segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um italiano do Porto



Nem sempre a cidade natal é a cidade do coração. Não escolhemos o local em que nascemos, mas podemos escolher aquele em que queremos viver. E Nasoni escolheu o Porto. Foi nesta cidade onde viveu durante quase 50 anos, onde fez e deixou obra, que casou, teve os seus filhos e morreu. Poderia ser uma história começada por Era uma vez, mas essas histórias têm um final feliz...
Niccolo Nasoni, nasceu em San Giovani Valdarno, na Toscana Italiana, a 2 de Junho de 1691, filho do feitor Giusepe Francesco Nasoni e de Margaretta Rossi. Cedo começou a demonstrar gosto pela pintura e pela arte. Em Siena inicia os seus estudos e tem por mestres o pintor Giuseppe Nicola Nasini (famoso pintor religioso, especialista em pintura barroca) e o arquitecto Franchim e Vicenzo Ferrati. Apenas com 21 anos fica responsável pelo catafalco (local onde se coloca o caixão) da Catedral de Siena, nas exéquias de Fernando de Medici. Ingressa por essa altura no Istituto dei Rozzi, prestigiada Academia de Artes de Siena, que em 1715 o escolhe para a execução dos trabalhos artísticos necessários para a recepção ao novo Arcebispo de Siena. Participa, uns anos mais tarde, na construção do "Carro de Marte", que desfila no cortejo realizado para a eleição do novo Grão Mestre da Ordem de Malta. Pintor ilusionista, domina a técnica da perspectiva, conferindo profundidade a superfícies planas. A sua capacidade de construção e a riqueza decorativa das suas obras, começam a destacá-lo no seio artístico e o seu nome começa a ser falado, entre as elites da sociedade. Entre eles, estão o Conde Francisco Picolomini e D. António Manuel Vilhena, português, que será eleito Grão Mestre da Ordem de Malta, e que o convida em 1724 a realizar as obras de pintura dos tectos e corredores do Palácio de La Valetta. O tempo que permanece em Malta, granjeia-lhe fama e permite-lhe  estabelecer contactos com a alta nobreza e ilustres figuras do clero, tais como Roque Távora e Noronha, cavaleiro de Malta e irmão do Deão da Sé do Porto. Nesta altura, Portugal sob o reinado de D. João V, é uma potência mundial, e  o Porto é uma cidade em franco desenvolvimento, quer  a nível comercial, quer a nível artístico, procurando especialistas na arte do barroco. Não se sabe ao certo quando chega Nasoni ao Porto, mas podemos ler num documento do Cabido da Sé que para se fazerem logo com perfeição e acerto todas as obras, e se evitar o perigo de se desmancharem e fazerem segunda vez, por falta de se preverem os erros, vieram não só de Lisboa,mas de outros Reynos, arquitectos e mestres peritos nas artes a que erão respectivas as obras. Veyo Niculau Nazoni, arquitecto e pintor florentino, exercitado em Roma, donde foi chamado a Malta para pintar o Palácio do Grão Mestre
Estávamos em 1725 e Nasoni ficou encarregado de trabalhos decorativos do interior da Sé. Foi ainda da sua autoria a galilé barroca que se encontra junto à fachada lateral da Sé (1ª obra de arquitectura conhecida de Nasoni) e o Chafariz de São Miguel. Quando terminou a sua obra na Sé do Porto, Nasoni escreveu  Niccolo Nasoni fiorentino, naturale della terra di S. Giovani Valdarno (...) de 1725 e ora 1731 e vene per mezzo del S.R. Girolamo Tavora Norogna. Se haviam dúvidas de quem o convidou a vir para a cidade do Porto, o próprio nos ajudou a esclarecer!
Em 1729, casa com uma conterrânea, de nome Isabel Castriotto Ricardi. O casamento será muito curto, já que em Julho de 1730, após o nascimento do seu primeiro filho José, a mulher morre de complicações após o parto. Pode-se ler no seu registo de óbito Isabel Nasoni, mulher de Nicolau Nasoni, pintor e morador na Rua Chã, faleceu com todos os sacramentos e não fez testamento. Morreu em 25 de Julho de setecentos e trinta, e foi sepultar à Sé. O Deão da Sé, Jerónimo de Távora, que se tornara amigo intimo de Nasoni, apresenta-lhe a dama de companhia de D. Micaela, sua mãe, que se tornará a sua futura esposa. Antónia de Mascarenhas Malafaia, natural de Santo Tirso, será a mãe dos seus cinco filhos: Margarida, António, Jerónimo, Francisco e Ana, que nasceram entre os anos de 1731 e 1737, e que se juntam a José, o seu primogénito. Nascem todos na freguesia da Sé, na cidade do Porto.
As Ordens religiosas eram inúmeras, nesta época na cidade do Porto, e três delas por estarem a passar por dificuldades económicas decidem juntar-se e formar a Irmandade de Clérigos Pobres de Nossa Senhora da Misericórdia, São Pedro e São Filipe Nery, mais tarde denominada Irmandade dos Clérigos. O seu Presidente era o Deão da Sé do Porto. Sem local de culto, nem onde exercer as suas actividades religiosas, desenvolvem diligências para tentar obter um local onde possam erguer a sua Igreja. Conseguem que lhes seja doado um terreno fora das portas da cidade, no chamado lugar da Cruz de Cassoa, perto do Olival, junto ao Adro dos Enforcados (assim chamado por ser aí que eram enterrados os criminosos sentenciados à forca). O projecto da construção da Igreja e do edifício dos Clérigos, composto por capela, hospital e diversas salas, é entregue a Nasoni. A construção começa a 23 de Junho de 1732 e a 28 de Julho de 1748, ainda sem a obra completa, realiza-se a primeira missa. A construção da Torre dos Clérigos inicia-se em 1754 e termina a 1763. A obra prima de Nasoni e o ex-libris da cidade do Porto, com 76 metros de altura e 225 degraus, apresentava-se aos seus habitantes. Segundo Teixeira de Pascoaes a Torre dos Clérigos representa o Porto espremido para cima.
Muitas outras obras são de sua autoria entre elas o Paço Episcopal, o Palácio do Freixo, a casa da Quinta da Prelada, a Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco, a frontaria da Igreja da Misericórdia, a Casa da Quinta de Ramalde, os trabalhos de restauro nas Sés de Lamego e Braga, a Igreja da Ordem do Terço, o Palácio de Bonjóia, o Chafariz e a escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, a fachada da Igreja do Senhor Bom Jesus em Matosinhos, o restauro da Igreja de Santa Marinha em Gaia, e o corpo central do Palácio de Mateus em Vila Real.
Nasoni mudou a cidade do Porto, deu-lhe um rosto diferente, uma alma barroca. Nasoni tornou-se portuense e viveu a sua cidade. Viveu o fim da sua vida com  dificuldades financeiras e morreu a 30 de Agosto de 1773. No seu registo de óbito podemos ler Nicolau Nasoni, viúvo que ficou de Antónia Mascarenhas Malafaia já defunta, morador na viela do Pai Ambrósio, desta freguesia de Santo Ildefonso do Porto; faleceu com todos os sacramentos nos trinta dias do mês de Agosto do ano de mil e setecentos e setenta e três anos,  e foi sepultado na Igreja dos Clérigos pobres, de sua Irmandade desta freguesia de Santo Ildefonso. O local da Igreja onde foi sepultado ninguém sabe ao certo, pois não há nenhuma placa com o seu nome no seu interior. Nem a Irmandade, que a Nasoni deve a sua Igreja, lhe prestou a devida homenagem.  As palavras de José Saramago no seu livro "Viagem a Portugal", descrevem bem aquele que deveria ser o sentimento de todo o portuense :  Na passagem entra nos Clérigos, olha-os de fora, pensa no que devem o Porto e o Norte a Nicolau Nasoni, e acha que é mesquinha paga terem-lhe posto o nome no cunhal duma rua que tão depressa começa logo acaba. O viajante sabe que raramente estas distinções estão na proporção da dívida que pretendem pagar, mas ao Porto competiriam outros modos de assinalar a influência capital que o arquitecto italiano teve na definição da própria fisionomia da cidade. Justo é que Fernão de Magalhães tenha aquela avenida. Não merecia menos quem navegou à volta do mundo. Mas Nicolau Nasoni riscou no papel viagens não menos aventurosas: o rosto em que uma cidade se reconhece a si própria.
Como seria a Sé do Porto nos seus tempos primeiros? Pouco menos que um castelo, em robustez e orgulho militar. Dizem-no as torres, os gigantes que vão até à altura superior do vão da rosácea. Hoje os olhos habituaram-se de tal maneira a esta compósita construção que já mal se repara na excentricidade do portal rococó e na incongruência das cúpulas e balaústres das torres. Ainda assim, é a galilé de Nasoni que mais bem integrada aparece no conjunto: este italiano, criado e educado entre mestres doutro falar e entender, veio aqui escutar que língua profundamente se falava no Norte português e depois passou-a à pedra. 
Como disse no inicio do texto esta história de vida não podia começar com era uma vez, mas antes com mais uma vez! Mais uma vez esquecemos a pessoa, a obra e a vida. Fica o nome de uma rua e de uma estação de metro como homenagem de uma cidade que tanto lhe deve.

Nota: Fotografia (e tratamento digital) do quadro de Nicolau Nasoni: Carlos Romão.