sexta-feira, 22 de junho de 2012

A curiosidade do calão


O calão e as palavras populares fazem parte da língua portuguesa. Variando de região para região, a origem destas expressões perde-se no tempo e na memória de quem as pronuncia. Muitas vezes, sem se saber bem qual o seu significado, são utilizadas diariamente e fazem parte do vocabulário e da língua portuguesa, enriquecendo-a e tornando-a viva. Nem sempre foi possível comprovar a sua origem, mas ficam algumas curiosidades relativamente à palavras que popularmente são utilizadas na língua portuguesa, em especial na região norte do país:

Carago - interjeição popular muito usada no norte de Portugal, com particular relevo no grande Porto, que significa admiração, surpresa, impaciência ou irritação. É também um termo depreciativo para galego. Termo também utilizado na biologia, para designar um peixe que aparece nas costas portuguesas, também conhecido por peixe-frade. Historicamente os caragos ou carajus, eram uma espécie de mágicos que fabricavam as carantulas, imagens, caracteres e cifras mágicas para realizar encantamentos. Estes caragos faziam os seus encantos particularmente às sementeiras; aproveitavam o canto das aves para os seus agouros; chamavam os demónios com certas fogueiras (Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, ano de 1798). A sua prática foi proibida por Alvará de D.João I. A palavra carago é muito antiga e o seu significado foi alterado ao longo dos tempos. Mas a palavra permanece e mesmo considerada calão, já faz parte dos dicionários de língua portuguesa.  É uma expressão com diversos significados pois depende do contexto em que é utilizada, mas o verdadeiro sentido está na pessoa que a pronuncia. Normalmente associada às pessoas do Porto, carago é uma palavra que faz parte da história da língua portuguesa e que foi adoptada pelas gentes do Norte.

Morcão - segundo o dicionário da Porto Editora, além de pequena lagarta, morcão designa um individuo indolente, aparvalhado ou mandrião. Deriva da palavra castelhana mórcon, do latim murcone, que representa um individuo gordo, baixo e mole. No entanto mórcon também é o nome de uma morcela feita de tripa grossa. Alguns etimologistas defendem ainda que morcão pode ter origem na palavra latina murcus que significa cobarde e preguiçoso, palavra já utilizada por Santo Agostinho, na sua obra A Cidade de Deus, escrita nos anos de 416 a 427. Morcão tornou-se num vocábulo popular muito usado no Norte do país, mas também muitas vezes utilizados por grandes escritores portugueses como Eça de Queiroz, que na sua obra A Relíquia escreve: à noite em casa da Adélia, estava tão derreado, mono e mole ao canto do sofá, que ela atirava-me murros pelos ombros, e gritava, furiosa: Esperta, morcão! 


Badameco - palavra que deriva do latim vade-mécum que significa vem comigo, e que em português antigo designava a pasta de livros que eram usados frequentemente e que acompanhavam sempre quem os possuía. Provavelmente é deste significado antigo, de algo que acompanhava sempre alguém, que passou a definir aquele que não era capaz de decidir sozinho ou que seguia outrem. Passou assim a designar uma pessoa sem importância, um palerma. Luiz Augusto Palmeirim, escritor e poeta português do século XIX, reforça o sentido dado à palavra badameco quando escreve: Eu aposto que o homem tem razão, a história da toalha não pode deixar de ser namoro. Algum dia foge com algum badameco, talvez com esse que por aí passa todos as tardes, e deixa o patrão a pedir esmola (A domadora de feras: comédia em um acto,1857).