sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Escova de Dentes

A escova de dentes faz parte do nosso dia-a-dia. Encontramos-nos com ela pelo menos uma três vezes por dia e nem nos passa pela cabeça deixar de a usar. Desde a infância somos ensinados a usar a nossa amiga escova, de forma a podermos manter uma adequada higiene oral. De diferentes tamanhos, de diferentes marcas, "vestidas" das mais diversas formas e de variadíssimas cores, a escova que nos esfrega os dentes anda na boca de toda a gente. Mas nem sempre foi assim...
A necessidade de limpar os dentes é tão antiga como o próprio homem. Escavações arqueológicos  encontraram num túmulo egípcio, com cerca de cinco mil anos, aquela que pode ser considerada a mais antiga escova de dentes. O artefacto descoberto  consistia num ramo de uma planta que apresentava a sua extremidade toda desfiada, de forma a que as fibras da madeira funcionavam como cerdas. 
Na região da antiga Babilónia foi descoberto um tipo de vara de mascar datada de 3500 aC, que fazia o papel de escova de dentes. Na literatura grega, romana e egipcía foram encontradas referências a um tipo de palitos de madeira usados para a limpeza dos dentes. Esses palitos eram mastigados até que as fibras da madeira se tornassem moles, de forma a poderem ser usadas para retirar os restos de alimentos dos dentes sem magoarem as gengivas. No século IV aC um médico grego de nome Diocles de Caristo, receitava aos seus pacientes folhas de hortelã para esfregar nos dentes e nas gengivas, de forma a poder combater o mau hálito e as infecções da boca, tão comuns na época. Na China, por volta de 1600 aC eram usados pequenos galhos de plantas aromáticas não só para a limpeza dos dentes mas também para refrescar a boca.
A importância que a saúde dos dentes assumiu na Roma antiga foi tal, que os nobres romanos possuíam escravos apenas com a tarefa de executar diariamente a sua higiene oral, através de uma mistura de areia, ervas e cinzas de ossos. Até o profeta Maomé recomendava aos seus seguidores a utilização de uma haste de madeira aromática que se fosse esfregada várias vezes produziria uma pasta que servia para limpar e clarear os dentes.
Por volta do ano 1490 os chineses inventaram o primeiro prototipo da escova de dentes actual: uma haste de bambú ou de um fino osso onde eram colocados vários pelos de porco na extremidade. Na Europa esta invenção foi também adoptada, mas os pelos de porco por serem muito duros e causarem lesões nas gengivas foram substituídos por pelos de crina de cavalo, bastante mais suaves.
No entanto, a invenção da escova de dentes é atribuída a um comerciante britânico de nome William Addis. Em 1770 foi preso por ter participado num motim e durante a sua permanência na prisão inventou a base daquilo a que nós hoje apelidamos de escova de dentes inspirando-se numa vassoura comum. Utilizando um fino osso de animal de uma das suas refeições, fez doze pequenos furos numa das extremidades, onde colou pequenos tufos de cerdas de javali. Quando saiu da prisão substituiu os pelos de javali, como antes os europeus já tinham feito, por pelos da crina de cavalo e iniciou a comercialização da primeira escova de dentes. A empresa Wisdom, criada por William Addis em 1780 para a produção de escovas de dentes, ainda existe hoje, sendo actualmente uma das maiores empresas de higiene oral do mundo. Como todas as invenções, a escova de dentes era de elevado preço sendo apenas acessível às camadas da população mais abastadas. 
Em 1935, Wallace Hume Carothers, químico e investigador dos Estados Unidos, criou um polímero a que deu o nome de nylon e foi esta descoberta que permitiu a expansão do uso da escova de dentes a outros segmentos da sociedade. A empresa Wisdom passou a produzir em 1939 escovas de dentes com cerdas de nylon, tornando o valor de cada uma bastante mais acessível. Mesmo assim o preço de cada escova era ainda bastante elevado. Em 1940 uma companhia americana lançou a escova de dentes Doctor West Miracle – Tuft, que era vendida a 50 centavos de dólar, o que hoje corresponderia a 8 dólares! Com o aumento da produção as escovas de dentes tornaram-se mais baratas e actualmente são acessíveis a todas as camadas da população. 
De simples varas de madeira transformaram-se em escovas de dentes ergonómicas, eléctricas e com uma panóplia de novas tecnologias, de tal forma que actualmente se torna difícil escolher uma! As escovas de dentes são essenciais à nossa higiene oral, mas não era necessário tornar-nos a vida tão difícil de cada vez que temos que tomar a decisão de comprar uma...
 

domingo, 14 de outubro de 2012

A Carpideira

A Carpideira, profissão exclusivamente feminina, tinha como única função chorar um defunto alheio. A carpideira tem uma tradição milenar. Esta profissional do choro e da dor era contactada para acompanhar os velórios e chorar pelos mortos, mediante um acordo monetário com a família do defunto. No Antigo Testamento, existem várias referências a mulheres profissionais do pranto e do luto, conhecidas pela alcunha de carpideiras, ou aquelas que são fontes de lágrimas: Considerai, e chamai carpideiras que venham; e mandai procurar mulheres hábeis, para que venham. E se apressem, e levantem o seu lamento sobre nós; e desfaçam-se em lágrimas os nossos olhos, e as nossas pálpebras destilem águas (Jeremias 9:17-19). Tinham como principal tarefa provocar uma atmosfera de tristeza, entoando cânticos fúnebres e chorando em voz alta e com grande encenação. A carpideira  aliava à técnica do choro e do cântico fúnebre as artes cénicas  Eram especialistas em representar e encenar situações que visavam provocar nas outras pessoas o choro e a dor. Na antiga Roma, não havia velório sem carpideiras e quantas mais houvessem, mais importante era a pessoa falecida.

Que mulher é essa
Contratada para chorar
Como se o choro fosse um canto,
Para a alma do morto levar.
Tem carpideira que canta,
Tem carpideira que chora...
Todas elas acalantam
A alma que vai embora.
Antiga profissão,
Que ainda hoje vigora,
Contratadas para chorar
No lugar de quem não chora. 

(Fernando Lima)

A ladainha, a encenação e a postura corporal tipicamente usadas pelas mulheres do luto está bem demonstrado neste pequeno filme.


Pouco se ouve falar actualmente das carpideiras apesar de ainda existirem  algumas escondidas nas mais recônditas aldeias portuguesas. Choraram durante séculos os mortos alheios e na história serão lembradas como as actrizes que representaram no palco da vida real!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A República


Amanhã comemora-se o dia 5 de Outubro, o dia da implantação da República. Há 102 anos deixamos de ser um país monárquico e passamos a ser regidos por republicanos. O Partido Republicano Português, criado em 1876, após um golpe de estado, destituiu a monarquia e implementou o regime republicano em Portugal. O seu objectivo era  devolver ao país o prestígio perdido e colocar Portugal na senda do progresso...102 anos depois ainda temos esse  mesmo objectivo!

Foi formado um Governo Provisório Português : Hoje, 5 de Outubro de 1910, às onze horas da manhã, foi proclamada a República de Portugal na sala nobre dos Paços do Município de Lisboa, depois de terminado o movimento da Revolução Nacional. Constituiu-se, imediatamente o Governo Provisório: Presidência, Dr. Joaquim Teófilo Braga. Interior, Dr. António José de Almeida. Justiça, Dr. Afonso Costa. Fazenda, Basílio Teles. Guerra, António Xavier Correia Barreto. Marinha, Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Estrangeiros, Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães. Obras Públicas, Dr. António Luís Gomes (Diário do Governo, 6 de Outubro de 1910). Com o novo regime politico, os símbolos nacionais também foram alterados. Na monarquia o rei tem um corpo físico e portanto é uma pessoa reconhecível e reconhecida pelos cidadãos. Mas a república é uma ideia abstracta (Nuno Severiano Teixeira)Foi criada uma Comissão a 15 de Outubro para desenvolver os novos símbolos que passariam a representar a nação: a bandeira, o hino e o busto da República.

Ao longo dos anos a história foi-se escrevendo e reescrevendo. Pedaços dessa história chegaram até nós graças ao empenho dos Arquivos e de muita gente anónima, que preservaram documentos e imagens que são de todos nós. Concordando ou discordando a história fez-se e hoje somos resultado dessas acções que a história nos conta. Aqui ficam alguns exemplos de documentos alusivos à Implantação da República no nosso país, que o Arquivo Distrital do Porto, digitalizou e disponibilizou para consulta. 


Telegramas enviados pelo Sr. Ministro do Interior – António José de Almeida,  respeitantes à proclamação da República. Indicação para nomeação de cargo (Governador Civil do Porto). Mensagem hostil referente a Pimentel Pinto, e à sua aceitação da implantação da República (Arquivo Distrital do Porto).



Pedido para que o Dr. Paulo Falcão assuma responsabilidades de Governador Civil do Porto (Arquivo Distrital do Porto).


Comunicação emitida pelo Sr. Ministro do Interior – António José de Almeida,  respeitante às alterações que as Câmaras Municipais deverão sofrer, especialmente, a sua substituição por Comissões Municipais (Arquivo Distrital do Porto).

Comunicação emitida pelo Sr. Ministro das Finanças - José Relvas, solicitando que os Governadores Civis reunissem o maior número de cidadãos com elevada influência na comunidade, com o intuito de lhes transmitir o estável estado em que as finanças públicas se encontravam. Solicita ainda que transmita às delegações da Caixa Geral de Depósitos orientações para tranquilizar os seus depositantes (Arquivo Distrital do Porto).

Não deixa de ser curioso  que o nome do Ministro das Finanças da altura, fosse José Relvas! A história às vezes prega-nos partidas...


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Vira do Minho


O Vira é a dança rainha do Minho, e faz parte do folclore português. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando fora ou virou. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia.Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido. Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares,  ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros. Viana é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única. Chegamos à região de Braga e logo nos surge o  vira galego, despido da opulência primitiva, como o caracterizou, Pedro Homem de Mello (Semibreves, Música Tradicional Portuguesa). Neste pequeno filme da autoria de Michel Giacommeti, datado de 1970, podemos ver o famoso Vira do Minho dançado na sua forma mais rústica, onde as personagens principais são populares que se juntaram para o dançar. Sem vistosos trajes característicos, mas com a roupa de trabalho, sem grande organização mas com a beleza da simplicidade, este filme transmite-nos como teria sido dançado no passado o Vira do Minho. Tomaz Ribas, escritor, etnólogo e crítico de teatro português, considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau de Amores, em 1527, onde o dava como uma dança do Minho.


Nota: Imagem de Dom Paio Global

domingo, 23 de setembro de 2012

Viriato:O Herói Lusitano


Se a alma que sente e faz conhece,
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu. 
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste,
Assim se Portugal formou.

Assim era Viriato nas palavras do grande poeta português Fernando Pessoa, no seu livro a Mensagem. Herói lusitano do imaginário português, Viriato tornou-se uma personagem épica pela sua heróica resistência ao domínio e ao Império Romano. Muito se tem escrito sobre este homem que viveu na Lusitânia, mas muito pouco se sabe ao certo. O seu nome, Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura da palavra celta viriola (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade)Viriato é originário da Lusitânia Ocidental, que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela (Mons Herminius), que domina a região situada entre o Tejo e o Douro (Adolf Schulten, arqueólogo, historiador e filólogo alemão do século XIX)

Pouco se sabe da vida de Viriato: não se conhece o nome dos pais, nem tão pouco o seu ano de nascimento. Estima-se que tenha nascido por volta do ano 170 a 190 aC. Apesar de imortalizado por Brás Garcia Mascarenhas, (militar e poeta português do século XVI) na sua ode Viriato Trágico como um simples pastor, Viriato pertencia a um dos clãs aristocráticos dos Lusitanos, e não era um simples guardador de rebanhos, antes proprietário de cabeças de gado (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade). Fez-se bandoleiro, pertencente a Confrarias de Guerreiros, que saqueavam as regiões mais ricas das planícies do Sul. Nesta vida andava Viriato, quando o pretor romano Galba, furioso pelas derrotas que os lusitanos haviam imposto às legiões romanas (...) fingiu (...) sinceros desejos de paz, oferecendo-lhes férteis campos da Betica (actual Andaluzia) (...) muito superiores aos ásperos montes em que viviam. (...) Eles o julgaram sincero e em grande número se apresentaram desarmados nos lugares que haviam sido designados para concluir a proposta da convenção. Porém o traidor Galba, cercando-os com as legiões que tinha ocultas, os fez barbaramente acometer a assassinar (Archivo Popular, nº 20 de 12 de Agosto de 1836). Mais de 9.000 lusitanos foram mortos,  20.000 escravizados e enviados para a Gália e apenas cerca de 1.000 lusitanos sobreviveram. Entre eles encontrava-se Viriato. Conhecedor das técnicas de batalha dos romanos, dos anos de guerrilhas que com eles tinha travado, reuniu os sobreviventes do massacre, e começou por introduzir nos lusitanos a ordem e a disciplina, formando um exército. 
Conquistando progressivamente zonas como Segóbriga, Mancha e a Bética, tornou-se uma preocupação para os Romanos a partir de 143 a.C. Um dos combates mais importantes que travou contra as forças romanas foi o de Erisane (situada no sul da Andaluzia) onde em 141 aC. conseguiu fazer um cerco ao exército romano liderado por Fábio Máximo Serviliano. Este confronto foi decisivo por marcar o fim da resistência armada oposta a Roma, tendo Viriato obrigado Roma a um acordo com o Senado romano, onde os Lusitanos viam a sua independência reconhecida, passando Viriato a possuir o estatuto de amigo do povo romanoO seu casamento com a única filha de Astolpas, um grande proprietário da Bética, por quem se apaixonou, demonstra bem o carácter simples e despojado de Viriato. Apareceu vestido de guerreiro com a sua lança na mão, e durante o banquete recusou os manjares que lhe ofereceram. Não se banhou e não ocupou o seu lugar à mesa, criticando a ostentação do sogro. Embora a mesa estivesse repleta de manjares requintados e de todo o tipo de comidas, apenas tirou pão e carne e repartiu-os entre aqueles que tinham viajado com ele. Depois tirou alguma comida para si e ordenou-lhes que fossem buscar a noiva (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade).

Estrabão definiu a Lusitânia de Viriato como a mais poderosa das nações da Península Ibérica, a que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas. Viriato conseguiu não apenas a unificação  dos diferentes clãs lusitanos mas também comandar tranquilamente, sem cisões internas, durante oito a dez anos. Diodoro da Sicília, historiador e filósofo grego do século I a.C, afirmou que enquanto ele comandava, ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele. 
No entanto Roma não esqueceu o vexame que tinha sofrido às mãos de uns quantos bárbaros lusitanos, pelo que anula o tratado firmado e declara novamente guerra à Lusitânia. Roma envia novo general, de nome Servílio Cipião, para reiniciar os combates. Viriato, com a maior parte do seu exército já desmobilizado e com poucos meios de defesa, vê-se obrigado a recorrer a um novo tratado de paz. Envia três guerreiros de sua confiança, de nomes Audas, Ditalco e Minuros, para negociarem o acordo. Cipião recorre ao suborno dos companheiros de Viriato, que em troca de dinheiro e terras, assassinaram o seu chefe enquanto dormia.  Viriato perdeu a vida e os lusitanos perderam o seu grande líder e o seu sonho de liberdade. Roma, a super potência da época, que se intitulava arauto da civilização, venceu de forma inglória e apenas recorrendo à traição. Depois da morte de Viriato,  Roma rapidamente os subjugou ao seu poder e a Lusitânia de Viriato curvou-se ao domínio do império Romano. Viriato tornou-se um herói, imagem de liberdade e de respeito pela diferença. Líder justo, de simples costumes, de personalidade forte e carismática, corajoso e defensor da liberdade foi cantado e homenageado durante séculos. Chegaram até nós vários poemas que a ele se referem, como este de Brás Garcia de Mascarenhas:

Canto um Pastor, amores, e armas canto,
Canto o raio do monte, e da campanha,
Terror da Itália, e do mundo espanto,
Glória de Portugal, honra de Espanha:
Triunfante da Águia, que triunfando tanto,
Tanto a seus raios tímida se acanha,
Que à traição, só dormindo, o viu rendido,
Porque desperto nunca foi vencido.

Também Luís de Camõeso homenageou nos Lusíadas:

Este que vês, pastor já foi de gado
Viriato sabemos que se chama
Destro na lança mais que no cajado
Injuriada tem de Roma a fama.

Numa época que perdeu o valor da tradição épica como estruturante da identidade dos seus povos, importa relembrar a memória e o exemplo dos principais autores da sua História. (...) Se perdemos a consciência da nossa identidade colectiva, como podemos reivindicar o que quer que seja, como podemos reescrever a nossa História, como podemos edificar o futuro? (António Manuel de Andrade Moniz  in Viriato, herói lusitano: o épico e o trágico).
Pena é que tão poucos Viriatos existam...


domingo, 16 de setembro de 2012

O Dono do Mundo

Numa época de crise como aquela que estamos actualmente a passar, falamos essencialmente de uma coisa: dinheiro! O vil metal está no centro das atenções e é a causa de todos os problemas. Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente (William Shakespeare)De facto somos controlados por este velho senhor de nome Dinheiro, e como disse Thomas Fuller, clérigo e historiador inglês do século XVII, o dinheiro é o único monarca. Tal como qualquer outro monarca reinante que se preze, o nosso distinto governante virtual, foi adquirindo diversos nomes e alcunhas ao longo dos tempos. O seu nome de baptismo é curto, apenas Dinheiro, mas os seus sobrenomes e cognomes são tantos, que não há família real que consiga ombreá-lo. 

Cacau - corresponde a um dito usado com outros vocábulos: Aquilo com que se compra o cacau

Carcanhol - pensa-se que está relacionada com carcanhão, que é um nome dado à ostra, que por ser muito apreciada, se tornou muito valiosa.

Chapa - o dinheiro (moedas ou notas) é feito recorrendo a chapas que servem para a respectiva impressão

Chavo e Cheta - correspondem a antigas moedas de cobre


Baga, Caroço ou Grana - correspondem a sementes que produzirão novos frutos, tal como o dinheiro quando é bem gerido

Graveto - pequeno ramo de madeira usado para acender o fogo, fazendo referência à importância e valor do fogo no passado

Guita ou Guito - podem estar relacionadas com o cordel com que os feirantes   atavam as notas

Massa ou Pasta - referência à matéria com a qual se faz o pão e à argamassa com a qual se cobrem as paredes. Também o dinheiro nos permite comprar o pão ou pagar os materiais e os trabalhadores que nos fazem as casas

Nota ou  Papel - referência à própria forma do dinheiro quando imprimida em papel

Pataca - antiga moeda brasileira de prata que valia 320 réis, emitida pelo governo de portugal até ao século XIX. O nome pataca deriva-se da moeda de prata de oito reais mexicana. A pataca é actualmente a moeda oficial de Macau.

Paus - uma possível referência à valiosa madeira de Pau-preto, que durante a época de colonização serviu como moeda de troca em muitas transacções comerciais. 

Pilim - uma onomatopeia porque lembra o tilintar das moedas

Tusto - provavelmente um deturpação da palavra tostão, moeda de ouro cunhada pela primeira vez no reinado de D. Manuel I, equivalente a 1.200 réis

Vintém - antiga moeda brasileira de 20 réis

Detentor de um grande poder a sua fama ultrapassa fronteiras. O grande poeta Manuel Bocage definiu-o assim: 

Faço a paz, sustento a guerra
Agrado a doutos e a rudes, 
Gero vícios e virtudes,
Torço as leis,
Domino a Terra

Oscar Wilde afirmou quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza! E eu também!


Nota: Muitas das explicações dadas foram retiradas de Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (http://www.ciberduvidas.pt)
Foto de CLARICE COPPETTI

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Informação

Todos os dias somos bombardeados com noticias do mundo que nos entram pela casa dentro quase sem pedir licença. A rádio, a televisão, as redes sociais, as revistas e os jornais são o veiculo de propagação de informação. A avalanche de informação a que todos os dias estamos sujeitos é de tal forma avassaladora que já não procuramos a informação, fugimos dela. É difícil no mundo actual estarmos sem noticias. Tudo é noticia e tudo é global. O mundo tornou-se pequeno e quase que sabemos o facto antes dele acontecer! Mas a informação nem sempre foi tão fácil de obter. 

A primeira publicação regular que se tem conhecimento surgiu no século I, quando o Imperador Augusto instituiu a colocação no Forum Romano da Acta Diurna. Esta publicação, que inicialmente apenas enumerava as listagens de eventos ditados pelo Imperador era gravada em pequenas tábuas de pedra, foi instituída por Júlio César no ano 59 aC. Mas foi com Augusto que se tornou periódica e começou a divulgar diversas notícias sobre feitos militares, factos sociais, obituários e outros acontecimentos importantes. A Acta Diurna era afixada em locais públicos para ser lida por todos. No entanto o primeiro jornal em papel surgiu apenas no ano de 713 dC como panfleto manuscrito em Pequim, com o nome de Notícias Diversas. Na Idade Média eram comuns nas grandes cidades, as folhas escritas com noticias comerciais e económicas que eram distribuídas nos meios burgueses. Na cidade de Veneza estas folhas eram vendidas ao preço de uma gazzeta, a moeda local. Daqui teve origem o nome Gazeta, nome adoptado por muitos jornais publicados na Idade Média e que chegou até nós fazendo ainda parte do nome de muitos periódicos contemporâneos. 
A primeira publicação impressa regularmente surgiu em 1602, na cidade holandesa de Antuérpia, com o nome de Nieuwe Tijdinghen e tinha periodicidade semanal. Em 1621 surge em Londres o primeiro jornal de língua inglesa com o nome The Corante. Em 1638, também em Londres o Weekly News torna-se no primeiro jornal a publicar noticias internacionais, tendo sido logo seguido pelo jornal francês La Gazette, que tinha iniciado a sua publicação a 31 de Maio de 1631. Todos estes jornais tinham periodicidade semanal, quinzenal ou mesmo mensal. Só em 1650 surge o primeiro jornal diário com o nome de Einkommende Zeitungen (Notícias Recebidas) fundado na cidade alemã de Leipzig. O poder da informação foi crescendo e com ele o número de jornais publicados. Nos séculos XVIII e XIX as publicações impressas aumentaram exponencialmente e jornais como o inglês The Times (que começou a circular em 1785 com o nome de The Daily Universal Register), tornaram-se ícones da informação. 


Em Portugal o primeiro periódico impresso surgiu em 1641 e tinha como nome Gazeta em que se relatam as novas todas, que houve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de Novembro de 1641, com todas as licenças necessárias, também denominada Gazeta da RestauraçãoO seu objectivo era dar notícia dos acontecimentos da guerra com Espanha e da aclamação de D. João IV como Rei de Portugal, procurando igualmente auxiliar a consolidação da independência (Biblioteca Nacional). Em Janeiro de 1663 surge o primeiro periódico político português em Lisboa com o nome de Mercúrio Português, tendo desaparecido em 1667 A designação de mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, evocando o simbolismo do mensageiro dos deuses. Segundo os estudiosos da imprensa periódica, havia diferenças claras entre os mercúrios e as gazetas, apresentando estas últimas um carácter mais noticioso (Biblioteca Nacional). Mas foi só no dia 19 de Agosto de 1715 que o primeiro jornal oficial português inicia a sua publicação com o título de Noticias do Estado do Mundo, cujo redactor foi José Freire de Monterroio Mascarenhas. No entanto o segundo número publicado a 17 de Agosto já surge com o nome com que ficaria conhecido: a Gazeta de Lisboa,  título que se mantém até ao ano 1833 (com algumas alterações de nome pontuais ao longo dos anos). Com a Revolução Liberal no século XIX a imprensa em Portugal desenvolve-se rapidamente e novos periódicos começam a aparecer. A 18 de Abril de 1835 na Ilha de São Miguel  surge o diário Açoriano Oriental, que é o jornal mais antigo do país e o segundo mais antigo da Europa, só suplantado pelo sueco Post-och Inrikes Tidningar que surgiu em 1645. Grandes nomes do jornalismo português surgem no século XIX: O Comércio do Porto em 1854; o Diário de Notícias em 1864 (o primeiro jornal a ter pequenos anúncios, que lhe permitiu ser vendido a menor preço); o Primeiro de Janeiro em 1869; o Século em 1881 e o Jornal de Notícias em 1888. A informação tornava-se acessível a todos e as notícias circulavam rapidamente. 

O século XX tornou a informação ainda mais rápida e com o desenvolvimento de novas tecnologias a noticia impressa foi sendo suplantada pela noticia dada pelos meios audiovisuais. Os jornais, antigos senhores da informação, viram-se ameaçados pela facilidade da divulgação da informação pela televisão e rádios. No século XXI as redes sociais tornaram-se rainhas da comunicação. De pedras impressas, em pouco mais de dois mil anos, passamos a computadores portáteis, Ipads e Tablets onde temos o mundo à distancia de um dedo. A evolução foi fabulosa e o génio humano fantástico. Pena é que a qualidade da informação não tenha acompanhado a qualidade da sua propagação.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A estrela guia

Sentada sob um fantástico céu nocturno galego, dou por mim a olhar encantada para os cachos de estrelas resplandecentes que brilham ininterruptamente. Há quanto tempo não via tanta estrela no céu...as luzes das grandes cidades ofuscam o brilho das estrelas e impedem-nos de observar um dos mais belos cenários naturais: o céu estrelado. Lembrei-me de Van Gogh que afirmava que quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas. Olhar o céu nocturno é um espectáculo natural deslumbrante capaz de ultrapassar as mais belas pinturas e esculturas artísticas expostas pelos museus de todo o mundo. É de graça, não tem limite de entradas e pode ser visto em qualquer lugar do planeta e no entanto poucos são aqueles que a ele assistem. Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela (Bob Marley). Não olhamos para o nosso céu e não conhecemos as nossas estrelas. São tantas que me perco ao tentar inumerá-las.

Consigo identificar algumas constelações de estrelas pelo seu formato:  a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Cassiopeia e Estrela Polar e poucas mais. Estas grandes e luminosas esferas de plasma, tiveram durante séculos uma enorme importância para todas as civilizações em todo o mundo, como método de orientação. 

Em 1979 na região  do Vale de Ach (região alemã do Danúbio) foi encontrada uma imagem gravada num bloco de marfim, que reproduz a constelação de Orion, com cerca de 32 mil anos. Mas são imensos os registos pré-históricos que comprovam que a observação das estrelas é uma actividade antiga: pinturas rupestres, gravações em pedra, túmulos, artefactos e construções megalíticas. O homem desde sempre utilizou as suas estrelas e com elas conviveu, às vezes adorando-as, outras vezes temendo-as. Com o passar do tempo e através da capacidade de observação o homem percebeu que poderia utilizar as estrelas para sua orientação em viagens terrestres e marítimas. O mais antigo mapa estelar datado do ano 1534 aC, foi encontrado no antigo Egipto. O primeiro catálogo de estrelas foi elaborado pelos astrónomos gregos Aristilo e Timocrates, aproximadamente no ano 300 aC. 

Mas à medida que as civilizações foram evoluindo, com  a descoberta de sistemas de navegação mais complexos e elaborados, deixamos de olhar para cima e passamos a olhar para a frente. As estrelas passaram a ficar lá no cimo e apenas esporadicamente lhes damos uma olhadela rápida. Nietzsche afirmava que  enquanto sentires as estrelas como algo que está por cima de ti não possuis ainda o olhar do homem que sabe. E de facto assim é. As estrelas contam-nos histórias ancestrais e enviam-nos a sua luz carregada de passado. Os telescópios potentes que actualmente conhecemos permitem-nos ver a luz emitida por estrelas que muitas vezes já não existem, mas que mesmo assim nos enviam a sua história através do espaço. Só temos que saber ouvir e saber observar. A nossa história está a ser contada repetidamente em cada estrela que cintila no céu. Somos todos feitos do mesmo pó de estrelas (Carl Sagan) e quem sabe se a nossa tão procurada imortalidade não está na simples capacidade de saber observar uma estrela. Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna (Deepak Chopra, professor e escritor indiano).
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Sininho

Sininho é nome de fada do cinema infantil, mas para mim era o nome da minha amiguinha de quatro patas que durante 15 anos partilhou o meu espaço, a minha vida, as minhas alegrias e as minhas tristezas. De grandes  e expressivos olhos verdes, de focinho redondo e com um ronrom que transmitia todo o carinho que por nós tinha, pêlo longo e malhado, passeou pela minha vida e pela vida do meu marido ao longo da última quinzena de anos. Amiga mas traquina, carinhosa e arisca, a minha gata Sininho fazia parte de mim. 
Agora partiu e deixou um vazio que vai custar muito a passar...a sua presença constante, o estar sempre ali, a rotina de tratar dela, de a sentir sempre "em cima" de mim quando estava ao computador, no sofá a ver televisão, na cama a dormir, ou a passar aos ziguezagues pelas minhas pernas quando estava na cozinha, tudo isto desapareceu...vou ter saudades da minha fada de quatro patas, a minha amiga que não falava, mas que miava de maneiras tão diferentes e tão expressivas que eu sabia bem o que ela queria transmitir. A casa ficou muito vazia, mas nós ficamos mais. Partiu ao meu colo e a receber as nossas festas de agradecimento pela alegria que nos proporcionou ao longo da sua vida. Obrigada Sininho, por teres partilhado connosco a tua vida. 
Sei que este post não se coaduna com o espírito do blogue, mas hoje não podia escrever mais nada, nem falar de nenhum outro assunto. Há dias assim...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O último rei português

Portugal é uma República desde o dia 5 de Outubro de 1910. No entanto durante 771 anos, o nosso país foi um reino - o Reino de Portugal. Mais de sete séculos de história, que tiveram como protagonistas 35 Reis e 4 Dinastias. O último monarca português, nasceu a 5 de Novembro de 1889 no Palácio de Belém em Lisboa, filho de D. Carlos I e de D. Amélia. Baptizado com o nome de Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha, ficou conhecido por D. Manuel II. Passou à história com os cognomes: O Patriota, pela preocupação que os assuntos pátrios sempre lhe causaram; O Desventurado, em virtude da Revolução que lhe retirou a coroa; O Estudioso ou o Bibliófilo (devido ao seu amor pelos livros antigos e pela literatura portuguesa). Iniciou o seu reinado no dia 1 de Fevereiro de 1908, após o regicídio, que terminou quando partiu para um exílio forçado em Inglaterra no dia da implantação da República. As suas últimas palavras em solo português foram: Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar no iate Real Amélia. Sou português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer. VIVA PORTUGAL!
A 4 de Setembro de 1913, casa com D. Augusta Vitória, princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, permanecendo o rei D.Manuel de pé durante toda a cerimónia, que foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, sobre terra trazida de Portugal. Morreu subitamente no dia 2 de Julho de 1932, com 42 anos, na sua residência em Twickenham, Inglaterra, por edema da glote, sem descendência. O último rei de Portugal está sepultado no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.
Churchil conviveu de perto com D. Manuel II, e referindo-se a ele afirmou: Eis um jovem rei inteligente e dinâmico. Não consigo entender os portugueses, que cometeram um erro muito grave, que lhes pode sair muito caro nos anos vindouros.
D. Manuel II, aqui num pequeno filme sem som, fica para a história como o último rei de Portugal!




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lisboa no inicio do século XX


Digo:
Lisboa
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como
Se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo
Da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver                        
(Sophia de Mello Breyner)



Para relembrar uma Lisboa já passada, uma Lisboa do início do século XX, este filme com uma fantástica sucessão de fotografias antigas, mostra-nos com uma espantosa realidade o que foi a vida na capital de Portugal no inicio do século passado. Pessoas, paisagens, edifícios e ambientes recriados nesta sucessão de imagens. Uma encantadora viagem ao passado...




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Santos dos nossos dias


Não há dia que não tenha o nome de um santo qualquer. Se olharmos para as agendas antigas, a seguir à designação do dia aparece o nome de um santo, que a Igreja Católica achou por bem homenagear. Cada dia, cada santo. Existem por isso pelos menos 366 santos contabilizados pela Igreja dos católicos, já que os anos bissextos têm esse número de dias. Foi a Santo Osvaldo que calhou a sina de só ser homenageado de 4 em 4 anos, já que o dia de seu nome é 29 de Fevereiro. De origem dinamarquesa foi cónego de Winchester e arcebispo de York, descrito pelos seus pares como homem generoso, inteligente e um estudioso. Não descobri a causa da sua santidade, talvez por isso só seja lembrado de 4 em 4 anos...
Mas os nomes dos santos que mais facilmente identificamos, são aqueles que estão associados a dias festivos. São João, São Pedro e Santo António são nossos velhos conhecidos. Mas e São Valentim do dia dos Namorados e São Nicolau associado ao Pai Natal? O que sabemos destes santos? Que tradições e histórias estão por detrás dos homens?


São Valentim - sacerdote cristão do século III, viveu em Roma e foi contemporâneo do Imperador Cláudio II, cujo objectivo era constituir o maior exército possível, para manter a hegemonia dos romanos sobre o resto do mundo. Para levar a cabo tal façanha proibiu os casamentos entre os jovens romanos de forma a que estes se alistassem com maior facilidade e diminuísse o número de abandonos do exército. O sacerdote Valentim não acatou a ordem imperial e continuou a celebrar casamentos em segredo. Quando foi descoberto foi preso e condenado à morte. Durante o tempo do seu encarceramento, recebia flores e bilhetes com mensagens sobre a importância do amor. Diz a lenda que se apaixonou pela filha do carcereiro, de nome Astérias. Antes de morrer escreveu uma carta à sua apaixonada assinando no fim de seu Valentim, expressão ainda hoje utilizada pelos casais enamorados. Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro do ano 270, dia em que se celebra o dia dos Namorados.
No entanto este dia era para os pagãos a véspera do festival de lupercalia (de lupus que significa lobo, que reporta à lenda de Rómulo e Rémulo) festa anual celebrada na Roma antiga, em honra de Juno, deusa do matrimónio e de Pan, deus da natureza. Na Idade Média, o dia 14 de Fevereiro era  considerado o primeiro dia de acasalamento dos pássaros, e era tradição os apaixonados deixarem mensagens de amor na soleira da porta da pessoa amada. Actualmente o dia é celebrado um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Uma tradição com séculos de história.


São Nicolau - o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, nasceu por volta do ano 270 em Patara, capital da antiga Lícia (actual Turquia) filho de pais nobres. Quando os pais morreram distribuiu a sua fortuna pelos mais carenciados. Foi consagrado Bispo de Mira (actual Turquia) ainda muito jovem e desenvolveu a sua actividade apostólica na Palestina e no Egipto. Foi preso durante o reinado do Imperador Diocleciano que moveu uma perseguição aos cristãos, tendo sido libertado durante o reinado do Imperador Constantino. São-lhe atribuídos muitos milagres sendo considerado protector dos marinheiros, dos mercadores, dos estudantes e especialmente das crianças. Conta a lenda que gastou parte da sua herança de família a distribuir presentes pelas crianças mais carenciadas. Morreu a 6 de Dezembro do ano 342. Nesse dia, já na Idade Média era costume nos países nórdicos,  os criados da famílias mais abastadas, deixarem pequenos presentes às crianças em honra de São Nicolau. Foi também nestes países que se desenvolveu a tradição de deixar sapatinhos junto às lareiras para que o santo, também chamado de Velho Pai, pudesse deixar os presentes destinados às crianças. Esta tradição e o culto a São Nicolau espalharam-se por toda a Europa. Após a reforma da Igreja, os países que professaram o Protestantismo abandonaram esta tradição, passando a venerarem o Christkind (Menino Jesus) como aquele que oferecia as prendas às crianças no seu próprio dia de nascimento ou de Natal, o dia 25 de Dezembro. 


Mas a lenda de São Nicolau prevaleceu passando o Velho Pai a ser designado como Pai Natal, Père Noel ou Father Christmas, passando também a ser festejado no dia 25 de Dezembro. Apenas na Holanda se manteve a designação de Sinterklaas que significa São Nicolau. Pensa-se que foram emigrantes holandeses que levaram a tradição do culto a São Nicolau para os Estados Unidos da América no século XVII, onde Sinterklaas deu origem a Santa Claus, nome pelo qual ainda hoje é chamado o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho e que distribui as prendas na véspera de Natal. A  figura do Pai Natal ou de Santa Claus, como actualmente a conhecemos, é da autoria de um americano de nome Thomas Nast, cuja ilustração foi pela primeira vez publicada no jornal Harper's Weekly em 1866. Mas foi com uma campanha publicitária da famosa bebida americana Coca-Cola, em 1931, que o simpático velhinho passou a ser reconhecido mundialmente como o famoso Pai Natal.

Ao longo dos séculos as tradições foram-se mantendo, passando de geração em geração. Com o nome de São Nicolau, Santa Claus ou Pai Natal, o que importa é que a fantasia e o sonho se mantenham vivos no imaginário de todos, quer sejam crianças ou adultos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A famosa casca do sobreiro

O sobreiro (Quercus Suber) é uma árvore muito comum em Portugal, com grande prevalência a sul do Tejo. Os montados, que são plantações de sobreiros, subsistem apenas nas regiões do Mediterrâneo: Argélia, Marrocos, França, Itália e sobretudo nas regiões do sul da Península Ibérica. Portugal é o país com maior extensão de sobreiros do Mundo, sendo responsável por cerca de 50% da produção mundial de cortiça. Esta espantosa árvore, de porte mediano, tronco tortuoso e folhas permanentes, com 15-20 metros de altura (...) é revestida por uma casca acinzentada, algo enegrecida, espessa e fendida denominada cortiça (Plantar Portugal)De grande longevidade (pode viver em média 150 a 200 anos) e com uma enorme capacidade de regeneração, permite cerca de 16 descortiçamentos ao longo da sua existência. São precisos 25 anos para um tronco de sobreiro começar a produzir cortiça. No primeiro descortiçamento, chamado desbóia, obtém-se uma cortiça muito irregular e dura sendo difícil de trabalhar, a chamada cortiça virgem, sendo utilizada para pavimentos e material de isolamento; só nove anos depois se pode fazer novo descortiçamento, e aí obtém-se a chamada cortiça secundeira, menos dura, mas ainda imprópria para a confecção de rolhas e outros materiais; só no terceiro descortiçamento é que se obtém a cortiça amadia ou de reprodução, regular e lisa, fácil de trabalhar. A técnica de extracção, conservação e transformação da cortiça implica um saber ancestral. 
A cortiça já era utilizada na China, no Egipto, na Babilónia e na Pérsia  no ano 3000 aC, para fabrico de utensilios ligados à pesca. Em Itália, foram encontradas bóias, tampas para tonéis, sapatos de mulher e telhados de casas, datados do século IV aC. A primeira referência escrita ao sobreiro data desta época. O filósofo grego Teofrasto, nos seus tratados sobre botânica descreve maravilhado a faculdade que esta árvore possui em renovar a casca quando lhe é retirada. Foram também encontradas ânforas cheias de vinho com rolhas de cortiça, em Éfeso no século I aC. Em 1209, Portugal tornou-se no primeiro país a desenvolver legislação ambiental para protecção dos montados. Durante a época dos descobrimentos, as naus portuguesas utilizavam a madeira de sobreiro nas zonas mais expostas à intempérie, já que os construtores diziam que a madeira do sôvaro (era assim denominado o sobreiro) era o que havia de melhor para o liame das naus: além de muito resistente, nunca apodrecia. No século XVIII, um monge francês de nome D. Pierre Pérignon, começou a usar a cortiça para vedar as garrafas do seu famoso champanhe, costume que ainda hoje se mantém. Mas foi só a partir do século XVIII que na Península Ibérica se iniciou a exploração dos montados em grande escala, tornando-se a produção de rolhas de cortiça a principal fonte de rendimento e comércio.
Actualmente a cortiça é usada para a produção de diferentes materiais. Para além das rolhas, é utilizada para isolamento, pavimentos, carteiras, sapatos, roupas, mobiliário e um manancial de outros produtos. 
Para podermos ter uma pequena ideia do que é necessário para obter cortiça, aqui fica um pequeno filme de 1960 sobre todo processo de produção deste fabuloso material.




Fonte: APCOR - Associação Portuguesa de Cortiça

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A luta pelas calças

Eu adoro calças! Aliás grande parte do meu guarda-roupa é composto por calças, de diferentes feitios, cores e tecidos. Práticas, fáceis de usar, permitem uma liberdade de movimentos, que dificilmente se conseguiria usando vestidos ou saias. De uso generalizado, as calças são uma peça de vestuário indispensável nos dias de hoje. Mas esta simples peça de tecido que recobre cada uma das pernas da linha da cintura até ao calcanhar, deu muito que falar no inicio do século XX. As calças foram durante muito tempo um privilégio exclusivo do homem ocidental, já que em muitas outras civilizações as mulheres já usavam calças desde há muitos séculos. 

Exemplos disso são as amazonas, mulheres guerreiras retratadas na mitologia grega, que usavam calças como única indumentária. Nas Crónicas de Viagem  - franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo 1245-1330, podemos ler o seguinte: A Caldéia, tem a sua língua própria, e nela os homens são bonitos, mas as mulheres são feias. (...) as mulheres andam descalças e vestem calças até ao chão. Nesta cidade vi muitas outras coisas, que não é preciso narrar! Na época Vitoriana, em Inglaterra, as mineiras de Wigan (cidade do Norte de Inglaterra), escandalizaram a sociedade britânica ao usarem calças por baixo das saias, que enrolavam à cintura enquanto trabalhavam. Com a industrialização, as mulheres trabalhadoras começaram a usar calças mas apenas e só como indumentária de trabalho. 

As primeiras calças desenhadas para o sexo feminino surgiram em 1909, quando o francês Paul Poiret, desenhou as jupe-coulottes (saia-calção) precursoras das calças femininas. A nova peça de roupa desencadeou severas criticas por todo o mundo ocidental. Uns indignavam-se pela forma como o tecido aderia ao corpo da mulher, outros diziam que tornava demasiado visíveis as formas femininas e outros ainda defendiam que era um autêntico atentado ao decoro. Em diferentes jornais de 1911, saíram as seguintes notícias: LISBOA -  apareceram ontem à tarde nas ruas mais frequentadas da capital, muitas senhoras trajando a nova moda de saia-calção. Por toda a parte essas senhoras foram vitimas de troças, as quais degeneraram em tremenda vaia. As senhoras de saia-calção foram obrigadas a refugiar-se em casas de amigas; ROMA - o Telegraph de Turim diz que uma senhorita que tentou sair a passeio vestida de jupe-coulotte, o novo traje que aqui denominam também de harém, foi corrida por muitos populares, que a vaiaram e perseguiram, injuriando-a. A malfadada foi obrigada a refugiar-se numa casa de família, de onde mandou buscar ao seu domicilio os trajes usuais; NOVA IORQUE - Nas avenidas Quinta e Broadway apareceram ontem diversas mulheres modelos vestindo jupe-coulottes. Os transeuntes acolheram-nas com pouca curiosidade. 
A indignação popular foi de tal ordem que até as lojas que exibiam nos seus manequins a nova peça de roupa, eram alvo de ruidosas manifestações.
Coco Chanel foi a grande responsável pela introdução das calças na indumentária feminina. Criadora de um estilo de moda muito próprio e arrojado para a época, libertou a moda feminina de muitos preconceitos e limitações. A primeira mulher a usar publica e orgulhosamente um par de calças clássicas foi a actriz Marlene Dietrich nos anos 30 do século passado, numa cena do filme Morroco, onde contracena com Gary Cooper. A pouco e pouco a mentalidade foi mudando e as calças foram ganhando o seu terreno na moda feminina, chegando mesmo a servir de tema para pequenas anedotas como a que foi publicada numa Revista de moda e que descreve uma conversa entre dois homens: 
- Mas então quem é que manda? Quem usa calças em tua casa não és tu? 
- Qual meu amigo! Hoje todos usam calças...até a minha sogra!
Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres realizaram muitos trabalhos   até então desenvolvidos pelos homens, onde o uniforme de trabalho eram as calças, tendo-se assim vulgarizado o seu uso pelo sexo feminino. As calças passaram a poder a ser utilizadas livremente e sem receio pelas mulheres, fazendo parte do seu quotidiano. Para trabalho ou para lazer, como traje de cerimónia ou de passeio, o pedaço de tecido que recobre as pernas deixou de ser de uso exclusivo dos homens e passou a ser de uso universal.  De boca de sino, de cinta subida ou descida, elásticas, de ganga ou de tecido, com pregas ou sem elas, é vê-las nas pernas de toda a gente. Já ninguém se lembra quando veste umas calças,  por todos os insultos e perseguições por que passaram todas aquelas mulheres que lutaram contra os preconceitos e as imposições religiosas do inicio do século XX. O simples acto de vestir umas calças serve de homenagem a todas elas, e um incentivo a todas aquelas que ainda hoje em pleno século XXI se vêm impedidas de vestirem livremente aquilo que querem e de que gostam. É inadmissível que alguém, homem ou mulher,  seja preso e sujeito a dez chicotadas por vestir uma peça de roupa, como sucedeu a uma jornalista sudanesa apenas por estar de calças. A liberdade é um direito inalienável e não pode haver politica, religião ou crenças e preconceitos absurdos, que impeçam cada um de exercer o seu direito de viver livremente e de se expressar quer por palavras, quer por acções ou simplesmente pela forma de vestir. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância (Simone de Beauvoir).