terça-feira, 13 de março de 2012

O Pão Molete

O Pão é desde há muitos séculos um elemento básico da alimentação dos povos. A sua etimologia vem do latim pane, e foi introduzido pela primeira vez há cerca de 6000 anos, pelos egípcios. Surgiu juntamente com o cultivo do trigo na região da Mesopotâmia, actualmente designada por Iraque. Pensa-se que os primeiros pães fossem feitos de farinha de trigo misturados com o fruto do carvalho, a bolota. Como resultado obtinha-se um pão duro, seco e amargo. 
O primeiro pão fermentado, semelhante ao que nós comemos actualmente, já era consumido pelos egípcios há cerca de 4000 AC. O pão era de tal forma importante na sociedade antiga, que os camponeses ganhavam como salário pelo trabalho de um dia, três pães e dois cântaros de cerveja.
As primeiras padarias, no entanto, surgiram em Israel, após o aperfeiçoamento da técnica de fabrico do pão, por parte dos hebreus. 
Mas foi em Roma, por volta de 500 AC, que foi criada a primeira escola de padeiros, tendo-se tornado o principal alimento da população, produzido em padarias públicas. Com a expansão do Império Romano, o hábito de consumir pão foi-se difundido por grande parte da Europa.No início da Idade Média, por volta do ano 476, as padarias foram extintas, e o pão voltou a ser produzido em casa, sem recurso ao fermento. Só no século XII, em França é que o pão voltou a ser produzido por padeiros, tornando-se este País mundialmente conhecido pelos seus pães.
Em Portugal, o pão é um elemento indispensável na nossa alimentação. Existem diversos tipos de pão, desde a regueifa à broa de milho, passando pela sêmea. De formas e sabores diferentes, comido como acompanhamento ou sozinho, o pão está sempre presente nas nossas vidas. 
Mas o pão a que quero aqui dar relevo é ao famoso Pão Molete, tão conhecido no Porto. Muitas vezes me pus a pensar no porquê de o pão que eu como desde que me lembro, ter um nome tão estranho como este: Molete! De facto, é uma palavra que não tem qualquer significado na língua portuguesa, a não ser claro está, quando se refere ao tipo de pão que tão bem conhecemos. Porquê Molete? A razão deste pão ser assim chamado remonta ao século XIX.
No inicio do século XIX, o Porto e Gaia eram abastecidos de pão por duas freguesias: Avintes e Valongo. A maior parte dos habitantes destas duas freguesias eram padeiros, e os seus campos eram praticamente utilizados para a produção de cereais. Em Avintes eram as mulheres que produziam o pão, que aqui era designado por broa - a famosa broa de Avintes - que se tratava de um pão de milho com alguma mistura de centeio, e que abasteciam as duas cidades trazendo canastras cheias de broa, em barcos que elas próprias remavam. Como se tratava de um pão duro e de sabor mais intenso, apenas era distribuído à população trabalhadora, já que as famílias abastadas consumiam apenas o pão mole e claro, produzido em Valongo, feito unicamente de trigo, a famosa regueifa. Este pão era transportado em carroças até ao Porto e depois distribuídos a pé pelos padeiros de Valongo, casa a casa. Curiosamente o meu marido tem ancestrais que foram padeiros em Valongo, e um deles morreu repentinamente em Lordelo do Ouro em 1866, possivelmente a realizar a distribuição do pão. 
Mas voltemos à questão do Molete. Aquando das 2ª Invasões Francesas em 1809, as tropas invasoras estiveram estacionadas em Valongo. Com a invasão  a produção de cereais reduziu drasticamente e o pão começou a faltar. Um General francês de nome Mollet, que estava estacionado no Convento da Formiga (actualmente um Colégio com o mesmo nome), e que comandava as tropas invasoras, deu ordem para reduzir o tamanho do pão para metade e reduzir também ao seu peso, de forma a que pudesse alimentar o regimento com mais pães e com a mesma quantidade de cereais. O pão produzido ficou substancialmente mais pequeno do que aquele que era consumido na altura e para identificar esse novo pão os padeiros que carregavam as carroças para o exército francês e não sabiam falar a sua língua diziam "lá vai o pão do Mollete". Mesmo após o fim das Invasões, o formato do pão manteve-se e passou-se a designar por pão do Molete, ou seja o nosso tão conhecido pão Molete!