As tradições normalmente não se questionam, mantêm-se e prolongam-se. No entanto é importante tentar saber o que está na sua base já que por detrás delas encontram-se muitas vezes pedaços da nossa história, que de outra forma seria difícil descobrir. As tradições culinárias, há anos enraizadas no nosso quotidiano encerram pequenos mistérios que vale a pena desvendar. Fazendo parte destes pedaços de história estão as alheiras. A palavra alheira aparece referida pela primeira vez na 7.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva, de 1878 como alhèira (alliária), que significa planta (...) que tem o cheiro de alho. A sua definição como espécie de chouriço temperado com alhos que se fabrica em Trás-os-Montes, surge apenas na 10.ª edição (1949-1958) do mesmo dicionário. Tradicional enchido da culinária portuguesa feito à base de carne e gordura de porco, carne de aves, pão, azeite, banha, alho e colorau, são inegavelmente reconhecidas como um típico prato português. Actualmente muito espalhadas por todo o país, as alheiras mais conhecidas são as de Mirandela da região de Trás-os-montes, sendo consideradas uma das 7 Maravilhas Gastronómicas de Portugal. A origem deste tradicional iguaria remonta aos finais do século XV e inícios do século XVI. Nessa altura na região transmontana, existia uma grande comunidade de judeus, provenientes do reino de Castela donde tinham sido expulsos em 1492. Perseguidos pela Inquisição e facilmente reconhecidos por algumas das suas tradições, entre as quais a recusa de ingerir carne de porco, base da alimentação da época, criaram o chamado chouriço judeu. Não podendo estes comer carne de porco por imposição da sua fé, imaginaram um enchido, que, embora semelhante aos enchidos que por essa época eram o prato forte das gentes, não levasse a carne proibida (Abade de Baçal). Por não comerem carne de porco, e de forma a não serem facilmente identificados pela inquisição devido aos seus hábitos alimentares diferentes, decidiram pegar noutros tipos de carnes e envolvê-las numa massa de pão para criar a alheira (Ferreira et al., 2006).

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