segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Robin dos Bosques Português



Os ricos e os políticos é que hão-de pagar para os pobres... Os políticos têm sido a desgraça dos pobres. Prometem tudo, mas só protegem os que eles muito bem querem . Aos pobres passam a vida a mentir-lhes. De hoje em diante eu serei repartidor público. Podeis dizê-lo a toda a gente. O povo há-de sabê-lo. E também quero que as autoridades o saibam. Porque este encargo foi-me dado pelo povo (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Assim falava José Teixeira da Silva, mais conhecido por Zé do Telhado, o mais famoso salteador português do século XIX. O José nasceu no lugar do Telhado, daí a sua alcunha, na freguesia de Castelões de Recesinhos em Penafiel, no dia 22 de Junho de 1818, filho de Joaquim Teixeira e Maria Leontina. Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente com as armas, e raio devastador em franceses, que ele matava porque eram franceses e ladrões, posto que, na qualidade de membro da nação espoliada, o sr. Joaquim chamasse só a si o que era da fazenda nacional. Um tio avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já tinha sido salteador de porte e infestara o Marão durante muitos anos (Camilo Castelo Branco in Memórias do Cácere). O seu irmão mais velho também seguiu o ofício de família. Na tentativa de o afastar da vida de salteador, os pais enviaram-no   aos 14 anos para Caíde de Rei em Lousada, para casa de um tio materno, de nome Diogo, ironicamente um antigo soldado francês, que tinha vindo com o exército nas invasões napoleónicas e por cá ficou. Com o tio aprendeu o ofício de castrador e tratador de animais. Durante a sua estadia em casa do francês Diogo, apaixona-se perdidamente pela sua prima Ana, que viria a ser sua mulher e a paixão de toda a sua vida. 


Em Julho de 1837, alista-se nos Lanceiros da Rainha, e assenta praça no Quartel de Cavalaria 2. 
Entrou José ao serviço da Junta na Arma da Cavalaria. Comprou cavalo e fardou-se a todo o primor Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham. José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que em parte era capricho e em parte era largueza de alma (Camilo Castelo Branco). Quando se dá a Revolta dos Marechais, que opõe Cartistas (defensores da Carta Constitucional de 1826) e  Setembristas (defensores da Constituição de 1822), José Teixeira, que luta pelos Cartistas, é derrotado e a 18 de Setembro de 1837, foge para Espanha. Obtido o perdão, regressa a Portugal e no dia 3 de Fevereiro de 1845, casa com a sua prima Ana, nascendo a sua primeira filha de nome Maria Josefa, no dia 7 de Novembro do mesmo ano. Deste casamento nascem ainda mais 4 filhos. Ditosos derivaram os primeiros anos deste suspirado enlace. José era querido dos vizinhos, porque aos ricos nada pedia e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador (Camilo Castelo Branco). A 23 de Março de 1846, estala a Revolução da Maria da Fonte e José Teixeira coloca-se às ordens do General Sá da Bandeira, assumindo o posto de sargento. Na batalha de Valpaços distingue-se pela bravura e pelas qualidades militares demonstradas, tendo inclusivé salvo a vida ao General Sá da Bandeira, que o comandava. Foi distinguido com a mais alta condecoração Portuguesa a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. No entanto, o lado pelo qual luta é mais uma vez derrotado e José regressa a Lousada. Acabada a guerra, José Teixeira da Silva tenta refazer a vida, mas todas as portas lhe foram fechadas, tendo-lhe sido mesmo negado um emprego, que lhe tinha sido prometido, no Depósito de Tabaco do Porto. Ignorado pelos amigos e esquecido pelo Visconde Sá da Bandeira, que chegou a ser Ministro  da Guerra e Presidente do Governo. 
Sem emprego e com dividas acumuladas, é expulso do exército por não conseguir pagar os impostos a que estava obrigado. Com a mulher e os filhos a passarem por  dificuldades e sem soluções, envereda no ofício da família e torna-se salteador. É sina! A fatalidade obriga-me a receber a herança do meu pai, que eu queria repudiar; meu irmão não resistiu à voz do sangue; a desgraça atira-me para o mesmo charco. Cumpra-se o destino...(José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Nascia assim o Zé do Telhado! As suas quadrilhas integravam diferentes pessoas com diferentes ocupações, desde padres a morgados, alfaiates a estalajadeiros, homens e mulheres de diversos estratos sociais. Os actos ilícitos que cometeu ao longo dos anos foram inúmeros, mas os relatos que chegaram das suas actividades ilegais destacavam um código próprio pelo qual se regia e fazia cumprir quem com ele os cometia. 


De hoje em diante acabou a rebaldaria! Temos de levar a vida a sério se queremos vencer. E quem não estiver satisfeito pode sair já, a porta está aberta! De hoje em diante, a malta aqui reunida não será um bando de ladrões. Governamo-nos, mas eu só vou tirar aos que têm mais, para dar aos que têm menos. Proíbo, ouvi bem: proíbo!, que alguma vez se tire aos pobres e a todos aqueles que vivem honradamente do seu trabalho. Nesta comunidade, também não consinto que se matem pessoas; e só usaremos a força quando resistirem e nos obriguem a isso. Também não admito que ninguém se aproveite da ocasião para abusar das mulheres. (...) De hoje em diante, eu só estou aqui como repartidor público. Tudo o que tirarmos aos outros não será só para nós. Uma parte é para os pobres. Ali para o Douro há muita gente rica, mas também se vê por lá muito pobre. Tenho visto por aí muitos velhos, sem terras, nem nada, e mulheres com bandos de filhos. A nossa comunidade tem de ajudar os que são esquecidos por todos… (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002)Vários assaltos a propriedades foram cometidos, diversos roubos a pessoas em viagem foram realizados e apesar de tudo aquilo que impôs como regra de actuação, algumas pessoas foram mortas durante as acções ilegais da quadrilha do Zé do Telhado. A realidade é bem diferente da teoria. Homens como o Zé do Telhado que foram rústicos homens do povo, que alcançaram o reconhecimento – primeiro lendário e depois mítico  (...) são personagens ambivalentes, pois transitam entre os universos do herói e do antiherói: destacam-se dos seus semelhantes por um perfil único, que os individualiza e desperta sobre eles a admiração de seu povo. (...) são reconhecidamente valorizadas como heróis do povo exactamente porque afrontam e subvertem o poder vigente e constroem, à margem desse poder, outro mundo, que se instaura e se rege por leis próprias (...) reagem a seu modo a um estado social injusto, transformando-se em defensores e vingadores do povo oprimido (As ambiguidades do herói bandido, de Silvana Bento Andrade e Henriqueta Maria Gonçalves)
Com as autoridades em constante perseguição, o bandoleiro mais conhecido do País, acaba por ser  detido no dia 31 de Março de 1859, quando tentava fugir para o Brasil, a bordo da barca Oliveira que estava atracada no Porto. Ironicamente estava a ser ajudado por  Ana Vitória, uma das suas vítimas que se tinha tornado sua grande admiradora. É dela a frase que transformou o Zé do Telhado no Robin dos Bosques português, quando afirmou que existem pessoas de bem que nunca deram às classes humildes um centésimo do que lhes deu Zé do Telhado! Foi preso e colocado na cela nº12 da Cadeia da Relação do Porto, onde teve por companhia Camilo Castelo Branco. Este confidenciou ao seu companheiro de cela o medo que tinha de ser morto na cadeia a mando do marido da sua amante, Ana Plácido. Reza a história que Zé do Telhado lhe terá dito esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos. No seu livro Memórias do Cácere, Camilo imortaliza o Robin dos Bosques português, descrevendo-o como  o mais afamado salteador deste século. No dia 9 de Dezembro de 1859 foi julgado e condenado por doze crimes e condenado ao degredo para toda a vida na África Ocidental Portuguesa. Alguns dos membros da sua quadrilha nunca chegaram a julgamento, entre eles encontravam-se o Morgado da Magantinha, um padre de nome Torcato, alguns administradores e regedores que tinham cometido os mesmo crimes. É de crer que nesta altura se movimentassem altas influências tendentes a ilibar estas parelhas de bandidos engravatados. O facto é que saíram em liberdade. E é natural que o administrador, ao mesmo tempo que os inocentava, procurasse aproveitá-los (Campos Monteiro, historiador). A pena aplicada foi no entanto comutada pelo Tribunal da Relação do Porto, para 15 anos de degredo. Zé do Telhado desembarcou em Luanda e seguiu depois para Malanje, onde viveu já em liberdade, tendo-se tornado num negociante de borracha, cera e marfim. Casou-se com uma angolana de nome Conceição, de quem teve três filhos. 


Conhecido entre os locais como Kimuezo, homem de barbas grandes, viveu desafogadamente até aos 57 anos, quando morreu vitima de varíola em 1875. José Teixeira da Silva foi sepultado na aldeia de Xissa, Município de Mucari, onde lhe foi erigido um mausoléu, ainda hoje objecto de romagens.  Consta que os negros mais pobres íam durante muitos anos chorar ajoelhados à sua campa, evocando o nome do grande branco, o pai dos pobres.
José Teixeira, o nome dele é pouco; José do Telhado é tudo. Quando passou do apelido para esta alcunha, apanhou a celebridade (Júlio César Machado, 1872). Uma figura polémica, que permanece viva na história popular do nosso país e nas nossas memórias. António Nobre no seu poema Viagens da minha terra, do seu livro Só, imortaliza-o quando escreve rondar à lua entre pinhais! Ser capitão! Trazer pistolas, mas não roubando, trazendo esmolas, dependuradas nos punhais!