domingo, 1 de julho de 2012

Nasci no século passado

Nasci no século XX, logo nasci no século passado! Esta dedução fácil de se fazer é algo pesada, pois só o conceito de século passado, dá logo ideia de algo que já se passou há muito, muito tempo...Um sobrinho meu fez-me uma pergunta que me fez parar para pensar: ó tia, é verdade que quando tu nasceste não havia nem telemóveis, nem computadores ? perguntou ele olhando-me com certo ar de incredulidade. Obviamente tive que lhe responder sem mentir: é verdade, sim senhora! Não contente com a resposta voltou à carga: mas então, o que é que vocês faziam? E nesse momento recuei uns anos e lembrei-me que eu própria tinha feito uma pergunta semelhante aos meus pais e aos meus avós, quando os questionei como é que eles tinham conseguido viver sem televisão. Simplesmente me responderam com um muito bemTudo parece tão definitivo e indispensável, que achamos que não sabemos viver sem aquilo que nos rodeia no nosso quotidiano. Mas será que somos mais felizes agora do que eram os nossos pais e avós? Não há resposta exacta para uma pergunta como esta, mas às vezes faz-nos bem pensar nestas pequenas grandes dependências que vamos acumulando ao longo dos anos. De facto eu nasci numa altura em que não existiam nem telemóveis e nem computadores e era muito feliz. Como não sabia do que se tratava não sentia falta. A vida era recheada de imaginação e fantasia, ocupada com jogos e brincadeiras muitas vezes por nós inventadas, sem grandes regras nem objectivos. Apenas queríamos brincar e conviver. O telefone era o de casa dos meus pais e existia só um, grande, pesado e com um disco para marcar os números, que era usado apenas com autorização paterna, pois as chamadas eram caras. Quando os meus pais nos autorizaram a ter um telefone no quarto, ainda por cima de teclado, foi uma alegria e um autêntico luxo: dois telefones em casa! Tudo o que era novidade nos atraía e deslumbrava. No século passado, naquele em que nasci, também não haviam escadas rolantes, nem portas de abertura automática, nem hipermercados, nem centros comerciais, nem video-gravadores, nem uma data de coisas que hoje são consideradas indispensáveis. Lembro-me tão bem do fascínio que foi ver as primeiras imagens gravadas pelo video-gravador...ninguém percebia muito bem como era possível, nem como funcionava, mas era deslumbrante! Gravamos cassetes e cassetes, de programas sem qualquer importância, e até anúncios, só para podermos rever as imagens passadas em directo e acreditar que gravar som e imagem ao mesmo tempo era possível! 
E da primeira vez que andei de escadas rolantes, no primeiro shopping da cidade do Porto e do país, ali para os lados da Rotunda da Boavista, pensei que estava a sonhar. Subir sem mexer as pernas, numas barulhentas escadas de ferro que nos elevavam rapidamente, era mágico. Lembro-me que do medo inicial passei rapidamente a sentir uma necessidade constante de subir e descer todos os lanços de escadas rolantes existentes, pois a sensação era única. Esse shopping era um mundo mágico, pois além das escadas tinha também portas de vidro que abriam quando nos aproximávamos, tal como na série da televisão Espaço 1999...seriam poderes sobrenaturais ou magia? Tudo era novo, tudo era fascinante. Mas loucura total foi quando visitamos o primeiro hipermercado no grande Porto. Eu nem dormi na véspera só de pensar no que iria encontrar numa loja gigante, cheia de todo o tipo de artigos, tudo no mesmo sítio. Imaginava cerca de 100 mercearias do meu bairro juntas e achava que era impossível. Mas quando entrei pela primeira vez naquela loja imensa, cheia de corredores e prateleiras, submersa em luz e som, repleta de gente e barulhos, fiquei em êxtase. Nada me tinha preparado para aquilo. O meu mundo estava de facto a mudar. E a cereja no cimo do bolo, foi o Spectrum! O meu primeiro computador, se assim se pode chamar a uma caixinha fininha que tinha um teclado, e que tínhamos de ligar a uma gravador onde púnhamos as cassetes com jogos, que depois ligávamos à televisão para podermos jogar. Nunca mais me vou esquecer do barulho metálico e agudo que fazia o gravador enquanto carregávamos os jogos...durava uma eternidade e ás vezes era necessário voltar a carregar vezes sem conta. Mas quando conseguíamos começar a jogar, esquecíamos tudo aquilo por que tínhamos passado e sentia-mo-nos pessoas do futuro! Depois vieram os PC (Personal Computor) com o sistema DOS que punham qualquer um louco, com as palavras de comando DIR, EXE, LIST e muitas outras mais, que tínhamos que teclar num écran assustadoramente negro; as câmaras de vídeo, que pesavam toneladas e que tinham como acessórios o foco de luz e o video-gravador colocado num tipo de carteira com alça, e que punham de rastos quem exercia a função de camaraman; e finalmente os telemóveis. Enormes, pesados, mas que nos  permitiam telefonar em qualquer lado e sem qualquer fio. 
Tínhamos atingido o momento alto da nossa evolução. E passamos a achar que nunca mais iríamos conseguir viver sem os vídeos, sem as escadas rolantes, sem os shoppings, sem os centros comerciais, sem os telemóveis e sem os computadores. A vida simples, sem artefactos e sem consumismo, tornou-se completamente desinteressante. Viver sem estas conquistas tecnológicas tornou-se estupidamente ridículo e anacrónico! Daí a incrédula pergunta que eu fiz aos meus pais e avós e que muitos anos depois o meu sobrinho me fez a mim. Apesar da velocidade da evolução tecnológica ter aumentado exponencialmente nestes últimos anos, a situação é idêntica. Esquecemos-nos de viver com simplicidade. Não conhecemos o nosso habitat sem estar repleto de tecnologia . Não reconhecemos a natureza e nada sabemos dela. Somos uns estranhos se colocados num mundo simples, sem computadores, sem televisão, sem telemóveis, sem hipermercados. Tornamo-nos numa espécie completamente dependente da tecnologia e sem ela ficamos perdidos.   Nasci no século passado e vivo no século actual, mas tenho muitas saudades da simplicidade da minha infância e da imaginação que tinha em criança. Agora já não se imagina, nem se fantasia. As descobertas e invenções surgem-nos em catadupa, e muito para além da nossa imaginação.