quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Sininho

Sininho é nome de fada do cinema infantil, mas para mim era o nome da minha amiguinha de quatro patas que durante 15 anos partilhou o meu espaço, a minha vida, as minhas alegrias e as minhas tristezas. De grandes  e expressivos olhos verdes, de focinho redondo e com um ronrom que transmitia todo o carinho que por nós tinha, pêlo longo e malhado, passeou pela minha vida e pela vida do meu marido ao longo da última quinzena de anos. Amiga mas traquina, carinhosa e arisca, a minha gata Sininho fazia parte de mim. 
Agora partiu e deixou um vazio que vai custar muito a passar...a sua presença constante, o estar sempre ali, a rotina de tratar dela, de a sentir sempre "em cima" de mim quando estava ao computador, no sofá a ver televisão, na cama a dormir, ou a passar aos ziguezagues pelas minhas pernas quando estava na cozinha, tudo isto desapareceu...vou ter saudades da minha fada de quatro patas, a minha amiga que não falava, mas que miava de maneiras tão diferentes e tão expressivas que eu sabia bem o que ela queria transmitir. A casa ficou muito vazia, mas nós ficamos mais. Partiu ao meu colo e a receber as nossas festas de agradecimento pela alegria que nos proporcionou ao longo da sua vida. Obrigada Sininho, por teres partilhado connosco a tua vida. 
Sei que este post não se coaduna com o espírito do blogue, mas hoje não podia escrever mais nada, nem falar de nenhum outro assunto. Há dias assim...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O último rei português

Portugal é uma República desde o dia 5 de Outubro de 1910. No entanto durante 771 anos, o nosso país foi um reino - o Reino de Portugal. Mais de sete séculos de história, que tiveram como protagonistas 35 Reis e 4 Dinastias. O último monarca português, nasceu a 5 de Novembro de 1889 no Palácio de Belém em Lisboa, filho de D. Carlos I e de D. Amélia. Baptizado com o nome de Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha, ficou conhecido por D. Manuel II. Passou à história com os cognomes: O Patriota, pela preocupação que os assuntos pátrios sempre lhe causaram; O Desventurado, em virtude da Revolução que lhe retirou a coroa; O Estudioso ou o Bibliófilo (devido ao seu amor pelos livros antigos e pela literatura portuguesa). Iniciou o seu reinado no dia 1 de Fevereiro de 1908, após o regicídio, que terminou quando partiu para um exílio forçado em Inglaterra no dia da implantação da República. As suas últimas palavras em solo português foram: Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar no iate Real Amélia. Sou português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer. VIVA PORTUGAL!
A 4 de Setembro de 1913, casa com D. Augusta Vitória, princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, permanecendo o rei D.Manuel de pé durante toda a cerimónia, que foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, sobre terra trazida de Portugal. Morreu subitamente no dia 2 de Julho de 1932, com 42 anos, na sua residência em Twickenham, Inglaterra, por edema da glote, sem descendência. O último rei de Portugal está sepultado no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.
Churchil conviveu de perto com D. Manuel II, e referindo-se a ele afirmou: Eis um jovem rei inteligente e dinâmico. Não consigo entender os portugueses, que cometeram um erro muito grave, que lhes pode sair muito caro nos anos vindouros.
D. Manuel II, aqui num pequeno filme sem som, fica para a história como o último rei de Portugal!




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lisboa no inicio do século XX


Digo:
Lisboa
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como
Se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo
Da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver                        
(Sophia de Mello Breyner)



Para relembrar uma Lisboa já passada, uma Lisboa do início do século XX, este filme com uma fantástica sucessão de fotografias antigas, mostra-nos com uma espantosa realidade o que foi a vida na capital de Portugal no inicio do século passado. Pessoas, paisagens, edifícios e ambientes recriados nesta sucessão de imagens. Uma encantadora viagem ao passado...




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Santos dos nossos dias


Não há dia que não tenha o nome de um santo qualquer. Se olharmos para as agendas antigas, a seguir à designação do dia aparece o nome de um santo, que a Igreja Católica achou por bem homenagear. Cada dia, cada santo. Existem por isso pelos menos 366 santos contabilizados pela Igreja dos católicos, já que os anos bissextos têm esse número de dias. Foi a Santo Osvaldo que calhou a sina de só ser homenageado de 4 em 4 anos, já que o dia de seu nome é 29 de Fevereiro. De origem dinamarquesa foi cónego de Winchester e arcebispo de York, descrito pelos seus pares como homem generoso, inteligente e um estudioso. Não descobri a causa da sua santidade, talvez por isso só seja lembrado de 4 em 4 anos...
Mas os nomes dos santos que mais facilmente identificamos, são aqueles que estão associados a dias festivos. São João, São Pedro e Santo António são nossos velhos conhecidos. Mas e São Valentim do dia dos Namorados e São Nicolau associado ao Pai Natal? O que sabemos destes santos? Que tradições e histórias estão por detrás dos homens?


São Valentim - sacerdote cristão do século III, viveu em Roma e foi contemporâneo do Imperador Cláudio II, cujo objectivo era constituir o maior exército possível, para manter a hegemonia dos romanos sobre o resto do mundo. Para levar a cabo tal façanha proibiu os casamentos entre os jovens romanos de forma a que estes se alistassem com maior facilidade e diminuísse o número de abandonos do exército. O sacerdote Valentim não acatou a ordem imperial e continuou a celebrar casamentos em segredo. Quando foi descoberto foi preso e condenado à morte. Durante o tempo do seu encarceramento, recebia flores e bilhetes com mensagens sobre a importância do amor. Diz a lenda que se apaixonou pela filha do carcereiro, de nome Astérias. Antes de morrer escreveu uma carta à sua apaixonada assinando no fim de seu Valentim, expressão ainda hoje utilizada pelos casais enamorados. Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro do ano 270, dia em que se celebra o dia dos Namorados.
No entanto este dia era para os pagãos a véspera do festival de lupercalia (de lupus que significa lobo, que reporta à lenda de Rómulo e Rémulo) festa anual celebrada na Roma antiga, em honra de Juno, deusa do matrimónio e de Pan, deus da natureza. Na Idade Média, o dia 14 de Fevereiro era  considerado o primeiro dia de acasalamento dos pássaros, e era tradição os apaixonados deixarem mensagens de amor na soleira da porta da pessoa amada. Actualmente o dia é celebrado um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Uma tradição com séculos de história.


São Nicolau - o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, nasceu por volta do ano 270 em Patara, capital da antiga Lícia (actual Turquia) filho de pais nobres. Quando os pais morreram distribuiu a sua fortuna pelos mais carenciados. Foi consagrado Bispo de Mira (actual Turquia) ainda muito jovem e desenvolveu a sua actividade apostólica na Palestina e no Egipto. Foi preso durante o reinado do Imperador Diocleciano que moveu uma perseguição aos cristãos, tendo sido libertado durante o reinado do Imperador Constantino. São-lhe atribuídos muitos milagres sendo considerado protector dos marinheiros, dos mercadores, dos estudantes e especialmente das crianças. Conta a lenda que gastou parte da sua herança de família a distribuir presentes pelas crianças mais carenciadas. Morreu a 6 de Dezembro do ano 342. Nesse dia, já na Idade Média era costume nos países nórdicos,  os criados da famílias mais abastadas, deixarem pequenos presentes às crianças em honra de São Nicolau. Foi também nestes países que se desenvolveu a tradição de deixar sapatinhos junto às lareiras para que o santo, também chamado de Velho Pai, pudesse deixar os presentes destinados às crianças. Esta tradição e o culto a São Nicolau espalharam-se por toda a Europa. Após a reforma da Igreja, os países que professaram o Protestantismo abandonaram esta tradição, passando a venerarem o Christkind (Menino Jesus) como aquele que oferecia as prendas às crianças no seu próprio dia de nascimento ou de Natal, o dia 25 de Dezembro. 


Mas a lenda de São Nicolau prevaleceu passando o Velho Pai a ser designado como Pai Natal, Père Noel ou Father Christmas, passando também a ser festejado no dia 25 de Dezembro. Apenas na Holanda se manteve a designação de Sinterklaas que significa São Nicolau. Pensa-se que foram emigrantes holandeses que levaram a tradição do culto a São Nicolau para os Estados Unidos da América no século XVII, onde Sinterklaas deu origem a Santa Claus, nome pelo qual ainda hoje é chamado o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho e que distribui as prendas na véspera de Natal. A  figura do Pai Natal ou de Santa Claus, como actualmente a conhecemos, é da autoria de um americano de nome Thomas Nast, cuja ilustração foi pela primeira vez publicada no jornal Harper's Weekly em 1866. Mas foi com uma campanha publicitária da famosa bebida americana Coca-Cola, em 1931, que o simpático velhinho passou a ser reconhecido mundialmente como o famoso Pai Natal.

Ao longo dos séculos as tradições foram-se mantendo, passando de geração em geração. Com o nome de São Nicolau, Santa Claus ou Pai Natal, o que importa é que a fantasia e o sonho se mantenham vivos no imaginário de todos, quer sejam crianças ou adultos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A famosa casca do sobreiro

O sobreiro (Quercus Suber) é uma árvore muito comum em Portugal, com grande prevalência a sul do Tejo. Os montados, que são plantações de sobreiros, subsistem apenas nas regiões do Mediterrâneo: Argélia, Marrocos, França, Itália e sobretudo nas regiões do sul da Península Ibérica. Portugal é o país com maior extensão de sobreiros do Mundo, sendo responsável por cerca de 50% da produção mundial de cortiça. Esta espantosa árvore, de porte mediano, tronco tortuoso e folhas permanentes, com 15-20 metros de altura (...) é revestida por uma casca acinzentada, algo enegrecida, espessa e fendida denominada cortiça (Plantar Portugal)De grande longevidade (pode viver em média 150 a 200 anos) e com uma enorme capacidade de regeneração, permite cerca de 16 descortiçamentos ao longo da sua existência. São precisos 25 anos para um tronco de sobreiro começar a produzir cortiça. No primeiro descortiçamento, chamado desbóia, obtém-se uma cortiça muito irregular e dura sendo difícil de trabalhar, a chamada cortiça virgem, sendo utilizada para pavimentos e material de isolamento; só nove anos depois se pode fazer novo descortiçamento, e aí obtém-se a chamada cortiça secundeira, menos dura, mas ainda imprópria para a confecção de rolhas e outros materiais; só no terceiro descortiçamento é que se obtém a cortiça amadia ou de reprodução, regular e lisa, fácil de trabalhar. A técnica de extracção, conservação e transformação da cortiça implica um saber ancestral. 
A cortiça já era utilizada na China, no Egipto, na Babilónia e na Pérsia  no ano 3000 aC, para fabrico de utensilios ligados à pesca. Em Itália, foram encontradas bóias, tampas para tonéis, sapatos de mulher e telhados de casas, datados do século IV aC. A primeira referência escrita ao sobreiro data desta época. O filósofo grego Teofrasto, nos seus tratados sobre botânica descreve maravilhado a faculdade que esta árvore possui em renovar a casca quando lhe é retirada. Foram também encontradas ânforas cheias de vinho com rolhas de cortiça, em Éfeso no século I aC. Em 1209, Portugal tornou-se no primeiro país a desenvolver legislação ambiental para protecção dos montados. Durante a época dos descobrimentos, as naus portuguesas utilizavam a madeira de sobreiro nas zonas mais expostas à intempérie, já que os construtores diziam que a madeira do sôvaro (era assim denominado o sobreiro) era o que havia de melhor para o liame das naus: além de muito resistente, nunca apodrecia. No século XVIII, um monge francês de nome D. Pierre Pérignon, começou a usar a cortiça para vedar as garrafas do seu famoso champanhe, costume que ainda hoje se mantém. Mas foi só a partir do século XVIII que na Península Ibérica se iniciou a exploração dos montados em grande escala, tornando-se a produção de rolhas de cortiça a principal fonte de rendimento e comércio.
Actualmente a cortiça é usada para a produção de diferentes materiais. Para além das rolhas, é utilizada para isolamento, pavimentos, carteiras, sapatos, roupas, mobiliário e um manancial de outros produtos. 
Para podermos ter uma pequena ideia do que é necessário para obter cortiça, aqui fica um pequeno filme de 1960 sobre todo processo de produção deste fabuloso material.




Fonte: APCOR - Associação Portuguesa de Cortiça

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A luta pelas calças

Eu adoro calças! Aliás grande parte do meu guarda-roupa é composto por calças, de diferentes feitios, cores e tecidos. Práticas, fáceis de usar, permitem uma liberdade de movimentos, que dificilmente se conseguiria usando vestidos ou saias. De uso generalizado, as calças são uma peça de vestuário indispensável nos dias de hoje. Mas esta simples peça de tecido que recobre cada uma das pernas da linha da cintura até ao calcanhar, deu muito que falar no inicio do século XX. As calças foram durante muito tempo um privilégio exclusivo do homem ocidental, já que em muitas outras civilizações as mulheres já usavam calças desde há muitos séculos. 

Exemplos disso são as amazonas, mulheres guerreiras retratadas na mitologia grega, que usavam calças como única indumentária. Nas Crónicas de Viagem  - franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo 1245-1330, podemos ler o seguinte: A Caldéia, tem a sua língua própria, e nela os homens são bonitos, mas as mulheres são feias. (...) as mulheres andam descalças e vestem calças até ao chão. Nesta cidade vi muitas outras coisas, que não é preciso narrar! Na época Vitoriana, em Inglaterra, as mineiras de Wigan (cidade do Norte de Inglaterra), escandalizaram a sociedade britânica ao usarem calças por baixo das saias, que enrolavam à cintura enquanto trabalhavam. Com a industrialização, as mulheres trabalhadoras começaram a usar calças mas apenas e só como indumentária de trabalho. 

As primeiras calças desenhadas para o sexo feminino surgiram em 1909, quando o francês Paul Poiret, desenhou as jupe-coulottes (saia-calção) precursoras das calças femininas. A nova peça de roupa desencadeou severas criticas por todo o mundo ocidental. Uns indignavam-se pela forma como o tecido aderia ao corpo da mulher, outros diziam que tornava demasiado visíveis as formas femininas e outros ainda defendiam que era um autêntico atentado ao decoro. Em diferentes jornais de 1911, saíram as seguintes notícias: LISBOA -  apareceram ontem à tarde nas ruas mais frequentadas da capital, muitas senhoras trajando a nova moda de saia-calção. Por toda a parte essas senhoras foram vitimas de troças, as quais degeneraram em tremenda vaia. As senhoras de saia-calção foram obrigadas a refugiar-se em casas de amigas; ROMA - o Telegraph de Turim diz que uma senhorita que tentou sair a passeio vestida de jupe-coulotte, o novo traje que aqui denominam também de harém, foi corrida por muitos populares, que a vaiaram e perseguiram, injuriando-a. A malfadada foi obrigada a refugiar-se numa casa de família, de onde mandou buscar ao seu domicilio os trajes usuais; NOVA IORQUE - Nas avenidas Quinta e Broadway apareceram ontem diversas mulheres modelos vestindo jupe-coulottes. Os transeuntes acolheram-nas com pouca curiosidade. 
A indignação popular foi de tal ordem que até as lojas que exibiam nos seus manequins a nova peça de roupa, eram alvo de ruidosas manifestações.
Coco Chanel foi a grande responsável pela introdução das calças na indumentária feminina. Criadora de um estilo de moda muito próprio e arrojado para a época, libertou a moda feminina de muitos preconceitos e limitações. A primeira mulher a usar publica e orgulhosamente um par de calças clássicas foi a actriz Marlene Dietrich nos anos 30 do século passado, numa cena do filme Morroco, onde contracena com Gary Cooper. A pouco e pouco a mentalidade foi mudando e as calças foram ganhando o seu terreno na moda feminina, chegando mesmo a servir de tema para pequenas anedotas como a que foi publicada numa Revista de moda e que descreve uma conversa entre dois homens: 
- Mas então quem é que manda? Quem usa calças em tua casa não és tu? 
- Qual meu amigo! Hoje todos usam calças...até a minha sogra!
Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres realizaram muitos trabalhos   até então desenvolvidos pelos homens, onde o uniforme de trabalho eram as calças, tendo-se assim vulgarizado o seu uso pelo sexo feminino. As calças passaram a poder a ser utilizadas livremente e sem receio pelas mulheres, fazendo parte do seu quotidiano. Para trabalho ou para lazer, como traje de cerimónia ou de passeio, o pedaço de tecido que recobre as pernas deixou de ser de uso exclusivo dos homens e passou a ser de uso universal.  De boca de sino, de cinta subida ou descida, elásticas, de ganga ou de tecido, com pregas ou sem elas, é vê-las nas pernas de toda a gente. Já ninguém se lembra quando veste umas calças,  por todos os insultos e perseguições por que passaram todas aquelas mulheres que lutaram contra os preconceitos e as imposições religiosas do inicio do século XX. O simples acto de vestir umas calças serve de homenagem a todas elas, e um incentivo a todas aquelas que ainda hoje em pleno século XXI se vêm impedidas de vestirem livremente aquilo que querem e de que gostam. É inadmissível que alguém, homem ou mulher,  seja preso e sujeito a dez chicotadas por vestir uma peça de roupa, como sucedeu a uma jornalista sudanesa apenas por estar de calças. A liberdade é um direito inalienável e não pode haver politica, religião ou crenças e preconceitos absurdos, que impeçam cada um de exercer o seu direito de viver livremente e de se expressar quer por palavras, quer por acções ou simplesmente pela forma de vestir. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância (Simone de Beauvoir).

domingo, 5 de agosto de 2012

O Porto em 1913


Ver o Porto! Ver o Porto é evocar certa forma de cidade escondida que conservamos dentro de nós, densa, impenetrável, como a neblina envolvendo as manhãs e fundindo o rio com os cais e os barcos. Ilusão de sombras irreais. Transparências. Crepúsculos caindo, suaves, recortando a leveza das pontes, a elegância das torres, os contornos do casario. (...) É a descoberta dos segredos de uma cidade impregnada de espontânea e assumida identidade (Helder Pacheco, 1997).

Muitas vezes tentei imaginar como seria a vida na cidade do Porto e dos seus habitantes há 100 anos atrás. As suas rotinas, os seus passatempos, a sua forma de vestir, os locais que visitavam. A Cinemateca Portuguesa conseguiu, com a recuperação deste fantástico filme datado de 1913, trazer até nós o quotidiano dos portuenses no início do século XX. Uma memória viva que nos permite recuar no tempo, visitar lugares, observar momentos e sentir sensações que há muito são passado. Quem disse que não podemos regressar ao passado?





Nota: Este filme faz parte do espólio digital da Cinemateca Portuguesa

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Avenida de Vila Nova de Gaia

Em 31 de Outubro de 1886 foi inaugurada a famosa ponte Luís I, que ligava as duas margens do Douro e que possui dois tabuleiros: um à cota baixa, que liga as marginais do Porto e de Vila Nova de Gaia e outro à cota superior que ligava as zonas mais altas da cidade do Porto a Vila Nova de Gaia. Este tabuleiro superior da ponte obrigou à abertura, na margem sul, de uma nova via de acesso. No entanto o morro rochoso existente logo à saída do tabuleiro, onde se ergue o Mosteiro da Serra do Pilar, impediu uma abertura rápida da pretendida ligação. Inicialmente foi construída uma pequena via de acesso que contornava o morro e que terminava na actual Rua Luís de Camões, que na época era a estrada de ligação para Oliveira de Azeméis. Em 1905 foi demolida uma parte do morro para permitir a passagem de peões e da linha do eléctrico.

O alargamento da via e o inicio da construção da Avenida da Republica, na altura chamada Avenida Campos Henriques, só se realizou em 1927, altura em que se construiu o chamado Jardim do Morro, que ainda hoje pode ser visto logo à saída do tabuleiro superior da ponte Luís I.


A nova avenida alterou a fisionomia de Vila Nova de Gaia. Ao longo dos anos construíram-se numerosas casas senhoriais, palacetes e novos empreendimentos surgiram com o passar do tempo. O centro da Vila cresceu ao longo da nova via, onde a habitação, o comércio e o lazer se misturavam num alegre  e ruidoso colorido. 

Em 1934 passou-se a chamar Avenida Marechal Carmona e nessa altura já ligava a ponte Luís I a Santo Ovídio, onde partia a Estrada Nacional nº1, principal ligação a Coimbra e a Lisboa. A Avenida de Gaia, de 2250 metros, passou a ser a principal via de entrada e saída da cidade do Porto para sul.  





Mais tarde a avenida adopta o nome pelo qual é actualmente conhecida: Avenida da Republica. Foi a avenida com o nome da Republica que me viu nascer no seu troço junto ao belo Jardim do Morro. Apesar de ter sido sujeita a muitas alterações ao longo dos últimos anos, não deixa de ser a minha avenida. Com mais de 100 anos a sua história mistura-se com a história da cidade que atravessa, e graças a ela, Vila Nova de Gaia tornou-se na cidade que agora podemos visitar e apreciar. 




O Arquivo Municipal de Gaia - Arquivo Sophia de Mello Breyner, tem uma exposição intitulada Avenida de Gaia - 2250 metros de História, onde  se podem observar fantásticas fotografias desta avenida ao longo dos anos. Uma exposição a não perder!

Nota: As fotografias utilizadas são do Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, de Vila Nova de Gaia, recentemente publicadas no Jornal de Noticias

sábado, 28 de julho de 2012

O saber do povo



As superstições, os costumes, os jogos, os contos, as cantigas, as advinhas, as rimas infantis, as orações, as xácaras (narrativas populares) todas estas tradições que constituem o folclore, parecem na verdade à primeira vista objectos destituídos de importância, e próprios exclusivamente de espíritos ignorantes e rudes (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). As tradições populares são imprescindíveis para a cultura de um país, pois   transmitem o modo como as pessoas encaravam a natureza e como com ela conviviam, elucidam-nos sobre o passado e são a verdadeira obra do povo. O folclore, palavra portuguesa que derivou dos vocábulos ingleses folk (povo) e lore (saber tradicional), é a ciência das tradições, dos usos e costumes populares, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, canções, contos, provérbios, jogos e tantas outras actividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo. A UNESCO declarou que o folclore é sinónimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade, através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Onde está o nosso folclore? O que sabemos das nossas tradições e crenças populares? Para além das danças que quase todos os portugueses conseguem identificar como sendo o vira do Minho, os pauliteiros de Miranda, o corridinho do Algarve ou o bailinho da Madeira, onde está o resto do nosso folclore? Esquecido ou quase...essa parte essencial da cultura de cada nação, quase não existe em Portugal. As figuras do folclore português são desconhecidas. Se falarmos de duendes, gnomos, elfos e fadas facilmente os identificamos como fazendo parte do folclore da Irlanda, Inglaterra, Noruega e outros países nórdicos. Mas se falarmos de trasgos, mouras encantadas, olharapos, almazonas e tardos, poucos serão capazes de saber que fazem parte do nosso folclore e que tanto têm para contar. Será que é por serem nossos? Para compensar a ausência de divulgação dos nossos entes encantados aqui fica uma pequena apresentação de cada um deles:

Trasgos - é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, mais concretamente da região de Trás-os-montes. 
Aparentados com os trasnos galegos, são pequenos seres rebeldes, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.  Os trasgos perseguem principalmente as mulheres, fazendo-lhes variadas judiarias, quando elas estão na cama. Atiram pedras pela janela,  quebram as louças da cozinha (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Estas pequenas criaturas endiabradas arrastam os móveis, mudam as coisas de sítio, partem vidros e muitas travessuras especialmente durante a noite. Pela sua descrição, parecem corresponder aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, porém, ao contrário destes, os trasgos são praticamente desconhecidos nas sociedades modernas, ditas civilizadas, porquanto a sua sobrevivência está circunscrita a uma cultura popular estritamente oral, que sempre foi subalternizada pelas sociedades mediáticas (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)Na memória dos transmontanos mais idosos  os trasgos ainda estão bem vivos e são descritos como uma raça de figurinhas míticas, rebeldes e que adoram pregar partidas. Ainda hoje quando alguém faz alguma brincadeira ou é mais rebelde, os mais velhos dizem aquilo é um trasgo! Segundo as antigas crenças, são pequenas almas penadas, crianças que não foram baptizadas antes de morrer e que regressam às casas que habitavam para pregar partidas. Assim acontece, por exemplo, no concelho de Vimioso, onde existem as ruínas do chamado moinho dos trasgos, que foi abandonado pelo seu moleiro por não poder suportar as travessuras de um que com ele partilhou o mesmo habitáculo (Diabos, Diabritos e outros Mafarricos Alexandre Parafita, 2003). Em Vinhais existe uma curiosa história de uma mulher que incomodada por um trasgo na casa que habitava, decidiu mudar para outra habitação para fugir às travessuras constantes do pequeno ser rebelde. Quando estava nas mudanças encontra um menino de gorro vermelho que carregava um banco de cozinha. A mulher admirada pergunta: esse banco não é meu? Para onde o levas? E o pequeno ser responde: Então não estamos a mudar de casa? Para onde fores eu também vou! Quem não tem em si um pouco de trasgo?!

Olharapos - ou Olhapim (assim conhecidos em Trás-os-montes) são figuras gigantes que apenas possuem um grande olho na testa (Ciclope)
Nos contos e lendas transmontanas o olharapo é descrito como um ser antropófago, violento e feroz. O que lhe sobra em força e em tamanho  falta-lhe em produtividade e sobretudo em inteligência (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)No concelho de Vinhais existe um provérbio ligeiramente diferente do que conhecemos e que diz: Na terra dos Olhapins quem tem dois olhos é rei. No entanto é muito interessante de ver que o número de olhos deste ser assustador varia de região para região: em Cabeceiras de Basto e em Guimarães os olharapos têm três olhos, dois na frente e um no cachaço, razão pela qual tanto vêem para trás como para diante (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882); em algumas regiões do Minho, têm quatro olhos, dois à frente e dois atrás. Figura assustadora dos contos populares, há quem diga que vivem num país distante, mas que podem aparecer de um momento para o outro...

Almazonas - também chamadas de Almajonas, são mulheres muito altas que carregam os filhos às  costas e que fazem parte das lendas portuguesas.
Descritas nas regiões da Beira e no Minho, como mulheres muito grandes e gordas, que deitam os seios para trás e assim alimentam os filhos às costas (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Perante uma mulher bem nutrida era muito comum dizer-se: aquilo é uma almazona. A palavra almazona, segundo Leite de Vasconcelos, tem origem em amazonas, a que foi acrescentado o l  por analogia a alma. Muito curiosa é a lenda que tem origem em Famalicão, e que faz a distinção entre Almazonas (mulheres grandes) e Allamóasque eram mulheres do reino da Allamanha, que traziam os filhos às costas  e nunca deixavam andar os homens com elas. Só uma vez por ano estes tinham permissão para se aproximarem das mulheres, mas ao fim de certo tempo eram expulsos. Quando nascia uma menina, ficavam com ela; quando nascia um menino mandavam-no para os homens. Os homens eram os Allamões, gente muito alta (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Provavelmente esta lenda tem origem nas invasões germânicas à Península Ibérica no século IV. Através da tradição oral a história chega até nós, tantos séculos depois!

Tardos - ou Trevor é um tipo de duende e é um ser mítico do folclore português. 
Também é chamado de pesadelo ou tardo moleiro, em algumas regiões do país. O tardo é conhecido por importunar as pessoas que estão a dormir causando pesadelos. Pode aparecer em figura de animal - cão, gato ou cabra - e quando aparece nos caminhos, nos regatos ou em cruzamentos tenta urinar em cima das pessoas, deixando-as entardadas (desorientadas) sem saberem que caminho tomar ou onde se encontram. Em Guimarães o tardo é considerado o diabo e só sai à noite. Um lavrador da Maia descreveu-o assim: o tardo não é o diabo. É um bicho mau tal e qual como um cachorro pequeno. Se alguém for por um caminho, de dia ou de noite, e o tardo lhe urinar nas pernas, a pessoa fica entardada e depois não sabe para onde há-de ir; só com o tempo é que se desentarda. O tardo aparece em qualquer caminho, mas nos regatos é pior. 

Figuras tradicionais quase esquecidas, que armazenam pedaços da história do nosso passado. O folclore é a obra do povo, e nós como povo que somos não devemos esquecê-lo. Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos (Albert Einstein).


segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Robin dos Bosques Português



Os ricos e os políticos é que hão-de pagar para os pobres... Os políticos têm sido a desgraça dos pobres. Prometem tudo, mas só protegem os que eles muito bem querem . Aos pobres passam a vida a mentir-lhes. De hoje em diante eu serei repartidor público. Podeis dizê-lo a toda a gente. O povo há-de sabê-lo. E também quero que as autoridades o saibam. Porque este encargo foi-me dado pelo povo (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Assim falava José Teixeira da Silva, mais conhecido por Zé do Telhado, o mais famoso salteador português do século XIX. O José nasceu no lugar do Telhado, daí a sua alcunha, na freguesia de Castelões de Recesinhos em Penafiel, no dia 22 de Junho de 1818, filho de Joaquim Teixeira e Maria Leontina. Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente com as armas, e raio devastador em franceses, que ele matava porque eram franceses e ladrões, posto que, na qualidade de membro da nação espoliada, o sr. Joaquim chamasse só a si o que era da fazenda nacional. Um tio avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já tinha sido salteador de porte e infestara o Marão durante muitos anos (Camilo Castelo Branco in Memórias do Cácere). O seu irmão mais velho também seguiu o ofício de família. Na tentativa de o afastar da vida de salteador, os pais enviaram-no   aos 14 anos para Caíde de Rei em Lousada, para casa de um tio materno, de nome Diogo, ironicamente um antigo soldado francês, que tinha vindo com o exército nas invasões napoleónicas e por cá ficou. Com o tio aprendeu o ofício de castrador e tratador de animais. Durante a sua estadia em casa do francês Diogo, apaixona-se perdidamente pela sua prima Ana, que viria a ser sua mulher e a paixão de toda a sua vida. 


Em Julho de 1837, alista-se nos Lanceiros da Rainha, e assenta praça no Quartel de Cavalaria 2. 
Entrou José ao serviço da Junta na Arma da Cavalaria. Comprou cavalo e fardou-se a todo o primor Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham. José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que em parte era capricho e em parte era largueza de alma (Camilo Castelo Branco). Quando se dá a Revolta dos Marechais, que opõe Cartistas (defensores da Carta Constitucional de 1826) e  Setembristas (defensores da Constituição de 1822), José Teixeira, que luta pelos Cartistas, é derrotado e a 18 de Setembro de 1837, foge para Espanha. Obtido o perdão, regressa a Portugal e no dia 3 de Fevereiro de 1845, casa com a sua prima Ana, nascendo a sua primeira filha de nome Maria Josefa, no dia 7 de Novembro do mesmo ano. Deste casamento nascem ainda mais 4 filhos. Ditosos derivaram os primeiros anos deste suspirado enlace. José era querido dos vizinhos, porque aos ricos nada pedia e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador (Camilo Castelo Branco). A 23 de Março de 1846, estala a Revolução da Maria da Fonte e José Teixeira coloca-se às ordens do General Sá da Bandeira, assumindo o posto de sargento. Na batalha de Valpaços distingue-se pela bravura e pelas qualidades militares demonstradas, tendo inclusivé salvo a vida ao General Sá da Bandeira, que o comandava. Foi distinguido com a mais alta condecoração Portuguesa a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. No entanto, o lado pelo qual luta é mais uma vez derrotado e José regressa a Lousada. Acabada a guerra, José Teixeira da Silva tenta refazer a vida, mas todas as portas lhe foram fechadas, tendo-lhe sido mesmo negado um emprego, que lhe tinha sido prometido, no Depósito de Tabaco do Porto. Ignorado pelos amigos e esquecido pelo Visconde Sá da Bandeira, que chegou a ser Ministro  da Guerra e Presidente do Governo. 
Sem emprego e com dividas acumuladas, é expulso do exército por não conseguir pagar os impostos a que estava obrigado. Com a mulher e os filhos a passarem por  dificuldades e sem soluções, envereda no ofício da família e torna-se salteador. É sina! A fatalidade obriga-me a receber a herança do meu pai, que eu queria repudiar; meu irmão não resistiu à voz do sangue; a desgraça atira-me para o mesmo charco. Cumpra-se o destino...(José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Nascia assim o Zé do Telhado! As suas quadrilhas integravam diferentes pessoas com diferentes ocupações, desde padres a morgados, alfaiates a estalajadeiros, homens e mulheres de diversos estratos sociais. Os actos ilícitos que cometeu ao longo dos anos foram inúmeros, mas os relatos que chegaram das suas actividades ilegais destacavam um código próprio pelo qual se regia e fazia cumprir quem com ele os cometia. 


De hoje em diante acabou a rebaldaria! Temos de levar a vida a sério se queremos vencer. E quem não estiver satisfeito pode sair já, a porta está aberta! De hoje em diante, a malta aqui reunida não será um bando de ladrões. Governamo-nos, mas eu só vou tirar aos que têm mais, para dar aos que têm menos. Proíbo, ouvi bem: proíbo!, que alguma vez se tire aos pobres e a todos aqueles que vivem honradamente do seu trabalho. Nesta comunidade, também não consinto que se matem pessoas; e só usaremos a força quando resistirem e nos obriguem a isso. Também não admito que ninguém se aproveite da ocasião para abusar das mulheres. (...) De hoje em diante, eu só estou aqui como repartidor público. Tudo o que tirarmos aos outros não será só para nós. Uma parte é para os pobres. Ali para o Douro há muita gente rica, mas também se vê por lá muito pobre. Tenho visto por aí muitos velhos, sem terras, nem nada, e mulheres com bandos de filhos. A nossa comunidade tem de ajudar os que são esquecidos por todos… (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002)Vários assaltos a propriedades foram cometidos, diversos roubos a pessoas em viagem foram realizados e apesar de tudo aquilo que impôs como regra de actuação, algumas pessoas foram mortas durante as acções ilegais da quadrilha do Zé do Telhado. A realidade é bem diferente da teoria. Homens como o Zé do Telhado que foram rústicos homens do povo, que alcançaram o reconhecimento – primeiro lendário e depois mítico  (...) são personagens ambivalentes, pois transitam entre os universos do herói e do antiherói: destacam-se dos seus semelhantes por um perfil único, que os individualiza e desperta sobre eles a admiração de seu povo. (...) são reconhecidamente valorizadas como heróis do povo exactamente porque afrontam e subvertem o poder vigente e constroem, à margem desse poder, outro mundo, que se instaura e se rege por leis próprias (...) reagem a seu modo a um estado social injusto, transformando-se em defensores e vingadores do povo oprimido (As ambiguidades do herói bandido, de Silvana Bento Andrade e Henriqueta Maria Gonçalves)
Com as autoridades em constante perseguição, o bandoleiro mais conhecido do País, acaba por ser  detido no dia 31 de Março de 1859, quando tentava fugir para o Brasil, a bordo da barca Oliveira que estava atracada no Porto. Ironicamente estava a ser ajudado por  Ana Vitória, uma das suas vítimas que se tinha tornado sua grande admiradora. É dela a frase que transformou o Zé do Telhado no Robin dos Bosques português, quando afirmou que existem pessoas de bem que nunca deram às classes humildes um centésimo do que lhes deu Zé do Telhado! Foi preso e colocado na cela nº12 da Cadeia da Relação do Porto, onde teve por companhia Camilo Castelo Branco. Este confidenciou ao seu companheiro de cela o medo que tinha de ser morto na cadeia a mando do marido da sua amante, Ana Plácido. Reza a história que Zé do Telhado lhe terá dito esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos. No seu livro Memórias do Cácere, Camilo imortaliza o Robin dos Bosques português, descrevendo-o como  o mais afamado salteador deste século. No dia 9 de Dezembro de 1859 foi julgado e condenado por doze crimes e condenado ao degredo para toda a vida na África Ocidental Portuguesa. Alguns dos membros da sua quadrilha nunca chegaram a julgamento, entre eles encontravam-se o Morgado da Magantinha, um padre de nome Torcato, alguns administradores e regedores que tinham cometido os mesmo crimes. É de crer que nesta altura se movimentassem altas influências tendentes a ilibar estas parelhas de bandidos engravatados. O facto é que saíram em liberdade. E é natural que o administrador, ao mesmo tempo que os inocentava, procurasse aproveitá-los (Campos Monteiro, historiador). A pena aplicada foi no entanto comutada pelo Tribunal da Relação do Porto, para 15 anos de degredo. Zé do Telhado desembarcou em Luanda e seguiu depois para Malanje, onde viveu já em liberdade, tendo-se tornado num negociante de borracha, cera e marfim. Casou-se com uma angolana de nome Conceição, de quem teve três filhos. 


Conhecido entre os locais como Kimuezo, homem de barbas grandes, viveu desafogadamente até aos 57 anos, quando morreu vitima de varíola em 1875. José Teixeira da Silva foi sepultado na aldeia de Xissa, Município de Mucari, onde lhe foi erigido um mausoléu, ainda hoje objecto de romagens.  Consta que os negros mais pobres íam durante muitos anos chorar ajoelhados à sua campa, evocando o nome do grande branco, o pai dos pobres.
José Teixeira, o nome dele é pouco; José do Telhado é tudo. Quando passou do apelido para esta alcunha, apanhou a celebridade (Júlio César Machado, 1872). Uma figura polémica, que permanece viva na história popular do nosso país e nas nossas memórias. António Nobre no seu poema Viagens da minha terra, do seu livro Só, imortaliza-o quando escreve rondar à lua entre pinhais! Ser capitão! Trazer pistolas, mas não roubando, trazendo esmolas, dependuradas nos punhais! 



quinta-feira, 19 de julho de 2012

O nome do dinheiro


Dinheiro é uma palavra sobejamente conhecida no mundo actual. Toda a gente sabe o que é o dinheiro e qual a sua importância nas sociedades capitalistas e consumistas actuais. Tempo é dinheiro e quando até o tempo é avaliado por este metal, nada mais é necessário acrescentar! Mas nem sempre foi assim. Houveram tempos em que não existia dinheiro! Estranho mas verdade. O Homem conseguia viver sem dinheiro. 
Inicialmente o comércio baseava-se na troca directa de bens, o escambo. 
O sistema de escambo visava suprir as necessidades, sem comparação de valores materiais.O que era era excedente para uns era trocado pelo que sobrava a outros, sem haver avaliação do mercadoria transaccionada. A necessidade  ditava a troca. Esta forma de comércio elementar foi dominante nas primeiras civilizações e ainda hoje é utilizada nas tribos mais isoladas. Hoje as crianças   ainda utilizam este tipo de comércio, trocando brinquedos, cromos e revistas entre elas, sem recorrer a valores monetários. No entanto algumas mercadorias começaram a ter mais procura do que outras, passando assim a ter mais valor para a troca. O factor valor introduziu-se no comércio de bens e alterou todo o sistema até então utilizado. Surgiram assim as moedas-mercadoria: os metais, as cabeças de gado e o sal foram as primeiras moedas-mercadoria conhecidas, e as duas últimas deixaram uma marca permanente no vocabulário comercial que chegou até nós. Pecus, a palavra latina para gado deu origem às palavras pecúnia, que significa dinheiro, e pecúlio que é o dinheiro acumulado; Capita que significa cabeça, originou a palavra sobejamente conhecida capital (património); a palavra salário provém do facto de na antiga Roma o sal ser utilizado para pagar serviços prestados. A valorização cada vez maior dos metais, fez com que se começasse a utilizar pequenos objectos de metal como instrumentos valiosos de troca. No século VII aC surgem na Lídia, cidade-estado da Ásia Menor, as primeiras moedas semelhantes às actuais: pequenas peças em metal, com peso e valor determinado e com cunho oficial como garante do seu valor. O local onde se cunhavam as moedas na Roma Antiga, situava-se junto ao templo da Deusa Juno Moneta, e encontrava-se sob a sua protecção. Em sua homenagem os discos redondos de metal aí produzidos chamaram-se monetas, que deu origem à palavra moeda. A passagem de uma economia de troca para uma economia monetária transformou progressivamente as actividades e comportamentos humanos (A Enciclopédia, volume 14, Verbo-Jornal Público). Nada voltou a ser igual e aos poucos o valor da moeda foi ganhando terreno e controlando todo a economia e todas as transacções. Todas as sociedades, independentemente da sua origem, começaram a cunhar as suas próprias moedas e a utilizá-las como base para todas as trocas comerciais. 
O reino de Portugal, reconhecido por bula papal de Alexandre III em 1179, teve como primeiras moedas cunhadas por Afonso Henriques, o Dinheiro (acredita-se que a origem da palavra dinheiro actualmente utilizada deriva do nome desta moeda)  e a Mealha (que deu origem à palavra mealheiro) que valia 1/2 Dinheiro. Doze moedas de dinheiro valiam um soldo (antiga moeda romana) e vinte soldos equivaliam a uma libra romana (unidade monetária baseada na prata, que valia originalmente 0,33kg de prata). Foram cunhadas ainda algumas moedas de ouro, os Morabitinos que no reinado de D.Sancho I valiam 180 dinheiros. O dinheiro foi utilizado no reino de Portugal desde o século XII até perto de 1430, altura em que D. Duarte o substituiu definitivamente pela moeda de nome Real. Os reais começaram a ser introduzidos por D.Fernando I em 1380, como uma moeda de prata que valia 120 dinheiros; no reinado de D.João I foram cunhados duas moedas de Real: o real branco que correspondia a 840 dinheiros (3 libras e meia) e o real preto que apenas valia um décimo do branco.

Mas foi com D.Duarte que a moeda real se tornou na unidade base de Portugal. O real, no plural reais, que se popularizou rapidamente como réis, foi a moeda utilizada oficialmente em Portugal desde 1430 até 1911, tendo sido também utilizada em todas as colónias portuguesas. 
Em 1847 o Banco de Portugal emitiu as primeiras notas e foi criado o sistema decimal para denominar as moedas de réis. O padrão monetário base instituído era de 1000 réis (mil-réis); um milhão de réis passou a ser designado por um conto de réis.


Em 1911, com a implantação da Republica, o real foi substituído pelo escudo,  cujo símbolo era o $. No entanto a designação de conto de réis sobreviveu à introdução da nova moeda, sendo sinónimo de mil escudos. A moeda escudo foi a unidade monetária de Portugal até ao ano de 2002, quando foi substituída pela moeda europeia de nome euro. Um euro equivale a 200,482 escudos e é actualmente a moeda oficial da Republica Portuguesa, sendo usada por todos os países pertencentes à Comunidade Europeia, que adoptaram a moeda única. 
Os anos passaram, o nome das moedas mudou. Mas o certo é que os nomes das diferentes unidades monetárias que Portugal teve, mantêm-se na memória dos portugueses. Ainda me lembro de ouvir a minha avô dizer aos clientes da sua mercearia que determinada mercadoria custava cem mil réis ou que outra tinha o valor de um conto de réis. Eu própria dou por mim a passar os euros para escudos, penso em escudos e ainda acrescento os contos na minha contabilidade mental. A nossa memória é uma artimanha fantástica e mesmo com todas as mudanças que surgem à nossa volta, mantemos bem guardadas as nossas recordações cheias de história. Um cacique (chefe indígena americano) quando foi questionado sobre se não sentia necessidade de possuir dinheiro para manter a sobrevivência da sua tribo respondeu: A natureza não vai fugir. Ela alimentou o avô do meu avô e o meu pai e irá alimentar o meu filho e o filho do meu filho. Não necessitamos de acumular coisas. Porque é que fazem isso? Não lhe sei responder...

Nota: As fotografias utilizadas foram retiradas de www.forum-numismatica.com e www.numisgaia.com

domingo, 15 de julho de 2012

A praia da Granja

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa. (Sophia de Mello Breyner)
Não é qualquer praia que tem um poema destes que a homenageia e ao mesmo tempo torna imortal. Mas a praia da Granja (do latim granum que significa grão), do concelho de Vila Nova de Gaia, também não é uma praia qualquer. Corria o ano de 1758, e os frades Crúzios, sediados no Mosteiro de Grijó, construíram uma Quinta e a necessidade de cultivar essas terras para seu sustento esteve na origem do topónimo Granja - propriedade rústica de amanho, conjunto de dependências de uma propriedade agrícola (Alberto Luís Moreira, in A Queirosiana da Biblioteca de Gaia: A Granja de Eça de Queirós)Esta propriedade junto ao mar, era também utilizada  pelos Cónegos Regrantes do Patriarca St. Agostinho do Real Mosteiro de S. Salvador de Grijó, como estância de convalescença e de repouso, nas alturas de mais calor, e como eles próprios afirmavam podiam assim ir a ares. Cem anos mais tarde, já no século XIX, José Frutuoso Aires de Gouveia Osório, médico e politico português nascido na Invicta cidade, da qual foi Presidente da Câmara (1886-1887), adquire a Quinta aos frades, passando a ser um couto privado deste ilustre portuense, sendo baptizada com o nome de Quinta dos Aires (mais conhecida actualmente por Quinta do Bispo)
Pela mão de Frutuoso Aires, no início da década de setenta, nasce a Granja. Uma correnteza de casas para a família do abastado comerciante do Porto, e alguns lotes vendidos criteriosamente, constituíram o modo de dar vida a esta apreciada estância balnear (Luís Paula Saldanha Martins in Banhistas de Mar do século XIX, 1989). As sete casas edificadas inicialmente, pertenciam aos filhos de Frutuoso, e a sua construção deu origem à principal rua a chamada Avenida da Granja. A Granja tornou-se rapidamente na mais aristocrática das praias do litoral português (Ramalho Urtigão). A 7 de Junho de 1864, Vila Nova de Gaia e Lisboa ficam ligadas por via férrea, com a chegada do comboio ao lugar das Devesas, e com a posterior construção da Estação da Granja, dá-se o desenvolvimento desta estância balnear. A praia da Granja, a mais graciosa e asseada das estações balneares portuguesas, a praia por excelência elegante, nasceu após a passagem da linha férrea pelo sítio. Diz-nos a química que o diamante é um carvão; a Granja, uma jóia tem pois essa mesma origem. Saiu do fumo negro da locomotiva graças ao empenho do alquimista Frutuoso Aires  (José Augusto Vieira, in Minho Pitoresco, 1987).
O ambiente que se vivia nesta praia do Norte de Portugal era de puro elitismo, tendo-se criado um mundo social e intelectual muito próprio, com uma forte identidade territorial. Em 1890, o Grilo de Gaya, um jornal local descreve muito bem ambiente: Têm chegado algumas famílias à praia da Granja, porém sempre as de costume: só fidalguias (...) Esta praia, talvez a mais bonita e saudável da nossa beira mar, torna-se tristonha sem alegria, porque muitos banhistas  preferem andar quasi sós, não querendo gente de classe baixa que os estorvem. A Granja tornou-se num local privilegiado e elegante: local de cavalgadas, de quermesses, dos torneios de ténis e de cricket , dos bailes e concertos, das tardes de chá e bridge...um local de príncipes e  princesas, um local de conto de fadas. 
Foi aqui que pela primeira vez em Portugal surgiu uma rua pedonal, ladeada de jardins e árvores e com passeios elegantemente desenhados. Um sítio diferente, um local paradisíaco que Ramalho Urtigão descreveu como estação balnear da alta sociedade portuguesa de fins do século XIX e princípios do século XX, que se encheu de luxuosas vivendas, que definem por si toda uma arte de saber viver bem e requintadamente, típica de certa belle époque. A Granja é uma povoação diamante. Por esta elegante praia passaram e veranearam ilustres figuras: o rei D. Luís, a rainha Maria Pia e o infante D. Afonso, o rei D.Carlos e a rainha D.Amélia, o ilustre Grupo dos Cinco, do qual faziam parte Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Eça de Queiróz, e famílias nobres do Porto, Lisboa e de todo o País. Os jornais de Lisboa e Porto referiam-se a esta praia  como sendo uma concha mimosa como a pétala de uma camélia; ninho feito de púrpura e perfumes. Já no século XX figuras publicas aqui passaram as suas férias de verão nas suas casas de família, entre as quais de destacam, Francisco Sá Carneiro e Sophia de Mello Breyner. Os descendentes de Eça de Queiróz também aqui viveram, na casa onde morreu a sua mulher  Emilia de Castro Pamplona a 5 de Junho de 1934.

Mas não foi só pela sua praia que este local ficou conhecido. Foi aqui que foi celebrado a 7 de Setembro de 1876, o Pacto da Granja, onde surgiu um novo partido politico, o Partido Progressista, como resultado da junção do Partido Histórico e do Partido Reformista, liderado por Anselmo José Brancaamp como oposição ao Partido de Fontes Pereira de Melo, o poderoso Partido Regenerador. Inaugurou-se assim na Granja a segunda fase do rotativismo em Portugal, período de alternância politica entre os partidos, (...) que proporcionou algum equilíbrio entre os sectores conservadores e os mais liberais e progressistas do País  (Infopédia, Porto Editora)

A Granja ainda hoje é um local de veraneio, com as suas casas senhoriais e coloridos chalés de verão, mas o tempo foi apagando os resquícios aristocráticos e elitistas do passado. A beleza da sua praia mantém-se, as ondas do mar espreguiçam calmamente a sua espuma branca pelo areal fino e as memórias daquela época ainda se podem ouvir nas histórias dos mais velhos. 
Também eu passei muitas tardes de Verão na famosa piscina da Granja, bem juntinho ao mar. Para aceder às suas instalações tínhamos que desembolsar a módica quantia de 200 escudos, o que nos anos 80 era uma exorbitância, comparada com os 50 escudos que custava a entrada na vizinha piscina de Espinho...talvez fosse uma ténue tentativa para manter o espírito elitista do passado! Quem aqui passou as suas férias de Verão não esquece esta praia, este mar e a sua brisa. Sophia de Mello Breyner fez da Granja a estrela dos seus poemas e das suas histórias e nunca a esqueceu: 
Quando eu morrer
Voltarei para buscar
Os instantes que não vivi 
Junto do mar.
(...)
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim. 


Nota: As fotografias utilizadas foram retiradas do Arquivo Digital em www.prof2000.pt e Da Praia da Granja em www.dapraiadagranja.blogspot.pt 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Heróis do rio Douro

Existe um velho provérbio português que diz há imagens que valem mais do que mil palavras! Este pequeno filme com cerca de 5 minutos faz jus ao ditado. No meu post intitulado Barco Rabelo ou Barco de Rabo falei um pouco da história deste histórico barco que navega no rio Douro e tentei descrever a difícil tarefa que os homens que o manobravam tinham que enfrentar diariamente. Um trabalho árduo e perigoso, no transporte de pipas carregadas do famoso Vinho do Porto, até às adegas de Vila Nova de Gaia. Mas descrever não é ver, e por isso aqui fica este fantástico filme, sem som, em homenagem a este heróis do rio Douro!




quarta-feira, 11 de julho de 2012

A vida do livro

Os livros são objectos pequenos, mas cheios de Mundo (Romano Guardini, escritor e teólogo italiano). O livro é um objecto fascinante. Nascemos num mundo em que o livro é comum e por isso temos que nos considerar uns privilegiados: temos livros pequenos ou grandes, de capa dura ou fina, a cores ou a preto e branco, de romance ou crime, contendo todos eles um sem fim de histórias para contar. Apenas temos que os abrir e ler! Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que não haviam livros...os primeiros suportes utilizados para a escrita foram tabuletas de pedra ou de argila, tendo sido encontradas tabuletas de argila na Suméria datadas de 2400 a 2200 aC. Mais tarde surgiu o khartés (que em grego significa papel) e que consistia num cilindro de papiro de fácil transporte. O papiro, provém de uma planta perene de nome Cyperus Papyrus, donde era extraída a parte interna do caule, que depois de tratada e transformada em folha, era enrolada em forma de cilindro. Os romanos chamaram-lhe volumen, nome pelo qual ficou a ser mais conhecido. O cilindro de papiro, era desenrolado à medida que ia sendo lido podendo alcançar o comprimento de 5 a 6 metros. 
Se contivesse mais do que uma obra era denominado de tomo. Considerado o percursor do papel, o papiro que resultava da libertação (libere em latim) da parte interior do caule do resto da planta original, deu origem à palavra latina liber libri, e posteriormente a livro na língua portuguesa. O papiro mais antigo que se conhece foi descoberto em Saqqara (necrópole da antiga cidade de Menfis do Antigo Egipto) no túmulo de um nobre chamado Hemaka, da I dinastia (2920 a 2770 aC) e foi encontrado em branco. Posteriormente surgiu o pergaminho, que resulta do tratamento de peles de animais, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, que permitia a escrita. O nome pergaminho, homenageia a cidade grega de Pérgamo na Àsia Menor, onde se acredita que foi descoberto. Mais fácil de ser manipulado e com muito maior duração do que o papiro, o pergaminho rapidamente se torna popular entre a classe erudita grega e romana. 
Aos poucos o volumen foi substituído pelo códex, compilação de folhas de pergaminho costuradas, e não enroladas em cilindros. Estava descoberto o formato do livro, tornando-se mais fácil a transmissão de informação em forma escrita. Com o aparecimento do papel, descoberto pelo chinês  Cai Lun (alto funcionário da corte imperial da Dinastia Han) no ano 105 dC, os livros tornaram-se mais fáceis de produzir e a escrita mais fácil de realizar.  Mas a invenção mais importante para a divulgação do livro foi a descoberta da  impressão no século XIV. Inicialmente consistia na gravação do conteúdo de cada página do livro em blocos de madeira que eram mergulhados em tinta e depois imprimidos em páginas de papel, realizando várias cópias do mesmo livro. Mas foi com Johannes Gutenberg, em 1455 que esta técnica se desenvolve, com a invenção de tipos móveis (caracteres de letras) reutilizáveis, permitindo a impressão de vários livros utilizando sempre os mesmos tipos. O primeiro livro a ser impresso por esta nova técnica foi a Bíblia em latim. Com a impressão de tipos móveis o livro popularizou-se, tornando-se mais acessível graças à enorme redução de custos que permitiu a impressão em série. Em Portugal, foi no reinado de D.João II que a imprensa foi introduzida. O primeiro livro a ser impresso em caracteres hebraicos, foi o Pentateuco (os primeiros cinco livros da Biblia) em 1487, na cidade de Faro. 
Em 1488 foi impresso o primeiro livro em língua portuguesa (português arcaico) na cidade de Chaves, intitulado O Sacramental um tratado de liturgia, da autoria de Clemente Sánchez de Vercial, escritor espanhol do século XIV. Só no fim do século XV é que começariam a ser impressos livros nas grandes cidades portuguesas como Lisboa, Porto e Braga. Com o passar dos anos os livros foram conquistando o seu espaço, deixando de ser vistos como objectos de luxo acessíveis a poucos e utilizados apenas por uma pequena elite, para passarem a ser adquiridos por toda a população. O mundo mágico do livro estava finalmente ao alcance de todos, novos e velhos, ricos e pobres, bastando apenas saber ler para ter acesso a todo um manancial de histórias e aventuras. O livro tornou possível o espalhar do conhecimento, o alargar de horizontes, o sonhar mais longe, e como escreveu Mia Couto, o livro é uma caixa de tesouros que não encontramos em mais lado nenhum . Eu sempre vivi rodeada de livros e a leitura é para mim um prazer. Aprendi, sonhei, ri e chorei com eles ao longo da minha vida. A sensação de pegar num livro pela primeira vez, desfolhar as suas páginas, sentir as palavras nele escritas e descobrir as personagens que nele vivem, é única. Às vezes lembro-me das palavras de Almada Negreiros quando entrou numa livraria e disse: pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Há tantas histórias para ler, tantos mundos para descobrir, tanta coisa para aprender que sentimo-nos pequenos perante toda a obra que foi produzida e nos foi legada ao longo dos últimos séculos. O livro pode ser entendido como um documento escrito e assinado pela mão da humanidade, que regista a vitória do saber sobre a calamidade da ignorância. Ele é o documento do passado, do presente e uma visão profética do futuro, que ajuda a pessoa a entender o mundo, a vida e a si mesmo (Menegolla,1991)Escrito em papiro, em pergaminho, em papel ou em forma digital, o importante é que o livro continue a fazer parte do nosso mundo e que mantenha o Homem capaz de superar a ignorância e tomar consciência do valor da liberdade de pensamento e da capacidade do ser humano para pensar ilustradamente pela sua cabeça (Kant)