sábado, 28 de julho de 2012

O saber do povo



As superstições, os costumes, os jogos, os contos, as cantigas, as advinhas, as rimas infantis, as orações, as xácaras (narrativas populares) todas estas tradições que constituem o folclore, parecem na verdade à primeira vista objectos destituídos de importância, e próprios exclusivamente de espíritos ignorantes e rudes (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). As tradições populares são imprescindíveis para a cultura de um país, pois   transmitem o modo como as pessoas encaravam a natureza e como com ela conviviam, elucidam-nos sobre o passado e são a verdadeira obra do povo. O folclore, palavra portuguesa que derivou dos vocábulos ingleses folk (povo) e lore (saber tradicional), é a ciência das tradições, dos usos e costumes populares, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, canções, contos, provérbios, jogos e tantas outras actividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo. A UNESCO declarou que o folclore é sinónimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade, através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Onde está o nosso folclore? O que sabemos das nossas tradições e crenças populares? Para além das danças que quase todos os portugueses conseguem identificar como sendo o vira do Minho, os pauliteiros de Miranda, o corridinho do Algarve ou o bailinho da Madeira, onde está o resto do nosso folclore? Esquecido ou quase...essa parte essencial da cultura de cada nação, quase não existe em Portugal. As figuras do folclore português são desconhecidas. Se falarmos de duendes, gnomos, elfos e fadas facilmente os identificamos como fazendo parte do folclore da Irlanda, Inglaterra, Noruega e outros países nórdicos. Mas se falarmos de trasgos, mouras encantadas, olharapos, almazonas e tardos, poucos serão capazes de saber que fazem parte do nosso folclore e que tanto têm para contar. Será que é por serem nossos? Para compensar a ausência de divulgação dos nossos entes encantados aqui fica uma pequena apresentação de cada um deles:

Trasgos - é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, mais concretamente da região de Trás-os-montes. 
Aparentados com os trasnos galegos, são pequenos seres rebeldes, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.  Os trasgos perseguem principalmente as mulheres, fazendo-lhes variadas judiarias, quando elas estão na cama. Atiram pedras pela janela,  quebram as louças da cozinha (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Estas pequenas criaturas endiabradas arrastam os móveis, mudam as coisas de sítio, partem vidros e muitas travessuras especialmente durante a noite. Pela sua descrição, parecem corresponder aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, porém, ao contrário destes, os trasgos são praticamente desconhecidos nas sociedades modernas, ditas civilizadas, porquanto a sua sobrevivência está circunscrita a uma cultura popular estritamente oral, que sempre foi subalternizada pelas sociedades mediáticas (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)Na memória dos transmontanos mais idosos  os trasgos ainda estão bem vivos e são descritos como uma raça de figurinhas míticas, rebeldes e que adoram pregar partidas. Ainda hoje quando alguém faz alguma brincadeira ou é mais rebelde, os mais velhos dizem aquilo é um trasgo! Segundo as antigas crenças, são pequenas almas penadas, crianças que não foram baptizadas antes de morrer e que regressam às casas que habitavam para pregar partidas. Assim acontece, por exemplo, no concelho de Vimioso, onde existem as ruínas do chamado moinho dos trasgos, que foi abandonado pelo seu moleiro por não poder suportar as travessuras de um que com ele partilhou o mesmo habitáculo (Diabos, Diabritos e outros Mafarricos Alexandre Parafita, 2003). Em Vinhais existe uma curiosa história de uma mulher que incomodada por um trasgo na casa que habitava, decidiu mudar para outra habitação para fugir às travessuras constantes do pequeno ser rebelde. Quando estava nas mudanças encontra um menino de gorro vermelho que carregava um banco de cozinha. A mulher admirada pergunta: esse banco não é meu? Para onde o levas? E o pequeno ser responde: Então não estamos a mudar de casa? Para onde fores eu também vou! Quem não tem em si um pouco de trasgo?!

Olharapos - ou Olhapim (assim conhecidos em Trás-os-montes) são figuras gigantes que apenas possuem um grande olho na testa (Ciclope)
Nos contos e lendas transmontanas o olharapo é descrito como um ser antropófago, violento e feroz. O que lhe sobra em força e em tamanho  falta-lhe em produtividade e sobretudo em inteligência (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)No concelho de Vinhais existe um provérbio ligeiramente diferente do que conhecemos e que diz: Na terra dos Olhapins quem tem dois olhos é rei. No entanto é muito interessante de ver que o número de olhos deste ser assustador varia de região para região: em Cabeceiras de Basto e em Guimarães os olharapos têm três olhos, dois na frente e um no cachaço, razão pela qual tanto vêem para trás como para diante (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882); em algumas regiões do Minho, têm quatro olhos, dois à frente e dois atrás. Figura assustadora dos contos populares, há quem diga que vivem num país distante, mas que podem aparecer de um momento para o outro...

Almazonas - também chamadas de Almajonas, são mulheres muito altas que carregam os filhos às  costas e que fazem parte das lendas portuguesas.
Descritas nas regiões da Beira e no Minho, como mulheres muito grandes e gordas, que deitam os seios para trás e assim alimentam os filhos às costas (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Perante uma mulher bem nutrida era muito comum dizer-se: aquilo é uma almazona. A palavra almazona, segundo Leite de Vasconcelos, tem origem em amazonas, a que foi acrescentado o l  por analogia a alma. Muito curiosa é a lenda que tem origem em Famalicão, e que faz a distinção entre Almazonas (mulheres grandes) e Allamóasque eram mulheres do reino da Allamanha, que traziam os filhos às costas  e nunca deixavam andar os homens com elas. Só uma vez por ano estes tinham permissão para se aproximarem das mulheres, mas ao fim de certo tempo eram expulsos. Quando nascia uma menina, ficavam com ela; quando nascia um menino mandavam-no para os homens. Os homens eram os Allamões, gente muito alta (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Provavelmente esta lenda tem origem nas invasões germânicas à Península Ibérica no século IV. Através da tradição oral a história chega até nós, tantos séculos depois!

Tardos - ou Trevor é um tipo de duende e é um ser mítico do folclore português. 
Também é chamado de pesadelo ou tardo moleiro, em algumas regiões do país. O tardo é conhecido por importunar as pessoas que estão a dormir causando pesadelos. Pode aparecer em figura de animal - cão, gato ou cabra - e quando aparece nos caminhos, nos regatos ou em cruzamentos tenta urinar em cima das pessoas, deixando-as entardadas (desorientadas) sem saberem que caminho tomar ou onde se encontram. Em Guimarães o tardo é considerado o diabo e só sai à noite. Um lavrador da Maia descreveu-o assim: o tardo não é o diabo. É um bicho mau tal e qual como um cachorro pequeno. Se alguém for por um caminho, de dia ou de noite, e o tardo lhe urinar nas pernas, a pessoa fica entardada e depois não sabe para onde há-de ir; só com o tempo é que se desentarda. O tardo aparece em qualquer caminho, mas nos regatos é pior. 

Figuras tradicionais quase esquecidas, que armazenam pedaços da história do nosso passado. O folclore é a obra do povo, e nós como povo que somos não devemos esquecê-lo. Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos (Albert Einstein).