sábado, 2 de junho de 2012

O Homem que foi Santo António

Santo António de Lisboa ou de Pádua, padroeiro de Portugal, santo casamenteiro, defensor dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros, dos pobres e dos oprimidos. O Santo de nome António faz parte da história popular e religiosa do mundo Ocidental. A devoção popular colocou-o entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e atribui-lhe até aos dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas multiplicam-se pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome (José António de Souza, in Críticas de Santo António à situação socioeconômica de sua época). Apesar de amado e idolatrado por milhões de pessoas, poucas sabem a verdadeira história do homem que nasceu em Portugal no início do século XII, que foi considerado como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro  intelectual da Idade Média (José Antunes, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)Fernando Martins de Bulhões, assim é o seu nome de baptismo, nasceu no dia 15 de Agosto de 1191 ou 1195, na freguesia da Sé em Lisboa, numa casa junto à Catedral. Segundo filho de Martins de Bulhões e de Maria Teresa Taveira de Azevedo, teve três irmãos: Pedro, Maria (que também professou a vida religiosa) desconhecendo-se o nome da outra irmã. Quando Fernando nasceu, Portugal  ainda dava os primeiros passos como país independente. Regido por D.Sancho I,  o Povoador, o território português apresentava grande instabilidade fronteiriça, sendo frequentes as lutas contra os mouros. 
A capital do reino era Coimbra, cidade onde a cultura se desenvolveu e onde se respirava conhecimento e saber. A Escola do Mosteiro de Santa Cruz, era considerada uma das melhores Instituições de ensino da Idade Média, tendo-se também notabilizado pela sua excelente biblioteca (espólio actualmente pertencente à Biblioteca Municipal do Porto). Nascido no seio de uma família de origem nobre, Fernando cedo teve acesso à educação e à cultura. Com cerca de 7 anos entra para a Escola da Igreja de Santa Maria Maior, hoje Sé de Lisboa, sob a orientação dos cónegos Regrantes de Santo Agostinho, onde se iniciou no Trivium - gramática, lógica e retórica e no Quadrivium - aritmética,  geometria, astronomia e música. Aos 15 anos ingressa como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, dando assim início à sua formação religiosa. Sendo uma das mais poderosas e influentes Ordens religiosas em Portugal, permitiu a Fernando desenvolver o seu conhecimento em diversas áreas desde a Teologia à Filosofia, passando pelas Ciências Naturais. Aqui desenvolveu capacidade de meditação e contemplação, tornando-se num cónego Regente de Santo Agostinho, tendo recebido a murça  (vestimenta de cor que caracteriza as ordem religiosas que os cónegos utilizam por cima das batinas brancas) das mãos do então Prior D.Gonçalo Mendes. No fim do mês de Setembro de 1212, Frei Fernando ingressa no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, centro cultural, social e politico do país, onde encontra reunidas todas as condições para completar a sua instrução pessoal e religiosa. Bons professores não lhe faltaram. Conhecem-se, com grande probabilidade, alguns dos mais insignes que então leccionavam nestes mosteiros e até na primeira escola da catedral de Lisboa (José Antunes).Tornou-se sacerdote em 1218-1219. É também em Coimbra que teve a oportunidade de privar com os Frades Menores de São Francisco, que recusavam a riqueza, a posse de bens materiais e de grandes conventos, vivendo na pobreza e penitência, sobrevivendo graças a esmolas, tentando desta forma seguir os ideais de Francisco de Assis, o seu mentor.
Este contacto com os Franciscanos alterou a forma de Fernando ver a religião e o mundo que o rodeava. Quando em 1220, chegam a Coimbra os corpos de cinco frades franciscanos mortos em Marrocos onde tinham ido pregar a Boa Nova,  Frei Fernando troca o hábito e a murça de cónego Regrante de Santo Agostinho pela simples batina castanha e corda à cintura tão características dos Franciscanos. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência. Tinha cerca de 30 anos (Frei Acácio José Afonso Sanches)É nesta altura que desaparece Frei Fernando e nasce Frei António, nome escolhido em honra de Santo Antão, que em latim é Antonius, que dava o nome ao local onde viviam os  frades Franciscanos. Parte para África em missão apostólica no Inverno de 1220, mas adoece com gravidade, não chegando a cumprir nenhuma das funções a que estava destinado, e é enviado novamente para Portugal. A viagem de regresso foi atribulada e o navio que o transportava do Norte de África para Lisboa é desviado para o Sul de Itália por uma forte tempestade. Estávamos no início da Primavera de 1221, e Frei António desembarca na costa italiana da Sicília, sendo recolhido pelos Franciscanos italianos que o levaram para a cidade de Messina, onde esteve em convalescença. Em Maio de 1221, realizou-se na cidade de Assis, o Capitulo Geral dos Frades Menores, onde Frei António conheceu Francisco de Assis, que presidia ao encontro. Mas foi na cidade de Forli, que António deu a conhecer o seu maior dom: o dom da oratória. Sempre reservado e humilde, falava pouco e raramente emitia opinião. Em Setembro de 1222, numa cerimónia de ordenação de vários sacerdotes, o Superior do eremitério de Montepaolo pede ao irmão António que suba ao púlpito e diga tudo o que lhe seja sugerido pelo Espírito Santo. As primeiras palavras foram simples, mas, em seguida, tornam-se firmes, seguras e convincentes, a ponto de impressionarem todos os presentes. A notícia deste facto percorreu toda a região e, em pouco tempo, António foi nomeado pregador oficial da Ordem (Frei Acácio José Afonso Sanches).
Do Norte da Itália ao Sul de França, Frei António pregou e os seus discursos atraiam multidões. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como poder, Direito e Justiça (José Antunes). Homem extremamente culto, defensor da igualdade e da justiça social, tentava com os seus sermões alterar o poder que estava centralizado na sociedade medieval. Frei António dizia que a paz é a liberdade tranquila (...) eis que o teu rei vem a ti, para tua utilidade. Manso, para ser amado. Não para ser temido pela potência. São duas as virtudes próprias dum rei: a justiça e a piedade. Assim o teu rei é justo, enquanto distribui a justiça a cada um segundo as suas obras. E nem o próprio clero ficava de fora das suas críticas sociais: cairão (...) os clérigos que se mancharam com o sangue da luxúria e com a terra da pecúnia. E com eles cairão os unicórnios, os imperadores e reis deste mundo; e os touros, os bispos mitrados que têm na cabeça dois cornos como se fossem touros. Todos estes (...) cairão com os poderosos, que são os príncipes e potestades (aqueles que detêm o poder) deste século (...). Os seus sermões reflectem ser um profundo conhecedor das obras de Plínio, Cícero, Sêneca, Galeno e Aristóteles. A sua grande cultura tornou-o numa das mais respeitadas figuras da igreja Católica, chegando São Boaventura a dizer que possuía a ciência dos anjos. Foi o primeiro professor de Teologia da Ordem dos Franciscanos.
Também a sua obra escrita, Sermões Dominicais e Festivos, num total de setenta e sete sermões, está recheada de beleza e densidade de pensamento. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos textos dessas grandes colunas, dos primeiros sete séculos, que foram os Padres da Igreja. Impressionante, para o tempo, em ciências naturais e em humanidades (José Antunes). Frei António morre a 13 de Junho de 1231, com apenas 40 anos, por hidropsia (retenção de liquidos por mau funcionamento orgânico) num Convento de Clarissas em Arcella, próximo da cidade de Pádua para onde se queria dirigir. Cumprindo a sua vontade foi enterrado em Pádua. O seu túmulo encontra-se na Basilica de Santo António de Pádua, sendo visitado por milhares de fiéis todos os anos. Beatificado a 30 de Maio 1232 foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII a 16 de Janeiro de 1946. Nasceu Fernando em Portugal e morreu António em Itália. Nasceu homem e morreu santo, mas durante toda a sua vida defendeu ideais de justiça, liberdade e igualdade baseados no seu grande conhecimento e cultura, ainda tão pouco praticados nos nossos dias. Lembrado anualmente a 13 de Junho como santo milagreiro, deveria ser lembrado todos os dias pelos ideais sociais que defendia: Só haverá liberdade tranquila, ou seja paz, quando houver justiça. Fazem pleno sentido as palavras de Pio XII que perante a bula antoniana disse: Exulta, Lusitania felix ! Exulta, ó feliz Lusitânia!