quarta-feira, 28 de março de 2012

Ponte de Cavez: A Fronteira


A notável Ponte de Cavez, localizada na freguesia com o mesmo nome, no Concelho de Cabeceiras de Basto, foi construída no século XIII. Há mais de sete séculos que esta fantástica construção de pedra simultaneamente separa e une o Minho a Trás-os-Montes. Esta magnífica obra é tradicionalmente atribuída a Frei Lourenço Mendes. Segundo Frei Luis de Sousa, Lourenço Mendes lançou-se na construção da Ponte de Cavez porque viu com os seus olhos o trabalho e o perigo com que se vadeava o rio (...) rio grosso de agoas e furioso a maior parte do anno, já que a ligação do Minho a Trás os Montes se fazia apenas por barco. Ao chamar para si a responsabilidade da construção de tamanha obra, Frei Lourenço, pensava que esta iria ter grande impacto na população quer a nível social como a nível espiritual. Mas os seus conterrâneos, ciosos dos seus bens materiais, e não acreditando que a ponte seria construída, negaram-se a participar nos trabalhos e nas despesas, por não quererem arriscar o seu precioso dinheiro e duvidarem da capacidade obreira do Frei. Foram por isso contratados trabalhadores de fora da freguesia, e a obra foi custeada por Frei Lourenço, graças aos donativos obtidos pelas suas pregações. No entanto foi D.Sancho II, que numa das suas jornadas a Trás-os-Montes, financiou o término da obra. A muito custo, a obra fez-se, e finalmente o Minho e Trás-os-montes têm a tão ambicionada ligação. Á vista da ponte terminada e de pé, a população em grande entusiasmo aclama o Mestre e sucedem-se os elogios ao autor da obra. O mestre Lourenço Mendes sente tamanha alegria que  morre fulminado por uma congestão debaixo debaixo dos arcos da sua ponte. Segundo a lenda, o povo agradecido, e com o apoio das autoridades civis e do clero, constrói ao Mestre um túmulo na própria ponte, onde grava a inscrição:  Esta é a Ponte de Cavez, e aqui jaz quem a  fez. 
São muitas as histórias que surgem à volta desta Ponte. Na sua margem direita do lado Minhoto, no final da Idade Média, terá existido uma gafaria  (local onde se tratavam os leprosos), que utilizava a água da Fonte de Águas Sulfurosas situada na margem esquerda, lado Transmontano, para o tratamento dos seus doentes. O povo ainda hoje diz que esta água, se for bebida na manhã de 24 de Agosto - dia de São Bartolomeu - antes de o raiar do sol, cura o corpo de todas as dores e doenças, tanto as presentes como as futuras. Na margem Minhota do rio Tâmega existe também, anexa ao solar nobre da Casa da Ponte,  uma capelinha dedicada a São Bartolomeu. Quando a 24 de Agosto, dia de São Bartolomeu, se realizava a romaria em honra do santo, minhotos e transmontanos envolviam-se em lutas e pancadaria. Antigamente o que fazia a divisão com Trás-os-Montes era o rio. Portanto diziam que o Santo pertencia àquela parte e que os do lado de cá os roubaram, diziam que ele tinha aparecido lá na fonte, que é do outro lado do rio. Depois houve a tradição da festa meter sempre aquela pancadaria. Os daqui tinham o santo mas não iam à água, os dacolá iam à água mas não vinham ao santo (feitor da Quinta da Casa da Ponte). De um lado e de outro da ponte, desafiavam-se mutuamente uns dizendo vinde à fonte e outros respondendo vinde ao santo. Pelo meio ainda existia a disputa pelas raparigas que se encontravam na Romaria. O assunto era sempre resolvido ao murro, à paulada e mesmo ao tiro (…) até Camilo várias vezes se refere ao local pois teria assistido a muitos encontros destemidos de varapau entre minhotos e transmontanos, sendo frequente a festa de S. Bartolomeu acabar com mortos (Almeida,1988).  São Bartolomeu tem os atributos de milagreiro e exorcista, e o exorcismo dos possuídos pelo demónio é outro ponto alto da Romaria. Por este facto, o santo é habitualmente representado com uma espada na mão e o demónio acorrentado aos pés, como se pode ver na imagem de madeira ainda hoje existente no interior da capela. Camilo Castelo Branco no seu conto "Como ela o amava" escrito em 1863, descreve muito bem o que presenciou quando esteve em Cavez em 1842: Aos 24 de Agosto, na povoação chamada Cavez cuja ponte sobre o Tamega, extrema pelo Norte as duas provincias de Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de São Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás. Vem aqui de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. (...) As mulheres é que por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espiritos infernais (...) gentis mocetonas eram aquelas que eu vi na igreja de Cavez, em 1842. Há quantos anos isto vai. Naquele tempo, até as mulheres com espirito ruim me pareciam boas. 
A minha história mistura-se com a história desta Ponte. Lugares como Moimenta, Cavez, Arosa, Gondiães fazem parte da minha história genética e desde 1601 (primeiro registo documentado) que a minha família paterna viveu nestas terras de fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes. As histórias foram passando de geração em geração, narrando namoros começados nas Romarias de São Bartolomeu, sofrimentos conquistados nas rixas com os de além rio e muitas outras situações do dia-a-dia que tiveram como palco as terras de Basto. Todas estas situações foram ainda vivenciadas pelos meus avós paternos, que nasceram em Cavez não muito longe da famosa Ponte e pelo meu pai, assíduo visitante destas terras durante as férias escolares. Cavez foi ainda palco de muitas férias em família,  e o rio Tâmega e a Ponte que o atravessa, presenciaram inúmeros momentos de pura felicidade, que tão bem seriam descritos pelas românticas palavras de Camilo.