quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maria Pia: a menina que se tornou Rainha

Na cidade italiana de Turim, nasce no dia 16 de Outubro de 1847, uma menina filha de Victor Manuel I, rei de Piemonte e da Sardenha, e da Arquiduquesa da Áustria, D.Maria Adelaide de Habsburgo, a quem foi posto o nome de Maria Pia de Sabóia. Criada numa família defensora do liberalismo, e tendo perdido a mãe aos sete anos, Maria Pia cedo absorveu os ideais por que tinha lutado o seu avô Carlos Alberto, tornando-se numa criança independente, curiosa e ávida de conhecimento. Rodeada de carinho familiar e habituada ao luxo da corte de Piemonte, tornou-se numa bonita e inteligente adolescente, cobiçada e reconhecida nas grandes casas reais da Europa. O dia 11 de Setembro de 1861, marcará para sempre a vida desta pequena princesa. Nesse dia, em Portugal morre D.Pedro V, rei de Portugal, de febre tifóide. O seu irmão D.Luís, então com 23 anos, torna-se repentinamente o novo rei e é urgente garantir a descendência, já que apenas tinha irmãs, todas elas casadas com herdeiros de outras casas reais. A primeira escolha recai sobre uma das filhas da rainha Vitória, mas a lei britânica não permitiu o enlace dada a diferença de religião,   levando no entanto a rainha inglesa a afirmar que, eu sinto-me sempre bem sensibilizada por vós terdes sonhado com elas. Foi ainda colocada a hipótese da princesa Teresa, filha do Arquiduque da Áustria, logo posta de lado pelo seu pai, por ser menor de idade. A opção  seguinte recai sobre Maria Pia de Sabóia, então com 14 anos, e D. Luís apressa-se a pedir a sua mão em casamento a seu pai, Victor Manuel. Numa carta dirigida ao rei português, o pai de Maria Pia escreve: O pedido que Vossa Majestade acaba de me fazer da mão da minha filha tocou vivamente o meu coração de rei e de pai (...) antes de vos responder quis falar do assunto a minha filha que expressou o seu inteiro consentimento (...) é  um acto que será acolhido com entusiasmo na Itália onde a recordação ainda recente da nobre e afectuosa hospitalidade dada a meu pai (Carlos Alberto) por Portugal desperta tantas simpatias e faz bater todos os corações. 
Este enlace não foi muito bem visto por algumas cortes europeias, receosas de que o espírito liberal defendido pelo pai da noiva e a sua ligação a Napoleão III, pudesse por em causa a frágil harmonia existente nas cortes europeias. No entanto a reacção mais dura veio da amiga rainha Vitória que escreveu ao rei D.Luís dizendo que, como vós já fizestes a vossa escolha eu não tenho mais nada a dizer...esperamos sempre que ela possua todas as qualidades necessárias para vossa mulher e para uma rainha! Apesar de todos os receios devidos à sua extrema juventude, Maria Pia mostrou estar à altura do seu papel de futura rainha. O tempo de noivado foi preenchido com a de troca de cartas e telegramas enamorados, envio de retratos e de madeixas de cabelo em pequenos medalhões. Mesmo antes de se conhecerem pessoalmente já nutriam de grande afeição um pelo outro, partilhando gostos comuns tais como a leitura e a música. Na última troca de cartas Maria Pia escreve sou toda tua, para toda a vida e D.Luís refere que desejava que o nosso primeiro encontro fosse o menos observado possível (...) e de te poder dizer, enfim, eu estou junto da minha bem amada Maria. 
Mas os desejos do rei não foram realizados e a princesa Maria Pia (já rainha de Portugal, por ter casado por procuração a 27 de Setembro), chega a Lisboa a 5 de Outubro de 1862, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, onde é recebida por milhares de pessoas delirantes numa cidade em festa. Foi a bordo dessa corveta que os noivos finalmente se conheceram, dando inicio a uma relação construída num amor verdadeiro. No dia seguinte, a rainha Maria Pia finalmente pisa solo português, e a primeira coisa que avista é a frase DA BELA ITÁLIA ESTRELA SOBERANA, SEJAIS BEM VINDA À PRAIA LUSITANA, da autoria de António Feliciano de Castilho (escritor português). A comitiva real segue depois em cortejo até à igreja de São Domingos, onde é realizada a cerimónia de rectificação do casamento, e o país permanece em festa por mais três dias, em honra do novo casal real. A nova rainha de Portugal, apesar dos seus quinze anos, rapidamente conquistou o coração dos seus súbditos, pelo seu porte majestoso, pela sua generosidade, revelando desde logo a sua cultura, a sua inteligência e a vontade de promover a educação no país que a acolheu como rainha. 
Deste  casamento iriam nascer D.Carlos I, futuro rei de Portugal, no dia 28 de Setembro de 1863 e D. Afonso, no dia 31 de Julho de 1865, Duque do Porto. Rainha sempre afável e conhecedora do protocolo rígido da corte portuguesa, manteve-se sempre atenta às questões politicas que envolviam o marido. Ficou célebre a frase que dirigiu ao Duque de Saldanha, líder de uma tentativa de golpe militar, no momento em foi apresentar desculpas ao rei: Se eu fosse o rei mandava-o fuzilar! Mãe sempre atenta e carinhosa, ocupou-se pessoalmente da educação dos seus filhos. No dia 2 de Outubro de 1873 D. Maria Pia passeava com os filhos na praia de Cascais, quando uma onda arrasta os dois príncipes para o mar. Sem pensar a rainha lança-se à água, na tentativa de salvar os filhos, mas foi graças à intervenção do ajudante do faroleiro da Guia, que os três se salvaram. A faceta de mãe era superior ao papel de rainha. Sempre atenta aos mais carenciados deixou obras notáveis: criou uma comissão para ajudar as vítimas do terrível inverno de 1876, tendo conseguido arrecadar 200 000$00 réis, proporcionando casas e roupas a todos os que tinham perdido os haveres nas grandes cheias; fundou a 1 de Novembro de 1877 a creche Victor Manuel na Tapada da Ajuda, para acolher as crianças com maiores necessidades; quando um terrível incêndio destruiu por completo o Teatro Baquet na cidade do Porto, em 1888, causando mais de uma centenas de vítimas, a rainha acompanhada do seu filho mais velho viajou de comboio numa noite de inverno, para poder assistir às exéquias das vítimas. Visitou todas as casas dos familiares das vitimas, pobres e ricas, distribuindo palavras de conforto e prestando apoio financeiro.
As gentes do Porto nunca mais se esqueceram da sua rainha, e homenagearam-na dando o seu nome ao hospital de pediatria do Porto, Hospital Real de Crianças Maria Pia, e à ponte de comboio que ligava as margens do Douro, a Ponte Maria Pia. No entanto não deixava de ser rainha e de se comportar como rainha. Os seus gastos eram considerados exorbitantes e foram muito criticados pelos políticos de então, ao que ela rapidamente respondeu com mais uma frase histórica quem quer rainhas, paga-as! No ano de 1889, surge a primeira tragédia na vida de Maria Pia. D. Luís morre no dia 19 de Outubro, e a rainha cai numa terrível depressão, e afasta-se para o Palácio da Ajuda onde fica a viver sozinha, cedendo o protagonismo o seu filho D. Carlos I, rei de Portugal e à sua mulher, a nova Rainha D. Amélia. Sabe-se que a relação entre a rainha-mãe e a rainha D. Amélia não era das melhores, mas a convivência era pacífica, a os netos eram a alegria da vida de Maria Pia. Como rainha-mãe vive uma vida mais discreta, continuando a desenvolver a sua obra social e de beneficência,  tendo recebido muitas condecorações nacionais e internacionais  pela sua acção benemérita. Mas é com 61 anos que sofre a maior tragédia da sua vida, quando a 1 de Fevereiro de 1908, vê morrer o seu filho Carlos, rei de Portugal, e o seu neto, príncipe herdeiro, Luís Filipe, num atentado perpetrado pela Carbonária. O Terreiro do Paço, que anos antes tinha sido palco da sua calorosa recepção, tornava-se no palco onde ocorreu o mais trágico acto da sua vida. Maria Pia cai num estado de dor e de agonia profunda, da qual nunca mais recupera. 
No dia 5 de Outubro de 1910, logo após a implantação da República em Portugal, e em companhia do seu único neto D. Manuel II, rei deposto, é exilada para a sua terra natal, a cidade de Turim. Estranha coincidência: chega a Portugal a 5 de Outubro de 1862, onde é aclamada como rainha por uma cidade exultante, e é obrigada a fugir de um país que tornou seu, 48 anos depois no mesmo dia 5 de Outubro. Morre na sua cidade natal e de exílio, com 63 anos no dia 5 de Julho de 1911 mas antes de falecer dita as seguintes palavras como desejo final: Chegou a minha vez de morrer. Como último desejo peço que me virem na direcção de Portugal, o país que me encheu de alegria o coração de menina e me tirou tudo o que de mais sagrado tinha quando mulher. Olhando para trás, reconheço que a minha vida foi marcada pela tragédia. Vi partir uma mãe cedo de mais (...). Não me consegui despedir do meu pai, enterrei um marido (...) um filho em quem depositava todas as esperanças, um neto adorado. Claro que também tive momentos de felicidade. Quando sonhava acordada (...) com príncipes e casamentos perfeitos, quando cheguei a Lisboa e o povo gritava o meu nome, quando viajava por essa Europa fora de braço dado com Luís, quando brincava no paço com os meus filhos ou quando estendia as mãos para ajudar os mais necessitados, abrindo creches e asilos. Mas mesmo nestas alturas havia quem me apontasse o dedo. Maria Pia a gastadora, a esbanjadora do erário público. A que dava festas majestáticas no paço, a que ia a Paris comprar os tecidos mais caros e as jóias mais exuberantes. Não percebiam eles que assim preenchia o vazio que, aos poucos, se ia instalando no meu coração (in Eu, Maria Pia de Diana de Cadaval)
Sepultada na Basílica de Superga, em Turim, ainda se aguarda a realização do seu último desejo: ser sepultada junto do seu marido e filhos, no Panteão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Cem anos passaram desde a sua morte, e o desejo da menina rainha que se fez mulher em Portugal, permanece por cumprir. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O gato: domesticado ou dono?

Não há animal que desperte mais emoções do que o gato! Amado e idolatrado por uns, detestado e temido por outros, este elegante felino acompanha o homem desde a antiguidade. O mais antigo ancestral do gato, de nome Miacis, foi um mamífero carnívoro que viveu há cerca de 40 milhões de anos. Predador de pequeno porte, de patas curtas, garras retrácteis e cauda longa, movimentava-se nos galhos das árvores. Ironicamente os paleontólogos e arqueólogos determinaram que a origem dos felinos e dos canídeos tem por base o Miacis! A subfamília dos Felinae ou dos Felinos, da qual fazem parte os gatos, surgiu há cerca de 12 milhões de anos, na África subsariana tendo-se posteriormente expandido até ao actual Egipto. Pesquisando os componentes genéticos de gatos selvagens da Europa, da Ásia, da África e do Oriente Médio, concluímos que realmente a domesticação começou na ilha de Chipre, com gatos provenientes do Crescente Fértil, região entre os rios Nilo, Tigre e Eufrates, onde se iniciou a agricultura (Stephen O'Brien, Director do Laboratório de Diversidade Genómica no Instituto Nacional de Saúde  Maryland, EUA).  Estátuas e pinturas encontradas no Egipto, indicam que a associação do homem com o gato se iniciou há cerca de 9.500 anos. Quando o homem deixou de ser nómada e começou a desenvolver a agricultura, os gatos iniciaram a sua aproximação e desde então traçaram um tipo de acordo tácito de cooperação com o homem. O gato representa a civilização, relação feita a partir da agricultura (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Exímios caçadores, eliminavam ratos e outros roedores que atacavam as colheitas, exercendo um importante papel social. Escavações arqueológicas demonstram que este pequeno felino passou a ser idolatrado no Egipto, tornando-se num animal sagrado. 
Bastet, a Deusa da fertilidade, era representada com corpo de mulher e cabeça de gato, e era uma das divindades mais veneradas no antigo Egipto. Os gatos tornaram-se tão idolatrados que quem matasse um destes felinos, era condenado à pena de morte, e os donos de um gato que morresse vestiam de luto e rapavam as sobrancelhas em sinal de respeito e dor. O amor dos egípcios era tão grande que foi decretada uma lei que proibia a sua exportação, e quem fosse apanhado a traficar gatos era punido com a pena de morte. São inúmeras as múmias de gatos ricamente ornamentadas encontradas nas escavações arqueológicas feitas no Egipto, Índia e Pérsia, e só no Museu Britânico podemos encontrar 192 dessas múmias. No entanto, e apesar da proibição, o gato foi clandestinamente transportado para outros territórios. Na Pérsia a sua veneração manteve-se, com a crença de que o gato era a encarnação de espíritos amigos criados especialmente para acompanhar o homem durante a sua travessia terrena. Prejudicando o gato, prejudicavam o homem. Pelo facto de serem caçadores notáveis, ágeis e auxiliarem no controlo da propagação de pragas e diversas doenças, os gatos tiveram uma posição privilegiada e uma coexistência pacifica com os homens durante vários séculos.
No início da Idade Média tudo se alterou e o estatuto do gato mudou. Associados a rituais de bruxaria, especialmente os de cor preta, foram vistos como espíritos maléficos pelas populações , chegando a ser queimados juntamente com as pessoas acusadas de praticar artes mágicas e de bruxaria. O gato só começou a ser visto de forma negativa a partir do cristianismo, na Idade Média. Essa ligação maligna foi feita justamente porque era um animal atribuído aos deuses pagãos (...) tudo que não era da religião católica era do mal e deveria ser queimado na fogueira. Profissões que tinham qualquer ligação com o gato também foram condenadas. As parteiras, por exemplo, usavam a deusa Bastet como símbolo e, por isso, foram denominadas de bruxas. No século 13, a perseguição foi ainda maior. Com a promulgação de bulas nas quais condenava os gatos, especialmente os de cor preta, associado ao satanismo, o papa Gregório IX determinou a exterminação de centenas de felinos  (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Nesta altura foram mortos milhares de gatos por superstições, medos e ignorância. Mas o ridículo foi atingido quando o Papa Inocêncio VIII, durante o século XV, colocou o gato preto na lista dos que deveriam ser perseguidos e executados pela Inquisição! Só no final da Idade Média, os gatos puderam respirar fundo e gradualmente foram sendo novamente aceites nas casas para controlar as crescentes populações de ratos. Nos barcos tornaram-se mascotes pois permitiam que cargas de alimentos não fossem destruídas pelos roedores que infestavam os porões, ficando a ser conhecidos como gatos de navio. Com o passar do tempo o gato tornou-se um dos mais populares animais de companhia do homem, transformando-se por vezes em animal de luxo, tais foram as modificações genéticas que foram acontecendo ao longo dos últimos anos. 
Transformado em herói dos desenhos animados com o nome de Garfield, das histórias infantis como o Gato das Botas, ícone feminino como Hello Kitty ou como animais de companhia de figuras mundialmente famosas, o gato ganhou o seu estatuto na sociedade dos humanos. Eça de Queiroz no seu livro Os Maias descreve o gato, respeitosamente chamado Reverendo Bonifácio de forma impar: Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora o fiel companheiro de Afonso (...) recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D.Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio. (...) Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pêlo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia. E quando Afonso morre a descrição que Eça faz da dor do gato é soberba: era o gato! Era o Reverendo Bonifácio, que diante do quarto de Afonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente (...) com a cauda fofa a roçar o chão (...) esgadanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o de uma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer. 
O gato é de facto um animal fascinante. Perspicaz, astuto e independente, quem tem o prazer de com eles privar sabe que, não é um animal completamente domesticado. De facto eu costumo dizer que tive 3 gatos que me permitiram viver com eles, pois de dona pouco tive. Os gatos dominam o seu território, e permitem-nos a nós humanos partilhar o seu espaço. É uma espécie de acordo: nós fornecemos alimentos e mantemos o asseio do seu território, podemos fazer algumas festas quando tal nos é permitido, temos o privilégio de o ter em cima do nosso colo quando muito bem entendem e eles permitem-nos desfrutar da sua elegante e inteligente companhia. Sempre presentes, sem incomodarem; sempre atentos, fingindo que dormitam; irreverentes e brincalhões, tantos nos dão pequenas mordidelas como nos enternecem com os seu audíveis ronrons! Entram na nossa vida sorrateiramente como felinos que são e alojam-se no nosso quotidiano e no nosso coração irreversivelmente. No seu poema Ode ao gato, Pablo Neruda escreve Oh pequeno imperador sem orbe, conquistador sem pátria,  mínimo tigre de salão, nupcial sultão do céu das telhas eróticas,  o vento do amor  na intempérie reclamas quando passas e pousas quatro pés delicados  no solo,  cheirando,  desconfiando  de todo o  terrestre,  porque tudo é imundo  para o imaculado pé do gato. São donos e senhores de si, altivos e sobranceiros, mas dedicados e reconhecidos quando gostam e se tornam "donos" de algum ser humano. Como disse Mark Twain se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.



domingo, 20 de maio de 2012

Aquilo que volta todos os anos

Hoje é o meu aniversário! Nasci a 20 de Maio, numa quinta-feira, pelas 20.30 horas, há 41 anos. Como fui apressada, nasci em casa, contrariando todos os preparativos que os meus pais tinham feito. Decidi nascer a 20 e não uns dias depois como estava previsto. É uma característica minha, fazer o que me apetece, independentemente do que os outros pensem ou digam, e que pelos vistos me acompanha desde nascença. Ao pensar no meu aniversário, verifiquei que pouco ou nada sabia acerca dos rituais que se realizam nesta celebração e decidi investigar. Comecemos pela própria palavra: aniversário, provém da palavra latina anniversarius, de annus (ano) e vertere (voltar), que significa aquilo que volta todos os anos...e ainda bem que volta! Se fosse uma romana da antiguidade, diria que hoje é o meu dies sollemnis natalis, já que era assim que os antigos romanos designavam o dia de comemoração do seu nascimento. Segundo refere Pedro  Funari (historiador brasileiro) há um registo do século II em que uma cidadã chamada Cláudia Severa convida a sua amiga Sulpícia Lepidina para a comemoração do seu aniversário. Outro facto que reforça a ideia de que os romanos comemoravam o dia de nascimento, é a existência de túmulos onde estão registados com grande precisão os anos, meses e dias de vida do defunto, o que significa que davam grande importância ao dia em que nasciam. 
No entanto é aos gregos, que devemos a tradição do bolo de aniversário. Segundo alguns historiadores, na antiga Grécia era tradição a oferta de um bolo de mel, redondo em forma de lua, com velas acesas à Deusa Artemis (Diana, segundo os romanos) associada à caça, à lua e à fertilidade. No seu templo em Éfeso, os antigos gregos tentavam assim obter boa sorte e afastar os maus espíritos, já que acreditavam que a vela tinha um poder sagrado de afastar o demónio (Daimon em grego significa demónio) e que o fumo resultante de uma vela acabada de apagar, levaria os desejos formulados aos Deuses do Monte Olimpo. Até ao século IV, a Igreja Católica rejeitou a celebração do dia de nascimento, pois considerava esta festividade de origem pagã e não vemos nas Escrituras ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu natalício. Somente os pecadores (como Faraó e Herodes) celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo (Enciclopédia Católica, edição de 1911). Só no século V é que a Igreja Católica  através do Papa Júlio I, institui a comemoração do nascimento de Jesus no dia 25 de Dezembro, tentando assim substituir os rituais pagãos que nesse dia celebravam o Solstício de Inverno, por uma festa cristã. No entanto, a comemoração do dia de aniversário não é seguido por todas as culturas de forma igual. No Vietname, por exemplo, o dia de aniversário não é celebrado individualmente, mas de uma forma colectiva no ano novo vietnamita, o que acontece entre os dias 21 de Janeiro e 9 de Fevereiro, segundo o nosso calendário gregoriano. 
E como numa celebração não pode faltar a música, a canção Parabéns a você tradicionalmente cantada durante a comemoração, teve origem numa música composta por Mildred e Patrícia Smith Hill, irmãs e professoras na escola Louisville Experimental Kindergarten School do Kentucky, em 1874. Good morning to all, assim se chamava, era cantada pelas crianças todos os dias, no momento em que entravam na escola. No ano de 1924, Robert Coleman publica, num livro por si editado, a música de  Good morning to all com uma nova letra e com o título de Happy Birthday to you. Esta versão ganhou imensa popularidade e tornou-se símbolo das festividades de aniversário. Em 1933,  Jessica Hill, irmã das autoras acusou Robert Coleman de plágio e reivindicou na justiça os direitos de autor. A partir de então, todas as vezes que a música Parabéns a você é tocada na rádio, na televisão, cinemas ou noutros meios de transmissão são cobrados direitos de autor. A Warner, actual detentora destes direitos, obteve em 2002 mais de 2 milhões de dólares de direitos de autor. A 8 de Março de 1969, Happy Birthday to You, tornou-se na primeira música a ser cantada no espaço, quando os astronautas da Apollo IX a entoaram para celebrar o aniversário do director de voo Christopher Columbus Kraft Jr. Agora, depois de relembrar a origem dos símbolos associados ao aniversário, só me falta celebrar o meu dia de nascimento, relembrando todos aqueles que me acompanharam ao longo destes 41 anos de vida. É expressão popular dizer-se que se nasce e se morre sozinho, mas contrapondo esta expressão, eu digo que não há nada como viver na companhia de familiares e amigos e celebrar aquilo que volta todos os anos. E que volte por muitos mais! 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

As "estradas" de antigamente


Quando se viaja em Portugal, para qualquer lado que se voltem os olhos, sente-se uma impressão de profunda tristeza ao ver o abandono em que tudo jaz, o pouco ou nada que se tem feito, em relação à marcha constante da civilização (...). À saída da cidade (...) acha-se uma rampa calçada de pedra com todos os indícios de que vai ali principiar uma estrada (...). Depois o viajante que percorre estas quase ignoradas paisagens tem de atravessar um lameiro (...) entra-se em seguida num rio , o qual corre mais de uma milha no leito da estrada (...) mais adiante  outra estrumeira, outro lameiro e outro rio (...) e para variar muitos atoleiros ou olhos marinhos, onde se pode sumir um porco, e onde não é raro sumirem-se as pernas de um cavaleiro e a barriga do cavalo ou de um macho, que nem sempre se pode retirar depois sem auxilio (Panorama,1858). Apesar de se referir às "estradas" de Portugal no ano de 1858, este texto descreve muito bem a realidade que este pequeno filme nos mostra, mais de 50 anos depois. São imagens de várias "estradas" de Portugal que davam acesso à vila piscatória de Peniche. Como disse René Descartes, quando gastamos tempo demais a viajar, tornamo-nos estrangeiros no nosso próprio país. Felizmente hoje Portugal tornou-se pequeno, com as autoestradas e vias rápidas que ligam as principais cidades portuguesas, mas é bom lembrar o quão estrangeiros se deviam sentir os nossos avós no seu próprio país!



quinta-feira, 17 de maio de 2012

A festa do povo do Porto


Não há festa mais popular do que o São João do Porto! Sem destino certo, sem razão de ser, o povo sai à rua apenas para ser mais um no meio da confusão e fazer parte da multidão anárquica que se espraia pelas ruas e ruelas da cidade. Não há festa combinada, não há nada a fazer, apenas passear e sentir o vibrar e a alegria das gentes do Porto em festa. Não sendo padroeiro da cidade, o Santo de nome João, foi adoptado pelos portuenses e tornou-se no dia feriado desta cidade por referendo público. De facto no dia 11 de Janeiro de 1911, a República Portuguesa estava no seu inicio, e o Governo Provisório na tentativa de impor uma nova ordem sobre a população redefiniu os feriados nacionais por decreto. Nesse mesma lei impunha aos Municípios do país a escolha do feriado próprio:  As câmaras ou comissões municipais e entidades que exercem comissões de administração municipal, proporão um dia em cada ano para ser considerado feriado, dentro da área dos respectivos concelhos ou circunscrições, escolhendo de entre os que representem factos tradicionais e característicos do município ou circunscrição. A Comissão Administrativa do Município do Porto, reuniu no dia 19 de Janeiro de 1911, e apesar do dia 24 de Junho ter sido logo apontado como uma das hipóteses, não houve consenso. Um dos elementos da Comissão, de nome Sousa Júnior, lembrou que de acordo com o principio democrático que imperava na cidade, nada devia ser decidido sem que o povo do Porto fosse ouvido. E assim foi! No dia 21 de Janeiro, surge na primeira página do Jornal de Noticias um anúncio com o titulo Consulta ao Povo do Porto, onde era explicado que os portuenses teriam que enviar para o jornal até dia 2 de Fevereiro um bilhete-postal ou meia folha dentro de um envelope com a indicação do dia da sua preferência. 
Ao longo dos dias o jornal ia relatando a evolução da votação e os dias mais votados eram o 24 de Junho e o dia 1 de Maio. No dia 4 de Fevereiro de 1911, foram publicados os votos finais do referendo popular: o dia 24 de Junho foi o mais votado, com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com 3075 votos, o dia de Nossa Senhora da Conceição, com 1975 votos, e o dia 9 de Julho, com oito. Ficou, pois, vencedor o dia de S. João que é aquele que o povo do Porto escolhe para ser o de feriado municipal. O povo decidiu e o feriado da cidade do Porto passou a ser o dia de São João. Mas mesmo quando o dia não era de feriado, a festa fazia-se e é de longa tradição. O mais antigo registo das festas de São João do Porto data do século XIV, onde Fernão Lopes na Crónica de D.João I, se refere à noite de São João do Porto como a maior folgança da cidade onde há festas cheias de animação e entusiasmo desabrido. A noite de 23 para 24 de Junho festeja-se na cidade Invicta há mais de 600 anos! Festa de origem pagã, marca a noite do solstício de Verão, antigo culto do Deus Sol. As fogueiras de São João,  ritual de purificação e de fertilidade, que ainda hoje fazem parte da tradição popular, estão relacionadas com o culto solar, tal como o lançar dos balões. Outra das tradições antigas é a utilização  do alho-porro. Sendo visto como um protector contra os maus-olhados, deve ser levado na noite de São João para casa e colocado atrás da porta durante todo o ano. O acto de passar o alho-porro pela face de alguém na noite são joanina, significa desejar boa sorte e protecção contra os espíritos maléficos. 
O manjerico é outro dos símbolos presentes na festa. Seguindo a tradição romana, que considerava a erva do manjerico como a erva dos namorados, é visto como o símbolo de amor e de namoro. Engalanado com uma quadra tradicionalmente de galanteio ou de elogio, era usado como meio de convidar uma rapariga a namorar. Como disse Júlio Couto (economista, historiador e professor de dicção, nascido no Porto) por alguma razão, tempos houve em que na Maternidade Júlio Dinis, os médicos já sabiam que não havia férias para ninguém, 9 meses depois do S. João. Mas não há festa de São João em que não se ouçam os característicos sons dos martelinhos. Apesar de estarem tão ligados a esta festividade popular, os martelinhos só se juntaram à festa em 1963. Manuel António Boaventura, industrial de plásticos do Porto, foi o obreiro deste símbolo das festas de São João. Numa das suas viagens ao estrangeiro viu um saleiro em forma de fole, que lhe deu a ideia para fabricar um brinquedo. Ao fole adicionou um cabo de plástico e deu-lhe a forma de martelo. Nesse mesmo ano os estudantes universitários requereram ao industrial um brinquedo ruidoso para a Queima das Fitas, e o mais ruidoso que tinha era o recém-fabricado martelinho. O sucesso foi imenso e o martelinho começou a ser pedido pelos comerciantes do Porto, para os festejos de São João. Rapidamente aceite pelas gentes do Porto, tornou-se um símbolo festa e durante 5 ou 6 anos foram vendidos para a noite do Santo portuense. 
No entanto, a Câmara do Porto, através do seu presidente e do seu vereador, decidiu fazer queixa ao Governo Civil do Porto, do martelinho. Consideravam que ia contra a tradição popular! No ano seguinte, foram apreendidos todos os martelinhos que existiam nas lojas comerciais e foi proibida  a sua comercialização. Quem fosse apanhado a vender o dito martelo seria multado em 70 escudos. No entanto nada demoveu os portuenses, que mantiveram a tradição por eles criada e continuaram a usar os martelinhos que possuíam dos anos anteriores. Só em 1973, Manuel António Boaventura, após ter perdido nos tribunais de 1ª e 2ª instância, conseguiu ganhar no Supremo Tribunal, a acção que entretanto tinha posto contra a Câmara do Porto.Finalmente os martelinhos de São João eram livres de serem fabricados e vendidos! Assumindo quase um carácter mágico e inexplicável, a noite de São João é uma festa de celebração e de libertação. Nesta noite festejam-se rituais antigos, confundem-se cheiros e sabores, libertam-se medos e respira-se liberdade. Sem receios, sem pudores, com alma e garra, as pessoas misturam-se e partilham momentos de pura alegria, que só quem viveu uma noite de São João do Porto pode entender. Como diz a quadra popular 
Na noite de São João
É tanta coisa que nunca vi.
Sai à rua, pois então,
Porque o Porto chama por ti.
A cidade clama pelas suas gentes e nada mais há a fazer do que lhe obedecer!É assim o São João do Porto!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Monumento redondo

No platô da antiga serrania de Quebrantões e a leste de um sombrio maciço de eucaliptos e australias (acácias) levanta-se o famoso mosteiro dos Agostinhos, que placidamente desfruta a adorável curva do rio verde glauco - tantas vezes barrento!- resvalando para o mar, coalhado de embarcações, no sopé (...) da Invicta, cujos derradeiros planos se recortam nas transparências da abóbada (Manuel Monteiro in Mea Villa de Gaya, 1909). Localizada no cimo da Serra de Quebrantões, actualmente denominada Serra do Pilar, está o monumento ex-libris de Vila Nova de Gaia: o Mosteiro da Serra do Pilar. Património Mundial da Unesco desde 1996, é mundialmente conhecido. A sua história no entanto poucos a conhecem...
Tudo começa com D.Pedro Rabaldio, Bispo de Porto, que fundou no ano de 1140, um convento de freiras denominadas Emparedadas de São Nicolau, no chamado Monte da Meijoeira, no lugar de Quebrantões, junto a uma ermida aí existente. Este convento manteve-se activo até princípios do século XIV, altura em que foi abandonado. Em meados do século XVI, D.Bento Abrantes era Prior do Mosteiro de São Salvador de Grijó, que estava em ruínas e a necessitar de obras. Comunicou ao rei D. João III, que o Mosteiro estava velho e muito arruinado, que era situado num lugar baixo, húmido e pouco sadio, e que determinou mudar para melhor e para mais perto do Porto (...) escolhera o Monte de São Nicolau,  fronteira àquela cidade, e que para cerca queria comprar o montado de Quebrantões (O Panorama: semanário de litteratura e instruccao, Volume 4). O monarca deu o seu aval, mandando principiar as obras do novo Mosteiro no monte entretanto denominado de São Nicolau, após ter tido a concordância de D.Baltazar Limpo, Bispo do Porto e de receber a bênção papal de Paulo III. A primeira pedra para a construção do novo mosteiro foi benzida pelo Bispo do Porto, no dia 28 de Março de 1537. O projecto da obra foi entregue a Diogo de Castilho (arquitecto e escultor da Biscaia) e Jean de Rouen (escultor e arquitecto francês), estando as obras a cargo de Frei Brás de Barros (que depois se tornou no primeiro Bispo de Leiria)
O terreno que cercava o local do antigo convento foi comprado no dia 19 de Junho de 1540, a um fidalgo de nome João Dinis Pinto, pela quantia de dez escudos! Em 1542 a primeira parte da obra estava terminada, e os primeiros religiosos provenientes do Mosteiro de Grijó, começaram a ocupar o espaço já habitável  da sua nova igreja, que tal como o mosteiro de origem, tinha como orago São Salvador. Mas as mudanças nunca são bem aceites, e vários foram os cónegos mais velhos que se recusaram a abandonar o antigo mosteiro de Grijó. Tantas foram as reclamações que, em 1564, surge a separação definitiva entre os religiosos dos dois mosteiros, passando a igreja do monte de São Nicolau a denominar-se Igreja de Santo Agostinho, em honra do santo homenageado no dia em que foi lançada a primeira pedra. Em 1567 terminava a primeira fase das obras do mosteiro, com a edificação da igreja e dos seus anexos. No entanto a igreja da serra de São Nicolau iria sofrer grandes alterações, como nos descreve D. Nicolau de Santa Maria, Prior dos Monges de Quebrantões: Sendo Prior deste Mosteiro da Serra o Padre D.Acúrsio de Santo Agostinho pelos anos de 1598 como era de generosos espíritos, parecendo-lhe a Igreja do Mosteiro pequena e acanhada fundou de nova outra igreja com titulo de nosso Padre Santo Agostinho; o corpo desta nova igreja é circular na forma de Santa Maria de Roma toda cercada de capelas e será acabada, uma das melhores do reino. E junto à igreja fundou o mesmo Prior um formoso Claustro da mesma arquitectura e forma circular e redonda, toda de abóbada, que vai virando na mesma forma com grande arte, traça e invenção, de que se admiram todos os que sabem de arquitectura. Tem este Claustro em roda muitas e grandes colunas e no meio uma formosa fonte de água, dourada em partes, muito alegre à vista
Apesar de ser votada a Santo Agostinho, a grande adoração das gentes de Gaia e arredores fazia-se à Nossa Senhora do Pilar, cuja imagem fora colocada no altar-mor da igreja na Páscoa de 1678, pelo Prior Jerónimo da Conceição, para adoração dos fiéis. O culto à Senhora do Pilar era de tal forma fervoroso que passou a dar o nome à igreja, ao convento e ao próprio monte ou serra, como ainda hoje os conhecemos: O Mosteiro da Serra do Pilar! O dia 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora do Pilar comemora-se há mais de 330 anos na cidade de Gaia. 
O Mosteiro tem o seu nome escrito em diversas páginas da história de Portugal: na expulsão dos franceses da cidade do Porto, durante as invasões francesas e durante o Cerco do Porto, quando foi o único reduto dos liberais na margem esquerda do Douro e crucial para a vitória de D.Pedro. Bastante danificado durante a guerra que opôs os absolutistas aos liberais, esteve em perigo de ruína, tal foi o abandono a que foi votado.
A 10 de Setembro de 1844, a rainha D.Maria II instituiu por alvará a Real Irmandade de Nossa Senhora da Glória da Serra do Pilar em cujos estatutos se pode ler no dia da festividade da Padroeira haverá missa cantada de três Padres, e sermão com o Santíssimo Sacramento exposto. E no fim da missa se cantará o Te Deum Laudamis, em acção de Graças pelos benefícios recebidos por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Glória do Pilar: a qual visivelmente protegeu os briosos defensores do Trono, para restituírem à legítima Rainha a Senhora D.Maria II, abroquelando (defendendo) os bravos soldados do Senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosa memoria, para recobrarem a Carta Constitucional da Monarquia Constitucional e com ela a Liberdade Nacional e legal. Com esta Irmandade foi restabelecida a actividade religiosa do mosteiro e a sua recuperação foi feita com o apoio das gentes de Vila Nova de Gaia. 
Mas pelos finais do século XIX e inícios do século XX, o Mosteiro da Serra do Pilar foi votado ao esquecimento. O desmazelo e o abandono em que se encontra, justificam porém a ignorância que a seu respeito existe. Mais benévola atenção merecia o monumento altaneiro de uma inigualável singularidade arquitectural, que decerto a teria num outro País não tão inestético e vândalo como o nosso (Manuel Monteiro in Mea Villa de Gaya, 1909). 
Foi graças à intervenção do Grupo de Amigos da Serra do Pilar, fundado em 1925 por Ramiro Mourão, e do qual faziam parte  importantes figuras da sociedade gaiense, tais como pintores, escultores, poetas, escritores e políticos, que intercederam junto da Câmara Municipal e do governo do país para a necessidade de restauro e de conservação de tão importante monumento português. A sua intervenção deu ao Mosteiro da Serra do Pilar a sua nova e actual imagem, de paredes caiadas, conhecida além-fronteiras. Do cimo do Monte da Meijoeira, vigilante e sereno, domina a paisagem, contempla as cidades unidas pelo rio e mantém vivas nas suas paredes redondas, a história das gentes que por lá passaram. 

domingo, 13 de maio de 2012

O tradicional cavaquinho


O cavaquinho, também chamado de braguinha, é o mais pequeno e um dos mais populares instrumentos tradicionais portugueses. Da família dos cordofones (instrumentos de corda) foi no Norte de Portugal, nas terras do Minho, que o cavaquinho mais se popularizou. Ligado às tradições populares e à música tradicional, não há rusga e festa minhota que não tenha a presença deste pequeno e fantástico instrumento. Tocado sozinho ou acompanhado da viola, bandolim ou acordeão, o som por ele produzido é incomparável. De pequenas dimensões mas com uma sonoridade harmoniosa, a sua música e o ritmo por ele imposto não deixa ninguém indiferente. Foram os portugueses que levaram o cavaquinho para as terras do Brasil, de Cabo Verde, Moçambique, onde rapidamente se tornou popular. No ano de 1879, o cavaquinho chega às longínquas Ilhas do Havai. Um português de origem madeirense, de nome João Fernandes, embarcou no navio Ravenscrag com destino a Honolulu, juntamente com um contingente de emigrantes para trabalhar nas plantações de açúcar. Pelo caminho encantou com o seu pequeno cavaquinho todos aqueles que o acompanhavam. O português e o seu original instrumento rapidamente se tornaram famosos, sendo frequentemente convidado para tocar em festas populares. Chamado de ukelele que significa pulga saltadora em português, referência ao modo peculiar como é tocado, é actualmente um dos símbolos característicos das Ilhas do Havai. 
São inúmeros os excelentes tocadores de cavaquinho em Portugal, desde os anónimos populares aos grandes grupos de renome. Aqui fica um pequeno exemplo, da qualidade de execução e da sonoridade ímpar do cavaquinho.




Nota: O video apresentado é um excerto retirado de um filme colocado no You Tube com o nome  Conjunto de Cavaquinhos do Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Expressões Populares II


Erro Crasso - Esta expressão deve-se a Marco Licínio Crasso (115aC-53aC), general e político romano, que obteve algumas conquistas importantes para o Império Romano, entre as quais a esmagadora vitória sobre a revolta dos escravos liderada por Espártaco. Ambicioso e sedento de poder, liderou no ano 53 aC, a campanha contra os Partos (Império Parta foi uma das maiores potências a nível politico e cultural da antiga Pérsia) onde dominado pela sobranceria e sabendo que as suas forças militares eram em muito maior número do que as forças Partas, decidiu simplesmente atacar não obedecendo a nenhuma táctica militar. O exército comandado por Crasso foi massacrado na Batalha de Carras (actual cidade de Harã na Turquia) e mais de 20 000 soldados romanos, incluindo o general Crasso, foram mortos. Este episódio ficou para a história, e sempre que alguém com todas as condições para ter sucesso, mesmo assim falha, por não  ter tomado as devidas precauções, dizemos que cometeu um erro crasso

Lágrimas de crocodilo - desde a antiguidade clássica que existe o mito de que o crocodilo (do grego Kroké que significa pedra e drilos que designa verme ou larva) derrama lágrimas enquanto devora as suas vitimas, talvez por compaixão pelo sofrimento causado. No entanto este mito tem por base uma função biológica, já que a presa ao ser engolida, estimula as glândulas que segregam um liquido lubrificante para proteger a membrana ocular do crocodilo, semelhante a lágrimas. Quando as pessoas apresentam um sofrimento fingido ou um choro forçado, dizemos que derramam lágrimas de crocodilo, já que o sentimento que apresentam não é real.

Verdade de La Palice (ou La Palisse) - Jacques II de Chabanes (1470-1525), conhecido por Jacques de La Palice foi um nobre e militar francês do século XV, que obteve várias vitórias no comando das suas tropas. Respeitado pela sua coragem em batalha, era muito popular entre os soldados que comandava.  Morreu em combate na Batalha de Pavia, e os seus soldados para o homenagear compuseram uma canção de simples versos, intitulada La mort de La Palice (a morte de La Palice)O Senhor de La Palice, morreu em frente a Pavia. Momentos antes da sua morte, podem crer, ainda vivia! A redundância destas frases é tal, que se tornaram motivo de sátira, dando origem a muitas outras semelhantes, tais como estar vivo é o contrário de estar morto. Uma verdade La Palice, é aquela que por ser tão evidente, não precisa de ser explicada.


Sem pés, nem cabeça - expressão popular de origem romana (do latim nec caput nec pedes habet) utilizada pela primeira vez por Márcio Pórcio Catão (234aC-149aC), político romano, conservador e grande defensor das tradições romanas.  O senado romano enviou uma expedição, para mediar a guerra entre Prússias II, rei da Bitinia (antigo reino da Ásia Menor) e o seu filho Nicomedes, composta por Licínio, que padecia da doença da gota (que começa por atingir os pés) e por Mancino, que foi morto durante a campanha diplomática, por ter sido atingido por uma pedra na cabeça. Catão, então líder do Senado romano, afirmou que Roma havia enviado uma expedição sem pés nem cabeça. Esta expressão passou a designar qualquer acção que se toma sem qualquer lógica ou sentido.

Fazer tijolo - esta expressão surgiu após o terramoto de Lisboa de 1755, quando a necessidade de barro para a reconstrução da cidade aumentou exponencialmente. Esta matéria-prima era retirada do único filão de argila, existente em Lisboa, localizado no que ainda hoje é denominada por Forno do Tijolo (entre a actual Graça e o vale delimitado pela Avenida Almirante Reis). Grande parte dessa área era ocupada pelo cemitério mouro da cidade - o Almacávar - que rapidamente começou a ser escavado para a extracção do barro, tornando-se comum o aparecimento de ossadas humanas no barro transformado em tijolo. Tornou-se popular a expressão daqui a pouco já estou a fazer tijolo quando se queria dizer que já faltava pouco para morrer. Fazer tijolo passou a significar estar morto ou enterrado.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um transporte chamado Eléctrico



A primeira linha de transporte público do Porto foi inaugurada a 15 de Março de 1872, e ligava as zonas do Infante e do Carmo à Foz do Douro tendo sido construída pela Companhia Carril Americano do Porto. Os veículos utilizados, chamados de carros Americanos, eram carruagens que rodavam em carris puxadas por animais, normalmente cavalos ou muares. A velocidade que atingiam os Americanos era superior às das carroças até então utilizadas, e o caminho que percorriam estava predefinido pelos carris, diminuindo os acidentes por atropelamento.  Segundo Monterey (1971) estes carros eram pintados de cores diferentes e iluminados por velas de estearina, colocadas nos cantos superiores direitos, vindo mais tarde a ser usado o petróleo na sua iluminação. No período da noite a luz transparecia através de vidros de diferente colorido, de acordo com o seu destino. De dia, o destino ia indicado numa chapa. A cidade do Porto foi a primeira cidade portuguesa a ter este tipo de transporte público e a adesão da população a este novo meio de transporte foi rápida. No entanto, no inicio houve alguma desconfiança, como nos descreve Fialho de Almeida: esta imensa máquina que era uma aplicação da nau de Vasco da Gama ao trânsito das ruas movia-se sobre quatro pequeninas rodas, puxadas por uns franzinos cavalos (…). Antes de se aventurarem lá em cima, muitas pessoas deixavam testamento feito. A 12 de Setembro de 1894 foi inaugurada a primeira linha de Carros de Tracção Eléctrica, ligando o Carmo a Massarelos. O eléctrico passou a fazer parte da vida dos portuenses  e tornou-se  o sal das histórias picantes, a doçura das afeições da gente comum, o vinagre do azedume dos que sofriam a sua ronceirice, os seus atrasos e incómodos, a poesia de quem se deleitava com as oportunidades do romance de algumas viagens (Pacheco, 1995).
Ainda hoje os podemos ver passeando pelas zonas históricas da cidade, contando aos turistas que transporta, histórias de tempos idos. Manuel de Oliveira prestou-lhes uma pequena homenagem neste pequeno filme datado de 1956. 


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma árvore sem raízes


Quando um livro chega a ter êxito, aquilo que nele havia de mais activo, em momentos anteriores, torna-se menos claro e é ultrapassado por aquilo que nele é mero produto dessa actividade. É por isso que é bom olhar de vez em quando para trás. Tudo o que em nós há de original, conservar-se-á tanto melhor e será tanto mais apreciado, quanto mais formos capazes de não perder de vista os nossos antepassados (Johann Wolfgang von Goethe, in Máximas e Reflexões). O Homem pode ser visto como um livro: uma obra complexa, resultado da conjugação de esforços de diferentes pessoas. O seu êxito depende não só do quem o escreve, mas da forma como é divulgado e do público que o lê. Um livro apesar de ter sido escrito no século XVIII ou XIX, mantém a sua história, partilha as suas palavras e transmite a mesma magia que tinha quando foi editado.Transforma-se umas vezes em obra prima, outras vezes num livro empoeirado e guardado na prateleira! 
Um livro não desaparece e não é esquecido por ser antigo ou por ser passado...mas o homem sim. 

Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se no novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam. 
(Conceição Evaristo,poetisa brasileira)

A cultura ocidental dá pouco ou mesmo nenhum valor aos antepassados. A vida passa-se toda no presente e direccionada para o futuro, sem haver qualquer olhar, nem que seja de relance, ao passado. Tudo se esquece rapidamente, e as pessoas que nos deram origem não são mantidas na memória. 
Quem sabe a história dos seus antepassados? Quem sabe o nome dos seus bisavós e trisavós? Como foram as suas vidas, o que fizeram, do que gostavam? Raras são as pessoas que o sabem, e felizmente eu sou uma delas. Desenterrei nomes, locais de nascimento, profissões, modos de vida e trouxe até mim aqueles que me permitiram aqui estar e ser como sou. Compreendi os seus modos de vida, as suas lutas e as suas aventuras. Percebi que não são meras fotografias, nem simples nomes esquecidos num registo ou numa carta, amarelados pela passagem do tempo. Tiveram história e deixaram história. Tiveram vida e deram vida. Mesmo sendo esquecidos pelo tempo, permanecem vivos em cada um de nós em minúsculas proteínas chamadas genes, que são o seu maior legado, e que definem muito do que somos. Perceber o nosso passado, ajuda-nos a viver melhor o nosso presente e planear o nosso futuro. 



Como disse Meishu-Sama (filósofo e religioso japonês) numa árvore, as raízes são os antepassados, o tronco são os pais e os galhos são os filhos. E se uma árvore não vive sem raízes, porque havemos nós de viver?





sábado, 5 de maio de 2012

Fazer das tripas refeição!


Há expressões frequentemente utilizadas, que têm associado um sentido completamente diferente daquele que lhe deu origem. Um dos exemplos mais frequentes é a conotação negativa, e mesmo pejorativa, que é atribuída à palavra tripeiro, quando se quer definir uma pessoa que vive ou que nasceu no Porto. Quando se atribui essa designação a um portuense, contrariamente ao que a maioria pensa, estamos a elogiá-lo, definindo-o como uma pessoa altruísta, generosa e que abdica do melhor para dar aos outros. De facto, a origem da associação de tripeiros às pessoas do Porto remonta ao século XV e a uma mistura de factos históricos e lenda popular. Segundo a história, o Infante D. Henrique, filho de D.João I, deslocou-se à cidade do Porto no ano de 1415 para vistoriar os trabalhos dos estaleiros de Miragaia e do Ouro, local onde estavam a ser construídos os navios devido à edificação da muralha fernandina. O Infante era adorado nesta cidade. A sua chegada ao Porto foi muito festejada por toda a população, sendo aclamado tanto pelas classes trabalhadoras como pela alta burguesia. Na sua crónica Tomada de Ceuta, Zurara Gomes Eanes, que foi cronista oficial português, diz que o Infante era mui amado deles todos e o tinham quase por seu concidadão, referência ao nascimento do príncipe na cidade do Porto a 4 de Março de 1394. Embora desconhecendo o destino final dos navios que estavam a ser construídos nos estaleiros, toda a cidade estava empenhada em participar na sua construção. Os cordoeiros do Campo do Olival (mais tarde conhecido por Cordoaria) manufacturaram as cordas e cordoame necessários aos barcos, bem assim como os ferreiros da Ferraria de Baixo, junto a Miragaia, produzindo os apetrechos necessários às galés, naus, barcas e fustes que iam tomando forma nos estaleiros. Outros confeccionavam os velames e, já nas periferias da cidade medieval, em terras da Maia, Gaia e Bouças (Matosinhos) outros havia que preparavam as provisões para uma numerosa frota (Joel CLETO – Lendas do Porto: A Origem dos Tripeiros. O Tripeiro, 7ª série, vol. XXVII).
Segundo rezam as crónicas, o Infante, apesar de se mostrar satisfeito com todo o trabalho desenvolvido pelas gentes da cidade, achava que o esforço tinha que ser maior, tendo confidenciado ao Mestre Vaz, responsável da construção, que as embarcações que estavam a ser construídas no estaleiro tinham como destino Ceuta. Orgulhoso pela sua cidade ter sido escolhida para a construção de tão importante frota, o mestre Vaz reuniu os seus homens e os habitantes do burgo para partilhar a notícia e a necessidade de redobrarem esforços. Segundo a lenda, além do trabalho nos estaleiros, a população do burgo decidiu oferecer à frota todos os mantimentos que possuíam , especialmente a carne, que foi limpa e salgada antes de ser colocada nas embarcações. A cidade ficou apenas com as miudezas que restaram, nomeadamente as tripas. A armada que zarpou do Porto era composta por 70 navios e a vitória sobre Ceuta foi assinalável. Apesar de terem ficado apenas com as tripas, as gentes do Porto não baixaram os braços. Inventaram uma maneira saborosa de as confeccionar, dando origem às famosas tripas à moda do Porto, que ainda hoje são um dos pratos mais característicos da cidade. A receita foi sofrendo algumas alterações ao longo do tempo, já que no século XV não havia feijão em Portugal, que só chegou à Europa no século XVII. Na receita original as tripas  eram estufadas e servidas em cima de fatias de pão. Na altura, qualquer homem ou mulher que vendesse tripas, era denominado de tripeira ou freissureira, e segundo documentos escritos era grande a preocupação com a limpeza das miudezas, havendo um livro de registo de transgressões a essa obrigatoriedade. A venda de tripas não era permitida em toda a cidade, e além dos açougues, só se podia vender em locais bem limpos e arejados. O açougue principal situava-se junto à Sé do Porto, mas cada habitante só podia utilizar o açougue da sua área de residência. Ainda hoje os restaurantes da cidade fazem habitualmente o típico prato às quintas-feiras, talvez seguindo uma antiga tradição, já que era nesse dia que as tripeiras pagavam a quota semanal à Associação de Freissureiras do Porto. 
Podemos ainda hoje recordar a história, na Casa do Infante no Porto, através do quadro Estaleiros de Miragaia, de Eduardo Gomes (1956), onde estão representados os trabalhos de construção dos navios nos estaleiros de Miragaia, com o Infante D.Henrique e o Mestre Vaz no canto esquerdo da pintura. No monumento que a cidade do Porto erigiu em 1960 (no Largo António Calém, junto aos antigos estaleiros do Ouro), em homenagem à frota de D. Henrique, da autoria de Lagoa Henriques, estão retractadas duas figuras humanas e entre elas uma peça de carne esventrada, lembrando que na cidade apenas ficaram as tripas.
E assim nasceu a famosa alcunha de tripeiro  dada aos habitantes do Porto. Segundo Alberto Lemos (presidente da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto)as típicas tripas são quase tão importantes como a portugalidade. Nasceram na altura dos descobrimentos, na época em que as naus tinham de ser abastecidas. A oferta da carne revela um pouco da personalidade dos portuenses. São pessoas muito dadas, capazes de tirar a camisola por alguém.
Os portuenses mais do que fazer das tripas coração, fizeram das tripas refeição! 


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lavadeiras do rio


As lavadeiras, ou mulheres que ganham a vida a lavar a roupa (Dicionário da lingua portuguesa, 1831), eram normalmente mulheres que viviam fora das grandes cidades. Todas as semanas acorriam a casa das suas clientes, senhoras da burguesia e  das classes altas, para recolher a roupa para lavar. Transportando as trouxas de roupa à cabeça ou com o auxilio de burros de carga, lavavam a roupa nos rios, nos ribeiros ou em pequenos riachos, onde se juntavam com outras lavadeiras. A arte de lavar roupa, era normalmente passada de geração em geração, e esta ocupação permitiu o sustento de muitas famílias no inicio do século XX. O tratamento da roupa tinha várias etapas, que incluía pôr a roupa a corar, técnica que consistia em estender as peças de vestuário molhadas e ainda com sabão ao sol, para branquear. Profissão dura e desgastante, manteve-se até ao aparecimento da água canalizada, altura em que foi progressivamente desaparecendo, estando guardada apenas na memória do povo. No filme Aldeia de Roupa Branca , realizado por Chianca de Garcia em 1938, a profissão de lavadeira é imortalizada por  Beatriz Costa, cuja personagem é Gracinda lavadeira de profissão.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pedro Hispano: um Homem fora de tempo



O nome de Pedro Julião não é conhecido entre os portugueses, mas se em vez do nome de baptismo referirmos o nome que posteriormente lhe foi atribuído, talvez alguns já o reconheçam, como aquele que foi o único Papa português: Pedro Hispano (nome dado por ser originário da Hispânia, Península Ibérica). Pedro Julião nasceu na cidade de Lisboa, entre os anos 1205 e 1220, não havendo consenso para o ano exacto do seu nascimento. Filho de Julião Rebelo, médico e de Teresa Gil, iniciou os seus estudos na Escola Episcopal da Catedral de Lisboa. Frequentou a Universidade de Paris (alguns historiadores defendem que pode ter também frequentado a Universidade de Montpellier), onde fez os cursos de Teologia e de Medicina, tendo dado especial relevo à dialética, lógica, física e metafísica de Aristóteles. Este estabelecimento de ensino era no século XIII o maior centro de saber e transmissão de conhecimentos de toda a Europa, contando no seu leque de professores e mestres com nomes como Alexandre de Hales (filósofo e teólogo inglês), João de Parma (teólogo italiano), Alberto Magno (teólogo, naturalista, filósofo, químico e alquimista germânico) e Roger Bacon (filosofo inglês). Foi colega de estudos de Tomás de Aquino. Os anos passados em Paris, num meio pleno de cultura e diferentes saberes, permitiram-lhe tornar-se num conceituado nome dentro das esferas elitistas de Paris. Foi professor na Universidade desta cidade e também na Universidade de Siena, em Itália, onde permaneceu entre 1245 e 1250, exercendo ao mesmo tempo a prática clínica. 
Escreve a sua primeira obra intitulada Summulae Logicales (Súmulas Lógicas) uma sistematização da lógica de Aristóteles, que se tornou no manual de ensino da lógica, utilizado pelas principais universidades europeias até ao século XVI. Foram feitas mais de 260 edições deste tratado que foi traduzido para grego e hebraico. Segundo Prantl (História da lógica no ocidente;1867) Summulae logicales é o compêndio de lógica que maior influência exerceu na Europa cristã ocidental na Idade Média. Gilson (Philosophie du Moyen-Age,1922)  relata que Summulae logicales do português Petrus Hispanus foi de imenso sucesso e cuja influência se exercerá durante vários séculos, sendo não apenas utilizada largamente nas Universidades medievais, como foi frequentemente comentada e, coisa digna de nota, pelos representantes de todas as escolas filosóficas e teológicas rivais, indício seguro de que sua dialéctica não parecia ligada a nenhuma doutrina metafísica particular. Outra das obras importantes de Pedro Hispano, intitula-se Scientia libri de anima onde desenvolve teorias sobre o conhecimento de uma forma antropológica, epistemológica e gnosiológica (sujeito como conhecedor do objecto). Esta obra foi considerada por muitos como a psicologia mais rica, completa e sistematizada. Para Gilson, trata-se da obra mais importante de Pedro Hispano. Muitos mais estudos e obras escreveu dentro das áreas de Filosofia, Teologia e Psicologia. Regressa a Portugal onde ingressa no sacerdócio. Em 1261 é eleito Decano da Sé de Lisboa, e em 1263, Afonso III oferece-lhe o priorado da Igreja de Santo André de Mafra. É elevado posteriormente a Cónego e Deão da Sé de Lisboa,  mais tarde Tesoureiro-Mor  da Sé do Porto e Prior Mor da Colegiada Real de Guimarães. A sua ascensão é meteórica e o seu nome passa a ser conhecido nos meios eclesiásticos e  nas cúpulas da decisão politica. Em 1273 é nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X, e foi com esta categoria que em 1274, se desloca a Lyon em França, para participar no Concílio Ecuménico. Neste importante Concílio é nomeado Cardeal de Tusculum-Frascati uma das províncias italianas mais importantes. Durante a sua estadia em Lyon, presta cuidados médicos ao Papa Gregório X, que apresentava problemas oftalmológicos. Os seus tratamentos obtêm grande sucesso e em 1275 torna-se médico principal do Papa, cargo denominado de Arquiathros.Terá sido por esta altura que começa a escrever as suas obras relacionadas com a Medicina. 
Das onze obras que se pensa terem sido escritas por Pedro Hispano, há uma que se destaca:Thesaurus pauperum  (Tesouro dos pobres), uma compilação de tratamentos preconizados por mais de trinta médicos, incluindo ele próprio. Coligi fielmente de todos os que pude encontrar, nos livros dos antigos físicos e mestres e modernos experimentadores, (...) e pretendo tratar das enfermidades da cabeça, descendo até os pés,  disse Pedro Hispano acerca da sua obra. O seu grande objectivo era permitir aos mais pobres o acesso à medicina e à sua prática, através de métodos naturais, com a utilização de produtos vegetais, animais e minerais como medicamento. Neste tratado Pedro Hispano define o cérebro como a raiz de todo o corpo (...) a sede da alma dos poetas; os olhos como as janelas da alma, e servem para se verem através deles como por uma varanda, as cores e as figuras, as montanhas e a verdura; o coração é o termo de todas as operações da alma racional. As operações do espírito começam no cérebro e recebem o seu complemento no coração. Defende que  deve ser evitado todo o serviço intolerável e o que quer que faça a alma entristecer-se, porque o coração é o principio da vida e o termo da morte. As suas palavras demonstram que era de facto um homem sensível, um médico poeta. O Tesouro dos Pobres, foi traduzido para mais de dez línguas, teve mais de setenta cópias manuscritas e mais de oitenta impressas, sendo a primeira datada de 1497 e impressa na cidade de Antuérpia. Quando em 18 de Agosto de 1276, morre o Papa Adriano V, Pedro Hispano é aclamado Papa com a unanimidade dos oito Cardeais presentes, a 13 de Setembro de 1276, sendo coroado a 20 do mesmo mês. Adopta o nome de João XXI, apesar de nunca ter havido um Papa João XX...
O seu pontificado é caracterizado pela simplicidade, recebendo em audiência tanto ricos como pobres. Mais interessado nos seus estudos do que nas tarefas pontifícias, delega no Cardeal Orsini, futuro Papa Nicolau III os assuntos da Sé Apostólica. O seu pontificado ficaria marcado pela defesa da cultura; pelo empenho em obter a paz entre nações em conflito com especial relevo para Filipe III de França e Afonso X de Castela; na tentativa de união entre os cristãos do ocidente e do oriente; pela preparação de uma nova cruzada a Jerusalém para libertar a cidade. Cedo começou a causar polémica entre os meios mais conservadores. Um matemático, filósofo, médico com um vasto conhecimento cultural e intelectual transformado em Papa, foi uma lufada de ar fresco nas ideias retrógradas e conservadoras da época. Os seus profundos conhecimentos em ciências naturais valeram-lhe a alcunha de Mago, por entre o inculto clero. Muitos desconfiavam dos seus métodos e ideias. Na tentativa de se isolar para poder continuar os seus estudos, mandou erguer um quarto na ala mais distante do Palácio Papal em Viterbo, cidade muitas vezes visitada pelos Papas. 
No dia 14 de Maio de 1277, durante uma vistoria às obras que decorriam no palácio, ocorre um desmoronamento e Pedro Hispano fica soterrado debaixo dos escombros. Morre seis dias depois a 20 de Maio de 1277, com cerca de 51 anos. Terminava assim bruscamente o pontificado do primeiro Papa português, que durou pouco mais de 8 meses. Sepultado na Catedral de Viterbo, junto ao altar-mor, é transferido  no século XVI, durante as obras da Catedral, para um local mais modesto, onde permanece até 28 de Março de 2000, quando a Câmara de Lisboa lhe manda construir um mausoléu que é novamente  colocado junto ao altar-mor. Ali permanece o Papa que Dante homenageou na sua obra Divina Comédia quando colocou a alma de João XXI no Paraíso apelidando-o de aquele que brilha em doze livros, referência aos doze tratados escritos pelo erudito português. Cerca de 300 anos depois Miguel Ângelo, ao pintar o famoso tecto da Capela Sistina, desenvolve graves problemas de olhos, tendo encontrado tratamento no Tratado de Pedro Hispano, o Tesouro dos Pobres. Pedro Julião, Pedro Hispano ou João XXI todos estes nomes representam um mesmo homem: um homem fora do seu tempo!