sexta-feira, 22 de junho de 2012

A curiosidade do calão


O calão e as palavras populares fazem parte da língua portuguesa. Variando de região para região, a origem destas expressões perde-se no tempo e na memória de quem as pronuncia. Muitas vezes, sem se saber bem qual o seu significado, são utilizadas diariamente e fazem parte do vocabulário e da língua portuguesa, enriquecendo-a e tornando-a viva. Nem sempre foi possível comprovar a sua origem, mas ficam algumas curiosidades relativamente à palavras que popularmente são utilizadas na língua portuguesa, em especial na região norte do país:

Carago - interjeição popular muito usada no norte de Portugal, com particular relevo no grande Porto, que significa admiração, surpresa, impaciência ou irritação. É também um termo depreciativo para galego. Termo também utilizado na biologia, para designar um peixe que aparece nas costas portuguesas, também conhecido por peixe-frade. Historicamente os caragos ou carajus, eram uma espécie de mágicos que fabricavam as carantulas, imagens, caracteres e cifras mágicas para realizar encantamentos. Estes caragos faziam os seus encantos particularmente às sementeiras; aproveitavam o canto das aves para os seus agouros; chamavam os demónios com certas fogueiras (Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, ano de 1798). A sua prática foi proibida por Alvará de D.João I. A palavra carago é muito antiga e o seu significado foi alterado ao longo dos tempos. Mas a palavra permanece e mesmo considerada calão, já faz parte dos dicionários de língua portuguesa.  É uma expressão com diversos significados pois depende do contexto em que é utilizada, mas o verdadeiro sentido está na pessoa que a pronuncia. Normalmente associada às pessoas do Porto, carago é uma palavra que faz parte da história da língua portuguesa e que foi adoptada pelas gentes do Norte.

Morcão - segundo o dicionário da Porto Editora, além de pequena lagarta, morcão designa um individuo indolente, aparvalhado ou mandrião. Deriva da palavra castelhana mórcon, do latim murcone, que representa um individuo gordo, baixo e mole. No entanto mórcon também é o nome de uma morcela feita de tripa grossa. Alguns etimologistas defendem ainda que morcão pode ter origem na palavra latina murcus que significa cobarde e preguiçoso, palavra já utilizada por Santo Agostinho, na sua obra A Cidade de Deus, escrita nos anos de 416 a 427. Morcão tornou-se num vocábulo popular muito usado no Norte do país, mas também muitas vezes utilizados por grandes escritores portugueses como Eça de Queiroz, que na sua obra A Relíquia escreve: à noite em casa da Adélia, estava tão derreado, mono e mole ao canto do sofá, que ela atirava-me murros pelos ombros, e gritava, furiosa: Esperta, morcão! 


Badameco - palavra que deriva do latim vade-mécum que significa vem comigo, e que em português antigo designava a pasta de livros que eram usados frequentemente e que acompanhavam sempre quem os possuía. Provavelmente é deste significado antigo, de algo que acompanhava sempre alguém, que passou a definir aquele que não era capaz de decidir sozinho ou que seguia outrem. Passou assim a designar uma pessoa sem importância, um palerma. Luiz Augusto Palmeirim, escritor e poeta português do século XIX, reforça o sentido dado à palavra badameco quando escreve: Eu aposto que o homem tem razão, a história da toalha não pode deixar de ser namoro. Algum dia foge com algum badameco, talvez com esse que por aí passa todos as tardes, e deixa o patrão a pedir esmola (A domadora de feras: comédia em um acto,1857).




terça-feira, 19 de junho de 2012

O Rio do Esquecimento

Percorrendo montanhas e planaltos, serpenteando por vales verdejantes e luxuriantes, o rio Lima nasce a uma altitude de 975 metros no monte galego de Talariño na Província de Ourense, para desaguar no oceano Atlântico junto à costa da portuguesa cidade de Viana do Castelo, após calcorrear aproximadamente 110 quilómetros. Viajando por paisagem galegas e minhotas, o Lima tem o privilégio de ter nas suas margens locais como Lindoso, Ponte de Lima e Ponte da Barca. (...) todo o Lima na grande extensão desde Ponte de Lima a Viana, é espraiado, com as margens atapetadas de verdura, matizado de lugarejos, cheio de vida, de sorrisos, de amor (António Costa, No Minho, 1874). Denominado de Limia na Galiza, deve provavelmente o seu nome à grande quantidade de lamarões (lamaçais) e lagoas que existiam na sua nascente, denominados de lymnas em grego e lymun em latim, donde derivou o nome Lima em português. De águas límpidas e calmas era conhecido pela fartura de salmões, trutas, lampreias e sáveis que as populações das suas margens pescavam em grande quantidade. Também denominado de Belion pelo geógrafo grego Estrabão, que significava nativo (os lusitanos foram também designados por belitanos), foi durante muito tempo designado por rio Lethes (latim) ou Oblivio (grego), o rio do Esquecimento. De acordo com a mitologia grega, as almas que chegavam ao mundo dos mortos, o Hades, e que depois do julgamento final vagueavam pelos Campos Elísios, deviam beber da água do Rio Lethes para que toda a memória da sua vida anterior fosse apagada. Só assim podiam voltar ao mundo dos vivos, ou seja, ressuscitar. De acordo com a tradição grega, o Lethes era um dos cinco rios do Hades, com águas de grande beleza e calma, situado a Ocidente, para lá do mundo conhecido (Conde de Bertiandos, 1898)Associado a esta mitologia, um acontecimento histórico veio ainda acentuar a ideia de que o rio Lima era de facto o rio Lethes ou do Esquecimento, que condenava todos aqueles que atravessassem ou bebessem as suas águas à perda das suas memórias. Na sua narrativa Estrabão geógrafo grego indica que nas cercanias do actual cabo Finisterra, se encontravam Celtas que para aí se haviam deslocado na companhia de Túrdulos, durante uma expedição guerreira (para a conquista conjunta da Galiza, século VII aC.). No entanto, e ainda segundo Estrabão, chegados ao rio Lima, mal o haviam passado gerou-se entre eles tal discórdia que, morrendo o chefe dos Túrdulos, e esquecidos da aliança que haviam feito, tiveram que ficar no mesmo sítio esquecendo o caminho para a sua antiga pátria. Por isso mesmo, explicava ainda Estrabão, ao Rio Lima se chama também Rio do Esquecimento (Joel CLETO, Monte Murado, Carvalhos, in A mais velha aliança, O Comércio do Porto, Revista Domingo, Porto, 11 de Fevereiro 2001)O rio Lima passou a ser uma fronteira intransponível e uma muralha natural de protecção contra os ataques e incursões dos povos inimigos. O medo e a superstição impediam os exércitos de passar para a outra margem do rio e durante anos as suas águas foram intransponíveis.  
No ano 137 aC. as legiões romanas comandadas por Decimus Junius Brutus, depois de terem conquistado a Lusitânia dirigiam-se para a Galiza no seu ímpeto conquistador. Chegados às margens do rio Lima os soldados romanos, cientes do nome do rio e do efeito mítico das suas águas desobedeceram por isso às ordens do seu comandante, quando este lhes ordenou que atravessassem para a outra margem. Nenhum soldado quis correr o risco de esquecer a sua vida passada, a sua família  ou a sua terra Natal. Assim, Decimus Junius Brutus viu-se obrigado a fazer a travessia sozinho. Uma vez chegado à margem norte, chamou os seus homens um a um pelos seus nomes, provando desta forma que as águas do Lima não conduziam ao esquecimento do passado (Conde de Bertiandos, 1898)O mito caiu e o rio Lima deixou de ser uma muralha intransponível, mas o nome manteve-se durante muitos mais anos. Almada Negreiros pintou uma tapeçaria em que retrata a legião romana a passar o rio do esquecimento que ele próprio descreve por palavras suas: Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento. Qualquer que seja o nome que se lhe atribua, o rio Lima é um rio repleto de história. Nas suas águas viajaram ao longo dos séculos homens e mulheres de diferentes origens e condições sociais e fizeram-se importantes trocas comerciais. 
Em 2003 foram recuperadas do seu leito duas pirogas  monóxilas (feitas de um único tronco de árvore) datadas do século IV e II aC. Estes achados estão claramente relacionados com uma tradição multimilenar (...) de passagem do rio (Francisco Alves e Eric Rieth, Lisboa 2007).
O rio Lima mais do que uma fronteira intransponível tornou-se numa via de comunicação e de ligação dos povos. Como muito bem descreve o Professor Eugénio de Castro Caldas este rio minhoto, transmite um sentimento que deveria fazer parte de todos de aqueles que são descendentes dos que viveram nas suas margens
Ser minhoto é ser Celta; 
Castrejo Galaico, pouco Lusitano; 
mais Suevo do que Vizigodo; nada Mouro.
Aragem do Atlântico sobre o Mediterrâneo.
Do berço de Portugal, não da colónia
Se perguntar se é bem ou mal,
julgo que é apenas tal e qual:
mais enxada do que charrua,
mais regadio do que sequeiro,
mais prado do que pousio,
mais trabalho do que terra.
De mitologia e de realidade, de memórias e tradições, de alegrias e de perdas estão repletas as águas deste rio, e apesar do nome que durante tantos anos ostentou, se pararmos perto das suas margens e em silêncio escutarmos com atenção o seu murmurar, decerto que ficaremos encantados com aquilo que tem para nos contar. Basta sabermos ouvir!


Nota: A imagem da piroga, da autoria de Francisco Alves e Miguel Aleluia, foi retirada do estudo de Francisco Alves e Eric Rieth, intitulado As pirogas 4 e 5 do Rio Lima, Lisboa 2007





domingo, 17 de junho de 2012

Madeira: Um jardim no Atlântico

A Ilha da Madeira, foi descoberta em 1419 pelos navegadores portugueses João Gonçalves Zarco e  Tristão Vaz Teixeira que tendo observado uma espécie de nevoeiro, que constantemente se lhes oferecia no mar, e sempre no mesmo sítio e direcção, suspeitaram o que poderia ser, e dirigindo-se para aquela parte, descobriram a Ilha da Madeira, a que deram este nome pelo alto e vasto arvoredo, de que a acharam coberta (Índice chronológico das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas dos portugueses, 1841). No entanto as ilhas da Madeira e de Porto Santo já seriam conhecidas antes dos portugueses lá chegarem. Na obra de um frade mendicante espanhol intitulada Libro del Conoscimiento datado de 1348-1349, as ilhas do Arquipélago da Madeira são referidas pelo nome de Leiname, Diserta e Puerto Santo. Território de uma deslumbrante beleza natural com um clima ameno de poucas variações térmicas ao longo de todo o ano, tornou-se num ponto de grande atracção turística. Ilustres personagens da história passaram por estas ilhas entre as quais se destacam: a Imperatriz Leopoldina da Áustria, futura mulher de D.Pedro, Imperador do Brasil em 1817; a Imperatriz Austro-Hungara Elizabeth, mais conhecida por Sissi, que se tornou visita assídua destas ilhas; a rainha Adelaide de Inglaterra em 1847; Imperador Carlos da Aústria, que aqui acabou por falecer em 1922; Whinston Churchil em 1950. Este jardim plantado no meio do vasto oceano Atlântico tem servido de inspiração para poetas e escritores ao longo dos séculos. O grande Luís de Camões faz-lhe referência no Canto V dos Lusíadas:

Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama;
Das que nós povoamos a primeira,
Mais célebre por nome do que por fama.
Mas nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe avantajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera,
De Cypro, Guido, Paphos e Cythera.

Actualmente o Arquipélago da Madeira é conhecido internacionalmente pelo seu famoso vinho, o Vinho da Madeira, o seu Carnaval e a famosa Festa da Flores, que se realiza todos os anos na primavera, tendo-se tornado num concorrido destino turístico. Relembrando tempos idos, este pequeno filme  produzido pelo americano James Fitz Patrick, datado de  1931, mostra-nos uma solarenga e paradisíaca ilha que apesar de ter sofrido alguma alterações típicas do passar do tempo, mantém intocável a sua beleza e hospitalidade tão característica do povo português.





quinta-feira, 14 de junho de 2012

As canções de acalentar

A cantiga de berço, o suave embalo e aconchego, nos braços das mães ou amas carinhosas, foi sempre em todos os povos o primeiro gesto de solidariedade com o recém-nascido (Melo, 1985). A canção de embalar é uma das mais antigas manifestações de expressão cultural dos povos, um costume sem idade e sem tempo, cuja existência é a mesma da primeira mulher que deu à luz o primeiro filho (Anabela Canez). O acto maternal de acalentar, o mesmo que embalar ou adormecer, é universal e independente do grau de civilização. A transmissão desta expressão poética da linguagem humana é feita de geração em geração, geralmente por mulheres, acolhendo a criança para acalmá-la e adormecê-la nos braços, no berço, na cesta, na rede (Leite de Vasconcelos,1907)O primeiro documento existente com referência à cantiga de acalento, data de 1400 a.C. tratando-se de um exemplar em escrita cuneiforme que remonta aos antigos povos da Suméria. Há registos de canções de acalento nos índios do Chiloé (província do Chile), nos Dindjie de Alasca, nos Sioux, no Haiti, nos Índios do Brasil, nos Árabes e Berberes, nos Bosquímanos e em várias ilhas da Oceania. No século IV aC Teócrito, poeta grego de maior destaque do período helenístico, descreve-nos uma canção de acalento cantada por Alcmena para seus filhos gémeos, Heracles e Íficles:
Dormi, meus meninos,
Um sono doce e brando;
Dormi, almas minhas,
Irmãos um do outro,
Filhos afortunados;
Repousai felizes,
E felizes chegai até amanhã de manhã. (Leite de Vasconcelos, 1907)
Aulo Pérsio Flaco, poeta satírico da Roma antiga, refere nos seus poemas do século I, o cantar de uma ama de leite e também Arnóbio de Sica faz referência a cantos para embalar crianças, chamando-lhes doces cantigas. Nos  séculos XII e XIII, o poeta italiano Dante Alighieri, apresenta alguns versos, com o termo  nanna e a sua congénere ninna, palavras melodiosas que fazem parte da maior parte das canções de berço, transmitindo a importância que os italianos davam e a poesia que empregavam no cuidado à primeira infância. Em França existem inúmeros registos de canções de acalento, sendo denominadas por berceuses, tal como em Inglaterra onde são conhecidas como lullaby. Segundo Leite de Vasconcelos, as canções de berço portuguesas têm os seus registos a partir do século XVI. Luís de Camões e Gil Vicente (onde podemos ver a repetição de sons onomatopeicos, tão característicos das canções de embalar) fazem referência às canções de berço nas suas obras:

O som dos gritos, que no berço dava,
Já como de suspiros me soava.
Com a idade e fado estava concertado:
Porque quando por caso me embalavam,
Se de Amor tristes versos me cantavam,
Logo me adormecia a natureza. in Luis de Camões, Canção XI


Ro, ro,ro
nosso Deus e Redentor,
não choreis, que dais dor
à Virgem  que os pariu
Ro ro ro   in Gil Vicente, Auto da  Sibila Cassandra, Cena II


Também num dos mais conhecidos romances da região de Trás-os-Montes, intitulado D.Silvana, há referência à cantiga de embalo, onde a condessa nina seu filho amamentando-o com ternura antevendo a sua morte ordenada pelo rei (Leite de Vasconcelos, 1907). Em 1872 é publicado o primeiro livro com uma relação de cantigas de ninar da autoria de Neves de Melo. Caracterizada pelo ritmo lento, marcada pela sensibilidade e ternura transmitidos pelo mais puro sentimento materno de protecção, a canção de embalar faz parte da cultura popular universal. O texto, a música, o balancear, a constante repetição de sons simples, conjugam-se numa forma única,  com o objectivo de embalar o sono do bebé. O saber popular, na sua ancestralidade imensa, cuidava de envolver o bebé em diferentes conselhos, rezas, protecção divina, num carácter de intimidade embaladora (Maria Isabel Ribeiro de Castro, 2008). As cantigas de acalento, além deste factor de protecção englobam ainda a necessidade do pequeno bebé se transformar num homem cumpridor das normas sociais e conhecedor dos sofrimentos humanos. Muitas vezes a mãe canta e alerta o bebé para os perigos, as preocupações e os problemas sociais, sempre com uma aura de protecção e conselho: 

Dorme, dorme, meu menino
Que a tua mãe tem que fazer,
Ela tem muito trabalho
E tem pouco que comer!

Meio de transmissão oral da cultura tradicional de geração em geração, as canções de embalar incorporam no seu seio mensagens de teor moral, pedagógico e psicológico e são por isso vivos documentos históricos de transmissão dos saberes, emoções, vivências, medos e costumes da época a que reportam. O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. (...) vão passando por todos os berços (...) e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos (Renato Almeida, História da Música Brasileira). No entanto a sua influência vai muito mais além do acalento e embalo. A voz humana, especialmente se for da mãe, o contacto físico e emocional transmitidos pela canção, permitem ao bebé que está em pleno desenvolvimento físico e cognitivo, receber as primeiras informações vindas do mundo exterior através da música. Todo o acto de embalar e de acalentar está imbuído de uma certa magia que só pela música pode ser transmitida. A transmissão de sensações, de saberes e de sentimentos tão profundos como protecção, amor e segurança   através da música, linguagem universal, permite ao bebé desenvolver-se com harmonia e equilíbrio. 
É preciso desenvolver uma inteligência sensível, encontrar caminhos para alegria e afirmar a vida na interligação. E se quisermos verdadeiramente fazer justiça às crianças, teremos de desafiá-las na sua graça e poder, através da sua própria cultura. (...) toda a criança gosta de música. Não será pois oportuno, favorecer-lhes a índole e levá-las a tocar o seu destino com confiança? (Lídia Hortélio, etnomusicóloga). De tradição popular ancestral a canção de embalar tornou-se num instrumento precioso de desenvolvimento infantil. Educar e formar com música já fazia parte do saber das nossas ancestrais. Independentemente de quem canta e embala, o que é verdadeiramente importante é que a cantiga de alento não deixe de existir no mundo mágico de um bebé em formação, como disse Guerra Junqueiro no seu poemaNo lugar vago deixado pela mãe, está agora o rosto meigo da ama que o acalenta e lhe canta cantigas de o fazer sonhar, canta-lhe cantigas de o embalar, canta-lhe cantigas de o adormentar. Ainda hoje tenho na memória a voz e as palavras doces cantadas pela minha mãe quando me trauteava canções de acalento. 
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Que a mamã vai-te cantar
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Fecha os olhos e deixa-te embalar!
Mantenhamos pois viva esta tradição imemorial e não deixemos que a voz cantada da mãe ou do cuidador desapareça dos ouvidos em formação dos nosso bebés.





segunda-feira, 11 de junho de 2012

Imagens com história: Fevereiro 1908


O dia 1 de Fevereiro de 1908, marcou para sempre a história de Portugal e dos portugueses. Neste dia, no Terreiro do Paço em Lisboa, eram assassinados o Rei D. Carlos e o seu filho, o príncipe herdeiro Luís Filipe. Manuel dos Reis da Silva Buiça, natural de Bouçoães, Valpaços, expulso do exército em 1898 por indisciplina, na altura professor primário do Colégio Nacional,  e Alfredo Luís da Costa, empregado comercial e editor, natural de Castro Verde, foram os autores do atentado. Portugal entra num período de grande convulsão política e social. D. Manuel II, único filho vivo de D. Carlos e D. Amélia, é coroado a 6 de Maio 1908 com apenas 18 anos. Mas o reinado é de curta duração, e a 5 de Outubro de 1910 parte para o exílio nos arredores de Londres, quando é instituída a República em Portugal.
Este pequeno filme, realizado por um anónimo e datado de 10 de Fevereiro de 1908, retrata o cortejo fúnebre de D. Carlos e de seu filho, Luís Filipe. Imagens que marcam um dos períodos mais violentos da história de Portugal.



      


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Malha, fito ou chinquilho

O Homem é um ser social e com uma necessidade constante de sentido de pertença. Há muitas formas de socializar, mas uma das mais antigas são os jogos populares. Jogos antigos, cheios de tradição, que espelham momentos passados em épocas presentes. Baseados muitas vezes em situações de vida real ou representando cenários bélicos, permitem juntar pessoas diferentes proporcionando momentos de convivência com representação de saberes antigos. O jogo popular elege a diferença, afirmando a identidade, insensível à igualização massificante, atrai as pessoas como pessoas (...) o prazer da relação interpessoal, em que o adversário é o companheiro de jogo; o culto da amizade duradoura, o riso saudável ante o insucesso, a tolerância, o gosto das coisas simples, a ligação florida ao passado, a sua evocação lendária (António Cabral, in A Teoria do Jogo). Um dos jogos populares mais conhecido em Portugal, é o chamado Jogo da Malha, também conhecido como jogo do Fito ou do Chinquilho. Não existe grande certeza quanto à origem deste jogo, mas a sua história é antiga. A sua prática é relatada pela primeira vez pelos soldados romanos, que em tempo de descanso atiravam com ferraduras inutilizadas dos cavalos contra estacas, tentando ficar o mais perto possível destas. Rapidamente se tornou num jogo entre os soldados, ganhando aquele que mais perto da estaca conseguisse colocar a ferradura. Em 1490 é pela primeira vez mencionado o jogo da malha, mas o primeiro registo escrito surge num documento francês de 1644. Jogado em França e também em Itália, é em Portugal que ganha maior dimensão, tornando-se num jogo  de cariz popular. A fama que alcança é tal, que o padre Raphael Bluteau, pregador da Rainha de Inglaterra, define o jogo do Fito no seu livro Vocabulário Português e Latino,  datado de 1713: Fito – um pauzinho fincado no chão () coisas que atiravam os antigos em diferentes jogos. Fito também se chama o jogo em que se põe um tijolo em pé, a que se atira para o derrubar ou para ficar mais perto dele. Parece-me que se pode usar destes termos por ter este jogo alguma semelhança com o dos antigos atletas romanos. 
Normalmente jogado após um dia de trabalho, altura em que os homens se reuniam para confraternizar, rapidamente se tornou num momento de divertimento e companheirismo. Eram usadas peças rudimentares como pedras, ferraduras, pedaços de ferro que variavam de tamanho e formato. Os pinos ou fitos não tinham um tamanho certo e tudo servia para jogar. Em Portugal o jogo da Malha, varia de região para região, no tamanho da malha, na distância a que é colocado o fito ou o pino e até na forma como são contabilizados os pontos. Alguns jogam com pedras, outros com moedas e outros ainda com malhas de ferro feitas propositadamente para o desafio popular. Formando equipas de dois elementos, o objectivo final é derrubar o pino (fito) ou pelo menos colocar o mais perto possível as malhas, somando os pontos obtidos ao longo do jogo. Mantendo constantes as regras de base, a este tradicional jogo português adapta-se muito bem o ditado cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso. Actualmente o jogo da malha, tal como todos os outros jogos tradicionais, está a cair no esquecimento. Dominados pelo mundo tecnológico, pelo correr dos ponteiros do relógio e isolados em altos condomínios fechados, os momentos de confraternização, de partilha e de camaradagem entre os homens ditos modernos escasseiam. Momentos como os descritos no poema de António Cabral cada vez são mais raros, mas pelo menos ficam na memória e registados em palavras para as gerações vindouras. 
Na minha aldeia aos domingos de tarde, os homens jogam o fito,
Em frente a cada taberna, há um ou dois grupos, e ao lado os assistentes de olhos moles (...)
O fito é um jogo como outro qualquer: inútil! (...)
Mas é um jogo, e por isso, um meio de afugentar o tédio durante algumas horas.
- Seis! Só um ponto parceiro...A...í! Morreu!
Os vencedores correm um para o outro, abraçam-se. E ao erguerem os copos de vinho, sentem a alma tão cheia como qualquer campeão de qualquer coisa, em qualquer parte do mundo
(António Cabral, Poemas Durienses)
Quem sabe se num futuro próximo as agendas electrónicas, os telemóveis de 4ªgeração, os iphones, os ipods, os tablets, ferramentas de um mundo que tem tanto de global como de isolador, se possam colocar por momentos de lado, e nos permitam confraternizar e socializar em presença física de forma a podermos dizer que afinal a tradição ainda é o que era!!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um enchido do século XV



As tradições normalmente não se questionam, mantêm-se e prolongam-se. No entanto é importante tentar saber o que está na sua base já que por detrás delas encontram-se muitas vezes pedaços da nossa história, que de outra forma seria difícil descobrir. As tradições culinárias, há anos enraizadas no nosso quotidiano encerram pequenos mistérios que vale a pena desvendar. Fazendo parte destes pedaços de história estão as alheiras. palavra alheira aparece referida pela primeira vez na 7.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva, de 1878 como alhèira (alliária), que significa planta (...) que tem o cheiro de alho. A sua definição como espécie de chouriço temperado com alhos que se fabrica em Trás-os-Montes, surge apenas na 10.ª edição (1949-1958) do mesmo dicionário. Tradicional enchido da culinária portuguesa feito à base de carne e gordura de porco, carne de aves, pão, azeite, banha, alho e colorau, são inegavelmente reconhecidas como um típico prato português. Actualmente muito espalhadas por todo o país, as alheiras mais conhecidas são as de Mirandela da região de Trás-os-montes, sendo consideradas uma das 7 Maravilhas Gastronómicas de Portugal. A origem deste tradicional iguaria remonta aos finais do século XV e inícios do século XVI. Nessa altura na região transmontana, existia uma grande comunidade de judeus, provenientes do reino de Castela donde tinham sido expulsos em 1492. Perseguidos pela Inquisição e facilmente reconhecidos por algumas das suas tradições, entre as quais a recusa de ingerir carne de porco, base da alimentação da época, criaram o chamado chouriço judeu. Não podendo estes comer carne de porco por imposição da sua fé, imaginaram um enchido, que, embora semelhante aos enchidos que por essa época eram o prato forte das gentes, não levasse a carne proibida (Abade de Baçal). Por não comerem carne de porco, e de forma a não serem facilmente identificados pela inquisição devido aos seus hábitos  alimentares diferentes, decidiram pegar noutros tipos de carnes e envolvê-las numa massa de pão para criar a alheira (Ferreira et al., 2006)Assim com estes enchidos visivelmente colocados nos fumeiros tradicionais, de recheio bem temperado que simulava na perfeição a carne de porco, os cristãos novos ou marranos como eram conhecidos, conseguiram ludibriar os fiscais da Inquisição e os seus vizinhos sempre prontos a denunciar quem não cumprisse as leis estabelecidas pela Igreja Católica. Com o consumo de alheiras, podiam comprovar a sua adesão à religião cristã, mostrando que não mais seguiam as leis judaicas que impunham o não consumo de carne de porco. Rapidamente as gentes de Trás-os-montes adoptaram estes enchidos de origem judaica, mas o seu recheio continha a verdadeira carne de porco, tornando-se num dos símbolos representativos da gastronomia regional. Criadas como subterfúgio para fugir à prisão ou mesmo à morte, as alheiras são actualmente consumidas por todo o país e relembradas pelos grandes escritores portugueses:  (...) as alheiras... Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou da Índia (Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso).

sábado, 2 de junho de 2012

O Homem que foi Santo António

Santo António de Lisboa ou de Pádua, padroeiro de Portugal, santo casamenteiro, defensor dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros, dos pobres e dos oprimidos. O Santo de nome António faz parte da história popular e religiosa do mundo Ocidental. A devoção popular colocou-o entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e atribui-lhe até aos dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas multiplicam-se pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome (José António de Souza, in Críticas de Santo António à situação socioeconômica de sua época). Apesar de amado e idolatrado por milhões de pessoas, poucas sabem a verdadeira história do homem que nasceu em Portugal no início do século XII, que foi considerado como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro  intelectual da Idade Média (José Antunes, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)Fernando Martins de Bulhões, assim é o seu nome de baptismo, nasceu no dia 15 de Agosto de 1191 ou 1195, na freguesia da Sé em Lisboa, numa casa junto à Catedral. Segundo filho de Martins de Bulhões e de Maria Teresa Taveira de Azevedo, teve três irmãos: Pedro, Maria (que também professou a vida religiosa) desconhecendo-se o nome da outra irmã. Quando Fernando nasceu, Portugal  ainda dava os primeiros passos como país independente. Regido por D.Sancho I,  o Povoador, o território português apresentava grande instabilidade fronteiriça, sendo frequentes as lutas contra os mouros. 
A capital do reino era Coimbra, cidade onde a cultura se desenvolveu e onde se respirava conhecimento e saber. A Escola do Mosteiro de Santa Cruz, era considerada uma das melhores Instituições de ensino da Idade Média, tendo-se também notabilizado pela sua excelente biblioteca (espólio actualmente pertencente à Biblioteca Municipal do Porto). Nascido no seio de uma família de origem nobre, Fernando cedo teve acesso à educação e à cultura. Com cerca de 7 anos entra para a Escola da Igreja de Santa Maria Maior, hoje Sé de Lisboa, sob a orientação dos cónegos Regrantes de Santo Agostinho, onde se iniciou no Trivium - gramática, lógica e retórica e no Quadrivium - aritmética,  geometria, astronomia e música. Aos 15 anos ingressa como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, dando assim início à sua formação religiosa. Sendo uma das mais poderosas e influentes Ordens religiosas em Portugal, permitiu a Fernando desenvolver o seu conhecimento em diversas áreas desde a Teologia à Filosofia, passando pelas Ciências Naturais. Aqui desenvolveu capacidade de meditação e contemplação, tornando-se num cónego Regente de Santo Agostinho, tendo recebido a murça  (vestimenta de cor que caracteriza as ordem religiosas que os cónegos utilizam por cima das batinas brancas) das mãos do então Prior D.Gonçalo Mendes. No fim do mês de Setembro de 1212, Frei Fernando ingressa no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, centro cultural, social e politico do país, onde encontra reunidas todas as condições para completar a sua instrução pessoal e religiosa. Bons professores não lhe faltaram. Conhecem-se, com grande probabilidade, alguns dos mais insignes que então leccionavam nestes mosteiros e até na primeira escola da catedral de Lisboa (José Antunes).Tornou-se sacerdote em 1218-1219. É também em Coimbra que teve a oportunidade de privar com os Frades Menores de São Francisco, que recusavam a riqueza, a posse de bens materiais e de grandes conventos, vivendo na pobreza e penitência, sobrevivendo graças a esmolas, tentando desta forma seguir os ideais de Francisco de Assis, o seu mentor.
Este contacto com os Franciscanos alterou a forma de Fernando ver a religião e o mundo que o rodeava. Quando em 1220, chegam a Coimbra os corpos de cinco frades franciscanos mortos em Marrocos onde tinham ido pregar a Boa Nova,  Frei Fernando troca o hábito e a murça de cónego Regrante de Santo Agostinho pela simples batina castanha e corda à cintura tão características dos Franciscanos. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência. Tinha cerca de 30 anos (Frei Acácio José Afonso Sanches)É nesta altura que desaparece Frei Fernando e nasce Frei António, nome escolhido em honra de Santo Antão, que em latim é Antonius, que dava o nome ao local onde viviam os  frades Franciscanos. Parte para África em missão apostólica no Inverno de 1220, mas adoece com gravidade, não chegando a cumprir nenhuma das funções a que estava destinado, e é enviado novamente para Portugal. A viagem de regresso foi atribulada e o navio que o transportava do Norte de África para Lisboa é desviado para o Sul de Itália por uma forte tempestade. Estávamos no início da Primavera de 1221, e Frei António desembarca na costa italiana da Sicília, sendo recolhido pelos Franciscanos italianos que o levaram para a cidade de Messina, onde esteve em convalescença. Em Maio de 1221, realizou-se na cidade de Assis, o Capitulo Geral dos Frades Menores, onde Frei António conheceu Francisco de Assis, que presidia ao encontro. Mas foi na cidade de Forli, que António deu a conhecer o seu maior dom: o dom da oratória. Sempre reservado e humilde, falava pouco e raramente emitia opinião. Em Setembro de 1222, numa cerimónia de ordenação de vários sacerdotes, o Superior do eremitério de Montepaolo pede ao irmão António que suba ao púlpito e diga tudo o que lhe seja sugerido pelo Espírito Santo. As primeiras palavras foram simples, mas, em seguida, tornam-se firmes, seguras e convincentes, a ponto de impressionarem todos os presentes. A notícia deste facto percorreu toda a região e, em pouco tempo, António foi nomeado pregador oficial da Ordem (Frei Acácio José Afonso Sanches).
Do Norte da Itália ao Sul de França, Frei António pregou e os seus discursos atraiam multidões. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como poder, Direito e Justiça (José Antunes). Homem extremamente culto, defensor da igualdade e da justiça social, tentava com os seus sermões alterar o poder que estava centralizado na sociedade medieval. Frei António dizia que a paz é a liberdade tranquila (...) eis que o teu rei vem a ti, para tua utilidade. Manso, para ser amado. Não para ser temido pela potência. São duas as virtudes próprias dum rei: a justiça e a piedade. Assim o teu rei é justo, enquanto distribui a justiça a cada um segundo as suas obras. E nem o próprio clero ficava de fora das suas críticas sociais: cairão (...) os clérigos que se mancharam com o sangue da luxúria e com a terra da pecúnia. E com eles cairão os unicórnios, os imperadores e reis deste mundo; e os touros, os bispos mitrados que têm na cabeça dois cornos como se fossem touros. Todos estes (...) cairão com os poderosos, que são os príncipes e potestades (aqueles que detêm o poder) deste século (...). Os seus sermões reflectem ser um profundo conhecedor das obras de Plínio, Cícero, Sêneca, Galeno e Aristóteles. A sua grande cultura tornou-o numa das mais respeitadas figuras da igreja Católica, chegando São Boaventura a dizer que possuía a ciência dos anjos. Foi o primeiro professor de Teologia da Ordem dos Franciscanos.
Também a sua obra escrita, Sermões Dominicais e Festivos, num total de setenta e sete sermões, está recheada de beleza e densidade de pensamento. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos textos dessas grandes colunas, dos primeiros sete séculos, que foram os Padres da Igreja. Impressionante, para o tempo, em ciências naturais e em humanidades (José Antunes). Frei António morre a 13 de Junho de 1231, com apenas 40 anos, por hidropsia (retenção de liquidos por mau funcionamento orgânico) num Convento de Clarissas em Arcella, próximo da cidade de Pádua para onde se queria dirigir. Cumprindo a sua vontade foi enterrado em Pádua. O seu túmulo encontra-se na Basilica de Santo António de Pádua, sendo visitado por milhares de fiéis todos os anos. Beatificado a 30 de Maio 1232 foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII a 16 de Janeiro de 1946. Nasceu Fernando em Portugal e morreu António em Itália. Nasceu homem e morreu santo, mas durante toda a sua vida defendeu ideais de justiça, liberdade e igualdade baseados no seu grande conhecimento e cultura, ainda tão pouco praticados nos nossos dias. Lembrado anualmente a 13 de Junho como santo milagreiro, deveria ser lembrado todos os dias pelos ideais sociais que defendia: Só haverá liberdade tranquila, ou seja paz, quando houver justiça. Fazem pleno sentido as palavras de Pio XII que perante a bula antoniana disse: Exulta, Lusitania felix ! Exulta, ó feliz Lusitânia! 


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Vila Nova e Porto no século XVII


A representação gráfica mais antiga e pormenorizada de Vila Nova, data do ano de 1669. Esta aguarela foi desenhada por Pier Maria Baldi, um pintor florentino que acompanhou Cosme de Médicis, na viagem que este realizou pela Europa, passando também por Portugal.








As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


Podemos ver no canto superior direito da gravura, o actual Mosteiro da Serra do Pilar, ainda sem a sua cúpula, no cimo do Monte da Meijoeira como era chamado na altura. Em baixo, mais à esquerda no meio de uma arvoredo junto ao rio podemos ver a antiga Igreja de Santa Marinha. No canto inferior direito da gravura, visualizamos um aglomerado de casas ao longo de uma rua perpendicular ao rio - a rua Direita. Trata-se da antiga povoação de Vila Nova, onde se distinguem alguns edifícios que ainda hoje existem.




As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


De um local elevado de Vila Nova, Baldi retrata também a cidade do Porto, no ano de 1669. Podemos ver que no lado de Vila Nova, à esquerda da antiga igreja de Santa Marinha, não havia qualquer povoação. 


Aqui  ficam  duas  fabulosas  gravuras  que  retratam paisagens tão familiares num tempo longínquo.

Estas gravuras foram retiradas da BNP digital e o texto do livro intitulado Gaia e Vila Nova na Idade Média, arqueologia de uma zona ribeirinha, de Joaquim António Gonçalves Guimarães, com edição da Universidade Portucalense

terça-feira, 29 de maio de 2012

A história do Hino Nacional

Nos dias de hoje todos os países possuem dois símbolos que os identificam: a bandeira e o hino nacional. A bandeira, símbolo visível e ancestral de reinos e países, tem na sua origem o estandarte que representou desde sempre clãs, tribos, casas nobres e reais. A utilização de uma composição musical, como símbolo de uma nação, apenas começou a ser adoptada na Europa no século XIX. Até essa data os exércitos e as populações reconheciam toques e cantos guerreiros que representavam pequenas facções e não uma nação inteira. Existiam composições musicais que representavam o rei, mas quando o monarca morria, desapareciam com ele. A peça musical identificava apenas o monarca reinante. O sentimento nacional e a ideia nacional, o mesmo é dizer o nacionalismo, foram no século XIX, um princípio de acção essencial contra os estados opressores e estiveram também na origem da maior parte dos conflitos internacionais. Na Europa o facto nacional foi um dos agentes determinantes da sua transformação (René Rémond, historiador francês). A revolução francesa, alicerçada nos princípios universais de Jean Jacques Rousseau - liberdade, igualdade e fraternidade (Liberté, Egalité, Fraternité) foi o rastilho que incendiou toda a Europa e mudou drasticamente todo o cenário social e politico do velho continente. A vaga de apoiantes do nacionalismo foi crescendo e foi surgindo a necessidade de  tornar esse sentimento visível a todos. Nada melhor do que composições musicais num género de marcha militar acompanhadas de textos que proclamassem bem alto os feitos grandiosos das nações. Os hinos nacionais floresceram em toda a Europa durante o século XIX. Em Portugal a composição musical, considerada como primeiro hino nacional de Portugal foi composto em 1808, por Marcos António Portugal (compositor português e professor de música de D.Pedro IV e de D.Miguel) e intitulava-se Hymno Patriotico da Nação Portuguesa. Este hino foi inspirado na parte final da Cantata La Speranza o sia l`Augurio Felice , composta e oferecida pelo autor a D. João VI, príncipe regente, quando este ainda se encontrava no Brasil. A poesia do Hymno Patriótico teve diferentes versões face às circunstâncias e aos acontecimentos da época, tornando-se naturalmente generalizada e nacional pelo agrado da sua expressão marcial, que estimulava os ânimos aos Portugueses, convidando-os à continuação de acções heróicas. Com o regresso do Rei ao País, em 1821, o mesmo autor dedicou-lhe um poema que, sendo cantado com a música do Hino, rapidamente se divulgou e passou a ser entoado solenemente (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência).
Letra:                      
Eis Principe Excelso, os votos sagrados que os lusos honrados vêm livres fazer. Por vós pela Pátria, o sangue daremos. Glória só temos. Vencer ou morrer. Aos mares vos destes a bem dos vassalos; julgando livra-los do ímpio poder. Malgrado o Tirano, em breve vireis, os lusos fieis Vós mesmo reger. Um Deus vos escuta, ó Príncipe Caro: Deus é nosso amparo, não há que temer. 
     
Com a morte de D.João VI em 1826, Portugal entra num período de grandes convulsões sociais e politicas. Em 1834, no fim da Guerra Civil, D. Pedro IV, em homenagem à Carta Constitucional entretanto estabelecida, apresenta um novo hino ao país. O Hino da Carta, de sua autoria, foi considerado oficialmente como hino nacional em Maio de 1834,  identificando-se em pleno com a vida política e social dos últimos setenta anos da Monarquia em Portugal (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência). Foi esta composição musical o símbolo da nação portuguesa até Outubro de 1910.


       


Após a implantação da República, os republicanos tomaram como símbolo representativo deste novo regime a Portuguesa. Composta em 1890 por Alfredo Keil (compositor, pintor, poeta, arqueólogo português) com letra de Henrique Lopes Mendonça (militar, historiador, arqueólogo naval, professor e romancista português) surgiu como resposta carregada de cariz patriótico, ao ultimato britânico que impunha a retirada das tropas portuguesas das suas posições em África, no famoso Mapa cor-de-rosa. Com algumas alterações na música e na letra - onde hoje se diz contra os canhões, na letra original dizia-se contra os bretões (os ingleses) - A Portuguesa que actualmente conhecemos, foi aprovada em Conselho de Ministros em 16 de Julho de 1957, tendo sido reconhecida como um dos símbolos nacionais de Portugal na Constituição de 1976.


                           




   

domingo, 27 de maio de 2012

A magia do comboio

São os caminhos de ferro que hão-de unir os povos e que hão-de levar os benefícios da civilização a todos os pontos do globo. (...) O espectáculo magnifico de uma linha de caminho de ferro (...) exalta a imaginação (...) e cria entusiasmo no individuo mais indiferente e apático. As impressões são ainda mais vivas, aproximam-se do êxtase quando viajamos nos railways. (...) O movimento é insensível durante rápidos instantes, mas bem depressa se acelera (...) antes de pouco o movimento é rapidíssimo: os objectos próximos, as casas, as árvores nos fogem (...) julgamos animados os objectos que nos ficam para os lados. (...) É extraordinário! (O Atheneu,  edições 1-65, pág.11, 1850). A chegada do comboio revolucionou a vida das populações. Com um misto de medo e de fascínio foi integrado no quotidiano dos povos e tornou a distância mais curta. Miguel Torga chamou-lhe um navio de penedos a navegar num mar de mosto. Um meio de transporte que ainda hoje é escolhido por milhões de pessoas em todo o mundo. É quase axiomático que mesmo os piores comboios te levam através de lugares mágicos (Paul Theroux)



(O video resulta da compilação de vários excertos retirados do documentário produzido pela RTP intitulado 150 anos dos Caminhos de Ferro em Portugal)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Fiel Amigo


Pertencente à grande família dos Gadídeos, Gadus Morhua, mais conhecido entre nós por Bacalhau, é o peixe mais famoso das águas frias do Mar do Norte. O bacalhau, que deriva da palavra latina baccalaureu, é uma das grandes maravilhas que a natureza nos ofereceu. Dele tudo é consumido: a sua carne é comida seca, defumada, salgada ou fresca, desde a cabeça à barbatana tudo é aproveitado e até do seu fígado se extrai o famoso óleo de fígado de bacalhau, que durante anos atormentou o paladar das crianças de todo o mundo! Por ser estenotermo, ou seja necessitar de se manter em águas frias e com poucas variações térmicas, o bacalhau está em constante movimentação, podendo por isso ser encontrado nas águas frias dos mares da Noruega, Islândia, Rússia, Canadá e Alasca. A sua história é milenar. Na Islândia e na Noruega há registos do século IX, de locais onde se realizava a secagem do bacalhau. Como não conheciam o sal, os Vikings, que foram considerados os pioneiros na descoberta deste peixe, secavam o bacalhau ao ar livre. Ao perder cerca de um quinto do seu peso inicial através da secagem, ficava duro, sendo depois partido em pequenas peças para poder servir de alimentação durante as longas travessias marítimas. Mas foi graças aos Bascos, que já utilizavam o sal, que o comércio do bacalhau se iniciou. Existem registos do século X, que demonstram que os Bascos salgavam o bacalhau e o comercializavam curado e salgado. A possibilidade de conservação da sua carne (dado o seu baixo teor de gordura e elevado teor proteico)  tornou o bacalhau num produto alimentar de grande valor comercial. 
Os portugueses apenas descobriram o bacalhau no século XV, no período dos descobrimentos, altura em que necessitavam de alimentos para as longas travessias marítimas. Fizeram várias tentativas com peixes pescados na costa portuguesa, mas estes rapidamente se deterioravam. Foi nos mares perto do Pólo Norte, que os portugueses descobriram o peixe mágico, que iria revolucionar a alimentação. Foram também os portugueses que iniciaram a pesca do bacalhau na Terra Nova (Canadá) que foi descoberta em 1497, e em 1508 a pesca do bacalhau já representava 10% de todo o comércio de pescado em Portugal. Um produto alimentar como o bacalhau, de grande valor comercial, rapidamente atraiu o interesse de outras frotas pesqueiras, desencadeando conflitos. Em 1510, Portugal assina um acordo com Inglaterra contra a França, pelo controlo da sua pesca. Em 1532, na chamada Guerra do Bacalhau, deflagrou o conflito entre Ingleses e Alemães pelo controlo da pesca do bacalhau nas águas da Islândia. Seguiram-se anos de conflitos, tratados e legislações, na tentativa de regular a pesca e a comercialização do precioso peixe, denominado entretanto de Príncipe dos Mares, tal era a sua fama e importância. O seu valor era tão elevado que Peter Daas, clérigo e poeta norueguês do século XVII, chega a afirmar: se o bacalhau nos abandonar, a que nos agarraremos? O que levaremos a Bergen (cidade norueguesa) para trocar por ouro? 
Os portugueses tornaram-se rapidamente nos maiores consumidores de bacalhau a nível mundial, e como disse Auguste Escoffier, célebre chefe de cozinha francês do inicio do século XX,  devemos aos portugueses o reconhecimento por terem sido os primeiros a introduzir, na alimentação, este peixe precioso, universalmente conhecido e apreciado. Apelidado de fiel amigo o bacalhau tornou-se uma tradição nos hábitos alimentares dos portugueses, de tal forma que quase se tornou numa característica inata ao povo luso. Eça de Queiroz numa carta enviada a Oliveira Martins descreve muito bem esse amor tão profundamente enraizado: Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês – excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada! Foi também este peixe que ficou associado às tradições religiosas já que a Igreja Católica impunha muitos dias de jejum de carne ao longo de todo o ano. O número de dias de jejum e abstinência a que se sujeitavam anualmente os portugueses era considerável, não se limitando ao período da Quaresma, a época do ano em que o bacalhau era rei à mesa. (...) durante mais de um terço do ano não se podia comer carne (O bacalhau na vida e na cultura dos portugueses de Marília Abel e Carlos Consiglieri).
Estes dias de jejum deram origem a uma curiosa tradição popular que remonta ao século XVI, denominada por Enterro do Bacalhau, que se realizava no fim da Quaresma, e ainda hoje celebrada em algumas aldeias e vilas portuguesas. Nessa altura a proibição de comer carne era levantada e o povo festejava o enterro do bacalhau, com as seguintes quadras: Batem sinos nas capelas, bandeiras a meio pau, moços velhos e donzelas, ponham luto nas panelas, que morreu o bacalhau. Com dinheiro havia a bula, nesse tempo tão sacana, uns podiam comer carne, e outros só a barbatana! Essa tradição religiosa de jejum foi-se perdendo, mas o bacalhau continuou a estar muito ligado às festividades religiosas, como o Natal. Durante muitos anos o bacalhau foi um alimento barato, sempre presente na mesa dos portugueses. No entanto com a grande procura e a diminuição das licenças de pesca a situação mudou. Já Ramalho Urtigão escrevia ao mesmo passo que a carne de boi sobe na categoria de jóia o bacalhau afirma-se na importância de alimento. Ora uma coisa estamos daqui a recear:  é que o bacalhau abuse da suprema influência que vai ter sobre o corpo social. O comércio do bacalhau constitui em Lisboa um monopólio. 

Actualmente o Fiel Amigo sucumbiu ao aumento de preços e torna-se mais difícil vê-lo nos pratos dos portugueses. Cozinhado de 1001 maneiras, o Príncipe dos Mares pode não ser visita tão frequente da casa dos portugueses, mas pelo menos na noite de Natal podemos revê-lo altivo e fumegante como sempre o conhecemos. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maria Pia: a menina que se tornou Rainha

Na cidade italiana de Turim, nasce no dia 16 de Outubro de 1847, uma menina filha de Victor Manuel I, rei de Piemonte e da Sardenha, e da Arquiduquesa da Áustria, D.Maria Adelaide de Habsburgo, a quem foi posto o nome de Maria Pia de Sabóia. Criada numa família defensora do liberalismo, e tendo perdido a mãe aos sete anos, Maria Pia cedo absorveu os ideais por que tinha lutado o seu avô Carlos Alberto, tornando-se numa criança independente, curiosa e ávida de conhecimento. Rodeada de carinho familiar e habituada ao luxo da corte de Piemonte, tornou-se numa bonita e inteligente adolescente, cobiçada e reconhecida nas grandes casas reais da Europa. O dia 11 de Setembro de 1861, marcará para sempre a vida desta pequena princesa. Nesse dia, em Portugal morre D.Pedro V, rei de Portugal, de febre tifóide. O seu irmão D.Luís, então com 23 anos, torna-se repentinamente o novo rei e é urgente garantir a descendência, já que apenas tinha irmãs, todas elas casadas com herdeiros de outras casas reais. A primeira escolha recai sobre uma das filhas da rainha Vitória, mas a lei britânica não permitiu o enlace dada a diferença de religião,   levando no entanto a rainha inglesa a afirmar que, eu sinto-me sempre bem sensibilizada por vós terdes sonhado com elas. Foi ainda colocada a hipótese da princesa Teresa, filha do Arquiduque da Áustria, logo posta de lado pelo seu pai, por ser menor de idade. A opção  seguinte recai sobre Maria Pia de Sabóia, então com 14 anos, e D. Luís apressa-se a pedir a sua mão em casamento a seu pai, Victor Manuel. Numa carta dirigida ao rei português, o pai de Maria Pia escreve: O pedido que Vossa Majestade acaba de me fazer da mão da minha filha tocou vivamente o meu coração de rei e de pai (...) antes de vos responder quis falar do assunto a minha filha que expressou o seu inteiro consentimento (...) é  um acto que será acolhido com entusiasmo na Itália onde a recordação ainda recente da nobre e afectuosa hospitalidade dada a meu pai (Carlos Alberto) por Portugal desperta tantas simpatias e faz bater todos os corações. 
Este enlace não foi muito bem visto por algumas cortes europeias, receosas de que o espírito liberal defendido pelo pai da noiva e a sua ligação a Napoleão III, pudesse por em causa a frágil harmonia existente nas cortes europeias. No entanto a reacção mais dura veio da amiga rainha Vitória que escreveu ao rei D.Luís dizendo que, como vós já fizestes a vossa escolha eu não tenho mais nada a dizer...esperamos sempre que ela possua todas as qualidades necessárias para vossa mulher e para uma rainha! Apesar de todos os receios devidos à sua extrema juventude, Maria Pia mostrou estar à altura do seu papel de futura rainha. O tempo de noivado foi preenchido com a de troca de cartas e telegramas enamorados, envio de retratos e de madeixas de cabelo em pequenos medalhões. Mesmo antes de se conhecerem pessoalmente já nutriam de grande afeição um pelo outro, partilhando gostos comuns tais como a leitura e a música. Na última troca de cartas Maria Pia escreve sou toda tua, para toda a vida e D.Luís refere que desejava que o nosso primeiro encontro fosse o menos observado possível (...) e de te poder dizer, enfim, eu estou junto da minha bem amada Maria. 
Mas os desejos do rei não foram realizados e a princesa Maria Pia (já rainha de Portugal, por ter casado por procuração a 27 de Setembro), chega a Lisboa a 5 de Outubro de 1862, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, onde é recebida por milhares de pessoas delirantes numa cidade em festa. Foi a bordo dessa corveta que os noivos finalmente se conheceram, dando inicio a uma relação construída num amor verdadeiro. No dia seguinte, a rainha Maria Pia finalmente pisa solo português, e a primeira coisa que avista é a frase DA BELA ITÁLIA ESTRELA SOBERANA, SEJAIS BEM VINDA À PRAIA LUSITANA, da autoria de António Feliciano de Castilho (escritor português). A comitiva real segue depois em cortejo até à igreja de São Domingos, onde é realizada a cerimónia de rectificação do casamento, e o país permanece em festa por mais três dias, em honra do novo casal real. A nova rainha de Portugal, apesar dos seus quinze anos, rapidamente conquistou o coração dos seus súbditos, pelo seu porte majestoso, pela sua generosidade, revelando desde logo a sua cultura, a sua inteligência e a vontade de promover a educação no país que a acolheu como rainha. 
Deste  casamento iriam nascer D.Carlos I, futuro rei de Portugal, no dia 28 de Setembro de 1863 e D. Afonso, no dia 31 de Julho de 1865, Duque do Porto. Rainha sempre afável e conhecedora do protocolo rígido da corte portuguesa, manteve-se sempre atenta às questões politicas que envolviam o marido. Ficou célebre a frase que dirigiu ao Duque de Saldanha, líder de uma tentativa de golpe militar, no momento em foi apresentar desculpas ao rei: Se eu fosse o rei mandava-o fuzilar! Mãe sempre atenta e carinhosa, ocupou-se pessoalmente da educação dos seus filhos. No dia 2 de Outubro de 1873 D. Maria Pia passeava com os filhos na praia de Cascais, quando uma onda arrasta os dois príncipes para o mar. Sem pensar a rainha lança-se à água, na tentativa de salvar os filhos, mas foi graças à intervenção do ajudante do faroleiro da Guia, que os três se salvaram. A faceta de mãe era superior ao papel de rainha. Sempre atenta aos mais carenciados deixou obras notáveis: criou uma comissão para ajudar as vítimas do terrível inverno de 1876, tendo conseguido arrecadar 200 000$00 réis, proporcionando casas e roupas a todos os que tinham perdido os haveres nas grandes cheias; fundou a 1 de Novembro de 1877 a creche Victor Manuel na Tapada da Ajuda, para acolher as crianças com maiores necessidades; quando um terrível incêndio destruiu por completo o Teatro Baquet na cidade do Porto, em 1888, causando mais de uma centenas de vítimas, a rainha acompanhada do seu filho mais velho viajou de comboio numa noite de inverno, para poder assistir às exéquias das vítimas. Visitou todas as casas dos familiares das vitimas, pobres e ricas, distribuindo palavras de conforto e prestando apoio financeiro.
As gentes do Porto nunca mais se esqueceram da sua rainha, e homenagearam-na dando o seu nome ao hospital de pediatria do Porto, Hospital Real de Crianças Maria Pia, e à ponte de comboio que ligava as margens do Douro, a Ponte Maria Pia. No entanto não deixava de ser rainha e de se comportar como rainha. Os seus gastos eram considerados exorbitantes e foram muito criticados pelos políticos de então, ao que ela rapidamente respondeu com mais uma frase histórica quem quer rainhas, paga-as! No ano de 1889, surge a primeira tragédia na vida de Maria Pia. D. Luís morre no dia 19 de Outubro, e a rainha cai numa terrível depressão, e afasta-se para o Palácio da Ajuda onde fica a viver sozinha, cedendo o protagonismo o seu filho D. Carlos I, rei de Portugal e à sua mulher, a nova Rainha D. Amélia. Sabe-se que a relação entre a rainha-mãe e a rainha D. Amélia não era das melhores, mas a convivência era pacífica, a os netos eram a alegria da vida de Maria Pia. Como rainha-mãe vive uma vida mais discreta, continuando a desenvolver a sua obra social e de beneficência,  tendo recebido muitas condecorações nacionais e internacionais  pela sua acção benemérita. Mas é com 61 anos que sofre a maior tragédia da sua vida, quando a 1 de Fevereiro de 1908, vê morrer o seu filho Carlos, rei de Portugal, e o seu neto, príncipe herdeiro, Luís Filipe, num atentado perpetrado pela Carbonária. O Terreiro do Paço, que anos antes tinha sido palco da sua calorosa recepção, tornava-se no palco onde ocorreu o mais trágico acto da sua vida. Maria Pia cai num estado de dor e de agonia profunda, da qual nunca mais recupera. 
No dia 5 de Outubro de 1910, logo após a implantação da República em Portugal, e em companhia do seu único neto D. Manuel II, rei deposto, é exilada para a sua terra natal, a cidade de Turim. Estranha coincidência: chega a Portugal a 5 de Outubro de 1862, onde é aclamada como rainha por uma cidade exultante, e é obrigada a fugir de um país que tornou seu, 48 anos depois no mesmo dia 5 de Outubro. Morre na sua cidade natal e de exílio, com 63 anos no dia 5 de Julho de 1911 mas antes de falecer dita as seguintes palavras como desejo final: Chegou a minha vez de morrer. Como último desejo peço que me virem na direcção de Portugal, o país que me encheu de alegria o coração de menina e me tirou tudo o que de mais sagrado tinha quando mulher. Olhando para trás, reconheço que a minha vida foi marcada pela tragédia. Vi partir uma mãe cedo de mais (...). Não me consegui despedir do meu pai, enterrei um marido (...) um filho em quem depositava todas as esperanças, um neto adorado. Claro que também tive momentos de felicidade. Quando sonhava acordada (...) com príncipes e casamentos perfeitos, quando cheguei a Lisboa e o povo gritava o meu nome, quando viajava por essa Europa fora de braço dado com Luís, quando brincava no paço com os meus filhos ou quando estendia as mãos para ajudar os mais necessitados, abrindo creches e asilos. Mas mesmo nestas alturas havia quem me apontasse o dedo. Maria Pia a gastadora, a esbanjadora do erário público. A que dava festas majestáticas no paço, a que ia a Paris comprar os tecidos mais caros e as jóias mais exuberantes. Não percebiam eles que assim preenchia o vazio que, aos poucos, se ia instalando no meu coração (in Eu, Maria Pia de Diana de Cadaval)
Sepultada na Basílica de Superga, em Turim, ainda se aguarda a realização do seu último desejo: ser sepultada junto do seu marido e filhos, no Panteão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Cem anos passaram desde a sua morte, e o desejo da menina rainha que se fez mulher em Portugal, permanece por cumprir.