quinta-feira, 14 de junho de 2012

As canções de acalentar

A cantiga de berço, o suave embalo e aconchego, nos braços das mães ou amas carinhosas, foi sempre em todos os povos o primeiro gesto de solidariedade com o recém-nascido (Melo, 1985). A canção de embalar é uma das mais antigas manifestações de expressão cultural dos povos, um costume sem idade e sem tempo, cuja existência é a mesma da primeira mulher que deu à luz o primeiro filho (Anabela Canez). O acto maternal de acalentar, o mesmo que embalar ou adormecer, é universal e independente do grau de civilização. A transmissão desta expressão poética da linguagem humana é feita de geração em geração, geralmente por mulheres, acolhendo a criança para acalmá-la e adormecê-la nos braços, no berço, na cesta, na rede (Leite de Vasconcelos,1907)O primeiro documento existente com referência à cantiga de acalento, data de 1400 a.C. tratando-se de um exemplar em escrita cuneiforme que remonta aos antigos povos da Suméria. Há registos de canções de acalento nos índios do Chiloé (província do Chile), nos Dindjie de Alasca, nos Sioux, no Haiti, nos Índios do Brasil, nos Árabes e Berberes, nos Bosquímanos e em várias ilhas da Oceania. No século IV aC Teócrito, poeta grego de maior destaque do período helenístico, descreve-nos uma canção de acalento cantada por Alcmena para seus filhos gémeos, Heracles e Íficles:
Dormi, meus meninos,
Um sono doce e brando;
Dormi, almas minhas,
Irmãos um do outro,
Filhos afortunados;
Repousai felizes,
E felizes chegai até amanhã de manhã. (Leite de Vasconcelos, 1907)
Aulo Pérsio Flaco, poeta satírico da Roma antiga, refere nos seus poemas do século I, o cantar de uma ama de leite e também Arnóbio de Sica faz referência a cantos para embalar crianças, chamando-lhes doces cantigas. Nos  séculos XII e XIII, o poeta italiano Dante Alighieri, apresenta alguns versos, com o termo  nanna e a sua congénere ninna, palavras melodiosas que fazem parte da maior parte das canções de berço, transmitindo a importância que os italianos davam e a poesia que empregavam no cuidado à primeira infância. Em França existem inúmeros registos de canções de acalento, sendo denominadas por berceuses, tal como em Inglaterra onde são conhecidas como lullaby. Segundo Leite de Vasconcelos, as canções de berço portuguesas têm os seus registos a partir do século XVI. Luís de Camões e Gil Vicente (onde podemos ver a repetição de sons onomatopeicos, tão característicos das canções de embalar) fazem referência às canções de berço nas suas obras:

O som dos gritos, que no berço dava,
Já como de suspiros me soava.
Com a idade e fado estava concertado:
Porque quando por caso me embalavam,
Se de Amor tristes versos me cantavam,
Logo me adormecia a natureza. in Luis de Camões, Canção XI


Ro, ro,ro
nosso Deus e Redentor,
não choreis, que dais dor
à Virgem  que os pariu
Ro ro ro   in Gil Vicente, Auto da  Sibila Cassandra, Cena II


Também num dos mais conhecidos romances da região de Trás-os-Montes, intitulado D.Silvana, há referência à cantiga de embalo, onde a condessa nina seu filho amamentando-o com ternura antevendo a sua morte ordenada pelo rei (Leite de Vasconcelos, 1907). Em 1872 é publicado o primeiro livro com uma relação de cantigas de ninar da autoria de Neves de Melo. Caracterizada pelo ritmo lento, marcada pela sensibilidade e ternura transmitidos pelo mais puro sentimento materno de protecção, a canção de embalar faz parte da cultura popular universal. O texto, a música, o balancear, a constante repetição de sons simples, conjugam-se numa forma única,  com o objectivo de embalar o sono do bebé. O saber popular, na sua ancestralidade imensa, cuidava de envolver o bebé em diferentes conselhos, rezas, protecção divina, num carácter de intimidade embaladora (Maria Isabel Ribeiro de Castro, 2008). As cantigas de acalento, além deste factor de protecção englobam ainda a necessidade do pequeno bebé se transformar num homem cumpridor das normas sociais e conhecedor dos sofrimentos humanos. Muitas vezes a mãe canta e alerta o bebé para os perigos, as preocupações e os problemas sociais, sempre com uma aura de protecção e conselho: 

Dorme, dorme, meu menino
Que a tua mãe tem que fazer,
Ela tem muito trabalho
E tem pouco que comer!

Meio de transmissão oral da cultura tradicional de geração em geração, as canções de embalar incorporam no seu seio mensagens de teor moral, pedagógico e psicológico e são por isso vivos documentos históricos de transmissão dos saberes, emoções, vivências, medos e costumes da época a que reportam. O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. (...) vão passando por todos os berços (...) e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos (Renato Almeida, História da Música Brasileira). No entanto a sua influência vai muito mais além do acalento e embalo. A voz humana, especialmente se for da mãe, o contacto físico e emocional transmitidos pela canção, permitem ao bebé que está em pleno desenvolvimento físico e cognitivo, receber as primeiras informações vindas do mundo exterior através da música. Todo o acto de embalar e de acalentar está imbuído de uma certa magia que só pela música pode ser transmitida. A transmissão de sensações, de saberes e de sentimentos tão profundos como protecção, amor e segurança   através da música, linguagem universal, permite ao bebé desenvolver-se com harmonia e equilíbrio. 
É preciso desenvolver uma inteligência sensível, encontrar caminhos para alegria e afirmar a vida na interligação. E se quisermos verdadeiramente fazer justiça às crianças, teremos de desafiá-las na sua graça e poder, através da sua própria cultura. (...) toda a criança gosta de música. Não será pois oportuno, favorecer-lhes a índole e levá-las a tocar o seu destino com confiança? (Lídia Hortélio, etnomusicóloga). De tradição popular ancestral a canção de embalar tornou-se num instrumento precioso de desenvolvimento infantil. Educar e formar com música já fazia parte do saber das nossas ancestrais. Independentemente de quem canta e embala, o que é verdadeiramente importante é que a cantiga de alento não deixe de existir no mundo mágico de um bebé em formação, como disse Guerra Junqueiro no seu poemaNo lugar vago deixado pela mãe, está agora o rosto meigo da ama que o acalenta e lhe canta cantigas de o fazer sonhar, canta-lhe cantigas de o embalar, canta-lhe cantigas de o adormentar. Ainda hoje tenho na memória a voz e as palavras doces cantadas pela minha mãe quando me trauteava canções de acalento. 
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Que a mamã vai-te cantar
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Fecha os olhos e deixa-te embalar!
Mantenhamos pois viva esta tradição imemorial e não deixemos que a voz cantada da mãe ou do cuidador desapareça dos ouvidos em formação dos nosso bebés.