quarta-feira, 11 de julho de 2012

A vida do livro

Os livros são objectos pequenos, mas cheios de Mundo (Romano Guardini, escritor e teólogo italiano). O livro é um objecto fascinante. Nascemos num mundo em que o livro é comum e por isso temos que nos considerar uns privilegiados: temos livros pequenos ou grandes, de capa dura ou fina, a cores ou a preto e branco, de romance ou crime, contendo todos eles um sem fim de histórias para contar. Apenas temos que os abrir e ler! Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que não haviam livros...os primeiros suportes utilizados para a escrita foram tabuletas de pedra ou de argila, tendo sido encontradas tabuletas de argila na Suméria datadas de 2400 a 2200 aC. Mais tarde surgiu o khartés (que em grego significa papel) e que consistia num cilindro de papiro de fácil transporte. O papiro, provém de uma planta perene de nome Cyperus Papyrus, donde era extraída a parte interna do caule, que depois de tratada e transformada em folha, era enrolada em forma de cilindro. Os romanos chamaram-lhe volumen, nome pelo qual ficou a ser mais conhecido. O cilindro de papiro, era desenrolado à medida que ia sendo lido podendo alcançar o comprimento de 5 a 6 metros. 
Se contivesse mais do que uma obra era denominado de tomo. Considerado o percursor do papel, o papiro que resultava da libertação (libere em latim) da parte interior do caule do resto da planta original, deu origem à palavra latina liber libri, e posteriormente a livro na língua portuguesa. O papiro mais antigo que se conhece foi descoberto em Saqqara (necrópole da antiga cidade de Menfis do Antigo Egipto) no túmulo de um nobre chamado Hemaka, da I dinastia (2920 a 2770 aC) e foi encontrado em branco. Posteriormente surgiu o pergaminho, que resulta do tratamento de peles de animais, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, que permitia a escrita. O nome pergaminho, homenageia a cidade grega de Pérgamo na Àsia Menor, onde se acredita que foi descoberto. Mais fácil de ser manipulado e com muito maior duração do que o papiro, o pergaminho rapidamente se torna popular entre a classe erudita grega e romana. 
Aos poucos o volumen foi substituído pelo códex, compilação de folhas de pergaminho costuradas, e não enroladas em cilindros. Estava descoberto o formato do livro, tornando-se mais fácil a transmissão de informação em forma escrita. Com o aparecimento do papel, descoberto pelo chinês  Cai Lun (alto funcionário da corte imperial da Dinastia Han) no ano 105 dC, os livros tornaram-se mais fáceis de produzir e a escrita mais fácil de realizar.  Mas a invenção mais importante para a divulgação do livro foi a descoberta da  impressão no século XIV. Inicialmente consistia na gravação do conteúdo de cada página do livro em blocos de madeira que eram mergulhados em tinta e depois imprimidos em páginas de papel, realizando várias cópias do mesmo livro. Mas foi com Johannes Gutenberg, em 1455 que esta técnica se desenvolve, com a invenção de tipos móveis (caracteres de letras) reutilizáveis, permitindo a impressão de vários livros utilizando sempre os mesmos tipos. O primeiro livro a ser impresso por esta nova técnica foi a Bíblia em latim. Com a impressão de tipos móveis o livro popularizou-se, tornando-se mais acessível graças à enorme redução de custos que permitiu a impressão em série. Em Portugal, foi no reinado de D.João II que a imprensa foi introduzida. O primeiro livro a ser impresso em caracteres hebraicos, foi o Pentateuco (os primeiros cinco livros da Biblia) em 1487, na cidade de Faro. 
Em 1488 foi impresso o primeiro livro em língua portuguesa (português arcaico) na cidade de Chaves, intitulado O Sacramental um tratado de liturgia, da autoria de Clemente Sánchez de Vercial, escritor espanhol do século XIV. Só no fim do século XV é que começariam a ser impressos livros nas grandes cidades portuguesas como Lisboa, Porto e Braga. Com o passar dos anos os livros foram conquistando o seu espaço, deixando de ser vistos como objectos de luxo acessíveis a poucos e utilizados apenas por uma pequena elite, para passarem a ser adquiridos por toda a população. O mundo mágico do livro estava finalmente ao alcance de todos, novos e velhos, ricos e pobres, bastando apenas saber ler para ter acesso a todo um manancial de histórias e aventuras. O livro tornou possível o espalhar do conhecimento, o alargar de horizontes, o sonhar mais longe, e como escreveu Mia Couto, o livro é uma caixa de tesouros que não encontramos em mais lado nenhum . Eu sempre vivi rodeada de livros e a leitura é para mim um prazer. Aprendi, sonhei, ri e chorei com eles ao longo da minha vida. A sensação de pegar num livro pela primeira vez, desfolhar as suas páginas, sentir as palavras nele escritas e descobrir as personagens que nele vivem, é única. Às vezes lembro-me das palavras de Almada Negreiros quando entrou numa livraria e disse: pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Há tantas histórias para ler, tantos mundos para descobrir, tanta coisa para aprender que sentimo-nos pequenos perante toda a obra que foi produzida e nos foi legada ao longo dos últimos séculos. O livro pode ser entendido como um documento escrito e assinado pela mão da humanidade, que regista a vitória do saber sobre a calamidade da ignorância. Ele é o documento do passado, do presente e uma visão profética do futuro, que ajuda a pessoa a entender o mundo, a vida e a si mesmo (Menegolla,1991)Escrito em papiro, em pergaminho, em papel ou em forma digital, o importante é que o livro continue a fazer parte do nosso mundo e que mantenha o Homem capaz de superar a ignorância e tomar consciência do valor da liberdade de pensamento e da capacidade do ser humano para pensar ilustradamente pela sua cabeça (Kant)