Há muito tempo que não escrevia...há momentos que nos fazem parar mesmo que a vontade não seja essa. Não foi por falta de tempo...esse tinha e tenho em excesso, mas o meu pensamento estava bloqueado, primeiro com a perspectiva de fazer uma cirurgia e depois pela imobilidade e incapacidade provocadas pela situação. Uma paragem forçada, uma alteração repentina na azáfama do dia a dia, fez com que as ideias desaparecessem. Uma incapacidade temporária provocada por uma lesão na mão esquerda fez-me travar a fundo. Uma hora num bloco operatório e de repente tenho pela frente uns meses de recuperação. Uma simples alteração num dos tendões e num pequeno nervo da mão, transformou a minha vida e a vida de quem me rodeia. Desencadeou uma avalanche de sensações e sentimentos, ao mesmo tempo que vinha acompanhada de vários pequenos obstáculos que tinham que ser superados. Mas, como disse Albert Einstein, as dificuldades e obstáculos são fontes valiosas de saúde e
força para qualquer sociedade, e acrescento eu, para qualquer indivíduo. E por isso cá estou novamente a tentar retomar o que tanto gosto de fazer. Procurar nos baús da história e em poeirentos livros repletos de magia, as tradições, os costumes e as descobertas que fizeram de nós o que actualmente somos. Tendo sido sujeita a uma intervenção cirúrgica dei por mim a pensar que num passado não muito longínquo, tudo era muito diferente.

Sushruta Samhita, um médico indiano que viveu em 600 aC é uma importante figura na história da cirurgia. Ele viveu, ensinou e
praticou sua arte cirúrgica nas margens do rio Ganges, no norte da India. Foram numerosas as suas contribuições para ciência e arte da cirurgia, tendo identificado a origem e tratamento de diversas doenças, sendo por muitos considerado o pai da Cirurgia. Muito do que conhecemos a respeito da
cirurgia está contido numa série de volumes de sua autoria, conhecidos como as Susrutha Samhita. Considerado o mais
antigo texto cirúrgico, nele estão descritos com pormenor, a exploração, o diagnóstico, tratamento e prognósticos de numerosas doenças.
No entanto, a cirurgia teve seus primeiros desenvolvimentos científicos no século XVI, com o francês Ambroise Paré considerado o pai da cirurgia moderna, que além de
esclarecer inúmeras questões de anatomia, fisiologia e terapêutica, substituiu
a cauterização com ferro em brasa, pela utilização de fio de sutura e pinças para corrigir roturas de veias e artérias, tal como é hoje utilizado. Escreveu vários tratados de cirurgia, tendo feito a compilação de toda a sua obra em 1575, com 65 anos de idade, sob o título Les Oeuvres de M. Ambroise Paré, avec
les figures et les portraits de l'Anatomie que des instruments de chirurgie et
de plusieurs monstres.
Foi cirurgião de Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Mais
tarde, a descoberta da anestesia e a criação da antissepsia, no final
do século XIX, impulsionou as técnicas cirúrgicas, cuja eficácia aumentou com a
transfusão de sangue e a neurocirurgia, desenvolvidas entre as duas grandes
guerras. Nos anos 50, a descoberta dos antibióticos garantiu maior
eficácia aos procedimentos cirúrgicos.
Actualmente com toda a tecnologia envolvida, realizam-se todo o tipo de cirurgias, incluindo transplantes de orgãos vitais. A evolução foi fabulosa e hoje uma simples cirurgia como aquela a que fui sujeita, é considerada de rotina, e possibilita a recuperação total de áreas danificadas. Apenas como curiosidade, se eu tivesse nascido nos finais do século XVIII, a minha lesão seria analisada da seguinte forma: quando se vulnerar, ou cortar totalmente um tendão, ou tendões, que servirem ao movimento de uma parte, se perderá o movimento dela, se não unir por primeira intenção, e o sujeito for velho. Quando a ferida do tendão não unir logo, e passar a chaga mediante a cicatriz, e contracção das fibras e prisão delas, é muito certo perder-se o movimento total ou parcial da parte. (...) há violentas dores, segue-se febre, vigilias, delirios e pode sobrevir aquele terribilissimo e mortal acidente convulsivo. Tratamento - administrar externamente um cozimento de malvas, violas, mangerona, flores de sabugo, de marcela e folhas de rosa e semelhantes; havendo muitas dores feito o cozimento em leite; não as havendo feito em água.(...) Aplicar por si só agua ardente, sempre quente, com algum óleo de termentina (in Cirurgia classica, lusitana, anatomica, farmaceutica,
medica, a mais moderna: segunda parte em que se da huma
brevissima noticia anatomica do corpo humano, de Francisco Luiz Ameno, 1780). Talvez a minha recuperação demorasse um pouco mais...