quinta-feira, 31 de maio de 2012

Vila Nova e Porto no século XVII


A representação gráfica mais antiga e pormenorizada de Vila Nova, data do ano de 1669. Esta aguarela foi desenhada por Pier Maria Baldi, um pintor florentino que acompanhou Cosme de Médicis, na viagem que este realizou pela Europa, passando também por Portugal.








As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


Podemos ver no canto superior direito da gravura, o actual Mosteiro da Serra do Pilar, ainda sem a sua cúpula, no cimo do Monte da Meijoeira como era chamado na altura. Em baixo, mais à esquerda no meio de uma arvoredo junto ao rio podemos ver a antiga Igreja de Santa Marinha. No canto inferior direito da gravura, visualizamos um aglomerado de casas ao longo de uma rua perpendicular ao rio - a rua Direita. Trata-se da antiga povoação de Vila Nova, onde se distinguem alguns edifícios que ainda hoje existem.




As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


De um local elevado de Vila Nova, Baldi retrata também a cidade do Porto, no ano de 1669. Podemos ver que no lado de Vila Nova, à esquerda da antiga igreja de Santa Marinha, não havia qualquer povoação. 


Aqui  ficam  duas  fabulosas  gravuras  que  retratam paisagens tão familiares num tempo longínquo.

Estas gravuras foram retiradas da BNP digital e o texto do livro intitulado Gaia e Vila Nova na Idade Média, arqueologia de uma zona ribeirinha, de Joaquim António Gonçalves Guimarães, com edição da Universidade Portucalense

terça-feira, 29 de maio de 2012

A história do Hino Nacional

Nos dias de hoje todos os países possuem dois símbolos que os identificam: a bandeira e o hino nacional. A bandeira, símbolo visível e ancestral de reinos e países, tem na sua origem o estandarte que representou desde sempre clãs, tribos, casas nobres e reais. A utilização de uma composição musical, como símbolo de uma nação, apenas começou a ser adoptada na Europa no século XIX. Até essa data os exércitos e as populações reconheciam toques e cantos guerreiros que representavam pequenas facções e não uma nação inteira. Existiam composições musicais que representavam o rei, mas quando o monarca morria, desapareciam com ele. A peça musical identificava apenas o monarca reinante. O sentimento nacional e a ideia nacional, o mesmo é dizer o nacionalismo, foram no século XIX, um princípio de acção essencial contra os estados opressores e estiveram também na origem da maior parte dos conflitos internacionais. Na Europa o facto nacional foi um dos agentes determinantes da sua transformação (René Rémond, historiador francês). A revolução francesa, alicerçada nos princípios universais de Jean Jacques Rousseau - liberdade, igualdade e fraternidade (Liberté, Egalité, Fraternité) foi o rastilho que incendiou toda a Europa e mudou drasticamente todo o cenário social e politico do velho continente. A vaga de apoiantes do nacionalismo foi crescendo e foi surgindo a necessidade de  tornar esse sentimento visível a todos. Nada melhor do que composições musicais num género de marcha militar acompanhadas de textos que proclamassem bem alto os feitos grandiosos das nações. Os hinos nacionais floresceram em toda a Europa durante o século XIX. Em Portugal a composição musical, considerada como primeiro hino nacional de Portugal foi composto em 1808, por Marcos António Portugal (compositor português e professor de música de D.Pedro IV e de D.Miguel) e intitulava-se Hymno Patriotico da Nação Portuguesa. Este hino foi inspirado na parte final da Cantata La Speranza o sia l`Augurio Felice , composta e oferecida pelo autor a D. João VI, príncipe regente, quando este ainda se encontrava no Brasil. A poesia do Hymno Patriótico teve diferentes versões face às circunstâncias e aos acontecimentos da época, tornando-se naturalmente generalizada e nacional pelo agrado da sua expressão marcial, que estimulava os ânimos aos Portugueses, convidando-os à continuação de acções heróicas. Com o regresso do Rei ao País, em 1821, o mesmo autor dedicou-lhe um poema que, sendo cantado com a música do Hino, rapidamente se divulgou e passou a ser entoado solenemente (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência).
Letra:                      
Eis Principe Excelso, os votos sagrados que os lusos honrados vêm livres fazer. Por vós pela Pátria, o sangue daremos. Glória só temos. Vencer ou morrer. Aos mares vos destes a bem dos vassalos; julgando livra-los do ímpio poder. Malgrado o Tirano, em breve vireis, os lusos fieis Vós mesmo reger. Um Deus vos escuta, ó Príncipe Caro: Deus é nosso amparo, não há que temer. 
     
Com a morte de D.João VI em 1826, Portugal entra num período de grandes convulsões sociais e politicas. Em 1834, no fim da Guerra Civil, D. Pedro IV, em homenagem à Carta Constitucional entretanto estabelecida, apresenta um novo hino ao país. O Hino da Carta, de sua autoria, foi considerado oficialmente como hino nacional em Maio de 1834,  identificando-se em pleno com a vida política e social dos últimos setenta anos da Monarquia em Portugal (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência). Foi esta composição musical o símbolo da nação portuguesa até Outubro de 1910.


       


Após a implantação da República, os republicanos tomaram como símbolo representativo deste novo regime a Portuguesa. Composta em 1890 por Alfredo Keil (compositor, pintor, poeta, arqueólogo português) com letra de Henrique Lopes Mendonça (militar, historiador, arqueólogo naval, professor e romancista português) surgiu como resposta carregada de cariz patriótico, ao ultimato britânico que impunha a retirada das tropas portuguesas das suas posições em África, no famoso Mapa cor-de-rosa. Com algumas alterações na música e na letra - onde hoje se diz contra os canhões, na letra original dizia-se contra os bretões (os ingleses) - A Portuguesa que actualmente conhecemos, foi aprovada em Conselho de Ministros em 16 de Julho de 1957, tendo sido reconhecida como um dos símbolos nacionais de Portugal na Constituição de 1976.


                           




   

domingo, 27 de maio de 2012

A magia do comboio

São os caminhos de ferro que hão-de unir os povos e que hão-de levar os benefícios da civilização a todos os pontos do globo. (...) O espectáculo magnifico de uma linha de caminho de ferro (...) exalta a imaginação (...) e cria entusiasmo no individuo mais indiferente e apático. As impressões são ainda mais vivas, aproximam-se do êxtase quando viajamos nos railways. (...) O movimento é insensível durante rápidos instantes, mas bem depressa se acelera (...) antes de pouco o movimento é rapidíssimo: os objectos próximos, as casas, as árvores nos fogem (...) julgamos animados os objectos que nos ficam para os lados. (...) É extraordinário! (O Atheneu,  edições 1-65, pág.11, 1850). A chegada do comboio revolucionou a vida das populações. Com um misto de medo e de fascínio foi integrado no quotidiano dos povos e tornou a distância mais curta. Miguel Torga chamou-lhe um navio de penedos a navegar num mar de mosto. Um meio de transporte que ainda hoje é escolhido por milhões de pessoas em todo o mundo. É quase axiomático que mesmo os piores comboios te levam através de lugares mágicos (Paul Theroux)



(O video resulta da compilação de vários excertos retirados do documentário produzido pela RTP intitulado 150 anos dos Caminhos de Ferro em Portugal)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Fiel Amigo


Pertencente à grande família dos Gadídeos, Gadus Morhua, mais conhecido entre nós por Bacalhau, é o peixe mais famoso das águas frias do Mar do Norte. O bacalhau, que deriva da palavra latina baccalaureu, é uma das grandes maravilhas que a natureza nos ofereceu. Dele tudo é consumido: a sua carne é comida seca, defumada, salgada ou fresca, desde a cabeça à barbatana tudo é aproveitado e até do seu fígado se extrai o famoso óleo de fígado de bacalhau, que durante anos atormentou o paladar das crianças de todo o mundo! Por ser estenotermo, ou seja necessitar de se manter em águas frias e com poucas variações térmicas, o bacalhau está em constante movimentação, podendo por isso ser encontrado nas águas frias dos mares da Noruega, Islândia, Rússia, Canadá e Alasca. A sua história é milenar. Na Islândia e na Noruega há registos do século IX, de locais onde se realizava a secagem do bacalhau. Como não conheciam o sal, os Vikings, que foram considerados os pioneiros na descoberta deste peixe, secavam o bacalhau ao ar livre. Ao perder cerca de um quinto do seu peso inicial através da secagem, ficava duro, sendo depois partido em pequenas peças para poder servir de alimentação durante as longas travessias marítimas. Mas foi graças aos Bascos, que já utilizavam o sal, que o comércio do bacalhau se iniciou. Existem registos do século X, que demonstram que os Bascos salgavam o bacalhau e o comercializavam curado e salgado. A possibilidade de conservação da sua carne (dado o seu baixo teor de gordura e elevado teor proteico)  tornou o bacalhau num produto alimentar de grande valor comercial. 
Os portugueses apenas descobriram o bacalhau no século XV, no período dos descobrimentos, altura em que necessitavam de alimentos para as longas travessias marítimas. Fizeram várias tentativas com peixes pescados na costa portuguesa, mas estes rapidamente se deterioravam. Foi nos mares perto do Pólo Norte, que os portugueses descobriram o peixe mágico, que iria revolucionar a alimentação. Foram também os portugueses que iniciaram a pesca do bacalhau na Terra Nova (Canadá) que foi descoberta em 1497, e em 1508 a pesca do bacalhau já representava 10% de todo o comércio de pescado em Portugal. Um produto alimentar como o bacalhau, de grande valor comercial, rapidamente atraiu o interesse de outras frotas pesqueiras, desencadeando conflitos. Em 1510, Portugal assina um acordo com Inglaterra contra a França, pelo controlo da sua pesca. Em 1532, na chamada Guerra do Bacalhau, deflagrou o conflito entre Ingleses e Alemães pelo controlo da pesca do bacalhau nas águas da Islândia. Seguiram-se anos de conflitos, tratados e legislações, na tentativa de regular a pesca e a comercialização do precioso peixe, denominado entretanto de Príncipe dos Mares, tal era a sua fama e importância. O seu valor era tão elevado que Peter Daas, clérigo e poeta norueguês do século XVII, chega a afirmar: se o bacalhau nos abandonar, a que nos agarraremos? O que levaremos a Bergen (cidade norueguesa) para trocar por ouro? 
Os portugueses tornaram-se rapidamente nos maiores consumidores de bacalhau a nível mundial, e como disse Auguste Escoffier, célebre chefe de cozinha francês do inicio do século XX,  devemos aos portugueses o reconhecimento por terem sido os primeiros a introduzir, na alimentação, este peixe precioso, universalmente conhecido e apreciado. Apelidado de fiel amigo o bacalhau tornou-se uma tradição nos hábitos alimentares dos portugueses, de tal forma que quase se tornou numa característica inata ao povo luso. Eça de Queiroz numa carta enviada a Oliveira Martins descreve muito bem esse amor tão profundamente enraizado: Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês – excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada! Foi também este peixe que ficou associado às tradições religiosas já que a Igreja Católica impunha muitos dias de jejum de carne ao longo de todo o ano. O número de dias de jejum e abstinência a que se sujeitavam anualmente os portugueses era considerável, não se limitando ao período da Quaresma, a época do ano em que o bacalhau era rei à mesa. (...) durante mais de um terço do ano não se podia comer carne (O bacalhau na vida e na cultura dos portugueses de Marília Abel e Carlos Consiglieri).
Estes dias de jejum deram origem a uma curiosa tradição popular que remonta ao século XVI, denominada por Enterro do Bacalhau, que se realizava no fim da Quaresma, e ainda hoje celebrada em algumas aldeias e vilas portuguesas. Nessa altura a proibição de comer carne era levantada e o povo festejava o enterro do bacalhau, com as seguintes quadras: Batem sinos nas capelas, bandeiras a meio pau, moços velhos e donzelas, ponham luto nas panelas, que morreu o bacalhau. Com dinheiro havia a bula, nesse tempo tão sacana, uns podiam comer carne, e outros só a barbatana! Essa tradição religiosa de jejum foi-se perdendo, mas o bacalhau continuou a estar muito ligado às festividades religiosas, como o Natal. Durante muitos anos o bacalhau foi um alimento barato, sempre presente na mesa dos portugueses. No entanto com a grande procura e a diminuição das licenças de pesca a situação mudou. Já Ramalho Urtigão escrevia ao mesmo passo que a carne de boi sobe na categoria de jóia o bacalhau afirma-se na importância de alimento. Ora uma coisa estamos daqui a recear:  é que o bacalhau abuse da suprema influência que vai ter sobre o corpo social. O comércio do bacalhau constitui em Lisboa um monopólio. 

Actualmente o Fiel Amigo sucumbiu ao aumento de preços e torna-se mais difícil vê-lo nos pratos dos portugueses. Cozinhado de 1001 maneiras, o Príncipe dos Mares pode não ser visita tão frequente da casa dos portugueses, mas pelo menos na noite de Natal podemos revê-lo altivo e fumegante como sempre o conhecemos. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maria Pia: a menina que se tornou Rainha

Na cidade italiana de Turim, nasce no dia 16 de Outubro de 1847, uma menina filha de Victor Manuel I, rei de Piemonte e da Sardenha, e da Arquiduquesa da Áustria, D.Maria Adelaide de Habsburgo, a quem foi posto o nome de Maria Pia de Sabóia. Criada numa família defensora do liberalismo, e tendo perdido a mãe aos sete anos, Maria Pia cedo absorveu os ideais por que tinha lutado o seu avô Carlos Alberto, tornando-se numa criança independente, curiosa e ávida de conhecimento. Rodeada de carinho familiar e habituada ao luxo da corte de Piemonte, tornou-se numa bonita e inteligente adolescente, cobiçada e reconhecida nas grandes casas reais da Europa. O dia 11 de Setembro de 1861, marcará para sempre a vida desta pequena princesa. Nesse dia, em Portugal morre D.Pedro V, rei de Portugal, de febre tifóide. O seu irmão D.Luís, então com 23 anos, torna-se repentinamente o novo rei e é urgente garantir a descendência, já que apenas tinha irmãs, todas elas casadas com herdeiros de outras casas reais. A primeira escolha recai sobre uma das filhas da rainha Vitória, mas a lei britânica não permitiu o enlace dada a diferença de religião,   levando no entanto a rainha inglesa a afirmar que, eu sinto-me sempre bem sensibilizada por vós terdes sonhado com elas. Foi ainda colocada a hipótese da princesa Teresa, filha do Arquiduque da Áustria, logo posta de lado pelo seu pai, por ser menor de idade. A opção  seguinte recai sobre Maria Pia de Sabóia, então com 14 anos, e D. Luís apressa-se a pedir a sua mão em casamento a seu pai, Victor Manuel. Numa carta dirigida ao rei português, o pai de Maria Pia escreve: O pedido que Vossa Majestade acaba de me fazer da mão da minha filha tocou vivamente o meu coração de rei e de pai (...) antes de vos responder quis falar do assunto a minha filha que expressou o seu inteiro consentimento (...) é  um acto que será acolhido com entusiasmo na Itália onde a recordação ainda recente da nobre e afectuosa hospitalidade dada a meu pai (Carlos Alberto) por Portugal desperta tantas simpatias e faz bater todos os corações. 
Este enlace não foi muito bem visto por algumas cortes europeias, receosas de que o espírito liberal defendido pelo pai da noiva e a sua ligação a Napoleão III, pudesse por em causa a frágil harmonia existente nas cortes europeias. No entanto a reacção mais dura veio da amiga rainha Vitória que escreveu ao rei D.Luís dizendo que, como vós já fizestes a vossa escolha eu não tenho mais nada a dizer...esperamos sempre que ela possua todas as qualidades necessárias para vossa mulher e para uma rainha! Apesar de todos os receios devidos à sua extrema juventude, Maria Pia mostrou estar à altura do seu papel de futura rainha. O tempo de noivado foi preenchido com a de troca de cartas e telegramas enamorados, envio de retratos e de madeixas de cabelo em pequenos medalhões. Mesmo antes de se conhecerem pessoalmente já nutriam de grande afeição um pelo outro, partilhando gostos comuns tais como a leitura e a música. Na última troca de cartas Maria Pia escreve sou toda tua, para toda a vida e D.Luís refere que desejava que o nosso primeiro encontro fosse o menos observado possível (...) e de te poder dizer, enfim, eu estou junto da minha bem amada Maria. 
Mas os desejos do rei não foram realizados e a princesa Maria Pia (já rainha de Portugal, por ter casado por procuração a 27 de Setembro), chega a Lisboa a 5 de Outubro de 1862, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, onde é recebida por milhares de pessoas delirantes numa cidade em festa. Foi a bordo dessa corveta que os noivos finalmente se conheceram, dando inicio a uma relação construída num amor verdadeiro. No dia seguinte, a rainha Maria Pia finalmente pisa solo português, e a primeira coisa que avista é a frase DA BELA ITÁLIA ESTRELA SOBERANA, SEJAIS BEM VINDA À PRAIA LUSITANA, da autoria de António Feliciano de Castilho (escritor português). A comitiva real segue depois em cortejo até à igreja de São Domingos, onde é realizada a cerimónia de rectificação do casamento, e o país permanece em festa por mais três dias, em honra do novo casal real. A nova rainha de Portugal, apesar dos seus quinze anos, rapidamente conquistou o coração dos seus súbditos, pelo seu porte majestoso, pela sua generosidade, revelando desde logo a sua cultura, a sua inteligência e a vontade de promover a educação no país que a acolheu como rainha. 
Deste  casamento iriam nascer D.Carlos I, futuro rei de Portugal, no dia 28 de Setembro de 1863 e D. Afonso, no dia 31 de Julho de 1865, Duque do Porto. Rainha sempre afável e conhecedora do protocolo rígido da corte portuguesa, manteve-se sempre atenta às questões politicas que envolviam o marido. Ficou célebre a frase que dirigiu ao Duque de Saldanha, líder de uma tentativa de golpe militar, no momento em foi apresentar desculpas ao rei: Se eu fosse o rei mandava-o fuzilar! Mãe sempre atenta e carinhosa, ocupou-se pessoalmente da educação dos seus filhos. No dia 2 de Outubro de 1873 D. Maria Pia passeava com os filhos na praia de Cascais, quando uma onda arrasta os dois príncipes para o mar. Sem pensar a rainha lança-se à água, na tentativa de salvar os filhos, mas foi graças à intervenção do ajudante do faroleiro da Guia, que os três se salvaram. A faceta de mãe era superior ao papel de rainha. Sempre atenta aos mais carenciados deixou obras notáveis: criou uma comissão para ajudar as vítimas do terrível inverno de 1876, tendo conseguido arrecadar 200 000$00 réis, proporcionando casas e roupas a todos os que tinham perdido os haveres nas grandes cheias; fundou a 1 de Novembro de 1877 a creche Victor Manuel na Tapada da Ajuda, para acolher as crianças com maiores necessidades; quando um terrível incêndio destruiu por completo o Teatro Baquet na cidade do Porto, em 1888, causando mais de uma centenas de vítimas, a rainha acompanhada do seu filho mais velho viajou de comboio numa noite de inverno, para poder assistir às exéquias das vítimas. Visitou todas as casas dos familiares das vitimas, pobres e ricas, distribuindo palavras de conforto e prestando apoio financeiro.
As gentes do Porto nunca mais se esqueceram da sua rainha, e homenagearam-na dando o seu nome ao hospital de pediatria do Porto, Hospital Real de Crianças Maria Pia, e à ponte de comboio que ligava as margens do Douro, a Ponte Maria Pia. No entanto não deixava de ser rainha e de se comportar como rainha. Os seus gastos eram considerados exorbitantes e foram muito criticados pelos políticos de então, ao que ela rapidamente respondeu com mais uma frase histórica quem quer rainhas, paga-as! No ano de 1889, surge a primeira tragédia na vida de Maria Pia. D. Luís morre no dia 19 de Outubro, e a rainha cai numa terrível depressão, e afasta-se para o Palácio da Ajuda onde fica a viver sozinha, cedendo o protagonismo o seu filho D. Carlos I, rei de Portugal e à sua mulher, a nova Rainha D. Amélia. Sabe-se que a relação entre a rainha-mãe e a rainha D. Amélia não era das melhores, mas a convivência era pacífica, a os netos eram a alegria da vida de Maria Pia. Como rainha-mãe vive uma vida mais discreta, continuando a desenvolver a sua obra social e de beneficência,  tendo recebido muitas condecorações nacionais e internacionais  pela sua acção benemérita. Mas é com 61 anos que sofre a maior tragédia da sua vida, quando a 1 de Fevereiro de 1908, vê morrer o seu filho Carlos, rei de Portugal, e o seu neto, príncipe herdeiro, Luís Filipe, num atentado perpetrado pela Carbonária. O Terreiro do Paço, que anos antes tinha sido palco da sua calorosa recepção, tornava-se no palco onde ocorreu o mais trágico acto da sua vida. Maria Pia cai num estado de dor e de agonia profunda, da qual nunca mais recupera. 
No dia 5 de Outubro de 1910, logo após a implantação da República em Portugal, e em companhia do seu único neto D. Manuel II, rei deposto, é exilada para a sua terra natal, a cidade de Turim. Estranha coincidência: chega a Portugal a 5 de Outubro de 1862, onde é aclamada como rainha por uma cidade exultante, e é obrigada a fugir de um país que tornou seu, 48 anos depois no mesmo dia 5 de Outubro. Morre na sua cidade natal e de exílio, com 63 anos no dia 5 de Julho de 1911 mas antes de falecer dita as seguintes palavras como desejo final: Chegou a minha vez de morrer. Como último desejo peço que me virem na direcção de Portugal, o país que me encheu de alegria o coração de menina e me tirou tudo o que de mais sagrado tinha quando mulher. Olhando para trás, reconheço que a minha vida foi marcada pela tragédia. Vi partir uma mãe cedo de mais (...). Não me consegui despedir do meu pai, enterrei um marido (...) um filho em quem depositava todas as esperanças, um neto adorado. Claro que também tive momentos de felicidade. Quando sonhava acordada (...) com príncipes e casamentos perfeitos, quando cheguei a Lisboa e o povo gritava o meu nome, quando viajava por essa Europa fora de braço dado com Luís, quando brincava no paço com os meus filhos ou quando estendia as mãos para ajudar os mais necessitados, abrindo creches e asilos. Mas mesmo nestas alturas havia quem me apontasse o dedo. Maria Pia a gastadora, a esbanjadora do erário público. A que dava festas majestáticas no paço, a que ia a Paris comprar os tecidos mais caros e as jóias mais exuberantes. Não percebiam eles que assim preenchia o vazio que, aos poucos, se ia instalando no meu coração (in Eu, Maria Pia de Diana de Cadaval)
Sepultada na Basílica de Superga, em Turim, ainda se aguarda a realização do seu último desejo: ser sepultada junto do seu marido e filhos, no Panteão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Cem anos passaram desde a sua morte, e o desejo da menina rainha que se fez mulher em Portugal, permanece por cumprir. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O gato: domesticado ou dono?

Não há animal que desperte mais emoções do que o gato! Amado e idolatrado por uns, detestado e temido por outros, este elegante felino acompanha o homem desde a antiguidade. O mais antigo ancestral do gato, de nome Miacis, foi um mamífero carnívoro que viveu há cerca de 40 milhões de anos. Predador de pequeno porte, de patas curtas, garras retrácteis e cauda longa, movimentava-se nos galhos das árvores. Ironicamente os paleontólogos e arqueólogos determinaram que a origem dos felinos e dos canídeos tem por base o Miacis! A subfamília dos Felinae ou dos Felinos, da qual fazem parte os gatos, surgiu há cerca de 12 milhões de anos, na África subsariana tendo-se posteriormente expandido até ao actual Egipto. Pesquisando os componentes genéticos de gatos selvagens da Europa, da Ásia, da África e do Oriente Médio, concluímos que realmente a domesticação começou na ilha de Chipre, com gatos provenientes do Crescente Fértil, região entre os rios Nilo, Tigre e Eufrates, onde se iniciou a agricultura (Stephen O'Brien, Director do Laboratório de Diversidade Genómica no Instituto Nacional de Saúde  Maryland, EUA).  Estátuas e pinturas encontradas no Egipto, indicam que a associação do homem com o gato se iniciou há cerca de 9.500 anos. Quando o homem deixou de ser nómada e começou a desenvolver a agricultura, os gatos iniciaram a sua aproximação e desde então traçaram um tipo de acordo tácito de cooperação com o homem. O gato representa a civilização, relação feita a partir da agricultura (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Exímios caçadores, eliminavam ratos e outros roedores que atacavam as colheitas, exercendo um importante papel social. Escavações arqueológicas demonstram que este pequeno felino passou a ser idolatrado no Egipto, tornando-se num animal sagrado. 
Bastet, a Deusa da fertilidade, era representada com corpo de mulher e cabeça de gato, e era uma das divindades mais veneradas no antigo Egipto. Os gatos tornaram-se tão idolatrados que quem matasse um destes felinos, era condenado à pena de morte, e os donos de um gato que morresse vestiam de luto e rapavam as sobrancelhas em sinal de respeito e dor. O amor dos egípcios era tão grande que foi decretada uma lei que proibia a sua exportação, e quem fosse apanhado a traficar gatos era punido com a pena de morte. São inúmeras as múmias de gatos ricamente ornamentadas encontradas nas escavações arqueológicas feitas no Egipto, Índia e Pérsia, e só no Museu Britânico podemos encontrar 192 dessas múmias. No entanto, e apesar da proibição, o gato foi clandestinamente transportado para outros territórios. Na Pérsia a sua veneração manteve-se, com a crença de que o gato era a encarnação de espíritos amigos criados especialmente para acompanhar o homem durante a sua travessia terrena. Prejudicando o gato, prejudicavam o homem. Pelo facto de serem caçadores notáveis, ágeis e auxiliarem no controlo da propagação de pragas e diversas doenças, os gatos tiveram uma posição privilegiada e uma coexistência pacifica com os homens durante vários séculos.
No início da Idade Média tudo se alterou e o estatuto do gato mudou. Associados a rituais de bruxaria, especialmente os de cor preta, foram vistos como espíritos maléficos pelas populações , chegando a ser queimados juntamente com as pessoas acusadas de praticar artes mágicas e de bruxaria. O gato só começou a ser visto de forma negativa a partir do cristianismo, na Idade Média. Essa ligação maligna foi feita justamente porque era um animal atribuído aos deuses pagãos (...) tudo que não era da religião católica era do mal e deveria ser queimado na fogueira. Profissões que tinham qualquer ligação com o gato também foram condenadas. As parteiras, por exemplo, usavam a deusa Bastet como símbolo e, por isso, foram denominadas de bruxas. No século 13, a perseguição foi ainda maior. Com a promulgação de bulas nas quais condenava os gatos, especialmente os de cor preta, associado ao satanismo, o papa Gregório IX determinou a exterminação de centenas de felinos  (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Nesta altura foram mortos milhares de gatos por superstições, medos e ignorância. Mas o ridículo foi atingido quando o Papa Inocêncio VIII, durante o século XV, colocou o gato preto na lista dos que deveriam ser perseguidos e executados pela Inquisição! Só no final da Idade Média, os gatos puderam respirar fundo e gradualmente foram sendo novamente aceites nas casas para controlar as crescentes populações de ratos. Nos barcos tornaram-se mascotes pois permitiam que cargas de alimentos não fossem destruídas pelos roedores que infestavam os porões, ficando a ser conhecidos como gatos de navio. Com o passar do tempo o gato tornou-se um dos mais populares animais de companhia do homem, transformando-se por vezes em animal de luxo, tais foram as modificações genéticas que foram acontecendo ao longo dos últimos anos. 
Transformado em herói dos desenhos animados com o nome de Garfield, das histórias infantis como o Gato das Botas, ícone feminino como Hello Kitty ou como animais de companhia de figuras mundialmente famosas, o gato ganhou o seu estatuto na sociedade dos humanos. Eça de Queiroz no seu livro Os Maias descreve o gato, respeitosamente chamado Reverendo Bonifácio de forma impar: Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora o fiel companheiro de Afonso (...) recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D.Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio. (...) Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pêlo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia. E quando Afonso morre a descrição que Eça faz da dor do gato é soberba: era o gato! Era o Reverendo Bonifácio, que diante do quarto de Afonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente (...) com a cauda fofa a roçar o chão (...) esgadanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o de uma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer. 
O gato é de facto um animal fascinante. Perspicaz, astuto e independente, quem tem o prazer de com eles privar sabe que, não é um animal completamente domesticado. De facto eu costumo dizer que tive 3 gatos que me permitiram viver com eles, pois de dona pouco tive. Os gatos dominam o seu território, e permitem-nos a nós humanos partilhar o seu espaço. É uma espécie de acordo: nós fornecemos alimentos e mantemos o asseio do seu território, podemos fazer algumas festas quando tal nos é permitido, temos o privilégio de o ter em cima do nosso colo quando muito bem entendem e eles permitem-nos desfrutar da sua elegante e inteligente companhia. Sempre presentes, sem incomodarem; sempre atentos, fingindo que dormitam; irreverentes e brincalhões, tantos nos dão pequenas mordidelas como nos enternecem com os seu audíveis ronrons! Entram na nossa vida sorrateiramente como felinos que são e alojam-se no nosso quotidiano e no nosso coração irreversivelmente. No seu poema Ode ao gato, Pablo Neruda escreve Oh pequeno imperador sem orbe, conquistador sem pátria,  mínimo tigre de salão, nupcial sultão do céu das telhas eróticas,  o vento do amor  na intempérie reclamas quando passas e pousas quatro pés delicados  no solo,  cheirando,  desconfiando  de todo o  terrestre,  porque tudo é imundo  para o imaculado pé do gato. São donos e senhores de si, altivos e sobranceiros, mas dedicados e reconhecidos quando gostam e se tornam "donos" de algum ser humano. Como disse Mark Twain se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.



domingo, 20 de maio de 2012

Aquilo que volta todos os anos

Hoje é o meu aniversário! Nasci a 20 de Maio, numa quinta-feira, pelas 20.30 horas, há 41 anos. Como fui apressada, nasci em casa, contrariando todos os preparativos que os meus pais tinham feito. Decidi nascer a 20 e não uns dias depois como estava previsto. É uma característica minha, fazer o que me apetece, independentemente do que os outros pensem ou digam, e que pelos vistos me acompanha desde nascença. Ao pensar no meu aniversário, verifiquei que pouco ou nada sabia acerca dos rituais que se realizam nesta celebração e decidi investigar. Comecemos pela própria palavra: aniversário, provém da palavra latina anniversarius, de annus (ano) e vertere (voltar), que significa aquilo que volta todos os anos...e ainda bem que volta! Se fosse uma romana da antiguidade, diria que hoje é o meu dies sollemnis natalis, já que era assim que os antigos romanos designavam o dia de comemoração do seu nascimento. Segundo refere Pedro  Funari (historiador brasileiro) há um registo do século II em que uma cidadã chamada Cláudia Severa convida a sua amiga Sulpícia Lepidina para a comemoração do seu aniversário. Outro facto que reforça a ideia de que os romanos comemoravam o dia de nascimento, é a existência de túmulos onde estão registados com grande precisão os anos, meses e dias de vida do defunto, o que significa que davam grande importância ao dia em que nasciam. 
No entanto é aos gregos, que devemos a tradição do bolo de aniversário. Segundo alguns historiadores, na antiga Grécia era tradição a oferta de um bolo de mel, redondo em forma de lua, com velas acesas à Deusa Artemis (Diana, segundo os romanos) associada à caça, à lua e à fertilidade. No seu templo em Éfeso, os antigos gregos tentavam assim obter boa sorte e afastar os maus espíritos, já que acreditavam que a vela tinha um poder sagrado de afastar o demónio (Daimon em grego significa demónio) e que o fumo resultante de uma vela acabada de apagar, levaria os desejos formulados aos Deuses do Monte Olimpo. Até ao século IV, a Igreja Católica rejeitou a celebração do dia de nascimento, pois considerava esta festividade de origem pagã e não vemos nas Escrituras ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu natalício. Somente os pecadores (como Faraó e Herodes) celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo (Enciclopédia Católica, edição de 1911). Só no século V é que a Igreja Católica  através do Papa Júlio I, institui a comemoração do nascimento de Jesus no dia 25 de Dezembro, tentando assim substituir os rituais pagãos que nesse dia celebravam o Solstício de Inverno, por uma festa cristã. No entanto, a comemoração do dia de aniversário não é seguido por todas as culturas de forma igual. No Vietname, por exemplo, o dia de aniversário não é celebrado individualmente, mas de uma forma colectiva no ano novo vietnamita, o que acontece entre os dias 21 de Janeiro e 9 de Fevereiro, segundo o nosso calendário gregoriano. 
E como numa celebração não pode faltar a música, a canção Parabéns a você tradicionalmente cantada durante a comemoração, teve origem numa música composta por Mildred e Patrícia Smith Hill, irmãs e professoras na escola Louisville Experimental Kindergarten School do Kentucky, em 1874. Good morning to all, assim se chamava, era cantada pelas crianças todos os dias, no momento em que entravam na escola. No ano de 1924, Robert Coleman publica, num livro por si editado, a música de  Good morning to all com uma nova letra e com o título de Happy Birthday to you. Esta versão ganhou imensa popularidade e tornou-se símbolo das festividades de aniversário. Em 1933,  Jessica Hill, irmã das autoras acusou Robert Coleman de plágio e reivindicou na justiça os direitos de autor. A partir de então, todas as vezes que a música Parabéns a você é tocada na rádio, na televisão, cinemas ou noutros meios de transmissão são cobrados direitos de autor. A Warner, actual detentora destes direitos, obteve em 2002 mais de 2 milhões de dólares de direitos de autor. A 8 de Março de 1969, Happy Birthday to You, tornou-se na primeira música a ser cantada no espaço, quando os astronautas da Apollo IX a entoaram para celebrar o aniversário do director de voo Christopher Columbus Kraft Jr. Agora, depois de relembrar a origem dos símbolos associados ao aniversário, só me falta celebrar o meu dia de nascimento, relembrando todos aqueles que me acompanharam ao longo destes 41 anos de vida. É expressão popular dizer-se que se nasce e se morre sozinho, mas contrapondo esta expressão, eu digo que não há nada como viver na companhia de familiares e amigos e celebrar aquilo que volta todos os anos. E que volte por muitos mais! 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

As "estradas" de antigamente


Quando se viaja em Portugal, para qualquer lado que se voltem os olhos, sente-se uma impressão de profunda tristeza ao ver o abandono em que tudo jaz, o pouco ou nada que se tem feito, em relação à marcha constante da civilização (...). À saída da cidade (...) acha-se uma rampa calçada de pedra com todos os indícios de que vai ali principiar uma estrada (...). Depois o viajante que percorre estas quase ignoradas paisagens tem de atravessar um lameiro (...) entra-se em seguida num rio , o qual corre mais de uma milha no leito da estrada (...) mais adiante  outra estrumeira, outro lameiro e outro rio (...) e para variar muitos atoleiros ou olhos marinhos, onde se pode sumir um porco, e onde não é raro sumirem-se as pernas de um cavaleiro e a barriga do cavalo ou de um macho, que nem sempre se pode retirar depois sem auxilio (Panorama,1858). Apesar de se referir às "estradas" de Portugal no ano de 1858, este texto descreve muito bem a realidade que este pequeno filme nos mostra, mais de 50 anos depois. São imagens de várias "estradas" de Portugal que davam acesso à vila piscatória de Peniche. Como disse René Descartes, quando gastamos tempo demais a viajar, tornamo-nos estrangeiros no nosso próprio país. Felizmente hoje Portugal tornou-se pequeno, com as autoestradas e vias rápidas que ligam as principais cidades portuguesas, mas é bom lembrar o quão estrangeiros se deviam sentir os nossos avós no seu próprio país!



quinta-feira, 17 de maio de 2012

A festa do povo do Porto


Não há festa mais popular do que o São João do Porto! Sem destino certo, sem razão de ser, o povo sai à rua apenas para ser mais um no meio da confusão e fazer parte da multidão anárquica que se espraia pelas ruas e ruelas da cidade. Não há festa combinada, não há nada a fazer, apenas passear e sentir o vibrar e a alegria das gentes do Porto em festa. Não sendo padroeiro da cidade, o Santo de nome João, foi adoptado pelos portuenses e tornou-se no dia feriado desta cidade por referendo público. De facto no dia 11 de Janeiro de 1911, a República Portuguesa estava no seu inicio, e o Governo Provisório na tentativa de impor uma nova ordem sobre a população redefiniu os feriados nacionais por decreto. Nesse mesma lei impunha aos Municípios do país a escolha do feriado próprio:  As câmaras ou comissões municipais e entidades que exercem comissões de administração municipal, proporão um dia em cada ano para ser considerado feriado, dentro da área dos respectivos concelhos ou circunscrições, escolhendo de entre os que representem factos tradicionais e característicos do município ou circunscrição. A Comissão Administrativa do Município do Porto, reuniu no dia 19 de Janeiro de 1911, e apesar do dia 24 de Junho ter sido logo apontado como uma das hipóteses, não houve consenso. Um dos elementos da Comissão, de nome Sousa Júnior, lembrou que de acordo com o principio democrático que imperava na cidade, nada devia ser decidido sem que o povo do Porto fosse ouvido. E assim foi! No dia 21 de Janeiro, surge na primeira página do Jornal de Noticias um anúncio com o titulo Consulta ao Povo do Porto, onde era explicado que os portuenses teriam que enviar para o jornal até dia 2 de Fevereiro um bilhete-postal ou meia folha dentro de um envelope com a indicação do dia da sua preferência. 
Ao longo dos dias o jornal ia relatando a evolução da votação e os dias mais votados eram o 24 de Junho e o dia 1 de Maio. No dia 4 de Fevereiro de 1911, foram publicados os votos finais do referendo popular: o dia 24 de Junho foi o mais votado, com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com 3075 votos, o dia de Nossa Senhora da Conceição, com 1975 votos, e o dia 9 de Julho, com oito. Ficou, pois, vencedor o dia de S. João que é aquele que o povo do Porto escolhe para ser o de feriado municipal. O povo decidiu e o feriado da cidade do Porto passou a ser o dia de São João. Mas mesmo quando o dia não era de feriado, a festa fazia-se e é de longa tradição. O mais antigo registo das festas de São João do Porto data do século XIV, onde Fernão Lopes na Crónica de D.João I, se refere à noite de São João do Porto como a maior folgança da cidade onde há festas cheias de animação e entusiasmo desabrido. A noite de 23 para 24 de Junho festeja-se na cidade Invicta há mais de 600 anos! Festa de origem pagã, marca a noite do solstício de Verão, antigo culto do Deus Sol. As fogueiras de São João,  ritual de purificação e de fertilidade, que ainda hoje fazem parte da tradição popular, estão relacionadas com o culto solar, tal como o lançar dos balões. Outra das tradições antigas é a utilização  do alho-porro. Sendo visto como um protector contra os maus-olhados, deve ser levado na noite de São João para casa e colocado atrás da porta durante todo o ano. O acto de passar o alho-porro pela face de alguém na noite são joanina, significa desejar boa sorte e protecção contra os espíritos maléficos. 
O manjerico é outro dos símbolos presentes na festa. Seguindo a tradição romana, que considerava a erva do manjerico como a erva dos namorados, é visto como o símbolo de amor e de namoro. Engalanado com uma quadra tradicionalmente de galanteio ou de elogio, era usado como meio de convidar uma rapariga a namorar. Como disse Júlio Couto (economista, historiador e professor de dicção, nascido no Porto) por alguma razão, tempos houve em que na Maternidade Júlio Dinis, os médicos já sabiam que não havia férias para ninguém, 9 meses depois do S. João. Mas não há festa de São João em que não se ouçam os característicos sons dos martelinhos. Apesar de estarem tão ligados a esta festividade popular, os martelinhos só se juntaram à festa em 1963. Manuel António Boaventura, industrial de plásticos do Porto, foi o obreiro deste símbolo das festas de São João. Numa das suas viagens ao estrangeiro viu um saleiro em forma de fole, que lhe deu a ideia para fabricar um brinquedo. Ao fole adicionou um cabo de plástico e deu-lhe a forma de martelo. Nesse mesmo ano os estudantes universitários requereram ao industrial um brinquedo ruidoso para a Queima das Fitas, e o mais ruidoso que tinha era o recém-fabricado martelinho. O sucesso foi imenso e o martelinho começou a ser pedido pelos comerciantes do Porto, para os festejos de São João. Rapidamente aceite pelas gentes do Porto, tornou-se um símbolo festa e durante 5 ou 6 anos foram vendidos para a noite do Santo portuense. 
No entanto, a Câmara do Porto, através do seu presidente e do seu vereador, decidiu fazer queixa ao Governo Civil do Porto, do martelinho. Consideravam que ia contra a tradição popular! No ano seguinte, foram apreendidos todos os martelinhos que existiam nas lojas comerciais e foi proibida  a sua comercialização. Quem fosse apanhado a vender o dito martelo seria multado em 70 escudos. No entanto nada demoveu os portuenses, que mantiveram a tradição por eles criada e continuaram a usar os martelinhos que possuíam dos anos anteriores. Só em 1973, Manuel António Boaventura, após ter perdido nos tribunais de 1ª e 2ª instância, conseguiu ganhar no Supremo Tribunal, a acção que entretanto tinha posto contra a Câmara do Porto.Finalmente os martelinhos de São João eram livres de serem fabricados e vendidos! Assumindo quase um carácter mágico e inexplicável, a noite de São João é uma festa de celebração e de libertação. Nesta noite festejam-se rituais antigos, confundem-se cheiros e sabores, libertam-se medos e respira-se liberdade. Sem receios, sem pudores, com alma e garra, as pessoas misturam-se e partilham momentos de pura alegria, que só quem viveu uma noite de São João do Porto pode entender. Como diz a quadra popular 
Na noite de São João
É tanta coisa que nunca vi.
Sai à rua, pois então,
Porque o Porto chama por ti.
A cidade clama pelas suas gentes e nada mais há a fazer do que lhe obedecer!É assim o São João do Porto!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Monumento redondo

No platô da antiga serrania de Quebrantões e a leste de um sombrio maciço de eucaliptos e australias (acácias) levanta-se o famoso mosteiro dos Agostinhos, que placidamente desfruta a adorável curva do rio verde glauco - tantas vezes barrento!- resvalando para o mar, coalhado de embarcações, no sopé (...) da Invicta, cujos derradeiros planos se recortam nas transparências da abóbada (Manuel Monteiro in Mea Villa de Gaya, 1909). Localizada no cimo da Serra de Quebrantões, actualmente denominada Serra do Pilar, está o monumento ex-libris de Vila Nova de Gaia: o Mosteiro da Serra do Pilar. Património Mundial da Unesco desde 1996, é mundialmente conhecido. A sua história no entanto poucos a conhecem...
Tudo começa com D.Pedro Rabaldio, Bispo de Porto, que fundou no ano de 1140, um convento de freiras denominadas Emparedadas de São Nicolau, no chamado Monte da Meijoeira, no lugar de Quebrantões, junto a uma ermida aí existente. Este convento manteve-se activo até princípios do século XIV, altura em que foi abandonado. Em meados do século XVI, D.Bento Abrantes era Prior do Mosteiro de São Salvador de Grijó, que estava em ruínas e a necessitar de obras. Comunicou ao rei D. João III, que o Mosteiro estava velho e muito arruinado, que era situado num lugar baixo, húmido e pouco sadio, e que determinou mudar para melhor e para mais perto do Porto (...) escolhera o Monte de São Nicolau,  fronteira àquela cidade, e que para cerca queria comprar o montado de Quebrantões (O Panorama: semanário de litteratura e instruccao, Volume 4). O monarca deu o seu aval, mandando principiar as obras do novo Mosteiro no monte entretanto denominado de São Nicolau, após ter tido a concordância de D.Baltazar Limpo, Bispo do Porto e de receber a bênção papal de Paulo III. A primeira pedra para a construção do novo mosteiro foi benzida pelo Bispo do Porto, no dia 28 de Março de 1537. O projecto da obra foi entregue a Diogo de Castilho (arquitecto e escultor da Biscaia) e Jean de Rouen (escultor e arquitecto francês), estando as obras a cargo de Frei Brás de Barros (que depois se tornou no primeiro Bispo de Leiria)
O terreno que cercava o local do antigo convento foi comprado no dia 19 de Junho de 1540, a um fidalgo de nome João Dinis Pinto, pela quantia de dez escudos! Em 1542 a primeira parte da obra estava terminada, e os primeiros religiosos provenientes do Mosteiro de Grijó, começaram a ocupar o espaço já habitável  da sua nova igreja, que tal como o mosteiro de origem, tinha como orago São Salvador. Mas as mudanças nunca são bem aceites, e vários foram os cónegos mais velhos que se recusaram a abandonar o antigo mosteiro de Grijó. Tantas foram as reclamações que, em 1564, surge a separação definitiva entre os religiosos dos dois mosteiros, passando a igreja do monte de São Nicolau a denominar-se Igreja de Santo Agostinho, em honra do santo homenageado no dia em que foi lançada a primeira pedra. Em 1567 terminava a primeira fase das obras do mosteiro, com a edificação da igreja e dos seus anexos. No entanto a igreja da serra de São Nicolau iria sofrer grandes alterações, como nos descreve D. Nicolau de Santa Maria, Prior dos Monges de Quebrantões: Sendo Prior deste Mosteiro da Serra o Padre D.Acúrsio de Santo Agostinho pelos anos de 1598 como era de generosos espíritos, parecendo-lhe a Igreja do Mosteiro pequena e acanhada fundou de nova outra igreja com titulo de nosso Padre Santo Agostinho; o corpo desta nova igreja é circular na forma de Santa Maria de Roma toda cercada de capelas e será acabada, uma das melhores do reino. E junto à igreja fundou o mesmo Prior um formoso Claustro da mesma arquitectura e forma circular e redonda, toda de abóbada, que vai virando na mesma forma com grande arte, traça e invenção, de que se admiram todos os que sabem de arquitectura. Tem este Claustro em roda muitas e grandes colunas e no meio uma formosa fonte de água, dourada em partes, muito alegre à vista
Apesar de ser votada a Santo Agostinho, a grande adoração das gentes de Gaia e arredores fazia-se à Nossa Senhora do Pilar, cuja imagem fora colocada no altar-mor da igreja na Páscoa de 1678, pelo Prior Jerónimo da Conceição, para adoração dos fiéis. O culto à Senhora do Pilar era de tal forma fervoroso que passou a dar o nome à igreja, ao convento e ao próprio monte ou serra, como ainda hoje os conhecemos: O Mosteiro da Serra do Pilar! O dia 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora do Pilar comemora-se há mais de 330 anos na cidade de Gaia. 
O Mosteiro tem o seu nome escrito em diversas páginas da história de Portugal: na expulsão dos franceses da cidade do Porto, durante as invasões francesas e durante o Cerco do Porto, quando foi o único reduto dos liberais na margem esquerda do Douro e crucial para a vitória de D.Pedro. Bastante danificado durante a guerra que opôs os absolutistas aos liberais, esteve em perigo de ruína, tal foi o abandono a que foi votado.
A 10 de Setembro de 1844, a rainha D.Maria II instituiu por alvará a Real Irmandade de Nossa Senhora da Glória da Serra do Pilar em cujos estatutos se pode ler no dia da festividade da Padroeira haverá missa cantada de três Padres, e sermão com o Santíssimo Sacramento exposto. E no fim da missa se cantará o Te Deum Laudamis, em acção de Graças pelos benefícios recebidos por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Glória do Pilar: a qual visivelmente protegeu os briosos defensores do Trono, para restituírem à legítima Rainha a Senhora D.Maria II, abroquelando (defendendo) os bravos soldados do Senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosa memoria, para recobrarem a Carta Constitucional da Monarquia Constitucional e com ela a Liberdade Nacional e legal. Com esta Irmandade foi restabelecida a actividade religiosa do mosteiro e a sua recuperação foi feita com o apoio das gentes de Vila Nova de Gaia. 
Mas pelos finais do século XIX e inícios do século XX, o Mosteiro da Serra do Pilar foi votado ao esquecimento. O desmazelo e o abandono em que se encontra, justificam porém a ignorância que a seu respeito existe. Mais benévola atenção merecia o monumento altaneiro de uma inigualável singularidade arquitectural, que decerto a teria num outro País não tão inestético e vândalo como o nosso (Manuel Monteiro in Mea Villa de Gaya, 1909). 
Foi graças à intervenção do Grupo de Amigos da Serra do Pilar, fundado em 1925 por Ramiro Mourão, e do qual faziam parte  importantes figuras da sociedade gaiense, tais como pintores, escultores, poetas, escritores e políticos, que intercederam junto da Câmara Municipal e do governo do país para a necessidade de restauro e de conservação de tão importante monumento português. A sua intervenção deu ao Mosteiro da Serra do Pilar a sua nova e actual imagem, de paredes caiadas, conhecida além-fronteiras. Do cimo do Monte da Meijoeira, vigilante e sereno, domina a paisagem, contempla as cidades unidas pelo rio e mantém vivas nas suas paredes redondas, a história das gentes que por lá passaram. 

domingo, 13 de maio de 2012

O tradicional cavaquinho


O cavaquinho, também chamado de braguinha, é o mais pequeno e um dos mais populares instrumentos tradicionais portugueses. Da família dos cordofones (instrumentos de corda) foi no Norte de Portugal, nas terras do Minho, que o cavaquinho mais se popularizou. Ligado às tradições populares e à música tradicional, não há rusga e festa minhota que não tenha a presença deste pequeno e fantástico instrumento. Tocado sozinho ou acompanhado da viola, bandolim ou acordeão, o som por ele produzido é incomparável. De pequenas dimensões mas com uma sonoridade harmoniosa, a sua música e o ritmo por ele imposto não deixa ninguém indiferente. Foram os portugueses que levaram o cavaquinho para as terras do Brasil, de Cabo Verde, Moçambique, onde rapidamente se tornou popular. No ano de 1879, o cavaquinho chega às longínquas Ilhas do Havai. Um português de origem madeirense, de nome João Fernandes, embarcou no navio Ravenscrag com destino a Honolulu, juntamente com um contingente de emigrantes para trabalhar nas plantações de açúcar. Pelo caminho encantou com o seu pequeno cavaquinho todos aqueles que o acompanhavam. O português e o seu original instrumento rapidamente se tornaram famosos, sendo frequentemente convidado para tocar em festas populares. Chamado de ukelele que significa pulga saltadora em português, referência ao modo peculiar como é tocado, é actualmente um dos símbolos característicos das Ilhas do Havai. 
São inúmeros os excelentes tocadores de cavaquinho em Portugal, desde os anónimos populares aos grandes grupos de renome. Aqui fica um pequeno exemplo, da qualidade de execução e da sonoridade ímpar do cavaquinho.




Nota: O video apresentado é um excerto retirado de um filme colocado no You Tube com o nome  Conjunto de Cavaquinhos do Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Expressões Populares II


Erro Crasso - Esta expressão deve-se a Marco Licínio Crasso (115aC-53aC), general e político romano, que obteve algumas conquistas importantes para o Império Romano, entre as quais a esmagadora vitória sobre a revolta dos escravos liderada por Espártaco. Ambicioso e sedento de poder, liderou no ano 53 aC, a campanha contra os Partos (Império Parta foi uma das maiores potências a nível politico e cultural da antiga Pérsia) onde dominado pela sobranceria e sabendo que as suas forças militares eram em muito maior número do que as forças Partas, decidiu simplesmente atacar não obedecendo a nenhuma táctica militar. O exército comandado por Crasso foi massacrado na Batalha de Carras (actual cidade de Harã na Turquia) e mais de 20 000 soldados romanos, incluindo o general Crasso, foram mortos. Este episódio ficou para a história, e sempre que alguém com todas as condições para ter sucesso, mesmo assim falha, por não  ter tomado as devidas precauções, dizemos que cometeu um erro crasso

Lágrimas de crocodilo - desde a antiguidade clássica que existe o mito de que o crocodilo (do grego Kroké que significa pedra e drilos que designa verme ou larva) derrama lágrimas enquanto devora as suas vitimas, talvez por compaixão pelo sofrimento causado. No entanto este mito tem por base uma função biológica, já que a presa ao ser engolida, estimula as glândulas que segregam um liquido lubrificante para proteger a membrana ocular do crocodilo, semelhante a lágrimas. Quando as pessoas apresentam um sofrimento fingido ou um choro forçado, dizemos que derramam lágrimas de crocodilo, já que o sentimento que apresentam não é real.

Verdade de La Palice (ou La Palisse) - Jacques II de Chabanes (1470-1525), conhecido por Jacques de La Palice foi um nobre e militar francês do século XV, que obteve várias vitórias no comando das suas tropas. Respeitado pela sua coragem em batalha, era muito popular entre os soldados que comandava.  Morreu em combate na Batalha de Pavia, e os seus soldados para o homenagear compuseram uma canção de simples versos, intitulada La mort de La Palice (a morte de La Palice)O Senhor de La Palice, morreu em frente a Pavia. Momentos antes da sua morte, podem crer, ainda vivia! A redundância destas frases é tal, que se tornaram motivo de sátira, dando origem a muitas outras semelhantes, tais como estar vivo é o contrário de estar morto. Uma verdade La Palice, é aquela que por ser tão evidente, não precisa de ser explicada.


Sem pés, nem cabeça - expressão popular de origem romana (do latim nec caput nec pedes habet) utilizada pela primeira vez por Márcio Pórcio Catão (234aC-149aC), político romano, conservador e grande defensor das tradições romanas.  O senado romano enviou uma expedição, para mediar a guerra entre Prússias II, rei da Bitinia (antigo reino da Ásia Menor) e o seu filho Nicomedes, composta por Licínio, que padecia da doença da gota (que começa por atingir os pés) e por Mancino, que foi morto durante a campanha diplomática, por ter sido atingido por uma pedra na cabeça. Catão, então líder do Senado romano, afirmou que Roma havia enviado uma expedição sem pés nem cabeça. Esta expressão passou a designar qualquer acção que se toma sem qualquer lógica ou sentido.

Fazer tijolo - esta expressão surgiu após o terramoto de Lisboa de 1755, quando a necessidade de barro para a reconstrução da cidade aumentou exponencialmente. Esta matéria-prima era retirada do único filão de argila, existente em Lisboa, localizado no que ainda hoje é denominada por Forno do Tijolo (entre a actual Graça e o vale delimitado pela Avenida Almirante Reis). Grande parte dessa área era ocupada pelo cemitério mouro da cidade - o Almacávar - que rapidamente começou a ser escavado para a extracção do barro, tornando-se comum o aparecimento de ossadas humanas no barro transformado em tijolo. Tornou-se popular a expressão daqui a pouco já estou a fazer tijolo quando se queria dizer que já faltava pouco para morrer. Fazer tijolo passou a significar estar morto ou enterrado.