragazzi, veneziano nascido em San Pietro de Castello, estava nesse dia a assistir à missa. Baptizou todos os filhos na Igreja do Loreto e aí foi sepultado. Na assento de baptismo do seu filho Caetano Alberto Dragazzi (meu 5º avô) pode-se ler...baptizei nesta Igreja Parochial da Naçam Italiana, Caetano Alberto (...).
Aqui fica a história pouco comum, de persistência e de querer de uma comunidade, que chegou até aos nossos dias...actualmente a Igreja do Loreto ainda é presidida por padres italianos. 

(1) Clio: Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003