sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Vira do Minho


O Vira é a dança rainha do Minho, e faz parte do folclore português. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando fora ou virou. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia.Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido. Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares,  ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros. Viana é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única. Chegamos à região de Braga e logo nos surge o  vira galego, despido da opulência primitiva, como o caracterizou, Pedro Homem de Mello (Semibreves, Música Tradicional Portuguesa). Neste pequeno filme da autoria de Michel Giacommeti, datado de 1970, podemos ver o famoso Vira do Minho dançado na sua forma mais rústica, onde as personagens principais são populares que se juntaram para o dançar. Sem vistosos trajes característicos, mas com a roupa de trabalho, sem grande organização mas com a beleza da simplicidade, este filme transmite-nos como teria sido dançado no passado o Vira do Minho. Tomaz Ribas, escritor, etnólogo e crítico de teatro português, considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau de Amores, em 1527, onde o dava como uma dança do Minho.


Nota: Imagem de Dom Paio Global

domingo, 23 de setembro de 2012

Viriato:O Herói Lusitano


Se a alma que sente e faz conhece,
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu. 
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste,
Assim se Portugal formou.

Assim era Viriato nas palavras do grande poeta português Fernando Pessoa, no seu livro a Mensagem. Herói lusitano do imaginário português, Viriato tornou-se uma personagem épica pela sua heróica resistência ao domínio e ao Império Romano. Muito se tem escrito sobre este homem que viveu na Lusitânia, mas muito pouco se sabe ao certo. O seu nome, Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura da palavra celta viriola (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade)Viriato é originário da Lusitânia Ocidental, que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela (Mons Herminius), que domina a região situada entre o Tejo e o Douro (Adolf Schulten, arqueólogo, historiador e filólogo alemão do século XIX)

Pouco se sabe da vida de Viriato: não se conhece o nome dos pais, nem tão pouco o seu ano de nascimento. Estima-se que tenha nascido por volta do ano 170 a 190 aC. Apesar de imortalizado por Brás Garcia Mascarenhas, (militar e poeta português do século XVI) na sua ode Viriato Trágico como um simples pastor, Viriato pertencia a um dos clãs aristocráticos dos Lusitanos, e não era um simples guardador de rebanhos, antes proprietário de cabeças de gado (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade). Fez-se bandoleiro, pertencente a Confrarias de Guerreiros, que saqueavam as regiões mais ricas das planícies do Sul. Nesta vida andava Viriato, quando o pretor romano Galba, furioso pelas derrotas que os lusitanos haviam imposto às legiões romanas (...) fingiu (...) sinceros desejos de paz, oferecendo-lhes férteis campos da Betica (actual Andaluzia) (...) muito superiores aos ásperos montes em que viviam. (...) Eles o julgaram sincero e em grande número se apresentaram desarmados nos lugares que haviam sido designados para concluir a proposta da convenção. Porém o traidor Galba, cercando-os com as legiões que tinha ocultas, os fez barbaramente acometer a assassinar (Archivo Popular, nº 20 de 12 de Agosto de 1836). Mais de 9.000 lusitanos foram mortos,  20.000 escravizados e enviados para a Gália e apenas cerca de 1.000 lusitanos sobreviveram. Entre eles encontrava-se Viriato. Conhecedor das técnicas de batalha dos romanos, dos anos de guerrilhas que com eles tinha travado, reuniu os sobreviventes do massacre, e começou por introduzir nos lusitanos a ordem e a disciplina, formando um exército. 
Conquistando progressivamente zonas como Segóbriga, Mancha e a Bética, tornou-se uma preocupação para os Romanos a partir de 143 a.C. Um dos combates mais importantes que travou contra as forças romanas foi o de Erisane (situada no sul da Andaluzia) onde em 141 aC. conseguiu fazer um cerco ao exército romano liderado por Fábio Máximo Serviliano. Este confronto foi decisivo por marcar o fim da resistência armada oposta a Roma, tendo Viriato obrigado Roma a um acordo com o Senado romano, onde os Lusitanos viam a sua independência reconhecida, passando Viriato a possuir o estatuto de amigo do povo romanoO seu casamento com a única filha de Astolpas, um grande proprietário da Bética, por quem se apaixonou, demonstra bem o carácter simples e despojado de Viriato. Apareceu vestido de guerreiro com a sua lança na mão, e durante o banquete recusou os manjares que lhe ofereceram. Não se banhou e não ocupou o seu lugar à mesa, criticando a ostentação do sogro. Embora a mesa estivesse repleta de manjares requintados e de todo o tipo de comidas, apenas tirou pão e carne e repartiu-os entre aqueles que tinham viajado com ele. Depois tirou alguma comida para si e ordenou-lhes que fossem buscar a noiva (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade).

Estrabão definiu a Lusitânia de Viriato como a mais poderosa das nações da Península Ibérica, a que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas. Viriato conseguiu não apenas a unificação  dos diferentes clãs lusitanos mas também comandar tranquilamente, sem cisões internas, durante oito a dez anos. Diodoro da Sicília, historiador e filósofo grego do século I a.C, afirmou que enquanto ele comandava, ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele. 
No entanto Roma não esqueceu o vexame que tinha sofrido às mãos de uns quantos bárbaros lusitanos, pelo que anula o tratado firmado e declara novamente guerra à Lusitânia. Roma envia novo general, de nome Servílio Cipião, para reiniciar os combates. Viriato, com a maior parte do seu exército já desmobilizado e com poucos meios de defesa, vê-se obrigado a recorrer a um novo tratado de paz. Envia três guerreiros de sua confiança, de nomes Audas, Ditalco e Minuros, para negociarem o acordo. Cipião recorre ao suborno dos companheiros de Viriato, que em troca de dinheiro e terras, assassinaram o seu chefe enquanto dormia.  Viriato perdeu a vida e os lusitanos perderam o seu grande líder e o seu sonho de liberdade. Roma, a super potência da época, que se intitulava arauto da civilização, venceu de forma inglória e apenas recorrendo à traição. Depois da morte de Viriato,  Roma rapidamente os subjugou ao seu poder e a Lusitânia de Viriato curvou-se ao domínio do império Romano. Viriato tornou-se um herói, imagem de liberdade e de respeito pela diferença. Líder justo, de simples costumes, de personalidade forte e carismática, corajoso e defensor da liberdade foi cantado e homenageado durante séculos. Chegaram até nós vários poemas que a ele se referem, como este de Brás Garcia de Mascarenhas:

Canto um Pastor, amores, e armas canto,
Canto o raio do monte, e da campanha,
Terror da Itália, e do mundo espanto,
Glória de Portugal, honra de Espanha:
Triunfante da Águia, que triunfando tanto,
Tanto a seus raios tímida se acanha,
Que à traição, só dormindo, o viu rendido,
Porque desperto nunca foi vencido.

Também Luís de Camõeso homenageou nos Lusíadas:

Este que vês, pastor já foi de gado
Viriato sabemos que se chama
Destro na lança mais que no cajado
Injuriada tem de Roma a fama.

Numa época que perdeu o valor da tradição épica como estruturante da identidade dos seus povos, importa relembrar a memória e o exemplo dos principais autores da sua História. (...) Se perdemos a consciência da nossa identidade colectiva, como podemos reivindicar o que quer que seja, como podemos reescrever a nossa História, como podemos edificar o futuro? (António Manuel de Andrade Moniz  in Viriato, herói lusitano: o épico e o trágico).
Pena é que tão poucos Viriatos existam...


domingo, 16 de setembro de 2012

O Dono do Mundo

Numa época de crise como aquela que estamos actualmente a passar, falamos essencialmente de uma coisa: dinheiro! O vil metal está no centro das atenções e é a causa de todos os problemas. Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente (William Shakespeare)De facto somos controlados por este velho senhor de nome Dinheiro, e como disse Thomas Fuller, clérigo e historiador inglês do século XVII, o dinheiro é o único monarca. Tal como qualquer outro monarca reinante que se preze, o nosso distinto governante virtual, foi adquirindo diversos nomes e alcunhas ao longo dos tempos. O seu nome de baptismo é curto, apenas Dinheiro, mas os seus sobrenomes e cognomes são tantos, que não há família real que consiga ombreá-lo. 

Cacau - corresponde a um dito usado com outros vocábulos: Aquilo com que se compra o cacau

Carcanhol - pensa-se que está relacionada com carcanhão, que é um nome dado à ostra, que por ser muito apreciada, se tornou muito valiosa.

Chapa - o dinheiro (moedas ou notas) é feito recorrendo a chapas que servem para a respectiva impressão

Chavo e Cheta - correspondem a antigas moedas de cobre


Baga, Caroço ou Grana - correspondem a sementes que produzirão novos frutos, tal como o dinheiro quando é bem gerido

Graveto - pequeno ramo de madeira usado para acender o fogo, fazendo referência à importância e valor do fogo no passado

Guita ou Guito - podem estar relacionadas com o cordel com que os feirantes   atavam as notas

Massa ou Pasta - referência à matéria com a qual se faz o pão e à argamassa com a qual se cobrem as paredes. Também o dinheiro nos permite comprar o pão ou pagar os materiais e os trabalhadores que nos fazem as casas

Nota ou  Papel - referência à própria forma do dinheiro quando imprimida em papel

Pataca - antiga moeda brasileira de prata que valia 320 réis, emitida pelo governo de portugal até ao século XIX. O nome pataca deriva-se da moeda de prata de oito reais mexicana. A pataca é actualmente a moeda oficial de Macau.

Paus - uma possível referência à valiosa madeira de Pau-preto, que durante a época de colonização serviu como moeda de troca em muitas transacções comerciais. 

Pilim - uma onomatopeia porque lembra o tilintar das moedas

Tusto - provavelmente um deturpação da palavra tostão, moeda de ouro cunhada pela primeira vez no reinado de D. Manuel I, equivalente a 1.200 réis

Vintém - antiga moeda brasileira de 20 réis

Detentor de um grande poder a sua fama ultrapassa fronteiras. O grande poeta Manuel Bocage definiu-o assim: 

Faço a paz, sustento a guerra
Agrado a doutos e a rudes, 
Gero vícios e virtudes,
Torço as leis,
Domino a Terra

Oscar Wilde afirmou quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza! E eu também!


Nota: Muitas das explicações dadas foram retiradas de Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (http://www.ciberduvidas.pt)
Foto de CLARICE COPPETTI

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Informação

Todos os dias somos bombardeados com noticias do mundo que nos entram pela casa dentro quase sem pedir licença. A rádio, a televisão, as redes sociais, as revistas e os jornais são o veiculo de propagação de informação. A avalanche de informação a que todos os dias estamos sujeitos é de tal forma avassaladora que já não procuramos a informação, fugimos dela. É difícil no mundo actual estarmos sem noticias. Tudo é noticia e tudo é global. O mundo tornou-se pequeno e quase que sabemos o facto antes dele acontecer! Mas a informação nem sempre foi tão fácil de obter. 

A primeira publicação regular que se tem conhecimento surgiu no século I, quando o Imperador Augusto instituiu a colocação no Forum Romano da Acta Diurna. Esta publicação, que inicialmente apenas enumerava as listagens de eventos ditados pelo Imperador era gravada em pequenas tábuas de pedra, foi instituída por Júlio César no ano 59 aC. Mas foi com Augusto que se tornou periódica e começou a divulgar diversas notícias sobre feitos militares, factos sociais, obituários e outros acontecimentos importantes. A Acta Diurna era afixada em locais públicos para ser lida por todos. No entanto o primeiro jornal em papel surgiu apenas no ano de 713 dC como panfleto manuscrito em Pequim, com o nome de Notícias Diversas. Na Idade Média eram comuns nas grandes cidades, as folhas escritas com noticias comerciais e económicas que eram distribuídas nos meios burgueses. Na cidade de Veneza estas folhas eram vendidas ao preço de uma gazzeta, a moeda local. Daqui teve origem o nome Gazeta, nome adoptado por muitos jornais publicados na Idade Média e que chegou até nós fazendo ainda parte do nome de muitos periódicos contemporâneos. 
A primeira publicação impressa regularmente surgiu em 1602, na cidade holandesa de Antuérpia, com o nome de Nieuwe Tijdinghen e tinha periodicidade semanal. Em 1621 surge em Londres o primeiro jornal de língua inglesa com o nome The Corante. Em 1638, também em Londres o Weekly News torna-se no primeiro jornal a publicar noticias internacionais, tendo sido logo seguido pelo jornal francês La Gazette, que tinha iniciado a sua publicação a 31 de Maio de 1631. Todos estes jornais tinham periodicidade semanal, quinzenal ou mesmo mensal. Só em 1650 surge o primeiro jornal diário com o nome de Einkommende Zeitungen (Notícias Recebidas) fundado na cidade alemã de Leipzig. O poder da informação foi crescendo e com ele o número de jornais publicados. Nos séculos XVIII e XIX as publicações impressas aumentaram exponencialmente e jornais como o inglês The Times (que começou a circular em 1785 com o nome de The Daily Universal Register), tornaram-se ícones da informação. 


Em Portugal o primeiro periódico impresso surgiu em 1641 e tinha como nome Gazeta em que se relatam as novas todas, que houve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de Novembro de 1641, com todas as licenças necessárias, também denominada Gazeta da RestauraçãoO seu objectivo era dar notícia dos acontecimentos da guerra com Espanha e da aclamação de D. João IV como Rei de Portugal, procurando igualmente auxiliar a consolidação da independência (Biblioteca Nacional). Em Janeiro de 1663 surge o primeiro periódico político português em Lisboa com o nome de Mercúrio Português, tendo desaparecido em 1667 A designação de mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, evocando o simbolismo do mensageiro dos deuses. Segundo os estudiosos da imprensa periódica, havia diferenças claras entre os mercúrios e as gazetas, apresentando estas últimas um carácter mais noticioso (Biblioteca Nacional). Mas foi só no dia 19 de Agosto de 1715 que o primeiro jornal oficial português inicia a sua publicação com o título de Noticias do Estado do Mundo, cujo redactor foi José Freire de Monterroio Mascarenhas. No entanto o segundo número publicado a 17 de Agosto já surge com o nome com que ficaria conhecido: a Gazeta de Lisboa,  título que se mantém até ao ano 1833 (com algumas alterações de nome pontuais ao longo dos anos). Com a Revolução Liberal no século XIX a imprensa em Portugal desenvolve-se rapidamente e novos periódicos começam a aparecer. A 18 de Abril de 1835 na Ilha de São Miguel  surge o diário Açoriano Oriental, que é o jornal mais antigo do país e o segundo mais antigo da Europa, só suplantado pelo sueco Post-och Inrikes Tidningar que surgiu em 1645. Grandes nomes do jornalismo português surgem no século XIX: O Comércio do Porto em 1854; o Diário de Notícias em 1864 (o primeiro jornal a ter pequenos anúncios, que lhe permitiu ser vendido a menor preço); o Primeiro de Janeiro em 1869; o Século em 1881 e o Jornal de Notícias em 1888. A informação tornava-se acessível a todos e as notícias circulavam rapidamente. 

O século XX tornou a informação ainda mais rápida e com o desenvolvimento de novas tecnologias a noticia impressa foi sendo suplantada pela noticia dada pelos meios audiovisuais. Os jornais, antigos senhores da informação, viram-se ameaçados pela facilidade da divulgação da informação pela televisão e rádios. No século XXI as redes sociais tornaram-se rainhas da comunicação. De pedras impressas, em pouco mais de dois mil anos, passamos a computadores portáteis, Ipads e Tablets onde temos o mundo à distancia de um dedo. A evolução foi fabulosa e o génio humano fantástico. Pena é que a qualidade da informação não tenha acompanhado a qualidade da sua propagação.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A estrela guia

Sentada sob um fantástico céu nocturno galego, dou por mim a olhar encantada para os cachos de estrelas resplandecentes que brilham ininterruptamente. Há quanto tempo não via tanta estrela no céu...as luzes das grandes cidades ofuscam o brilho das estrelas e impedem-nos de observar um dos mais belos cenários naturais: o céu estrelado. Lembrei-me de Van Gogh que afirmava que quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas. Olhar o céu nocturno é um espectáculo natural deslumbrante capaz de ultrapassar as mais belas pinturas e esculturas artísticas expostas pelos museus de todo o mundo. É de graça, não tem limite de entradas e pode ser visto em qualquer lugar do planeta e no entanto poucos são aqueles que a ele assistem. Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela (Bob Marley). Não olhamos para o nosso céu e não conhecemos as nossas estrelas. São tantas que me perco ao tentar inumerá-las.

Consigo identificar algumas constelações de estrelas pelo seu formato:  a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Cassiopeia e Estrela Polar e poucas mais. Estas grandes e luminosas esferas de plasma, tiveram durante séculos uma enorme importância para todas as civilizações em todo o mundo, como método de orientação. 

Em 1979 na região  do Vale de Ach (região alemã do Danúbio) foi encontrada uma imagem gravada num bloco de marfim, que reproduz a constelação de Orion, com cerca de 32 mil anos. Mas são imensos os registos pré-históricos que comprovam que a observação das estrelas é uma actividade antiga: pinturas rupestres, gravações em pedra, túmulos, artefactos e construções megalíticas. O homem desde sempre utilizou as suas estrelas e com elas conviveu, às vezes adorando-as, outras vezes temendo-as. Com o passar do tempo e através da capacidade de observação o homem percebeu que poderia utilizar as estrelas para sua orientação em viagens terrestres e marítimas. O mais antigo mapa estelar datado do ano 1534 aC, foi encontrado no antigo Egipto. O primeiro catálogo de estrelas foi elaborado pelos astrónomos gregos Aristilo e Timocrates, aproximadamente no ano 300 aC. 

Mas à medida que as civilizações foram evoluindo, com  a descoberta de sistemas de navegação mais complexos e elaborados, deixamos de olhar para cima e passamos a olhar para a frente. As estrelas passaram a ficar lá no cimo e apenas esporadicamente lhes damos uma olhadela rápida. Nietzsche afirmava que  enquanto sentires as estrelas como algo que está por cima de ti não possuis ainda o olhar do homem que sabe. E de facto assim é. As estrelas contam-nos histórias ancestrais e enviam-nos a sua luz carregada de passado. Os telescópios potentes que actualmente conhecemos permitem-nos ver a luz emitida por estrelas que muitas vezes já não existem, mas que mesmo assim nos enviam a sua história através do espaço. Só temos que saber ouvir e saber observar. A nossa história está a ser contada repetidamente em cada estrela que cintila no céu. Somos todos feitos do mesmo pó de estrelas (Carl Sagan) e quem sabe se a nossa tão procurada imortalidade não está na simples capacidade de saber observar uma estrela. Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna (Deepak Chopra, professor e escritor indiano).
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Sininho

Sininho é nome de fada do cinema infantil, mas para mim era o nome da minha amiguinha de quatro patas que durante 15 anos partilhou o meu espaço, a minha vida, as minhas alegrias e as minhas tristezas. De grandes  e expressivos olhos verdes, de focinho redondo e com um ronrom que transmitia todo o carinho que por nós tinha, pêlo longo e malhado, passeou pela minha vida e pela vida do meu marido ao longo da última quinzena de anos. Amiga mas traquina, carinhosa e arisca, a minha gata Sininho fazia parte de mim. 
Agora partiu e deixou um vazio que vai custar muito a passar...a sua presença constante, o estar sempre ali, a rotina de tratar dela, de a sentir sempre "em cima" de mim quando estava ao computador, no sofá a ver televisão, na cama a dormir, ou a passar aos ziguezagues pelas minhas pernas quando estava na cozinha, tudo isto desapareceu...vou ter saudades da minha fada de quatro patas, a minha amiga que não falava, mas que miava de maneiras tão diferentes e tão expressivas que eu sabia bem o que ela queria transmitir. A casa ficou muito vazia, mas nós ficamos mais. Partiu ao meu colo e a receber as nossas festas de agradecimento pela alegria que nos proporcionou ao longo da sua vida. Obrigada Sininho, por teres partilhado connosco a tua vida. 
Sei que este post não se coaduna com o espírito do blogue, mas hoje não podia escrever mais nada, nem falar de nenhum outro assunto. Há dias assim...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O último rei português

Portugal é uma República desde o dia 5 de Outubro de 1910. No entanto durante 771 anos, o nosso país foi um reino - o Reino de Portugal. Mais de sete séculos de história, que tiveram como protagonistas 35 Reis e 4 Dinastias. O último monarca português, nasceu a 5 de Novembro de 1889 no Palácio de Belém em Lisboa, filho de D. Carlos I e de D. Amélia. Baptizado com o nome de Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha, ficou conhecido por D. Manuel II. Passou à história com os cognomes: O Patriota, pela preocupação que os assuntos pátrios sempre lhe causaram; O Desventurado, em virtude da Revolução que lhe retirou a coroa; O Estudioso ou o Bibliófilo (devido ao seu amor pelos livros antigos e pela literatura portuguesa). Iniciou o seu reinado no dia 1 de Fevereiro de 1908, após o regicídio, que terminou quando partiu para um exílio forçado em Inglaterra no dia da implantação da República. As suas últimas palavras em solo português foram: Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar no iate Real Amélia. Sou português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer. VIVA PORTUGAL!
A 4 de Setembro de 1913, casa com D. Augusta Vitória, princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, permanecendo o rei D.Manuel de pé durante toda a cerimónia, que foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, sobre terra trazida de Portugal. Morreu subitamente no dia 2 de Julho de 1932, com 42 anos, na sua residência em Twickenham, Inglaterra, por edema da glote, sem descendência. O último rei de Portugal está sepultado no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.
Churchil conviveu de perto com D. Manuel II, e referindo-se a ele afirmou: Eis um jovem rei inteligente e dinâmico. Não consigo entender os portugueses, que cometeram um erro muito grave, que lhes pode sair muito caro nos anos vindouros.
D. Manuel II, aqui num pequeno filme sem som, fica para a história como o último rei de Portugal!




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lisboa no inicio do século XX


Digo:
Lisboa
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como
Se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo
Da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver                        
(Sophia de Mello Breyner)



Para relembrar uma Lisboa já passada, uma Lisboa do início do século XX, este filme com uma fantástica sucessão de fotografias antigas, mostra-nos com uma espantosa realidade o que foi a vida na capital de Portugal no inicio do século passado. Pessoas, paisagens, edifícios e ambientes recriados nesta sucessão de imagens. Uma encantadora viagem ao passado...




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Santos dos nossos dias


Não há dia que não tenha o nome de um santo qualquer. Se olharmos para as agendas antigas, a seguir à designação do dia aparece o nome de um santo, que a Igreja Católica achou por bem homenagear. Cada dia, cada santo. Existem por isso pelos menos 366 santos contabilizados pela Igreja dos católicos, já que os anos bissextos têm esse número de dias. Foi a Santo Osvaldo que calhou a sina de só ser homenageado de 4 em 4 anos, já que o dia de seu nome é 29 de Fevereiro. De origem dinamarquesa foi cónego de Winchester e arcebispo de York, descrito pelos seus pares como homem generoso, inteligente e um estudioso. Não descobri a causa da sua santidade, talvez por isso só seja lembrado de 4 em 4 anos...
Mas os nomes dos santos que mais facilmente identificamos, são aqueles que estão associados a dias festivos. São João, São Pedro e Santo António são nossos velhos conhecidos. Mas e São Valentim do dia dos Namorados e São Nicolau associado ao Pai Natal? O que sabemos destes santos? Que tradições e histórias estão por detrás dos homens?


São Valentim - sacerdote cristão do século III, viveu em Roma e foi contemporâneo do Imperador Cláudio II, cujo objectivo era constituir o maior exército possível, para manter a hegemonia dos romanos sobre o resto do mundo. Para levar a cabo tal façanha proibiu os casamentos entre os jovens romanos de forma a que estes se alistassem com maior facilidade e diminuísse o número de abandonos do exército. O sacerdote Valentim não acatou a ordem imperial e continuou a celebrar casamentos em segredo. Quando foi descoberto foi preso e condenado à morte. Durante o tempo do seu encarceramento, recebia flores e bilhetes com mensagens sobre a importância do amor. Diz a lenda que se apaixonou pela filha do carcereiro, de nome Astérias. Antes de morrer escreveu uma carta à sua apaixonada assinando no fim de seu Valentim, expressão ainda hoje utilizada pelos casais enamorados. Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro do ano 270, dia em que se celebra o dia dos Namorados.
No entanto este dia era para os pagãos a véspera do festival de lupercalia (de lupus que significa lobo, que reporta à lenda de Rómulo e Rémulo) festa anual celebrada na Roma antiga, em honra de Juno, deusa do matrimónio e de Pan, deus da natureza. Na Idade Média, o dia 14 de Fevereiro era  considerado o primeiro dia de acasalamento dos pássaros, e era tradição os apaixonados deixarem mensagens de amor na soleira da porta da pessoa amada. Actualmente o dia é celebrado um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Uma tradição com séculos de história.


São Nicolau - o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, nasceu por volta do ano 270 em Patara, capital da antiga Lícia (actual Turquia) filho de pais nobres. Quando os pais morreram distribuiu a sua fortuna pelos mais carenciados. Foi consagrado Bispo de Mira (actual Turquia) ainda muito jovem e desenvolveu a sua actividade apostólica na Palestina e no Egipto. Foi preso durante o reinado do Imperador Diocleciano que moveu uma perseguição aos cristãos, tendo sido libertado durante o reinado do Imperador Constantino. São-lhe atribuídos muitos milagres sendo considerado protector dos marinheiros, dos mercadores, dos estudantes e especialmente das crianças. Conta a lenda que gastou parte da sua herança de família a distribuir presentes pelas crianças mais carenciadas. Morreu a 6 de Dezembro do ano 342. Nesse dia, já na Idade Média era costume nos países nórdicos,  os criados da famílias mais abastadas, deixarem pequenos presentes às crianças em honra de São Nicolau. Foi também nestes países que se desenvolveu a tradição de deixar sapatinhos junto às lareiras para que o santo, também chamado de Velho Pai, pudesse deixar os presentes destinados às crianças. Esta tradição e o culto a São Nicolau espalharam-se por toda a Europa. Após a reforma da Igreja, os países que professaram o Protestantismo abandonaram esta tradição, passando a venerarem o Christkind (Menino Jesus) como aquele que oferecia as prendas às crianças no seu próprio dia de nascimento ou de Natal, o dia 25 de Dezembro. 


Mas a lenda de São Nicolau prevaleceu passando o Velho Pai a ser designado como Pai Natal, Père Noel ou Father Christmas, passando também a ser festejado no dia 25 de Dezembro. Apenas na Holanda se manteve a designação de Sinterklaas que significa São Nicolau. Pensa-se que foram emigrantes holandeses que levaram a tradição do culto a São Nicolau para os Estados Unidos da América no século XVII, onde Sinterklaas deu origem a Santa Claus, nome pelo qual ainda hoje é chamado o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho e que distribui as prendas na véspera de Natal. A  figura do Pai Natal ou de Santa Claus, como actualmente a conhecemos, é da autoria de um americano de nome Thomas Nast, cuja ilustração foi pela primeira vez publicada no jornal Harper's Weekly em 1866. Mas foi com uma campanha publicitária da famosa bebida americana Coca-Cola, em 1931, que o simpático velhinho passou a ser reconhecido mundialmente como o famoso Pai Natal.

Ao longo dos séculos as tradições foram-se mantendo, passando de geração em geração. Com o nome de São Nicolau, Santa Claus ou Pai Natal, o que importa é que a fantasia e o sonho se mantenham vivos no imaginário de todos, quer sejam crianças ou adultos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A famosa casca do sobreiro

O sobreiro (Quercus Suber) é uma árvore muito comum em Portugal, com grande prevalência a sul do Tejo. Os montados, que são plantações de sobreiros, subsistem apenas nas regiões do Mediterrâneo: Argélia, Marrocos, França, Itália e sobretudo nas regiões do sul da Península Ibérica. Portugal é o país com maior extensão de sobreiros do Mundo, sendo responsável por cerca de 50% da produção mundial de cortiça. Esta espantosa árvore, de porte mediano, tronco tortuoso e folhas permanentes, com 15-20 metros de altura (...) é revestida por uma casca acinzentada, algo enegrecida, espessa e fendida denominada cortiça (Plantar Portugal)De grande longevidade (pode viver em média 150 a 200 anos) e com uma enorme capacidade de regeneração, permite cerca de 16 descortiçamentos ao longo da sua existência. São precisos 25 anos para um tronco de sobreiro começar a produzir cortiça. No primeiro descortiçamento, chamado desbóia, obtém-se uma cortiça muito irregular e dura sendo difícil de trabalhar, a chamada cortiça virgem, sendo utilizada para pavimentos e material de isolamento; só nove anos depois se pode fazer novo descortiçamento, e aí obtém-se a chamada cortiça secundeira, menos dura, mas ainda imprópria para a confecção de rolhas e outros materiais; só no terceiro descortiçamento é que se obtém a cortiça amadia ou de reprodução, regular e lisa, fácil de trabalhar. A técnica de extracção, conservação e transformação da cortiça implica um saber ancestral. 
A cortiça já era utilizada na China, no Egipto, na Babilónia e na Pérsia  no ano 3000 aC, para fabrico de utensilios ligados à pesca. Em Itália, foram encontradas bóias, tampas para tonéis, sapatos de mulher e telhados de casas, datados do século IV aC. A primeira referência escrita ao sobreiro data desta época. O filósofo grego Teofrasto, nos seus tratados sobre botânica descreve maravilhado a faculdade que esta árvore possui em renovar a casca quando lhe é retirada. Foram também encontradas ânforas cheias de vinho com rolhas de cortiça, em Éfeso no século I aC. Em 1209, Portugal tornou-se no primeiro país a desenvolver legislação ambiental para protecção dos montados. Durante a época dos descobrimentos, as naus portuguesas utilizavam a madeira de sobreiro nas zonas mais expostas à intempérie, já que os construtores diziam que a madeira do sôvaro (era assim denominado o sobreiro) era o que havia de melhor para o liame das naus: além de muito resistente, nunca apodrecia. No século XVIII, um monge francês de nome D. Pierre Pérignon, começou a usar a cortiça para vedar as garrafas do seu famoso champanhe, costume que ainda hoje se mantém. Mas foi só a partir do século XVIII que na Península Ibérica se iniciou a exploração dos montados em grande escala, tornando-se a produção de rolhas de cortiça a principal fonte de rendimento e comércio.
Actualmente a cortiça é usada para a produção de diferentes materiais. Para além das rolhas, é utilizada para isolamento, pavimentos, carteiras, sapatos, roupas, mobiliário e um manancial de outros produtos. 
Para podermos ter uma pequena ideia do que é necessário para obter cortiça, aqui fica um pequeno filme de 1960 sobre todo processo de produção deste fabuloso material.




Fonte: APCOR - Associação Portuguesa de Cortiça

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A luta pelas calças

Eu adoro calças! Aliás grande parte do meu guarda-roupa é composto por calças, de diferentes feitios, cores e tecidos. Práticas, fáceis de usar, permitem uma liberdade de movimentos, que dificilmente se conseguiria usando vestidos ou saias. De uso generalizado, as calças são uma peça de vestuário indispensável nos dias de hoje. Mas esta simples peça de tecido que recobre cada uma das pernas da linha da cintura até ao calcanhar, deu muito que falar no inicio do século XX. As calças foram durante muito tempo um privilégio exclusivo do homem ocidental, já que em muitas outras civilizações as mulheres já usavam calças desde há muitos séculos. 

Exemplos disso são as amazonas, mulheres guerreiras retratadas na mitologia grega, que usavam calças como única indumentária. Nas Crónicas de Viagem  - franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo 1245-1330, podemos ler o seguinte: A Caldéia, tem a sua língua própria, e nela os homens são bonitos, mas as mulheres são feias. (...) as mulheres andam descalças e vestem calças até ao chão. Nesta cidade vi muitas outras coisas, que não é preciso narrar! Na época Vitoriana, em Inglaterra, as mineiras de Wigan (cidade do Norte de Inglaterra), escandalizaram a sociedade britânica ao usarem calças por baixo das saias, que enrolavam à cintura enquanto trabalhavam. Com a industrialização, as mulheres trabalhadoras começaram a usar calças mas apenas e só como indumentária de trabalho. 

As primeiras calças desenhadas para o sexo feminino surgiram em 1909, quando o francês Paul Poiret, desenhou as jupe-coulottes (saia-calção) precursoras das calças femininas. A nova peça de roupa desencadeou severas criticas por todo o mundo ocidental. Uns indignavam-se pela forma como o tecido aderia ao corpo da mulher, outros diziam que tornava demasiado visíveis as formas femininas e outros ainda defendiam que era um autêntico atentado ao decoro. Em diferentes jornais de 1911, saíram as seguintes notícias: LISBOA -  apareceram ontem à tarde nas ruas mais frequentadas da capital, muitas senhoras trajando a nova moda de saia-calção. Por toda a parte essas senhoras foram vitimas de troças, as quais degeneraram em tremenda vaia. As senhoras de saia-calção foram obrigadas a refugiar-se em casas de amigas; ROMA - o Telegraph de Turim diz que uma senhorita que tentou sair a passeio vestida de jupe-coulotte, o novo traje que aqui denominam também de harém, foi corrida por muitos populares, que a vaiaram e perseguiram, injuriando-a. A malfadada foi obrigada a refugiar-se numa casa de família, de onde mandou buscar ao seu domicilio os trajes usuais; NOVA IORQUE - Nas avenidas Quinta e Broadway apareceram ontem diversas mulheres modelos vestindo jupe-coulottes. Os transeuntes acolheram-nas com pouca curiosidade. 
A indignação popular foi de tal ordem que até as lojas que exibiam nos seus manequins a nova peça de roupa, eram alvo de ruidosas manifestações.
Coco Chanel foi a grande responsável pela introdução das calças na indumentária feminina. Criadora de um estilo de moda muito próprio e arrojado para a época, libertou a moda feminina de muitos preconceitos e limitações. A primeira mulher a usar publica e orgulhosamente um par de calças clássicas foi a actriz Marlene Dietrich nos anos 30 do século passado, numa cena do filme Morroco, onde contracena com Gary Cooper. A pouco e pouco a mentalidade foi mudando e as calças foram ganhando o seu terreno na moda feminina, chegando mesmo a servir de tema para pequenas anedotas como a que foi publicada numa Revista de moda e que descreve uma conversa entre dois homens: 
- Mas então quem é que manda? Quem usa calças em tua casa não és tu? 
- Qual meu amigo! Hoje todos usam calças...até a minha sogra!
Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres realizaram muitos trabalhos   até então desenvolvidos pelos homens, onde o uniforme de trabalho eram as calças, tendo-se assim vulgarizado o seu uso pelo sexo feminino. As calças passaram a poder a ser utilizadas livremente e sem receio pelas mulheres, fazendo parte do seu quotidiano. Para trabalho ou para lazer, como traje de cerimónia ou de passeio, o pedaço de tecido que recobre as pernas deixou de ser de uso exclusivo dos homens e passou a ser de uso universal.  De boca de sino, de cinta subida ou descida, elásticas, de ganga ou de tecido, com pregas ou sem elas, é vê-las nas pernas de toda a gente. Já ninguém se lembra quando veste umas calças,  por todos os insultos e perseguições por que passaram todas aquelas mulheres que lutaram contra os preconceitos e as imposições religiosas do inicio do século XX. O simples acto de vestir umas calças serve de homenagem a todas elas, e um incentivo a todas aquelas que ainda hoje em pleno século XXI se vêm impedidas de vestirem livremente aquilo que querem e de que gostam. É inadmissível que alguém, homem ou mulher,  seja preso e sujeito a dez chicotadas por vestir uma peça de roupa, como sucedeu a uma jornalista sudanesa apenas por estar de calças. A liberdade é um direito inalienável e não pode haver politica, religião ou crenças e preconceitos absurdos, que impeçam cada um de exercer o seu direito de viver livremente e de se expressar quer por palavras, quer por acções ou simplesmente pela forma de vestir. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância (Simone de Beauvoir).

domingo, 5 de agosto de 2012

O Porto em 1913


Ver o Porto! Ver o Porto é evocar certa forma de cidade escondida que conservamos dentro de nós, densa, impenetrável, como a neblina envolvendo as manhãs e fundindo o rio com os cais e os barcos. Ilusão de sombras irreais. Transparências. Crepúsculos caindo, suaves, recortando a leveza das pontes, a elegância das torres, os contornos do casario. (...) É a descoberta dos segredos de uma cidade impregnada de espontânea e assumida identidade (Helder Pacheco, 1997).

Muitas vezes tentei imaginar como seria a vida na cidade do Porto e dos seus habitantes há 100 anos atrás. As suas rotinas, os seus passatempos, a sua forma de vestir, os locais que visitavam. A Cinemateca Portuguesa conseguiu, com a recuperação deste fantástico filme datado de 1913, trazer até nós o quotidiano dos portuenses no início do século XX. Uma memória viva que nos permite recuar no tempo, visitar lugares, observar momentos e sentir sensações que há muito são passado. Quem disse que não podemos regressar ao passado?





Nota: Este filme faz parte do espólio digital da Cinemateca Portuguesa

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Avenida de Vila Nova de Gaia

Em 31 de Outubro de 1886 foi inaugurada a famosa ponte Luís I, que ligava as duas margens do Douro e que possui dois tabuleiros: um à cota baixa, que liga as marginais do Porto e de Vila Nova de Gaia e outro à cota superior que ligava as zonas mais altas da cidade do Porto a Vila Nova de Gaia. Este tabuleiro superior da ponte obrigou à abertura, na margem sul, de uma nova via de acesso. No entanto o morro rochoso existente logo à saída do tabuleiro, onde se ergue o Mosteiro da Serra do Pilar, impediu uma abertura rápida da pretendida ligação. Inicialmente foi construída uma pequena via de acesso que contornava o morro e que terminava na actual Rua Luís de Camões, que na época era a estrada de ligação para Oliveira de Azeméis. Em 1905 foi demolida uma parte do morro para permitir a passagem de peões e da linha do eléctrico.

O alargamento da via e o inicio da construção da Avenida da Republica, na altura chamada Avenida Campos Henriques, só se realizou em 1927, altura em que se construiu o chamado Jardim do Morro, que ainda hoje pode ser visto logo à saída do tabuleiro superior da ponte Luís I.


A nova avenida alterou a fisionomia de Vila Nova de Gaia. Ao longo dos anos construíram-se numerosas casas senhoriais, palacetes e novos empreendimentos surgiram com o passar do tempo. O centro da Vila cresceu ao longo da nova via, onde a habitação, o comércio e o lazer se misturavam num alegre  e ruidoso colorido. 

Em 1934 passou-se a chamar Avenida Marechal Carmona e nessa altura já ligava a ponte Luís I a Santo Ovídio, onde partia a Estrada Nacional nº1, principal ligação a Coimbra e a Lisboa. A Avenida de Gaia, de 2250 metros, passou a ser a principal via de entrada e saída da cidade do Porto para sul.  





Mais tarde a avenida adopta o nome pelo qual é actualmente conhecida: Avenida da Republica. Foi a avenida com o nome da Republica que me viu nascer no seu troço junto ao belo Jardim do Morro. Apesar de ter sido sujeita a muitas alterações ao longo dos últimos anos, não deixa de ser a minha avenida. Com mais de 100 anos a sua história mistura-se com a história da cidade que atravessa, e graças a ela, Vila Nova de Gaia tornou-se na cidade que agora podemos visitar e apreciar. 




O Arquivo Municipal de Gaia - Arquivo Sophia de Mello Breyner, tem uma exposição intitulada Avenida de Gaia - 2250 metros de História, onde  se podem observar fantásticas fotografias desta avenida ao longo dos anos. Uma exposição a não perder!

Nota: As fotografias utilizadas são do Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, de Vila Nova de Gaia, recentemente publicadas no Jornal de Noticias

sábado, 28 de julho de 2012

O saber do povo



As superstições, os costumes, os jogos, os contos, as cantigas, as advinhas, as rimas infantis, as orações, as xácaras (narrativas populares) todas estas tradições que constituem o folclore, parecem na verdade à primeira vista objectos destituídos de importância, e próprios exclusivamente de espíritos ignorantes e rudes (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). As tradições populares são imprescindíveis para a cultura de um país, pois   transmitem o modo como as pessoas encaravam a natureza e como com ela conviviam, elucidam-nos sobre o passado e são a verdadeira obra do povo. O folclore, palavra portuguesa que derivou dos vocábulos ingleses folk (povo) e lore (saber tradicional), é a ciência das tradições, dos usos e costumes populares, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, canções, contos, provérbios, jogos e tantas outras actividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo. A UNESCO declarou que o folclore é sinónimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade, através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Onde está o nosso folclore? O que sabemos das nossas tradições e crenças populares? Para além das danças que quase todos os portugueses conseguem identificar como sendo o vira do Minho, os pauliteiros de Miranda, o corridinho do Algarve ou o bailinho da Madeira, onde está o resto do nosso folclore? Esquecido ou quase...essa parte essencial da cultura de cada nação, quase não existe em Portugal. As figuras do folclore português são desconhecidas. Se falarmos de duendes, gnomos, elfos e fadas facilmente os identificamos como fazendo parte do folclore da Irlanda, Inglaterra, Noruega e outros países nórdicos. Mas se falarmos de trasgos, mouras encantadas, olharapos, almazonas e tardos, poucos serão capazes de saber que fazem parte do nosso folclore e que tanto têm para contar. Será que é por serem nossos? Para compensar a ausência de divulgação dos nossos entes encantados aqui fica uma pequena apresentação de cada um deles:

Trasgos - é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, mais concretamente da região de Trás-os-montes. 
Aparentados com os trasnos galegos, são pequenos seres rebeldes, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.  Os trasgos perseguem principalmente as mulheres, fazendo-lhes variadas judiarias, quando elas estão na cama. Atiram pedras pela janela,  quebram as louças da cozinha (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Estas pequenas criaturas endiabradas arrastam os móveis, mudam as coisas de sítio, partem vidros e muitas travessuras especialmente durante a noite. Pela sua descrição, parecem corresponder aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, porém, ao contrário destes, os trasgos são praticamente desconhecidos nas sociedades modernas, ditas civilizadas, porquanto a sua sobrevivência está circunscrita a uma cultura popular estritamente oral, que sempre foi subalternizada pelas sociedades mediáticas (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)Na memória dos transmontanos mais idosos  os trasgos ainda estão bem vivos e são descritos como uma raça de figurinhas míticas, rebeldes e que adoram pregar partidas. Ainda hoje quando alguém faz alguma brincadeira ou é mais rebelde, os mais velhos dizem aquilo é um trasgo! Segundo as antigas crenças, são pequenas almas penadas, crianças que não foram baptizadas antes de morrer e que regressam às casas que habitavam para pregar partidas. Assim acontece, por exemplo, no concelho de Vimioso, onde existem as ruínas do chamado moinho dos trasgos, que foi abandonado pelo seu moleiro por não poder suportar as travessuras de um que com ele partilhou o mesmo habitáculo (Diabos, Diabritos e outros Mafarricos Alexandre Parafita, 2003). Em Vinhais existe uma curiosa história de uma mulher que incomodada por um trasgo na casa que habitava, decidiu mudar para outra habitação para fugir às travessuras constantes do pequeno ser rebelde. Quando estava nas mudanças encontra um menino de gorro vermelho que carregava um banco de cozinha. A mulher admirada pergunta: esse banco não é meu? Para onde o levas? E o pequeno ser responde: Então não estamos a mudar de casa? Para onde fores eu também vou! Quem não tem em si um pouco de trasgo?!

Olharapos - ou Olhapim (assim conhecidos em Trás-os-montes) são figuras gigantes que apenas possuem um grande olho na testa (Ciclope)
Nos contos e lendas transmontanas o olharapo é descrito como um ser antropófago, violento e feroz. O que lhe sobra em força e em tamanho  falta-lhe em produtividade e sobretudo em inteligência (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)No concelho de Vinhais existe um provérbio ligeiramente diferente do que conhecemos e que diz: Na terra dos Olhapins quem tem dois olhos é rei. No entanto é muito interessante de ver que o número de olhos deste ser assustador varia de região para região: em Cabeceiras de Basto e em Guimarães os olharapos têm três olhos, dois na frente e um no cachaço, razão pela qual tanto vêem para trás como para diante (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882); em algumas regiões do Minho, têm quatro olhos, dois à frente e dois atrás. Figura assustadora dos contos populares, há quem diga que vivem num país distante, mas que podem aparecer de um momento para o outro...

Almazonas - também chamadas de Almajonas, são mulheres muito altas que carregam os filhos às  costas e que fazem parte das lendas portuguesas.
Descritas nas regiões da Beira e no Minho, como mulheres muito grandes e gordas, que deitam os seios para trás e assim alimentam os filhos às costas (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Perante uma mulher bem nutrida era muito comum dizer-se: aquilo é uma almazona. A palavra almazona, segundo Leite de Vasconcelos, tem origem em amazonas, a que foi acrescentado o l  por analogia a alma. Muito curiosa é a lenda que tem origem em Famalicão, e que faz a distinção entre Almazonas (mulheres grandes) e Allamóasque eram mulheres do reino da Allamanha, que traziam os filhos às costas  e nunca deixavam andar os homens com elas. Só uma vez por ano estes tinham permissão para se aproximarem das mulheres, mas ao fim de certo tempo eram expulsos. Quando nascia uma menina, ficavam com ela; quando nascia um menino mandavam-no para os homens. Os homens eram os Allamões, gente muito alta (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Provavelmente esta lenda tem origem nas invasões germânicas à Península Ibérica no século IV. Através da tradição oral a história chega até nós, tantos séculos depois!

Tardos - ou Trevor é um tipo de duende e é um ser mítico do folclore português. 
Também é chamado de pesadelo ou tardo moleiro, em algumas regiões do país. O tardo é conhecido por importunar as pessoas que estão a dormir causando pesadelos. Pode aparecer em figura de animal - cão, gato ou cabra - e quando aparece nos caminhos, nos regatos ou em cruzamentos tenta urinar em cima das pessoas, deixando-as entardadas (desorientadas) sem saberem que caminho tomar ou onde se encontram. Em Guimarães o tardo é considerado o diabo e só sai à noite. Um lavrador da Maia descreveu-o assim: o tardo não é o diabo. É um bicho mau tal e qual como um cachorro pequeno. Se alguém for por um caminho, de dia ou de noite, e o tardo lhe urinar nas pernas, a pessoa fica entardada e depois não sabe para onde há-de ir; só com o tempo é que se desentarda. O tardo aparece em qualquer caminho, mas nos regatos é pior. 

Figuras tradicionais quase esquecidas, que armazenam pedaços da história do nosso passado. O folclore é a obra do povo, e nós como povo que somos não devemos esquecê-lo. Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos (Albert Einstein).