quarta-feira, 6 de junho de 2012

Malha, fito ou chinquilho

O Homem é um ser social e com uma necessidade constante de sentido de pertença. Há muitas formas de socializar, mas uma das mais antigas são os jogos populares. Jogos antigos, cheios de tradição, que espelham momentos passados em épocas presentes. Baseados muitas vezes em situações de vida real ou representando cenários bélicos, permitem juntar pessoas diferentes proporcionando momentos de convivência com representação de saberes antigos. O jogo popular elege a diferença, afirmando a identidade, insensível à igualização massificante, atrai as pessoas como pessoas (...) o prazer da relação interpessoal, em que o adversário é o companheiro de jogo; o culto da amizade duradoura, o riso saudável ante o insucesso, a tolerância, o gosto das coisas simples, a ligação florida ao passado, a sua evocação lendária (António Cabral, in A Teoria do Jogo). Um dos jogos populares mais conhecido em Portugal, é o chamado Jogo da Malha, também conhecido como jogo do Fito ou do Chinquilho. Não existe grande certeza quanto à origem deste jogo, mas a sua história é antiga. A sua prática é relatada pela primeira vez pelos soldados romanos, que em tempo de descanso atiravam com ferraduras inutilizadas dos cavalos contra estacas, tentando ficar o mais perto possível destas. Rapidamente se tornou num jogo entre os soldados, ganhando aquele que mais perto da estaca conseguisse colocar a ferradura. Em 1490 é pela primeira vez mencionado o jogo da malha, mas o primeiro registo escrito surge num documento francês de 1644. Jogado em França e também em Itália, é em Portugal que ganha maior dimensão, tornando-se num jogo  de cariz popular. A fama que alcança é tal, que o padre Raphael Bluteau, pregador da Rainha de Inglaterra, define o jogo do Fito no seu livro Vocabulário Português e Latino,  datado de 1713: Fito – um pauzinho fincado no chão () coisas que atiravam os antigos em diferentes jogos. Fito também se chama o jogo em que se põe um tijolo em pé, a que se atira para o derrubar ou para ficar mais perto dele. Parece-me que se pode usar destes termos por ter este jogo alguma semelhança com o dos antigos atletas romanos. 
Normalmente jogado após um dia de trabalho, altura em que os homens se reuniam para confraternizar, rapidamente se tornou num momento de divertimento e companheirismo. Eram usadas peças rudimentares como pedras, ferraduras, pedaços de ferro que variavam de tamanho e formato. Os pinos ou fitos não tinham um tamanho certo e tudo servia para jogar. Em Portugal o jogo da Malha, varia de região para região, no tamanho da malha, na distância a que é colocado o fito ou o pino e até na forma como são contabilizados os pontos. Alguns jogam com pedras, outros com moedas e outros ainda com malhas de ferro feitas propositadamente para o desafio popular. Formando equipas de dois elementos, o objectivo final é derrubar o pino (fito) ou pelo menos colocar o mais perto possível as malhas, somando os pontos obtidos ao longo do jogo. Mantendo constantes as regras de base, a este tradicional jogo português adapta-se muito bem o ditado cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso. Actualmente o jogo da malha, tal como todos os outros jogos tradicionais, está a cair no esquecimento. Dominados pelo mundo tecnológico, pelo correr dos ponteiros do relógio e isolados em altos condomínios fechados, os momentos de confraternização, de partilha e de camaradagem entre os homens ditos modernos escasseiam. Momentos como os descritos no poema de António Cabral cada vez são mais raros, mas pelo menos ficam na memória e registados em palavras para as gerações vindouras. 
Na minha aldeia aos domingos de tarde, os homens jogam o fito,
Em frente a cada taberna, há um ou dois grupos, e ao lado os assistentes de olhos moles (...)
O fito é um jogo como outro qualquer: inútil! (...)
Mas é um jogo, e por isso, um meio de afugentar o tédio durante algumas horas.
- Seis! Só um ponto parceiro...A...í! Morreu!
Os vencedores correm um para o outro, abraçam-se. E ao erguerem os copos de vinho, sentem a alma tão cheia como qualquer campeão de qualquer coisa, em qualquer parte do mundo
(António Cabral, Poemas Durienses)
Quem sabe se num futuro próximo as agendas electrónicas, os telemóveis de 4ªgeração, os iphones, os ipods, os tablets, ferramentas de um mundo que tem tanto de global como de isolador, se possam colocar por momentos de lado, e nos permitam confraternizar e socializar em presença física de forma a podermos dizer que afinal a tradição ainda é o que era!!