segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Robin dos Bosques Português



Os ricos e os políticos é que hão-de pagar para os pobres... Os políticos têm sido a desgraça dos pobres. Prometem tudo, mas só protegem os que eles muito bem querem . Aos pobres passam a vida a mentir-lhes. De hoje em diante eu serei repartidor público. Podeis dizê-lo a toda a gente. O povo há-de sabê-lo. E também quero que as autoridades o saibam. Porque este encargo foi-me dado pelo povo (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Assim falava José Teixeira da Silva, mais conhecido por Zé do Telhado, o mais famoso salteador português do século XIX. O José nasceu no lugar do Telhado, daí a sua alcunha, na freguesia de Castelões de Recesinhos em Penafiel, no dia 22 de Junho de 1818, filho de Joaquim Teixeira e Maria Leontina. Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente com as armas, e raio devastador em franceses, que ele matava porque eram franceses e ladrões, posto que, na qualidade de membro da nação espoliada, o sr. Joaquim chamasse só a si o que era da fazenda nacional. Um tio avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já tinha sido salteador de porte e infestara o Marão durante muitos anos (Camilo Castelo Branco in Memórias do Cácere). O seu irmão mais velho também seguiu o ofício de família. Na tentativa de o afastar da vida de salteador, os pais enviaram-no   aos 14 anos para Caíde de Rei em Lousada, para casa de um tio materno, de nome Diogo, ironicamente um antigo soldado francês, que tinha vindo com o exército nas invasões napoleónicas e por cá ficou. Com o tio aprendeu o ofício de castrador e tratador de animais. Durante a sua estadia em casa do francês Diogo, apaixona-se perdidamente pela sua prima Ana, que viria a ser sua mulher e a paixão de toda a sua vida. 


Em Julho de 1837, alista-se nos Lanceiros da Rainha, e assenta praça no Quartel de Cavalaria 2. 
Entrou José ao serviço da Junta na Arma da Cavalaria. Comprou cavalo e fardou-se a todo o primor Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham. José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que em parte era capricho e em parte era largueza de alma (Camilo Castelo Branco). Quando se dá a Revolta dos Marechais, que opõe Cartistas (defensores da Carta Constitucional de 1826) e  Setembristas (defensores da Constituição de 1822), José Teixeira, que luta pelos Cartistas, é derrotado e a 18 de Setembro de 1837, foge para Espanha. Obtido o perdão, regressa a Portugal e no dia 3 de Fevereiro de 1845, casa com a sua prima Ana, nascendo a sua primeira filha de nome Maria Josefa, no dia 7 de Novembro do mesmo ano. Deste casamento nascem ainda mais 4 filhos. Ditosos derivaram os primeiros anos deste suspirado enlace. José era querido dos vizinhos, porque aos ricos nada pedia e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador (Camilo Castelo Branco). A 23 de Março de 1846, estala a Revolução da Maria da Fonte e José Teixeira coloca-se às ordens do General Sá da Bandeira, assumindo o posto de sargento. Na batalha de Valpaços distingue-se pela bravura e pelas qualidades militares demonstradas, tendo inclusivé salvo a vida ao General Sá da Bandeira, que o comandava. Foi distinguido com a mais alta condecoração Portuguesa a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. No entanto, o lado pelo qual luta é mais uma vez derrotado e José regressa a Lousada. Acabada a guerra, José Teixeira da Silva tenta refazer a vida, mas todas as portas lhe foram fechadas, tendo-lhe sido mesmo negado um emprego, que lhe tinha sido prometido, no Depósito de Tabaco do Porto. Ignorado pelos amigos e esquecido pelo Visconde Sá da Bandeira, que chegou a ser Ministro  da Guerra e Presidente do Governo. 
Sem emprego e com dividas acumuladas, é expulso do exército por não conseguir pagar os impostos a que estava obrigado. Com a mulher e os filhos a passarem por  dificuldades e sem soluções, envereda no ofício da família e torna-se salteador. É sina! A fatalidade obriga-me a receber a herança do meu pai, que eu queria repudiar; meu irmão não resistiu à voz do sangue; a desgraça atira-me para o mesmo charco. Cumpra-se o destino...(José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002). Nascia assim o Zé do Telhado! As suas quadrilhas integravam diferentes pessoas com diferentes ocupações, desde padres a morgados, alfaiates a estalajadeiros, homens e mulheres de diversos estratos sociais. Os actos ilícitos que cometeu ao longo dos anos foram inúmeros, mas os relatos que chegaram das suas actividades ilegais destacavam um código próprio pelo qual se regia e fazia cumprir quem com ele os cometia. 


De hoje em diante acabou a rebaldaria! Temos de levar a vida a sério se queremos vencer. E quem não estiver satisfeito pode sair já, a porta está aberta! De hoje em diante, a malta aqui reunida não será um bando de ladrões. Governamo-nos, mas eu só vou tirar aos que têm mais, para dar aos que têm menos. Proíbo, ouvi bem: proíbo!, que alguma vez se tire aos pobres e a todos aqueles que vivem honradamente do seu trabalho. Nesta comunidade, também não consinto que se matem pessoas; e só usaremos a força quando resistirem e nos obriguem a isso. Também não admito que ninguém se aproveite da ocasião para abusar das mulheres. (...) De hoje em diante, eu só estou aqui como repartidor público. Tudo o que tirarmos aos outros não será só para nós. Uma parte é para os pobres. Ali para o Douro há muita gente rica, mas também se vê por lá muito pobre. Tenho visto por aí muitos velhos, sem terras, nem nada, e mulheres com bandos de filhos. A nossa comunidade tem de ajudar os que são esquecidos por todos… (José do Telhado: Robin dos Bosques Português? José M. Castro Pinto, Plátano Editora, 2002)Vários assaltos a propriedades foram cometidos, diversos roubos a pessoas em viagem foram realizados e apesar de tudo aquilo que impôs como regra de actuação, algumas pessoas foram mortas durante as acções ilegais da quadrilha do Zé do Telhado. A realidade é bem diferente da teoria. Homens como o Zé do Telhado que foram rústicos homens do povo, que alcançaram o reconhecimento – primeiro lendário e depois mítico  (...) são personagens ambivalentes, pois transitam entre os universos do herói e do antiherói: destacam-se dos seus semelhantes por um perfil único, que os individualiza e desperta sobre eles a admiração de seu povo. (...) são reconhecidamente valorizadas como heróis do povo exactamente porque afrontam e subvertem o poder vigente e constroem, à margem desse poder, outro mundo, que se instaura e se rege por leis próprias (...) reagem a seu modo a um estado social injusto, transformando-se em defensores e vingadores do povo oprimido (As ambiguidades do herói bandido, de Silvana Bento Andrade e Henriqueta Maria Gonçalves)
Com as autoridades em constante perseguição, o bandoleiro mais conhecido do País, acaba por ser  detido no dia 31 de Março de 1859, quando tentava fugir para o Brasil, a bordo da barca Oliveira que estava atracada no Porto. Ironicamente estava a ser ajudado por  Ana Vitória, uma das suas vítimas que se tinha tornado sua grande admiradora. É dela a frase que transformou o Zé do Telhado no Robin dos Bosques português, quando afirmou que existem pessoas de bem que nunca deram às classes humildes um centésimo do que lhes deu Zé do Telhado! Foi preso e colocado na cela nº12 da Cadeia da Relação do Porto, onde teve por companhia Camilo Castelo Branco. Este confidenciou ao seu companheiro de cela o medo que tinha de ser morto na cadeia a mando do marido da sua amante, Ana Plácido. Reza a história que Zé do Telhado lhe terá dito esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos. No seu livro Memórias do Cácere, Camilo imortaliza o Robin dos Bosques português, descrevendo-o como  o mais afamado salteador deste século. No dia 9 de Dezembro de 1859 foi julgado e condenado por doze crimes e condenado ao degredo para toda a vida na África Ocidental Portuguesa. Alguns dos membros da sua quadrilha nunca chegaram a julgamento, entre eles encontravam-se o Morgado da Magantinha, um padre de nome Torcato, alguns administradores e regedores que tinham cometido os mesmo crimes. É de crer que nesta altura se movimentassem altas influências tendentes a ilibar estas parelhas de bandidos engravatados. O facto é que saíram em liberdade. E é natural que o administrador, ao mesmo tempo que os inocentava, procurasse aproveitá-los (Campos Monteiro, historiador). A pena aplicada foi no entanto comutada pelo Tribunal da Relação do Porto, para 15 anos de degredo. Zé do Telhado desembarcou em Luanda e seguiu depois para Malanje, onde viveu já em liberdade, tendo-se tornado num negociante de borracha, cera e marfim. Casou-se com uma angolana de nome Conceição, de quem teve três filhos. 


Conhecido entre os locais como Kimuezo, homem de barbas grandes, viveu desafogadamente até aos 57 anos, quando morreu vitima de varíola em 1875. José Teixeira da Silva foi sepultado na aldeia de Xissa, Município de Mucari, onde lhe foi erigido um mausoléu, ainda hoje objecto de romagens.  Consta que os negros mais pobres íam durante muitos anos chorar ajoelhados à sua campa, evocando o nome do grande branco, o pai dos pobres.
José Teixeira, o nome dele é pouco; José do Telhado é tudo. Quando passou do apelido para esta alcunha, apanhou a celebridade (Júlio César Machado, 1872). Uma figura polémica, que permanece viva na história popular do nosso país e nas nossas memórias. António Nobre no seu poema Viagens da minha terra, do seu livro Só, imortaliza-o quando escreve rondar à lua entre pinhais! Ser capitão! Trazer pistolas, mas não roubando, trazendo esmolas, dependuradas nos punhais! 



quinta-feira, 19 de julho de 2012

O nome do dinheiro


Dinheiro é uma palavra sobejamente conhecida no mundo actual. Toda a gente sabe o que é o dinheiro e qual a sua importância nas sociedades capitalistas e consumistas actuais. Tempo é dinheiro e quando até o tempo é avaliado por este metal, nada mais é necessário acrescentar! Mas nem sempre foi assim. Houveram tempos em que não existia dinheiro! Estranho mas verdade. O Homem conseguia viver sem dinheiro. 
Inicialmente o comércio baseava-se na troca directa de bens, o escambo. 
O sistema de escambo visava suprir as necessidades, sem comparação de valores materiais.O que era era excedente para uns era trocado pelo que sobrava a outros, sem haver avaliação do mercadoria transaccionada. A necessidade  ditava a troca. Esta forma de comércio elementar foi dominante nas primeiras civilizações e ainda hoje é utilizada nas tribos mais isoladas. Hoje as crianças   ainda utilizam este tipo de comércio, trocando brinquedos, cromos e revistas entre elas, sem recorrer a valores monetários. No entanto algumas mercadorias começaram a ter mais procura do que outras, passando assim a ter mais valor para a troca. O factor valor introduziu-se no comércio de bens e alterou todo o sistema até então utilizado. Surgiram assim as moedas-mercadoria: os metais, as cabeças de gado e o sal foram as primeiras moedas-mercadoria conhecidas, e as duas últimas deixaram uma marca permanente no vocabulário comercial que chegou até nós. Pecus, a palavra latina para gado deu origem às palavras pecúnia, que significa dinheiro, e pecúlio que é o dinheiro acumulado; Capita que significa cabeça, originou a palavra sobejamente conhecida capital (património); a palavra salário provém do facto de na antiga Roma o sal ser utilizado para pagar serviços prestados. A valorização cada vez maior dos metais, fez com que se começasse a utilizar pequenos objectos de metal como instrumentos valiosos de troca. No século VII aC surgem na Lídia, cidade-estado da Ásia Menor, as primeiras moedas semelhantes às actuais: pequenas peças em metal, com peso e valor determinado e com cunho oficial como garante do seu valor. O local onde se cunhavam as moedas na Roma Antiga, situava-se junto ao templo da Deusa Juno Moneta, e encontrava-se sob a sua protecção. Em sua homenagem os discos redondos de metal aí produzidos chamaram-se monetas, que deu origem à palavra moeda. A passagem de uma economia de troca para uma economia monetária transformou progressivamente as actividades e comportamentos humanos (A Enciclopédia, volume 14, Verbo-Jornal Público). Nada voltou a ser igual e aos poucos o valor da moeda foi ganhando terreno e controlando todo a economia e todas as transacções. Todas as sociedades, independentemente da sua origem, começaram a cunhar as suas próprias moedas e a utilizá-las como base para todas as trocas comerciais. 
O reino de Portugal, reconhecido por bula papal de Alexandre III em 1179, teve como primeiras moedas cunhadas por Afonso Henriques, o Dinheiro (acredita-se que a origem da palavra dinheiro actualmente utilizada deriva do nome desta moeda)  e a Mealha (que deu origem à palavra mealheiro) que valia 1/2 Dinheiro. Doze moedas de dinheiro valiam um soldo (antiga moeda romana) e vinte soldos equivaliam a uma libra romana (unidade monetária baseada na prata, que valia originalmente 0,33kg de prata). Foram cunhadas ainda algumas moedas de ouro, os Morabitinos que no reinado de D.Sancho I valiam 180 dinheiros. O dinheiro foi utilizado no reino de Portugal desde o século XII até perto de 1430, altura em que D. Duarte o substituiu definitivamente pela moeda de nome Real. Os reais começaram a ser introduzidos por D.Fernando I em 1380, como uma moeda de prata que valia 120 dinheiros; no reinado de D.João I foram cunhados duas moedas de Real: o real branco que correspondia a 840 dinheiros (3 libras e meia) e o real preto que apenas valia um décimo do branco.

Mas foi com D.Duarte que a moeda real se tornou na unidade base de Portugal. O real, no plural reais, que se popularizou rapidamente como réis, foi a moeda utilizada oficialmente em Portugal desde 1430 até 1911, tendo sido também utilizada em todas as colónias portuguesas. 
Em 1847 o Banco de Portugal emitiu as primeiras notas e foi criado o sistema decimal para denominar as moedas de réis. O padrão monetário base instituído era de 1000 réis (mil-réis); um milhão de réis passou a ser designado por um conto de réis.


Em 1911, com a implantação da Republica, o real foi substituído pelo escudo,  cujo símbolo era o $. No entanto a designação de conto de réis sobreviveu à introdução da nova moeda, sendo sinónimo de mil escudos. A moeda escudo foi a unidade monetária de Portugal até ao ano de 2002, quando foi substituída pela moeda europeia de nome euro. Um euro equivale a 200,482 escudos e é actualmente a moeda oficial da Republica Portuguesa, sendo usada por todos os países pertencentes à Comunidade Europeia, que adoptaram a moeda única. 
Os anos passaram, o nome das moedas mudou. Mas o certo é que os nomes das diferentes unidades monetárias que Portugal teve, mantêm-se na memória dos portugueses. Ainda me lembro de ouvir a minha avô dizer aos clientes da sua mercearia que determinada mercadoria custava cem mil réis ou que outra tinha o valor de um conto de réis. Eu própria dou por mim a passar os euros para escudos, penso em escudos e ainda acrescento os contos na minha contabilidade mental. A nossa memória é uma artimanha fantástica e mesmo com todas as mudanças que surgem à nossa volta, mantemos bem guardadas as nossas recordações cheias de história. Um cacique (chefe indígena americano) quando foi questionado sobre se não sentia necessidade de possuir dinheiro para manter a sobrevivência da sua tribo respondeu: A natureza não vai fugir. Ela alimentou o avô do meu avô e o meu pai e irá alimentar o meu filho e o filho do meu filho. Não necessitamos de acumular coisas. Porque é que fazem isso? Não lhe sei responder...

Nota: As fotografias utilizadas foram retiradas de www.forum-numismatica.com e www.numisgaia.com

domingo, 15 de julho de 2012

A praia da Granja

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa. (Sophia de Mello Breyner)
Não é qualquer praia que tem um poema destes que a homenageia e ao mesmo tempo torna imortal. Mas a praia da Granja (do latim granum que significa grão), do concelho de Vila Nova de Gaia, também não é uma praia qualquer. Corria o ano de 1758, e os frades Crúzios, sediados no Mosteiro de Grijó, construíram uma Quinta e a necessidade de cultivar essas terras para seu sustento esteve na origem do topónimo Granja - propriedade rústica de amanho, conjunto de dependências de uma propriedade agrícola (Alberto Luís Moreira, in A Queirosiana da Biblioteca de Gaia: A Granja de Eça de Queirós)Esta propriedade junto ao mar, era também utilizada  pelos Cónegos Regrantes do Patriarca St. Agostinho do Real Mosteiro de S. Salvador de Grijó, como estância de convalescença e de repouso, nas alturas de mais calor, e como eles próprios afirmavam podiam assim ir a ares. Cem anos mais tarde, já no século XIX, José Frutuoso Aires de Gouveia Osório, médico e politico português nascido na Invicta cidade, da qual foi Presidente da Câmara (1886-1887), adquire a Quinta aos frades, passando a ser um couto privado deste ilustre portuense, sendo baptizada com o nome de Quinta dos Aires (mais conhecida actualmente por Quinta do Bispo)
Pela mão de Frutuoso Aires, no início da década de setenta, nasce a Granja. Uma correnteza de casas para a família do abastado comerciante do Porto, e alguns lotes vendidos criteriosamente, constituíram o modo de dar vida a esta apreciada estância balnear (Luís Paula Saldanha Martins in Banhistas de Mar do século XIX, 1989). As sete casas edificadas inicialmente, pertenciam aos filhos de Frutuoso, e a sua construção deu origem à principal rua a chamada Avenida da Granja. A Granja tornou-se rapidamente na mais aristocrática das praias do litoral português (Ramalho Urtigão). A 7 de Junho de 1864, Vila Nova de Gaia e Lisboa ficam ligadas por via férrea, com a chegada do comboio ao lugar das Devesas, e com a posterior construção da Estação da Granja, dá-se o desenvolvimento desta estância balnear. A praia da Granja, a mais graciosa e asseada das estações balneares portuguesas, a praia por excelência elegante, nasceu após a passagem da linha férrea pelo sítio. Diz-nos a química que o diamante é um carvão; a Granja, uma jóia tem pois essa mesma origem. Saiu do fumo negro da locomotiva graças ao empenho do alquimista Frutuoso Aires  (José Augusto Vieira, in Minho Pitoresco, 1987).
O ambiente que se vivia nesta praia do Norte de Portugal era de puro elitismo, tendo-se criado um mundo social e intelectual muito próprio, com uma forte identidade territorial. Em 1890, o Grilo de Gaya, um jornal local descreve muito bem ambiente: Têm chegado algumas famílias à praia da Granja, porém sempre as de costume: só fidalguias (...) Esta praia, talvez a mais bonita e saudável da nossa beira mar, torna-se tristonha sem alegria, porque muitos banhistas  preferem andar quasi sós, não querendo gente de classe baixa que os estorvem. A Granja tornou-se num local privilegiado e elegante: local de cavalgadas, de quermesses, dos torneios de ténis e de cricket , dos bailes e concertos, das tardes de chá e bridge...um local de príncipes e  princesas, um local de conto de fadas. 
Foi aqui que pela primeira vez em Portugal surgiu uma rua pedonal, ladeada de jardins e árvores e com passeios elegantemente desenhados. Um sítio diferente, um local paradisíaco que Ramalho Urtigão descreveu como estação balnear da alta sociedade portuguesa de fins do século XIX e princípios do século XX, que se encheu de luxuosas vivendas, que definem por si toda uma arte de saber viver bem e requintadamente, típica de certa belle époque. A Granja é uma povoação diamante. Por esta elegante praia passaram e veranearam ilustres figuras: o rei D. Luís, a rainha Maria Pia e o infante D. Afonso, o rei D.Carlos e a rainha D.Amélia, o ilustre Grupo dos Cinco, do qual faziam parte Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Eça de Queiróz, e famílias nobres do Porto, Lisboa e de todo o País. Os jornais de Lisboa e Porto referiam-se a esta praia  como sendo uma concha mimosa como a pétala de uma camélia; ninho feito de púrpura e perfumes. Já no século XX figuras publicas aqui passaram as suas férias de verão nas suas casas de família, entre as quais de destacam, Francisco Sá Carneiro e Sophia de Mello Breyner. Os descendentes de Eça de Queiróz também aqui viveram, na casa onde morreu a sua mulher  Emilia de Castro Pamplona a 5 de Junho de 1934.

Mas não foi só pela sua praia que este local ficou conhecido. Foi aqui que foi celebrado a 7 de Setembro de 1876, o Pacto da Granja, onde surgiu um novo partido politico, o Partido Progressista, como resultado da junção do Partido Histórico e do Partido Reformista, liderado por Anselmo José Brancaamp como oposição ao Partido de Fontes Pereira de Melo, o poderoso Partido Regenerador. Inaugurou-se assim na Granja a segunda fase do rotativismo em Portugal, período de alternância politica entre os partidos, (...) que proporcionou algum equilíbrio entre os sectores conservadores e os mais liberais e progressistas do País  (Infopédia, Porto Editora)

A Granja ainda hoje é um local de veraneio, com as suas casas senhoriais e coloridos chalés de verão, mas o tempo foi apagando os resquícios aristocráticos e elitistas do passado. A beleza da sua praia mantém-se, as ondas do mar espreguiçam calmamente a sua espuma branca pelo areal fino e as memórias daquela época ainda se podem ouvir nas histórias dos mais velhos. 
Também eu passei muitas tardes de Verão na famosa piscina da Granja, bem juntinho ao mar. Para aceder às suas instalações tínhamos que desembolsar a módica quantia de 200 escudos, o que nos anos 80 era uma exorbitância, comparada com os 50 escudos que custava a entrada na vizinha piscina de Espinho...talvez fosse uma ténue tentativa para manter o espírito elitista do passado! Quem aqui passou as suas férias de Verão não esquece esta praia, este mar e a sua brisa. Sophia de Mello Breyner fez da Granja a estrela dos seus poemas e das suas histórias e nunca a esqueceu: 
Quando eu morrer
Voltarei para buscar
Os instantes que não vivi 
Junto do mar.
(...)
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim. 


Nota: As fotografias utilizadas foram retiradas do Arquivo Digital em www.prof2000.pt e Da Praia da Granja em www.dapraiadagranja.blogspot.pt 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Heróis do rio Douro

Existe um velho provérbio português que diz há imagens que valem mais do que mil palavras! Este pequeno filme com cerca de 5 minutos faz jus ao ditado. No meu post intitulado Barco Rabelo ou Barco de Rabo falei um pouco da história deste histórico barco que navega no rio Douro e tentei descrever a difícil tarefa que os homens que o manobravam tinham que enfrentar diariamente. Um trabalho árduo e perigoso, no transporte de pipas carregadas do famoso Vinho do Porto, até às adegas de Vila Nova de Gaia. Mas descrever não é ver, e por isso aqui fica este fantástico filme, sem som, em homenagem a este heróis do rio Douro!




quarta-feira, 11 de julho de 2012

A vida do livro

Os livros são objectos pequenos, mas cheios de Mundo (Romano Guardini, escritor e teólogo italiano). O livro é um objecto fascinante. Nascemos num mundo em que o livro é comum e por isso temos que nos considerar uns privilegiados: temos livros pequenos ou grandes, de capa dura ou fina, a cores ou a preto e branco, de romance ou crime, contendo todos eles um sem fim de histórias para contar. Apenas temos que os abrir e ler! Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que não haviam livros...os primeiros suportes utilizados para a escrita foram tabuletas de pedra ou de argila, tendo sido encontradas tabuletas de argila na Suméria datadas de 2400 a 2200 aC. Mais tarde surgiu o khartés (que em grego significa papel) e que consistia num cilindro de papiro de fácil transporte. O papiro, provém de uma planta perene de nome Cyperus Papyrus, donde era extraída a parte interna do caule, que depois de tratada e transformada em folha, era enrolada em forma de cilindro. Os romanos chamaram-lhe volumen, nome pelo qual ficou a ser mais conhecido. O cilindro de papiro, era desenrolado à medida que ia sendo lido podendo alcançar o comprimento de 5 a 6 metros. 
Se contivesse mais do que uma obra era denominado de tomo. Considerado o percursor do papel, o papiro que resultava da libertação (libere em latim) da parte interior do caule do resto da planta original, deu origem à palavra latina liber libri, e posteriormente a livro na língua portuguesa. O papiro mais antigo que se conhece foi descoberto em Saqqara (necrópole da antiga cidade de Menfis do Antigo Egipto) no túmulo de um nobre chamado Hemaka, da I dinastia (2920 a 2770 aC) e foi encontrado em branco. Posteriormente surgiu o pergaminho, que resulta do tratamento de peles de animais, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, que permitia a escrita. O nome pergaminho, homenageia a cidade grega de Pérgamo na Àsia Menor, onde se acredita que foi descoberto. Mais fácil de ser manipulado e com muito maior duração do que o papiro, o pergaminho rapidamente se torna popular entre a classe erudita grega e romana. 
Aos poucos o volumen foi substituído pelo códex, compilação de folhas de pergaminho costuradas, e não enroladas em cilindros. Estava descoberto o formato do livro, tornando-se mais fácil a transmissão de informação em forma escrita. Com o aparecimento do papel, descoberto pelo chinês  Cai Lun (alto funcionário da corte imperial da Dinastia Han) no ano 105 dC, os livros tornaram-se mais fáceis de produzir e a escrita mais fácil de realizar.  Mas a invenção mais importante para a divulgação do livro foi a descoberta da  impressão no século XIV. Inicialmente consistia na gravação do conteúdo de cada página do livro em blocos de madeira que eram mergulhados em tinta e depois imprimidos em páginas de papel, realizando várias cópias do mesmo livro. Mas foi com Johannes Gutenberg, em 1455 que esta técnica se desenvolve, com a invenção de tipos móveis (caracteres de letras) reutilizáveis, permitindo a impressão de vários livros utilizando sempre os mesmos tipos. O primeiro livro a ser impresso por esta nova técnica foi a Bíblia em latim. Com a impressão de tipos móveis o livro popularizou-se, tornando-se mais acessível graças à enorme redução de custos que permitiu a impressão em série. Em Portugal, foi no reinado de D.João II que a imprensa foi introduzida. O primeiro livro a ser impresso em caracteres hebraicos, foi o Pentateuco (os primeiros cinco livros da Biblia) em 1487, na cidade de Faro. 
Em 1488 foi impresso o primeiro livro em língua portuguesa (português arcaico) na cidade de Chaves, intitulado O Sacramental um tratado de liturgia, da autoria de Clemente Sánchez de Vercial, escritor espanhol do século XIV. Só no fim do século XV é que começariam a ser impressos livros nas grandes cidades portuguesas como Lisboa, Porto e Braga. Com o passar dos anos os livros foram conquistando o seu espaço, deixando de ser vistos como objectos de luxo acessíveis a poucos e utilizados apenas por uma pequena elite, para passarem a ser adquiridos por toda a população. O mundo mágico do livro estava finalmente ao alcance de todos, novos e velhos, ricos e pobres, bastando apenas saber ler para ter acesso a todo um manancial de histórias e aventuras. O livro tornou possível o espalhar do conhecimento, o alargar de horizontes, o sonhar mais longe, e como escreveu Mia Couto, o livro é uma caixa de tesouros que não encontramos em mais lado nenhum . Eu sempre vivi rodeada de livros e a leitura é para mim um prazer. Aprendi, sonhei, ri e chorei com eles ao longo da minha vida. A sensação de pegar num livro pela primeira vez, desfolhar as suas páginas, sentir as palavras nele escritas e descobrir as personagens que nele vivem, é única. Às vezes lembro-me das palavras de Almada Negreiros quando entrou numa livraria e disse: pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Há tantas histórias para ler, tantos mundos para descobrir, tanta coisa para aprender que sentimo-nos pequenos perante toda a obra que foi produzida e nos foi legada ao longo dos últimos séculos. O livro pode ser entendido como um documento escrito e assinado pela mão da humanidade, que regista a vitória do saber sobre a calamidade da ignorância. Ele é o documento do passado, do presente e uma visão profética do futuro, que ajuda a pessoa a entender o mundo, a vida e a si mesmo (Menegolla,1991)Escrito em papiro, em pergaminho, em papel ou em forma digital, o importante é que o livro continue a fazer parte do nosso mundo e que mantenha o Homem capaz de superar a ignorância e tomar consciência do valor da liberdade de pensamento e da capacidade do ser humano para pensar ilustradamente pela sua cabeça (Kant)

sábado, 7 de julho de 2012

Barco Rabelo ou o Barco de Rabo


O barco Rabelo e o Rio Douro são amigos inseparáveis de longa data. O rio de mau navegar, como era conhecido aquele que banha as margens das cidades de Vila Nova de Gaia e do Porto, desenhou o barco de Rabo ou Rabelo. De águas traiçoeiras, com correntes rápidas e turbulentas, o Douro sempre tornou difícil a navegação nas suas águas. Parecia dizer a quem o pretendia utilizar como via de comunicação que aqui mando eu, e só navega nas minhas águas quem eu quero! De construção simples e tosca, o barco Rabelo conquistou o Douro. De fundo chato, boca aberta e com as tábuas do costado ligadas em trincado, a popa é mais alta que a proa para facilitar o manejo da espadela que serve de remo e de leme, governada pelo arrais ou feitor, que vai em cima de uma espécie de ponte - a apegada. Tem um único mastro onde arma uma grande vela. As dimensões usuais dos Rabelos situam-se entre os 19 e os 20 metros de comprimento, com 4,5 metros de boca (Museu da Marinha)Sem quilha e de fundo chato, a sua construção de tábuas sobrepostas (a chamada técnica da  tábua trincada ou de clinker built segundo os ingleses) construídos pelos próprios marinheiros de rio, tem origem nórdica. 

No Museu Marítimo de Oslo, estão expostos dois barcos Vikings, os chamados Drakkars, que segundo Armando Matos autor do livro O barco Rabelo, podem estar na origem dos nossos Rabelos. A origem deste barco confunde-se com o próprio rio. Estrabão, na sua obra intitulada a Geografia (considerada a primeira enciclopédia de geografia escrita em 17 volumes) refere a existência de magnis scaphis (grandes barcos) que subiam e desciam o rio Douro transportando pessoas e haveres, sendo a única forma de comunicação com as terras do interior. Desde o século XIII que existem relatos sobre as viagens destes históricos barcos, que percorrem incansavelmente e alheios aos perigos, as águas que serpenteiam as encostas verdejantes do Alto Douro e que desaguam na foz junto às cidades nortenhas de Porto e Gaia. Em três dias conseguia percorrer os 150 quilómetros que separavam a Régua do Porto (Museu da Marinha)São estes barcos estrambólicos que fazem o tráfego do Douro. carregam pipas, cortiça, casca, madeira, gente; e quando vem o inverno e anda o rio grande, o movimento nunca se interrompe. Os homens intrépidos de pé sobre a pégada - o nome da gaiola onde vai o arrais - manobram com precisão a espadela, metendo a charroa na água e imprimindo a direcção ao barco. É preciso fazê-lo sem um movimento falso, sem um segundo de hesitação nos sítios perigosos (...) entre montanhas de bronze que põem a alma negra e que estão à espera que se passe uma tragédia (...) tendo de descer lá do alto até ao Porto com aquelas pipas todas, agarrado à espadela, olho na água, olho nas pedras agudas como dentes...o barco oscila, põe-se de pé - e ele lá vem ,lá desce. Como se aguenta? Arriscando a vida (Maria Angelina e Raúl Brandão in Portugal pequenino, 1929)Para ultrapassar os perigosos rápidos do Douro, os Rabelos tinham que ser colocados na água com grande precisão, e quando apanhados pela força da corrente a tripulação esperava e rezava para que o rio de mau navegar os transportasse em segurança. 
Quando não havia corrente o barco de Rabo, recorria à sua vela e à ajuda de ventos favoráveis para poder navegar. Quando precisava de lutar contra a correnteza da água, recorria ao reboque: os tripulantes saiam do barco e com recurso a cordas arrastavam o barco escalando as margens rochosas e traiçoeiras do Alto Douro. Se navegasse junto a terrenos férteis e planos, faziam soar a buzina do barco Rabelo para alertar os agricultores locais da necessidade de ajuda ao mesmo tempo que em voz alta clamavam Eh boieiro!! Uma parelha de bois, seria então atrelada ao barco que subiria o rio a reboque da força animal. Muitos homens perderam a vida nesta perigosa travessia, apesar de toda a mestria e valentia que possuíam. O próprio Barrão Forrester (grande reformador do comércio do vinho do Porto) morreu junto ao Cachão da Valeira  em 1861, quando o barco Rabelo que o transportava virou, não se conseguindo salvar por causa do seu famoso cinto de dinheiro, que estando cheio o arrastou para o fundo. A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, publicou em 1792 alvarás onde legisla a actividade do barcos Rabelo, tal é a dimensão do transporte e o número de barcos existentes. Ficam assim determinados os limites de carga a transportar, dando ordem de extinção dos barcos de maior porte (aqueles com capacidade de transporte de 100 pipas ou mais) e a proibição de navegação nocturna, pelos riscos que esta implicava.
Associado ao barco Rabelo está o famoso Vinho do Porto. Transportado em pipas de madeira empilhadas nos Rabelos, desde as terras de socalco viradas para o Douro até às caves de Gaia, tornaram ainda mais famosos os barcos de Rabo. O colorido sóbrio e pitoresco, os trajes dos seus marinheiros e a grandeza da paisagem, transformaram-no numa das embarcações típicas mais conhecidas em todo o mundo (Museu da Marinha). Quando observamos actualmente o majestoso navegar deste belo e tosco barco, nas águas límpidas do Douro, com o seu porte altivo e gracioso, rapidamente esquecemos a luta que as gentes do rio tiveram ao longo dos anos para realizar a sua travessia. A eles devemos o sucesso do Vinho do Porto, a travessia de gentes e carga entre as remotas terras do Alto Douro vinhateiro e as cidades costeiras, durante longos anos. A eles devemos um olhar diferente sobre o tipico barco, que agora percorre o rio para deleite dos turistas mesclando-se com a beleza das pontes e das margens que vão desfilando ao logo da sua travessia. Alves Redol escreveu que cedo o homem descobriu o rio...aprendeu a lidar com os seus humores e a beneficiar das suas potencialidades. Depois o homem construiu o barco Rabelo, sem requintes de beleza, mas repleto de realidade e poesia!

Nota: As imagens a preto e branco utilizadas foram retiradas de etnografiaemimagens.blogspot.com 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Margarida de Sabóia: uma italiana que foi Vice-rei de Portugal



O dia 1 de Dezembro de 1640 é um dia histórico para Portugal. O nosso país restaurava a sua independência face aos espanhóis e a dinastia Filipina chegava ao fim. O trono de Portugal era novamente ocupado por um descendente luso. D.João, Duque de Bragança tornou-se no vigésimo rei português iniciando a IV dinastia portuguesa, a dinastia de Bragança. Os anos anteriores foram muito conturbados. Com o desaparecimento de D.Sebastião  sem deixar descendência, na Batalha de Alcácer Quibir em 1578, o trono de Portugal foi ocupado pelo seu tio o Cardeal D.Henrique. Dois anos depois em 1580, o Rei-Cardeal morreu sem deixar herdeiro nomeado dando início a uma crise politica e social em Portugal. Chegou até nós uma quadra popular que define bem o descontentamento do povo português perante a ausência de um herdeiro legitimo: Que o Cardeal-rei D.Henrique, fique no inferno muitos anos, por ter deixado em testamento, Portugal aos castelhanos. Filipe II de Espanha, neto de D.Manuel e tio de D.Sebastião assumiu a pretensão ao trono português tendo apenas como opositor D.António, Prior do Crato e primo de D.Sebastião. Na Batalha de Alcântara, de 24 de Agosto de 1580, o pretendente português saiu derrotado e Filipe II de Espanha, I de Portugal, foi aclamado rei em 1581 nas Cortes de Tomar. Comprometeu-se a manter a independência de Portugal como país, a só nomear governadores portugueses, a respeitar os usos e costumes lusos e a manter a moeda nacional. O tempo foi passando e os seus sucessores rapidamente se esqueceram destas promessas e Portugal passou a ser mais uma província do reino de Espanha. É neste cenário de submissão ao poderio crescente dos espanhóis que surge o nome de Margarida de Sabóia, uma italiana que representava a Dinastia dos Filipes em Portugal. Filha de Carlos Emanuel I, Duque de Sabóia e da Infanta Cristina Micaela de Espanha , nasceu na cidade italiana de Turim a 28 de Abril de 1589. Neta pela parte materna de Filipe II de Espanha, tornou-se numa importante figura da aristocracia europeia. De acordo com uma aliança matrimonial, casou na cidade em que a viu nascer no dia 19 de Fevereiro de 1608 com Francisco de Gonzaga, futuro Duque de Mântua e Montferrat. Com a morte precoce do Duque Francisco, Margarida de Sabóia assumiu o cargo de Duquesa de Mântua, nome pelo qual ficaria conhecida para a história. Sem filhos varões vivos, Margarida tornou-se regente da filha Maria até esta ter idade para governar o ducado, após anos de luta contra outros pretendentes ao lugar deixado vago pelo marido. Tendo antepassados ligados à Casa Real Portuguesa, já que as suas avós materna e paterna eram ambas filhas do rei D.Manuel  (Isabel e Beatriz), foi nomeada em 1634 pelo rei Filipe IV, seu primo directo, Vice-rei de Portugal. Recebida a 10 de Novembro de 1634 em Madrid pelo monarca do reino de Espanha, onde se deslocou acompanhada do Duque de Olivares, o ministro preferido de Filipe IV. Rumou a Portugal no fim do mês de Agosto, com o correspondente a 8 mil escudos em ouro para as despesas de viagem, e com uma provisão que correspondia a 25 mil escudos anuais pelo cargo que ia ocupar. 
A Vice-rei Margarida de Mântua chegou a Portugal no ano de 1635 para onde se dirigiu com ideais de governação e poder. No entanto cedo se apercebeu que não passava de uma peça decorativa sem qualquer poder real. Margarida de Sabóia foi colocada em Portugal para vice-reinar e não para governar (António de Oliveira, Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino). O poder efectivo estava nas mãos do Marques de Puebla (Conselheiro de Estado e Governador da Fazenda de Castela)  e do seu  secretário  Gaspar Ruiz Escaray (Secretário de Estado do Conselho de Guerra), que vigiavam e controlavam todas as acções e decisões da Vice-rei de Portugal. A principal tarefa, que lhe tinha sido atribuida directamente pelo primo Filipe IV de Espanha e III de Portugal, era convencer os Ministros portugueses a aceitarem o aumento da carga fiscal de modo a obter uma renda fixa e  defender e recuperar o Brasil, entretanto nas mãos dos holandeses. Miguel de Vasconcelos, português e primeiro ministro de Margarida de Mântua, era também colaborador de Filipe III de Portugal. Era um homem odiado pelo povo português por defender o domínio filipino. Ao verificar que nada daquilo que decidia era cumprido e que eram cometidas irregularidades contra o povo português, particularmente por Miguel Vasconcelos e pelos outros ministros, Margarida de Mântua, escreveu a Filipe IV várias cartas a dar conhecimento de tais atitudes  e onde avisava o primo do perigo de perder o reino português caso não fossem interrompidas tais medidas. Pedia a Filipe III que moderasse os seus ministros e que fosse mais benevolente com o povo português completamente subjugado em impostos e  sofredor de injustiças constantes. Com a introdução do chamado imposto da quinta, que consistia em taxar a 5% todas as mercadorias e rendimentos do reino português, Margarida de Mântua com a sua intervenção conseguiu controlar um inicio de revolução no litoral sul de Portugal. Apesar dos avisos sobre o sofrimento em que vivia a maior parte da população portuguesa e das injustiças cometidas, nada foi feito para minorar o efeito das medidas tomadas. Quando surgiu a convocação dos nobres portugueses para prestarem serviço fora das fronteiras lusas, começou a ser posta em prática a ideia de uma revolução para expulsar os espanhóis. O chamado Grupo dos Conjurados, como ficaram conhecidos os quarenta elementos que dele faziam parte, começaram a planear o restabelecimento da independência portuguesa. Escolheram para futuro rei de Portugal, D.João, Duque de Bragança que tendo inicialmente recusado o convite foi convencido por sua mulher D.Luisa de Gusmão, que segundo o Conde de Ericeira, afirmou ser mais acertado morrer reinando do que acabar servindo. Também é atribuída a D.Luisa a famosa frase melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida. E assim as previsões de Margarida de Sabóia confirmaram-se e no dia 1 de Dezembro de 1640, Portugal reconquistava a independência que tinha perdido há 60 anos atrás . 
Quando os fidalgos invadem o paço D. Antão de Almada e D. Carlos de Noronha acercam-se da Duquesa de Mântua e comunicam-lhe que Portugal não reconhece outro rei senão D. João IV. A vice-rei tenta resistir e altivamente pergunta: Manda-me sair a mim? E de que maneira? Carlos de Noronha responde: Obrigando Vossa Alteza a que, se não quiser sair por aquela porta, tenha de sair pela janela. Face à situação em que se encontrava, e depois de ter visto o seu primeiro ministro Miguel Vasconcelos ser morto e atirado da varanda para o Terreiro do Paço, Margarida de Mântua rende-se. Mais tarde recebeu ordens para abandonar o Palácio e a pé acompanhada do seu séquito dirigiu-se para a casa real de Xabregas onde permaneceu sob a protecção de duzentos soldados portugueses. Poucos meses depois D.João IV libertou-a, enviando-a em liberdade para Castela. Após várias tentativas para falar com Filipe IV todas elas fracassadas, por intervenção do Duque de Olivares, e depois de ter passado por Mérida e Occanga, Margarida consegue ser recebida a 3 de Janeiro de 1642, pelo monarca que lhe concede vários privilégios: o governo da cidade de Vigevano, uma provisão de 36 mil ducados de prata anuais e 50 mil ducados para a sua viagem de regresso a Itália. Margarida abandonou Madrid a 5 de Julho de 1655 com destino à sua terra natal, mas perto da localidade espanhola de Miranda de Ebro, a viagem foi interrompida, por se apresentar muito debilitada. Chamado o alcaide local, Margarida confirmou o testamento que tinha sido feito em 1652. A Duquesa de Mântua morre a 26 de Junho de 1656 em Miranda de Ebro.Os seus restos mortais foram transportados para a cidade de Burgos, onde ficaram depositados no mosteiro de Las Vuelgas. Pouco conhecida na história de Portugal, esta mulher italiana de nascença, tornou-se Duquesa de Mântua, foi Vice-rei de Portugal e morreu  sem glória e longe da sua pátria, tudo por uma inebriante e efémera sensação de poder.

domingo, 1 de julho de 2012

Nasci no século passado

Nasci no século XX, logo nasci no século passado! Esta dedução fácil de se fazer é algo pesada, pois só o conceito de século passado, dá logo ideia de algo que já se passou há muito, muito tempo...Um sobrinho meu fez-me uma pergunta que me fez parar para pensar: ó tia, é verdade que quando tu nasceste não havia nem telemóveis, nem computadores ? perguntou ele olhando-me com certo ar de incredulidade. Obviamente tive que lhe responder sem mentir: é verdade, sim senhora! Não contente com a resposta voltou à carga: mas então, o que é que vocês faziam? E nesse momento recuei uns anos e lembrei-me que eu própria tinha feito uma pergunta semelhante aos meus pais e aos meus avós, quando os questionei como é que eles tinham conseguido viver sem televisão. Simplesmente me responderam com um muito bemTudo parece tão definitivo e indispensável, que achamos que não sabemos viver sem aquilo que nos rodeia no nosso quotidiano. Mas será que somos mais felizes agora do que eram os nossos pais e avós? Não há resposta exacta para uma pergunta como esta, mas às vezes faz-nos bem pensar nestas pequenas grandes dependências que vamos acumulando ao longo dos anos. De facto eu nasci numa altura em que não existiam nem telemóveis e nem computadores e era muito feliz. Como não sabia do que se tratava não sentia falta. A vida era recheada de imaginação e fantasia, ocupada com jogos e brincadeiras muitas vezes por nós inventadas, sem grandes regras nem objectivos. Apenas queríamos brincar e conviver. O telefone era o de casa dos meus pais e existia só um, grande, pesado e com um disco para marcar os números, que era usado apenas com autorização paterna, pois as chamadas eram caras. Quando os meus pais nos autorizaram a ter um telefone no quarto, ainda por cima de teclado, foi uma alegria e um autêntico luxo: dois telefones em casa! Tudo o que era novidade nos atraía e deslumbrava. No século passado, naquele em que nasci, também não haviam escadas rolantes, nem portas de abertura automática, nem hipermercados, nem centros comerciais, nem video-gravadores, nem uma data de coisas que hoje são consideradas indispensáveis. Lembro-me tão bem do fascínio que foi ver as primeiras imagens gravadas pelo video-gravador...ninguém percebia muito bem como era possível, nem como funcionava, mas era deslumbrante! Gravamos cassetes e cassetes, de programas sem qualquer importância, e até anúncios, só para podermos rever as imagens passadas em directo e acreditar que gravar som e imagem ao mesmo tempo era possível! 
E da primeira vez que andei de escadas rolantes, no primeiro shopping da cidade do Porto e do país, ali para os lados da Rotunda da Boavista, pensei que estava a sonhar. Subir sem mexer as pernas, numas barulhentas escadas de ferro que nos elevavam rapidamente, era mágico. Lembro-me que do medo inicial passei rapidamente a sentir uma necessidade constante de subir e descer todos os lanços de escadas rolantes existentes, pois a sensação era única. Esse shopping era um mundo mágico, pois além das escadas tinha também portas de vidro que abriam quando nos aproximávamos, tal como na série da televisão Espaço 1999...seriam poderes sobrenaturais ou magia? Tudo era novo, tudo era fascinante. Mas loucura total foi quando visitamos o primeiro hipermercado no grande Porto. Eu nem dormi na véspera só de pensar no que iria encontrar numa loja gigante, cheia de todo o tipo de artigos, tudo no mesmo sítio. Imaginava cerca de 100 mercearias do meu bairro juntas e achava que era impossível. Mas quando entrei pela primeira vez naquela loja imensa, cheia de corredores e prateleiras, submersa em luz e som, repleta de gente e barulhos, fiquei em êxtase. Nada me tinha preparado para aquilo. O meu mundo estava de facto a mudar. E a cereja no cimo do bolo, foi o Spectrum! O meu primeiro computador, se assim se pode chamar a uma caixinha fininha que tinha um teclado, e que tínhamos de ligar a uma gravador onde púnhamos as cassetes com jogos, que depois ligávamos à televisão para podermos jogar. Nunca mais me vou esquecer do barulho metálico e agudo que fazia o gravador enquanto carregávamos os jogos...durava uma eternidade e ás vezes era necessário voltar a carregar vezes sem conta. Mas quando conseguíamos começar a jogar, esquecíamos tudo aquilo por que tínhamos passado e sentia-mo-nos pessoas do futuro! Depois vieram os PC (Personal Computor) com o sistema DOS que punham qualquer um louco, com as palavras de comando DIR, EXE, LIST e muitas outras mais, que tínhamos que teclar num écran assustadoramente negro; as câmaras de vídeo, que pesavam toneladas e que tinham como acessórios o foco de luz e o video-gravador colocado num tipo de carteira com alça, e que punham de rastos quem exercia a função de camaraman; e finalmente os telemóveis. Enormes, pesados, mas que nos  permitiam telefonar em qualquer lado e sem qualquer fio. 
Tínhamos atingido o momento alto da nossa evolução. E passamos a achar que nunca mais iríamos conseguir viver sem os vídeos, sem as escadas rolantes, sem os shoppings, sem os centros comerciais, sem os telemóveis e sem os computadores. A vida simples, sem artefactos e sem consumismo, tornou-se completamente desinteressante. Viver sem estas conquistas tecnológicas tornou-se estupidamente ridículo e anacrónico! Daí a incrédula pergunta que eu fiz aos meus pais e avós e que muitos anos depois o meu sobrinho me fez a mim. Apesar da velocidade da evolução tecnológica ter aumentado exponencialmente nestes últimos anos, a situação é idêntica. Esquecemos-nos de viver com simplicidade. Não conhecemos o nosso habitat sem estar repleto de tecnologia . Não reconhecemos a natureza e nada sabemos dela. Somos uns estranhos se colocados num mundo simples, sem computadores, sem televisão, sem telemóveis, sem hipermercados. Tornamo-nos numa espécie completamente dependente da tecnologia e sem ela ficamos perdidos.   Nasci no século passado e vivo no século actual, mas tenho muitas saudades da simplicidade da minha infância e da imaginação que tinha em criança. Agora já não se imagina, nem se fantasia. As descobertas e invenções surgem-nos em catadupa, e muito para além da nossa imaginação.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Escrita: a transmissão da memória

Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do acto de escrever. Esta frase de José Saramago ilustra bem o poder da escrita. A necessidade de comunicar, de transmitir informação e de manter na memória das novas gerações saberes antigos foi desde sempre uma das principais preocupações do Homem. Perpetuar as nossas memórias, faz-nos sentir de facto imortais. Era preciso algo para manter vivas todas as descobertas, todo o saber, toda a memória humana, e à medida que o Homem evoluía essa necessidade tornou-se mais premente. A vontade humana de se expressar levou ao aparecimento da escrita. No  quarto milénio a.C , na Mesopotâmia, nasce a escrita cuneiforme (do latim cuneus que significa cunha + forma com o mesmo significado em português) que é a forma de escrita mais antiga conhecida. Os Sumérios, que na altura habitavam na região sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, desenvolveram este tipo de escrita pela necessidade de registar a circulação de pessoas e bens.  Com recurso a um tipo de cunha - instrumento pontiagudo de forma triangular -  que utilizavam para gravar símbolos em placas de barro, desenvolveram uma escrita que chegou a possuir 350 caracteres cuneiformes. Arqueólogos descobriram recentemente bibliotecas na região da antiga Mesopotâmia, sendo a mais famosa aquela que pertenceu ao rei Assurbanipal, último rei sírio (668 a 627 a.C.), a chamada Biblioteca de Ninive, que continha milhares de textos escritos em tabuinhas de barro cozido, entre as quais se encontravam decretos e cartas reais, crónicas e textos religiosos, que se tornaram na principal fonte de conhecimento sobre a vida dos povos Sumérios.

A primeira pessoa a decifrar a escrita cuneiforme, mantendo viva a memória suméria, foi o alemão Georg Friendrich Grotefrend (epigrafista alemão) em 1802. Quase ao mesmo tempo desenvolvia-se no Antigo Egipto a escrita hieroglífica. A palavra hieróglifo, provém da conjugação de duas palavras gregas: hierós que significa sagrado e glýphein que é o mesmo que escrita. As mais antigas inscrições hieroglíficas datam do terceiro milénio a.C. sendo uma escrita monumental e religiosa, com cerca de 6900 caracteres,  que chegou até nós nas ruínas de templos religiosos e em túmulos. De difícil compreensão e tradução, foi apenas com a descoberta da Pedra de Roseta no ano de 1799 (descoberta pelo exército comandado por Napoleão Bonaparte na região de Roseta no Egipto) que foi possível entender na totalidade a escrita do antigo Egipto. Esta Pedra tem a particularidade de ter o mesmo texto - um decreto do rei Ptolomeu V promulgado no ano 196 a.C. - em três escritas diferentes: na escrita hieroglífica do antigo Egipto,  em demótico (variante escrita do egípcio tardio) e no grego antigo. Em 1803 foi feita a tradução do texto em grego antigo e em 1822 Jean-François Champollion (linguista e egiptólogo francês) anuncia a decifração dos textos egípcios. A memória dos antigos egípcios tinha sido finalmente recuperada. Cerca de 1100 a.C. os Fenícios desenvolveram um tipo diferente de escrita em que um símbolo significava um som , ou seja desenvolveram um alfabeto para uma escrita fonética.  A palavra alfabeto é de origem grega e conjuga as duas primeiras letras do abecedário helénico: alpha (a letra a do nosso abecedário) beta (a letra b do nosso abecedário). No entanto na escrita fenícia existiam duas letras com o nome de alef e bet! O alfabeto fenício tinha 19 caracteres e eram apenas consoantes.
Esta invenção foi um momento histórico  para a Humanidade. Esta escrita foi adoptada e aperfeiçoada pelos gregos por volta do ano 800 a.C, sendo a base de todos os alfabetos das línguas ocidentais. As consoantes utilizadas no alfabeto romano, foram criadas pelos fenícios e as vogais posteriormente acrescentadas pelos gregos. A escrita permitiu ao homem perpetuar o seu conhecimento e a sua cultura, e está na base de todo o progresso humano.  Escrever é lembrar-se (François Mauriac) e manter viva a memória de tempos idos fez de nós o que somos. Acumulando saberes, relembrando tradições, transmitindo conhecimento através da escrita conseguimos honrar aqueles que antes de nós procuraram esse saber e esse conhecimento. Milhares de anos passaram desde os primeiros registos escritos conhecidos, mas a memória de quem os realizou, permanece em nós graças à sua capacidade criativa de transmissão e de expressão. A memória das suas vidas não se perdeu e graças à sua forma de comunicação, chegou até nós, e proporcionou-nos uma nova visão do  nosso passado. Como disse Jean Clézio (escritor francês) a escrita é a única forma perfeita do tempo. 

domingo, 24 de junho de 2012

A viagem do Vinho do Porto



O Vinho do Porto também chamado de néctar dos Deuses, é conhecido mundialmente e não necessita de apresentações. É nas encostas agrestes e rochosas que ladeiam o rio Douro, que este afamado vinho começa a sua história. Numa região de montes que não deixam de crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não para de correr, pedaço de viril beleza (Miguel Torga)actualmente Património Mundial da Humanidade, nasce o vinho com o nome de cidade. Da mistura de sol e rocha, de água duriense e labor humano, nasce a vinha e se desenvolvem as uvas que vão dar origem ao néctar divino. Da pedra se fez terra, do sol bravo o licor generoso, que tem um ressaibo de brasa e de framboesa (Aquilino Ribeiro). Colhida a uva e pisado o mosto, inicia-se uma nova jornada para o famoso vinho. Transportado em pipas de madeira para envelhecer, aguarda a passagem do tempo armazenado nas históricas Caves de Vila Nova de Gaia, onde é depois engarrafado e enviado para todas as partes do Mundo. A história de vida do vinho do Porto não se alterou ao longo dos anos. A introdução da tecnologia veio alterar a sua produção, e da força humana passou-se a usar a força mecânica. Mas o vinho do Porto mantém o seu sabor único e incomparável. Como disse o grande escritor duriense Miguel Torga, o Douro (...) produz a única riqueza de que somos senhores exclusivos: o Porto, que o mundo assim conhece e saboreia, e imitam em todas as latitudes sem nunca igualar. A Região demarcada do Douro, foi a primeira região demarcada reconhecida no Mundo, criada durante o reinado de D. José I em 1756. Muito trabalho humano esteve envolvido na produção deste néctar dos Deuses ao longo dos anos. A apanha da uva é uma tarefa dura e monótona, realizada muitas vezes sobre condições climatéricas agrestes. O transporte das pipas de vinho do Alto Douro para Vila Nova de Gaia era inicialmente feito por barcos rabelos. Transformar o Douro numa estrada de vinho foi tão duro como navegar oceanos (Jaime Cortesão)Mais tarde passou a ser feito através de comboio, diminuindo o tempo do seu transporte e aumentando o número de pipas transportadas. O tempo é outro, as técnicas mudaram, o trabalho simplificou-se. Mas os homens e mulheres que deram ao Vinho do Porto o trabalho de uma vida inteira não devem ser esquecidos pois foi graças a eles que a viagem deste famoso vinho se iniciou. Datado de 1914, este filme realizado pela Invicta Filme, retrata de forma única todo o ciclo de produção do Vinho do Porto. Com quase 100 anos este documentário é um legado raro que devemos preservar.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

A curiosidade do calão


O calão e as palavras populares fazem parte da língua portuguesa. Variando de região para região, a origem destas expressões perde-se no tempo e na memória de quem as pronuncia. Muitas vezes, sem se saber bem qual o seu significado, são utilizadas diariamente e fazem parte do vocabulário e da língua portuguesa, enriquecendo-a e tornando-a viva. Nem sempre foi possível comprovar a sua origem, mas ficam algumas curiosidades relativamente à palavras que popularmente são utilizadas na língua portuguesa, em especial na região norte do país:

Carago - interjeição popular muito usada no norte de Portugal, com particular relevo no grande Porto, que significa admiração, surpresa, impaciência ou irritação. É também um termo depreciativo para galego. Termo também utilizado na biologia, para designar um peixe que aparece nas costas portuguesas, também conhecido por peixe-frade. Historicamente os caragos ou carajus, eram uma espécie de mágicos que fabricavam as carantulas, imagens, caracteres e cifras mágicas para realizar encantamentos. Estes caragos faziam os seus encantos particularmente às sementeiras; aproveitavam o canto das aves para os seus agouros; chamavam os demónios com certas fogueiras (Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, ano de 1798). A sua prática foi proibida por Alvará de D.João I. A palavra carago é muito antiga e o seu significado foi alterado ao longo dos tempos. Mas a palavra permanece e mesmo considerada calão, já faz parte dos dicionários de língua portuguesa.  É uma expressão com diversos significados pois depende do contexto em que é utilizada, mas o verdadeiro sentido está na pessoa que a pronuncia. Normalmente associada às pessoas do Porto, carago é uma palavra que faz parte da história da língua portuguesa e que foi adoptada pelas gentes do Norte.

Morcão - segundo o dicionário da Porto Editora, além de pequena lagarta, morcão designa um individuo indolente, aparvalhado ou mandrião. Deriva da palavra castelhana mórcon, do latim murcone, que representa um individuo gordo, baixo e mole. No entanto mórcon também é o nome de uma morcela feita de tripa grossa. Alguns etimologistas defendem ainda que morcão pode ter origem na palavra latina murcus que significa cobarde e preguiçoso, palavra já utilizada por Santo Agostinho, na sua obra A Cidade de Deus, escrita nos anos de 416 a 427. Morcão tornou-se num vocábulo popular muito usado no Norte do país, mas também muitas vezes utilizados por grandes escritores portugueses como Eça de Queiroz, que na sua obra A Relíquia escreve: à noite em casa da Adélia, estava tão derreado, mono e mole ao canto do sofá, que ela atirava-me murros pelos ombros, e gritava, furiosa: Esperta, morcão! 


Badameco - palavra que deriva do latim vade-mécum que significa vem comigo, e que em português antigo designava a pasta de livros que eram usados frequentemente e que acompanhavam sempre quem os possuía. Provavelmente é deste significado antigo, de algo que acompanhava sempre alguém, que passou a definir aquele que não era capaz de decidir sozinho ou que seguia outrem. Passou assim a designar uma pessoa sem importância, um palerma. Luiz Augusto Palmeirim, escritor e poeta português do século XIX, reforça o sentido dado à palavra badameco quando escreve: Eu aposto que o homem tem razão, a história da toalha não pode deixar de ser namoro. Algum dia foge com algum badameco, talvez com esse que por aí passa todos as tardes, e deixa o patrão a pedir esmola (A domadora de feras: comédia em um acto,1857).




terça-feira, 19 de junho de 2012

O Rio do Esquecimento

Percorrendo montanhas e planaltos, serpenteando por vales verdejantes e luxuriantes, o rio Lima nasce a uma altitude de 975 metros no monte galego de Talariño na Província de Ourense, para desaguar no oceano Atlântico junto à costa da portuguesa cidade de Viana do Castelo, após calcorrear aproximadamente 110 quilómetros. Viajando por paisagem galegas e minhotas, o Lima tem o privilégio de ter nas suas margens locais como Lindoso, Ponte de Lima e Ponte da Barca. (...) todo o Lima na grande extensão desde Ponte de Lima a Viana, é espraiado, com as margens atapetadas de verdura, matizado de lugarejos, cheio de vida, de sorrisos, de amor (António Costa, No Minho, 1874). Denominado de Limia na Galiza, deve provavelmente o seu nome à grande quantidade de lamarões (lamaçais) e lagoas que existiam na sua nascente, denominados de lymnas em grego e lymun em latim, donde derivou o nome Lima em português. De águas límpidas e calmas era conhecido pela fartura de salmões, trutas, lampreias e sáveis que as populações das suas margens pescavam em grande quantidade. Também denominado de Belion pelo geógrafo grego Estrabão, que significava nativo (os lusitanos foram também designados por belitanos), foi durante muito tempo designado por rio Lethes (latim) ou Oblivio (grego), o rio do Esquecimento. De acordo com a mitologia grega, as almas que chegavam ao mundo dos mortos, o Hades, e que depois do julgamento final vagueavam pelos Campos Elísios, deviam beber da água do Rio Lethes para que toda a memória da sua vida anterior fosse apagada. Só assim podiam voltar ao mundo dos vivos, ou seja, ressuscitar. De acordo com a tradição grega, o Lethes era um dos cinco rios do Hades, com águas de grande beleza e calma, situado a Ocidente, para lá do mundo conhecido (Conde de Bertiandos, 1898)Associado a esta mitologia, um acontecimento histórico veio ainda acentuar a ideia de que o rio Lima era de facto o rio Lethes ou do Esquecimento, que condenava todos aqueles que atravessassem ou bebessem as suas águas à perda das suas memórias. Na sua narrativa Estrabão geógrafo grego indica que nas cercanias do actual cabo Finisterra, se encontravam Celtas que para aí se haviam deslocado na companhia de Túrdulos, durante uma expedição guerreira (para a conquista conjunta da Galiza, século VII aC.). No entanto, e ainda segundo Estrabão, chegados ao rio Lima, mal o haviam passado gerou-se entre eles tal discórdia que, morrendo o chefe dos Túrdulos, e esquecidos da aliança que haviam feito, tiveram que ficar no mesmo sítio esquecendo o caminho para a sua antiga pátria. Por isso mesmo, explicava ainda Estrabão, ao Rio Lima se chama também Rio do Esquecimento (Joel CLETO, Monte Murado, Carvalhos, in A mais velha aliança, O Comércio do Porto, Revista Domingo, Porto, 11 de Fevereiro 2001)O rio Lima passou a ser uma fronteira intransponível e uma muralha natural de protecção contra os ataques e incursões dos povos inimigos. O medo e a superstição impediam os exércitos de passar para a outra margem do rio e durante anos as suas águas foram intransponíveis.  
No ano 137 aC. as legiões romanas comandadas por Decimus Junius Brutus, depois de terem conquistado a Lusitânia dirigiam-se para a Galiza no seu ímpeto conquistador. Chegados às margens do rio Lima os soldados romanos, cientes do nome do rio e do efeito mítico das suas águas desobedeceram por isso às ordens do seu comandante, quando este lhes ordenou que atravessassem para a outra margem. Nenhum soldado quis correr o risco de esquecer a sua vida passada, a sua família  ou a sua terra Natal. Assim, Decimus Junius Brutus viu-se obrigado a fazer a travessia sozinho. Uma vez chegado à margem norte, chamou os seus homens um a um pelos seus nomes, provando desta forma que as águas do Lima não conduziam ao esquecimento do passado (Conde de Bertiandos, 1898)O mito caiu e o rio Lima deixou de ser uma muralha intransponível, mas o nome manteve-se durante muitos mais anos. Almada Negreiros pintou uma tapeçaria em que retrata a legião romana a passar o rio do esquecimento que ele próprio descreve por palavras suas: Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento. Qualquer que seja o nome que se lhe atribua, o rio Lima é um rio repleto de história. Nas suas águas viajaram ao longo dos séculos homens e mulheres de diferentes origens e condições sociais e fizeram-se importantes trocas comerciais. 
Em 2003 foram recuperadas do seu leito duas pirogas  monóxilas (feitas de um único tronco de árvore) datadas do século IV e II aC. Estes achados estão claramente relacionados com uma tradição multimilenar (...) de passagem do rio (Francisco Alves e Eric Rieth, Lisboa 2007).
O rio Lima mais do que uma fronteira intransponível tornou-se numa via de comunicação e de ligação dos povos. Como muito bem descreve o Professor Eugénio de Castro Caldas este rio minhoto, transmite um sentimento que deveria fazer parte de todos de aqueles que são descendentes dos que viveram nas suas margens
Ser minhoto é ser Celta; 
Castrejo Galaico, pouco Lusitano; 
mais Suevo do que Vizigodo; nada Mouro.
Aragem do Atlântico sobre o Mediterrâneo.
Do berço de Portugal, não da colónia
Se perguntar se é bem ou mal,
julgo que é apenas tal e qual:
mais enxada do que charrua,
mais regadio do que sequeiro,
mais prado do que pousio,
mais trabalho do que terra.
De mitologia e de realidade, de memórias e tradições, de alegrias e de perdas estão repletas as águas deste rio, e apesar do nome que durante tantos anos ostentou, se pararmos perto das suas margens e em silêncio escutarmos com atenção o seu murmurar, decerto que ficaremos encantados com aquilo que tem para nos contar. Basta sabermos ouvir!


Nota: A imagem da piroga, da autoria de Francisco Alves e Miguel Aleluia, foi retirada do estudo de Francisco Alves e Eric Rieth, intitulado As pirogas 4 e 5 do Rio Lima, Lisboa 2007