quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um transporte chamado Eléctrico



A primeira linha de transporte público do Porto foi inaugurada a 15 de Março de 1872, e ligava as zonas do Infante e do Carmo à Foz do Douro tendo sido construída pela Companhia Carril Americano do Porto. Os veículos utilizados, chamados de carros Americanos, eram carruagens que rodavam em carris puxadas por animais, normalmente cavalos ou muares. A velocidade que atingiam os Americanos era superior às das carroças até então utilizadas, e o caminho que percorriam estava predefinido pelos carris, diminuindo os acidentes por atropelamento.  Segundo Monterey (1971) estes carros eram pintados de cores diferentes e iluminados por velas de estearina, colocadas nos cantos superiores direitos, vindo mais tarde a ser usado o petróleo na sua iluminação. No período da noite a luz transparecia através de vidros de diferente colorido, de acordo com o seu destino. De dia, o destino ia indicado numa chapa. A cidade do Porto foi a primeira cidade portuguesa a ter este tipo de transporte público e a adesão da população a este novo meio de transporte foi rápida. No entanto, no inicio houve alguma desconfiança, como nos descreve Fialho de Almeida: esta imensa máquina que era uma aplicação da nau de Vasco da Gama ao trânsito das ruas movia-se sobre quatro pequeninas rodas, puxadas por uns franzinos cavalos (…). Antes de se aventurarem lá em cima, muitas pessoas deixavam testamento feito. A 12 de Setembro de 1894 foi inaugurada a primeira linha de Carros de Tracção Eléctrica, ligando o Carmo a Massarelos. O eléctrico passou a fazer parte da vida dos portuenses  e tornou-se  o sal das histórias picantes, a doçura das afeições da gente comum, o vinagre do azedume dos que sofriam a sua ronceirice, os seus atrasos e incómodos, a poesia de quem se deleitava com as oportunidades do romance de algumas viagens (Pacheco, 1995).
Ainda hoje os podemos ver passeando pelas zonas históricas da cidade, contando aos turistas que transporta, histórias de tempos idos. Manuel de Oliveira prestou-lhes uma pequena homenagem neste pequeno filme datado de 1956. 


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma árvore sem raízes


Quando um livro chega a ter êxito, aquilo que nele havia de mais activo, em momentos anteriores, torna-se menos claro e é ultrapassado por aquilo que nele é mero produto dessa actividade. É por isso que é bom olhar de vez em quando para trás. Tudo o que em nós há de original, conservar-se-á tanto melhor e será tanto mais apreciado, quanto mais formos capazes de não perder de vista os nossos antepassados (Johann Wolfgang von Goethe, in Máximas e Reflexões). O Homem pode ser visto como um livro: uma obra complexa, resultado da conjugação de esforços de diferentes pessoas. O seu êxito depende não só do quem o escreve, mas da forma como é divulgado e do público que o lê. Um livro apesar de ter sido escrito no século XVIII ou XIX, mantém a sua história, partilha as suas palavras e transmite a mesma magia que tinha quando foi editado.Transforma-se umas vezes em obra prima, outras vezes num livro empoeirado e guardado na prateleira! 
Um livro não desaparece e não é esquecido por ser antigo ou por ser passado...mas o homem sim. 

Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se no novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam. 
(Conceição Evaristo,poetisa brasileira)

A cultura ocidental dá pouco ou mesmo nenhum valor aos antepassados. A vida passa-se toda no presente e direccionada para o futuro, sem haver qualquer olhar, nem que seja de relance, ao passado. Tudo se esquece rapidamente, e as pessoas que nos deram origem não são mantidas na memória. 
Quem sabe a história dos seus antepassados? Quem sabe o nome dos seus bisavós e trisavós? Como foram as suas vidas, o que fizeram, do que gostavam? Raras são as pessoas que o sabem, e felizmente eu sou uma delas. Desenterrei nomes, locais de nascimento, profissões, modos de vida e trouxe até mim aqueles que me permitiram aqui estar e ser como sou. Compreendi os seus modos de vida, as suas lutas e as suas aventuras. Percebi que não são meras fotografias, nem simples nomes esquecidos num registo ou numa carta, amarelados pela passagem do tempo. Tiveram história e deixaram história. Tiveram vida e deram vida. Mesmo sendo esquecidos pelo tempo, permanecem vivos em cada um de nós em minúsculas proteínas chamadas genes, que são o seu maior legado, e que definem muito do que somos. Perceber o nosso passado, ajuda-nos a viver melhor o nosso presente e planear o nosso futuro. 



Como disse Meishu-Sama (filósofo e religioso japonês) numa árvore, as raízes são os antepassados, o tronco são os pais e os galhos são os filhos. E se uma árvore não vive sem raízes, porque havemos nós de viver?





sábado, 5 de maio de 2012

Fazer das tripas refeição!


Há expressões frequentemente utilizadas, que têm associado um sentido completamente diferente daquele que lhe deu origem. Um dos exemplos mais frequentes é a conotação negativa, e mesmo pejorativa, que é atribuída à palavra tripeiro, quando se quer definir uma pessoa que vive ou que nasceu no Porto. Quando se atribui essa designação a um portuense, contrariamente ao que a maioria pensa, estamos a elogiá-lo, definindo-o como uma pessoa altruísta, generosa e que abdica do melhor para dar aos outros. De facto, a origem da associação de tripeiros às pessoas do Porto remonta ao século XV e a uma mistura de factos históricos e lenda popular. Segundo a história, o Infante D. Henrique, filho de D.João I, deslocou-se à cidade do Porto no ano de 1415 para vistoriar os trabalhos dos estaleiros de Miragaia e do Ouro, local onde estavam a ser construídos os navios devido à edificação da muralha fernandina. O Infante era adorado nesta cidade. A sua chegada ao Porto foi muito festejada por toda a população, sendo aclamado tanto pelas classes trabalhadoras como pela alta burguesia. Na sua crónica Tomada de Ceuta, Zurara Gomes Eanes, que foi cronista oficial português, diz que o Infante era mui amado deles todos e o tinham quase por seu concidadão, referência ao nascimento do príncipe na cidade do Porto a 4 de Março de 1394. Embora desconhecendo o destino final dos navios que estavam a ser construídos nos estaleiros, toda a cidade estava empenhada em participar na sua construção. Os cordoeiros do Campo do Olival (mais tarde conhecido por Cordoaria) manufacturaram as cordas e cordoame necessários aos barcos, bem assim como os ferreiros da Ferraria de Baixo, junto a Miragaia, produzindo os apetrechos necessários às galés, naus, barcas e fustes que iam tomando forma nos estaleiros. Outros confeccionavam os velames e, já nas periferias da cidade medieval, em terras da Maia, Gaia e Bouças (Matosinhos) outros havia que preparavam as provisões para uma numerosa frota (Joel CLETO – Lendas do Porto: A Origem dos Tripeiros. O Tripeiro, 7ª série, vol. XXVII).
Segundo rezam as crónicas, o Infante, apesar de se mostrar satisfeito com todo o trabalho desenvolvido pelas gentes da cidade, achava que o esforço tinha que ser maior, tendo confidenciado ao Mestre Vaz, responsável da construção, que as embarcações que estavam a ser construídas no estaleiro tinham como destino Ceuta. Orgulhoso pela sua cidade ter sido escolhida para a construção de tão importante frota, o mestre Vaz reuniu os seus homens e os habitantes do burgo para partilhar a notícia e a necessidade de redobrarem esforços. Segundo a lenda, além do trabalho nos estaleiros, a população do burgo decidiu oferecer à frota todos os mantimentos que possuíam , especialmente a carne, que foi limpa e salgada antes de ser colocada nas embarcações. A cidade ficou apenas com as miudezas que restaram, nomeadamente as tripas. A armada que zarpou do Porto era composta por 70 navios e a vitória sobre Ceuta foi assinalável. Apesar de terem ficado apenas com as tripas, as gentes do Porto não baixaram os braços. Inventaram uma maneira saborosa de as confeccionar, dando origem às famosas tripas à moda do Porto, que ainda hoje são um dos pratos mais característicos da cidade. A receita foi sofrendo algumas alterações ao longo do tempo, já que no século XV não havia feijão em Portugal, que só chegou à Europa no século XVII. Na receita original as tripas  eram estufadas e servidas em cima de fatias de pão. Na altura, qualquer homem ou mulher que vendesse tripas, era denominado de tripeira ou freissureira, e segundo documentos escritos era grande a preocupação com a limpeza das miudezas, havendo um livro de registo de transgressões a essa obrigatoriedade. A venda de tripas não era permitida em toda a cidade, e além dos açougues, só se podia vender em locais bem limpos e arejados. O açougue principal situava-se junto à Sé do Porto, mas cada habitante só podia utilizar o açougue da sua área de residência. Ainda hoje os restaurantes da cidade fazem habitualmente o típico prato às quintas-feiras, talvez seguindo uma antiga tradição, já que era nesse dia que as tripeiras pagavam a quota semanal à Associação de Freissureiras do Porto. 
Podemos ainda hoje recordar a história, na Casa do Infante no Porto, através do quadro Estaleiros de Miragaia, de Eduardo Gomes (1956), onde estão representados os trabalhos de construção dos navios nos estaleiros de Miragaia, com o Infante D.Henrique e o Mestre Vaz no canto esquerdo da pintura. No monumento que a cidade do Porto erigiu em 1960 (no Largo António Calém, junto aos antigos estaleiros do Ouro), em homenagem à frota de D. Henrique, da autoria de Lagoa Henriques, estão retractadas duas figuras humanas e entre elas uma peça de carne esventrada, lembrando que na cidade apenas ficaram as tripas.
E assim nasceu a famosa alcunha de tripeiro  dada aos habitantes do Porto. Segundo Alberto Lemos (presidente da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto)as típicas tripas são quase tão importantes como a portugalidade. Nasceram na altura dos descobrimentos, na época em que as naus tinham de ser abastecidas. A oferta da carne revela um pouco da personalidade dos portuenses. São pessoas muito dadas, capazes de tirar a camisola por alguém.
Os portuenses mais do que fazer das tripas coração, fizeram das tripas refeição! 


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lavadeiras do rio


As lavadeiras, ou mulheres que ganham a vida a lavar a roupa (Dicionário da lingua portuguesa, 1831), eram normalmente mulheres que viviam fora das grandes cidades. Todas as semanas acorriam a casa das suas clientes, senhoras da burguesia e  das classes altas, para recolher a roupa para lavar. Transportando as trouxas de roupa à cabeça ou com o auxilio de burros de carga, lavavam a roupa nos rios, nos ribeiros ou em pequenos riachos, onde se juntavam com outras lavadeiras. A arte de lavar roupa, era normalmente passada de geração em geração, e esta ocupação permitiu o sustento de muitas famílias no inicio do século XX. O tratamento da roupa tinha várias etapas, que incluía pôr a roupa a corar, técnica que consistia em estender as peças de vestuário molhadas e ainda com sabão ao sol, para branquear. Profissão dura e desgastante, manteve-se até ao aparecimento da água canalizada, altura em que foi progressivamente desaparecendo, estando guardada apenas na memória do povo. No filme Aldeia de Roupa Branca , realizado por Chianca de Garcia em 1938, a profissão de lavadeira é imortalizada por  Beatriz Costa, cuja personagem é Gracinda lavadeira de profissão.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pedro Hispano: um Homem fora de tempo



O nome de Pedro Julião não é conhecido entre os portugueses, mas se em vez do nome de baptismo referirmos o nome que posteriormente lhe foi atribuído, talvez alguns já o reconheçam, como aquele que foi o único Papa português: Pedro Hispano (nome dado por ser originário da Hispânia, Península Ibérica). Pedro Julião nasceu na cidade de Lisboa, entre os anos 1205 e 1220, não havendo consenso para o ano exacto do seu nascimento. Filho de Julião Rebelo, médico e de Teresa Gil, iniciou os seus estudos na Escola Episcopal da Catedral de Lisboa. Frequentou a Universidade de Paris (alguns historiadores defendem que pode ter também frequentado a Universidade de Montpellier), onde fez os cursos de Teologia e de Medicina, tendo dado especial relevo à dialética, lógica, física e metafísica de Aristóteles. Este estabelecimento de ensino era no século XIII o maior centro de saber e transmissão de conhecimentos de toda a Europa, contando no seu leque de professores e mestres com nomes como Alexandre de Hales (filósofo e teólogo inglês), João de Parma (teólogo italiano), Alberto Magno (teólogo, naturalista, filósofo, químico e alquimista germânico) e Roger Bacon (filosofo inglês). Foi colega de estudos de Tomás de Aquino. Os anos passados em Paris, num meio pleno de cultura e diferentes saberes, permitiram-lhe tornar-se num conceituado nome dentro das esferas elitistas de Paris. Foi professor na Universidade desta cidade e também na Universidade de Siena, em Itália, onde permaneceu entre 1245 e 1250, exercendo ao mesmo tempo a prática clínica. 
Escreve a sua primeira obra intitulada Summulae Logicales (Súmulas Lógicas) uma sistematização da lógica de Aristóteles, que se tornou no manual de ensino da lógica, utilizado pelas principais universidades europeias até ao século XVI. Foram feitas mais de 260 edições deste tratado que foi traduzido para grego e hebraico. Segundo Prantl (História da lógica no ocidente;1867) Summulae logicales é o compêndio de lógica que maior influência exerceu na Europa cristã ocidental na Idade Média. Gilson (Philosophie du Moyen-Age,1922)  relata que Summulae logicales do português Petrus Hispanus foi de imenso sucesso e cuja influência se exercerá durante vários séculos, sendo não apenas utilizada largamente nas Universidades medievais, como foi frequentemente comentada e, coisa digna de nota, pelos representantes de todas as escolas filosóficas e teológicas rivais, indício seguro de que sua dialéctica não parecia ligada a nenhuma doutrina metafísica particular. Outra das obras importantes de Pedro Hispano, intitula-se Scientia libri de anima onde desenvolve teorias sobre o conhecimento de uma forma antropológica, epistemológica e gnosiológica (sujeito como conhecedor do objecto). Esta obra foi considerada por muitos como a psicologia mais rica, completa e sistematizada. Para Gilson, trata-se da obra mais importante de Pedro Hispano. Muitos mais estudos e obras escreveu dentro das áreas de Filosofia, Teologia e Psicologia. Regressa a Portugal onde ingressa no sacerdócio. Em 1261 é eleito Decano da Sé de Lisboa, e em 1263, Afonso III oferece-lhe o priorado da Igreja de Santo André de Mafra. É elevado posteriormente a Cónego e Deão da Sé de Lisboa,  mais tarde Tesoureiro-Mor  da Sé do Porto e Prior Mor da Colegiada Real de Guimarães. A sua ascensão é meteórica e o seu nome passa a ser conhecido nos meios eclesiásticos e  nas cúpulas da decisão politica. Em 1273 é nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X, e foi com esta categoria que em 1274, se desloca a Lyon em França, para participar no Concílio Ecuménico. Neste importante Concílio é nomeado Cardeal de Tusculum-Frascati uma das províncias italianas mais importantes. Durante a sua estadia em Lyon, presta cuidados médicos ao Papa Gregório X, que apresentava problemas oftalmológicos. Os seus tratamentos obtêm grande sucesso e em 1275 torna-se médico principal do Papa, cargo denominado de Arquiathros.Terá sido por esta altura que começa a escrever as suas obras relacionadas com a Medicina. 
Das onze obras que se pensa terem sido escritas por Pedro Hispano, há uma que se destaca:Thesaurus pauperum  (Tesouro dos pobres), uma compilação de tratamentos preconizados por mais de trinta médicos, incluindo ele próprio. Coligi fielmente de todos os que pude encontrar, nos livros dos antigos físicos e mestres e modernos experimentadores, (...) e pretendo tratar das enfermidades da cabeça, descendo até os pés,  disse Pedro Hispano acerca da sua obra. O seu grande objectivo era permitir aos mais pobres o acesso à medicina e à sua prática, através de métodos naturais, com a utilização de produtos vegetais, animais e minerais como medicamento. Neste tratado Pedro Hispano define o cérebro como a raiz de todo o corpo (...) a sede da alma dos poetas; os olhos como as janelas da alma, e servem para se verem através deles como por uma varanda, as cores e as figuras, as montanhas e a verdura; o coração é o termo de todas as operações da alma racional. As operações do espírito começam no cérebro e recebem o seu complemento no coração. Defende que  deve ser evitado todo o serviço intolerável e o que quer que faça a alma entristecer-se, porque o coração é o principio da vida e o termo da morte. As suas palavras demonstram que era de facto um homem sensível, um médico poeta. O Tesouro dos Pobres, foi traduzido para mais de dez línguas, teve mais de setenta cópias manuscritas e mais de oitenta impressas, sendo a primeira datada de 1497 e impressa na cidade de Antuérpia. Quando em 18 de Agosto de 1276, morre o Papa Adriano V, Pedro Hispano é aclamado Papa com a unanimidade dos oito Cardeais presentes, a 13 de Setembro de 1276, sendo coroado a 20 do mesmo mês. Adopta o nome de João XXI, apesar de nunca ter havido um Papa João XX...
O seu pontificado é caracterizado pela simplicidade, recebendo em audiência tanto ricos como pobres. Mais interessado nos seus estudos do que nas tarefas pontifícias, delega no Cardeal Orsini, futuro Papa Nicolau III os assuntos da Sé Apostólica. O seu pontificado ficaria marcado pela defesa da cultura; pelo empenho em obter a paz entre nações em conflito com especial relevo para Filipe III de França e Afonso X de Castela; na tentativa de união entre os cristãos do ocidente e do oriente; pela preparação de uma nova cruzada a Jerusalém para libertar a cidade. Cedo começou a causar polémica entre os meios mais conservadores. Um matemático, filósofo, médico com um vasto conhecimento cultural e intelectual transformado em Papa, foi uma lufada de ar fresco nas ideias retrógradas e conservadoras da época. Os seus profundos conhecimentos em ciências naturais valeram-lhe a alcunha de Mago, por entre o inculto clero. Muitos desconfiavam dos seus métodos e ideias. Na tentativa de se isolar para poder continuar os seus estudos, mandou erguer um quarto na ala mais distante do Palácio Papal em Viterbo, cidade muitas vezes visitada pelos Papas. 
No dia 14 de Maio de 1277, durante uma vistoria às obras que decorriam no palácio, ocorre um desmoronamento e Pedro Hispano fica soterrado debaixo dos escombros. Morre seis dias depois a 20 de Maio de 1277, com cerca de 51 anos. Terminava assim bruscamente o pontificado do primeiro Papa português, que durou pouco mais de 8 meses. Sepultado na Catedral de Viterbo, junto ao altar-mor, é transferido  no século XVI, durante as obras da Catedral, para um local mais modesto, onde permanece até 28 de Março de 2000, quando a Câmara de Lisboa lhe manda construir um mausoléu que é novamente  colocado junto ao altar-mor. Ali permanece o Papa que Dante homenageou na sua obra Divina Comédia quando colocou a alma de João XXI no Paraíso apelidando-o de aquele que brilha em doze livros, referência aos doze tratados escritos pelo erudito português. Cerca de 300 anos depois Miguel Ângelo, ao pintar o famoso tecto da Capela Sistina, desenvolve graves problemas de olhos, tendo encontrado tratamento no Tratado de Pedro Hispano, o Tesouro dos Pobres. Pedro Julião, Pedro Hispano ou João XXI todos estes nomes representam um mesmo homem: um homem fora do seu tempo!


domingo, 29 de abril de 2012

O Galo lendário


Não há Galo mais famoso do que o de Barcelos. Símbolo de Portugal, aparece representado nas mais diferentes formas e feitios que se possam imaginar. De barro, de vidro, de plástico, desenhado em panos, em aventais, em camisolas, canecas, copos ...o Galo do Minho, é uma estrela nacional, cujo nome é conhecido além fronteiras. De cor preta ou vermelha como base, enfeitado com flores ou corações de cores garridas (azul, amarelo, verde) com uma crista vermelha serrilhada assim como a cauda, olha-nos de cima do seu pedestal sempre que entramos numa loja de produtos tradicionais portugueses, pontos de turismo ou chegamos a qualquer aeroporto nacional. Ele é um símbolo português! A origem de tanta fama provém de uma lenda minhota das terras de Barcelos, pela primeira vez descrita em 1877, por Domingos Joaquim Pereira, : Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, (...) havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de uma galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. (..) Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida. Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:- Em nome d'El-rei, estás preso. Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça. Depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor. Nesse dia foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Ao dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudiu a salsa e começou a cantar  num abrir e fechar de olhos. Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!... O réu via-se dependurado da viga fatal... Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado (in Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos). 
Segundo a tradição popular o galego regressou uns anos mais tarde a Barcelos, onde esculpiu o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento datado do inicio do século XVIII, que actualmente se encontra  no Museu Arqueológico de Barcelos, onde estão representados Santiago a amparar um enforcado com uma das mãos, encimados por um galo. Desde então o Galo passou a ser um símbolo da justiça, da honestidade e da fé para as gentes da terra. No entanto o galo foi desde sempre sinónimo de virilidade, coragem, fertilidade e de espírito guerreiro. Anunciador do nascer do dia, representa a  vitória da luz sobre as trevas; vigilante e desafiador, ainda hoje podemos vê-lo no cimo das igrejas e dos telhados de muitas casas. Como descreve Rocha Peixoto, o galo pela (...) nobreza de porte, costumes dominadores e másculos. Altivo e majestoso, vigilante e cupidíneo, todo o povo o celebra, em contos, em superstições, em cantares. (...) Foi ele quem afirmou a divindade de Jesus quando os apóstolos, à mesa, duvidavam; é ele quem se antecipa a anunciar as alvoradas. E grande ainda é o seu poder sobre as entidades maléficas das trevas, já celebrado nos hinos da Igreja e nos cantos populares, antigo e extenso na simbologia grega, por exemplo, (e) no Avesta em que o canto do galo obriga os demónios a fugir, desperta a aurora e faz erguer os homens. Talvez por todas estas características, rapidamente o Galo de Barcelos se tornou um símbolo do povo português. Para homenagear tão importante figura começaram-se a produzir pequenas estátuas em barro representando o galo da Lenda. Apesar de envolver alguma controvérsia, pensa-se que o pai do Galo de Barcelos, foi Domingos Côta ( João Domingues da Rocha é o seu nome verdadeiro) que nasceu em 1877, na freguesia de Galegos em Barcelos e que desde pequeno trabalhava o barro. Estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao meu irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e a gente virou p’ra isto que aí vê e assim terá nascido a famosa representação. Perante tanta adoração, não deixa de ser estranho que o Galo seja um dos pratos predilectos dos portugueses. Mas diz o povo, que assim é, por ordem do próprio, ao deixar o famoso Testamento do Galo (escrito em folhetos de cordel no século XIX, sem autor conhecido), ainda hoje recordado em terras portuguesas, que na altura do Entrudo usam este testamento para ironizar e satirizar, fazendo assim pequenos ajustes de contas. Nesse testamento podemos ler: 
Em tudo quanto vos disser
Tomai sentido e tento
Que eu principio agora
A fazer meu testamento 
As penas das minhas asas 
Que são rijas a valer
São pró nosso regedor
Para penas de escrever
Deixo as unhas dos pés
Para as mulheres viúvas
Se arranharem de noite
Quando lhes morderem as pulgas
Deixo, e é minha vontade
Seja a minha sepultura
Dentro dos corpos humanos
Que é melhor que na terra dura.

E a sua vontade foi cumprida pelos fiéis portugueses!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Voando sobre o Atlântico


A histórica viagem da primeira travessia aérea do oceano Atlântico, de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral, teve inicio a 30 de Março de 1922. No hidroavião monomotor baptizado de Lusitânia, modelo Fairey F III-D MkIIequipado com um motor Rolls Royce especialmente concebido para a viagem, partiram de Lisboa com destino à cidade brasileira do Rio de Janeiro. Sacadura Cabral era o piloto e Gago Coutinho o navegador. Ao longo das várias etapas da viagem tiveram que mudar duas vezes de hidroavião, por causa de alguns danos e avarias nas aeronaves. O segundo Fairey foi baptizado de Pátria e o terceiro, com o qual terminaram a travessia, tinha o nome de Santa Cruz.



A chegada ao Rio de Janeiro aconteceu a 17 de Junho de 1922, onde foram recebidos entusiasticamente e aclamados como heróis. 


Embora a viagem tenha durado setenta e nove dias, o tempo real de voo foi de apenas  sessenta e duas horas e vinte e seis minutos. Foram percorridos 8.383 quilómetros. Foi assim concluída não apenas a primeira travessia do Atlântico Sul, mas pela primeira vez na História da Aviação, tinha-se viajado sobre o Oceano Atlântico apenas com o auxílio da navegação astronómica a partir do avião, com a utilização do sextante desenvolvido por Gago Coutinho.
No seu regresso a Portugal, foram recebidos em Lisboa em apoteose e aclamados como heróis nacionais. Após os grandes descobrimentos por mar os portugueses retomavam as suas grandes aventuras, desta vez pelo ar. Um feito histórico!




O Senhor do Tempo



A passagem do tempo sempre foi uma constante. O tempo flui ininterruptamente, sem contemplações. Como disse Alexander Pope o tempo a tudo vence. Obedeçamos, pois, ao tempo. E nós obedecemos! Desde os primórdios da vida o Homem sempre se modelou ao tempo: o nascer do sol iniciava um dia de trabalho e o pôr do sol determinava o seu fim. A luz solar promovia uma sensação de protecção e segurança. Esta foi a primeira noção de tempo do Homem: a duração da luz do sol! Para poder ter uma maior noção da passagem do tempo surgem os chamados medidores do tempo, os relógios ou horológios no português antigo. A primeira tentativa de medir o tempo terá ocorrido com a utilização da própria sombra. Pela observação, o homem  pré-histórico verificou que a sua sombra aumentava de tamanho até um determinado momento - o zénite solar - e que depois ia diminuindo até desaparecer, quando a noite se instalava. A utilização de uma simples vareta de madeira espetada na posição vertical no chão, permitia fazer as mesmas medições de uma forma mais correcta. Surgiram assim os primeiros relógios solares. 
A utilização de gnómons, instrumentos que quando colocados em cima de uma superfície plana produziam sombra, permitiram determinar a duração do dia através do comprimento ou da posição da sombra projectada pelo sol. O relógio de sol mais antigo, construído em pedra, data de 1500 aC no Egipto, durante o reinado do faraó Tutmosis III. Outro método de avaliação da passagem do tempo eram os relógios de água ou clepsidras, que consistiam em dois recipientes colocados em níveis diferentes: um superior, cheio de líquido e outro inferior vazio e marcado com escalas. A uni-los existia uma pequena abertura, que permitia a passagem controlada do líquido para o recipiente inferior, sendo o tempo avaliado pelo nível que o liquido ia progressivamente atingindo. A mais antiga clepsidra que há registo surge na cidade de Karnak, no Egipto, na era de Amenófis III, há aproximadamente  1400 aC, e encontra-se exposta no Museu Egipcio do Cairo. Mais tarde surgem as ampulhetas ou relógios de areia. A passagem da totalidade de finos grãos de areia de um recipiente de vidro superior para um inferior, corresponde sempre ao mesmo espaço de tempo, marcando assim um período temporal. Foi muito usado em navios, sendo a ampulheta que durava trinta minutos a mais comum. No ano 850 dC, surge o primeiro relógio mecânico, com um sistema de pesos e engrenagens, construído por um monge francês  de nome Gerbert d'Aurillac, que posteriormente foi elevado a Papa, com o nome de Silvestre II. A partir de então os relógios mecânicos começaram a difundir-se rapidamente, com o aparecimento de novos construtores que desenvolveram e aperfeiçoaram esta máquina viva, fabricante de horas (Jeronymo Preti, poeta italiano)
Mais tarde, pelo ano 1500, Pedro Henlein, apresentou ao mundo o primeiro relógio portátil, o relógio de bolso. O ovo de Nuremberga, assim denominado devido ao seu formato oval, foi desenvolvido na cidade de Nuremberga, na Alemanha. Todo de ferro, possuía uma corda que durava quarenta horas. Foi uma novidade que teve grande adesão da aristocracia europeia, tornando-se rapidamente num símbolo de poder económico e posição social. Muitas vozes se levantaram ao longo dos anos com o desenvolvimento do relógio, à medida que o tempo ia sendo cada vez mais controlado e controlador. François Rabelais, padre, escritor  e médico francês do Renascimento afirma que jamais me submeterei às horas: as horas foram feitas para o homem, e não o homem para as horas. Uma luta digna mas inglória! Mas foi apenas no ano de 1640 que Galileu Galilei, ao aplicar a Lei do Pêndulo ao relógio mecanico, permite uma medição precisa do tempo, e possibilita a introdução da contagem dos minutos e dos segundos. O primeiro relógio com o ponteiro dos minutos surge em 1670 e cinco anos mais tarde, em 1675 o relógio fica completo com a introdução do ponteiro dos segundos. O homem ficava cada vez mais dependente da passagem do tempo e a sua medição minuciosa, tornou a vida quotidiana mais frenética e acelerada. Friedrich Holderlin, poeta lírico e romancista alemão, numa tentativa de combater o espírito existente, cada vez mais dependente do movimento dos ponteiros do relógio, afirma: vamos esquecer que existe um tempo e não vamos contar os dias da vida! Mas o tempo não parou e os relógios mostram a sua passagem cada vez com mais precisão. Em 1814, o relojoeiro suíço, Abraham Louis Bréguet, em resposta a uma encomenda da princesa de Nápoles, Carolina Muret, irmã de Napoleão Bonaparte, cria o primeiro relógio de pulso. No entanto esta invenção é também atribuída em 1868, a Athoni Patek e Adrien Philippe, da firma  Patek-Philippe, que desenvolvem o modelo de relógio de pulso e revolucionam o mundo da relojoaria. Durante muitos anos  este modelo de relógio é exclusivo da moda feminina. 
Só em 1904, Louis Cartier com a colaboração do relojoeiro Edmond Jaegar, desenvolve a pedido do aviador e inventor brasileiro Santos Dumont, que necessitava de controlar os seus tempos de vôo, o relógio de pulso para homem. Mais simples, sem brilhantes e pela primeira vez com uma pulseira de couro, teve uma grande aceitação por parte do público masculino. Mas o principal impulso para o comércio dos relógios de pulso, foi a Primeira Guerra Mundial, quando os soldados necessitados de controlar as horas  de modo a concertar os ataques bélicos, começaram a usar este modelo de relógio. Actualmente tudo é controlado pelo mover dos ponteiros do relógio. Modelos mecânicos, de quartzo, atómicos, com apresentação analógica ou digital, estes mecanismos que dão vida às horas, aos minutos e aos segundos pelos quais sincronizamos o nosso dia-a-dia, nunca mais deixaram de existir. Não vivemos sem eles e cada vez mais dependemos do seu movimento continuo e infindável.  Marcel Proust dizia que os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem. Mas os dias, os meses e os anos passam e  cada vez mais os dias são iguais para os homens, como tão bem define Miguel Torga, no seu poema Tempo:

Tempo, definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
O passado,
Amargura maior, fotografada.
Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!
Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

terça-feira, 24 de abril de 2012

A dança das terras de Miranda

Pauliteiros de Miranda é o nome pelo qual é conhecido o grupo de oito homens que executam a dança tradicional de Miranda do Douro, terra de Trás-os-Montes, também conhecida por dança dos paus. O nome pauliteiro tem origem na palavra paulito, que significa pequeno pedaço de madeira ou pau pequeno. A sua origem não reúne consenso. Poderá ter sido na Idade do Ferro, na Europa Central em terras da Transilvânia, sendo inicialmente uma dança de espadas que se espalhou pela Europa até chegar à Península Ibérica. Estrabão, geógrafo, filósofo e historiador grego, descreve que os celtiberos se preparavam para os combates com danças guerreiras onde as espadas eram substituídas por pequenos paus, evitando assim riscos desnecessários. Alguns autores, como o Abade de Baçal, defendem que a sua origem está na dança pirrica (dança guerreira executada com armas na mão), tradicional dos antigos Gregos, que assim preparavam os homens para os combates. Posteriormente  esta dança foi usada para celebrar as colheitas e os solstício de Inverno e de Verão. Independentemente da sua origem é uma dança tradicional com características muito próprias: oito homens acompanhados de três músicos. A gaita de foles, o bombo e a caixa de guerra, são os instrumentos musicais responsáveis pela melodia de cada Lhaço, nome mirandês para designar a melodia, a letra e a coreografia de cada dança executada. Cada pauliteiro tem ainda um par de castanholas. O traje é também muito original sendo composto por : um chapéu decorado, um colete em sorrubeco (tecido grosso) trabalhado, uma camisa e uma saia em linho trabalhado, lenços, meias altas em lã pura e as botas em pele. Segundo a tradição popular, esta indumentária tenta recriar o traje guerreiro dos celtiberos. É de facto uma herança cultural que foi passando de geração em geração, até aos nossos dias. Usando a língua tradicional de Miranda, o mirandês posso afirmar que Ls Pauliteiros de Miranda son l'ourgulho de las sues gientes! (Os Pauliteiros de Miranda são o orgulho das suas gentes!)










segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um italiano do Porto



Nem sempre a cidade natal é a cidade do coração. Não escolhemos o local em que nascemos, mas podemos escolher aquele em que queremos viver. E Nasoni escolheu o Porto. Foi nesta cidade onde viveu durante quase 50 anos, onde fez e deixou obra, que casou, teve os seus filhos e morreu. Poderia ser uma história começada por Era uma vez, mas essas histórias têm um final feliz...
Niccolo Nasoni, nasceu em San Giovani Valdarno, na Toscana Italiana, a 2 de Junho de 1691, filho do feitor Giusepe Francesco Nasoni e de Margaretta Rossi. Cedo começou a demonstrar gosto pela pintura e pela arte. Em Siena inicia os seus estudos e tem por mestres o pintor Giuseppe Nicola Nasini (famoso pintor religioso, especialista em pintura barroca) e o arquitecto Franchim e Vicenzo Ferrati. Apenas com 21 anos fica responsável pelo catafalco (local onde se coloca o caixão) da Catedral de Siena, nas exéquias de Fernando de Medici. Ingressa por essa altura no Istituto dei Rozzi, prestigiada Academia de Artes de Siena, que em 1715 o escolhe para a execução dos trabalhos artísticos necessários para a recepção ao novo Arcebispo de Siena. Participa, uns anos mais tarde, na construção do "Carro de Marte", que desfila no cortejo realizado para a eleição do novo Grão Mestre da Ordem de Malta. Pintor ilusionista, domina a técnica da perspectiva, conferindo profundidade a superfícies planas. A sua capacidade de construção e a riqueza decorativa das suas obras, começam a destacá-lo no seio artístico e o seu nome começa a ser falado, entre as elites da sociedade. Entre eles, estão o Conde Francisco Picolomini e D. António Manuel Vilhena, português, que será eleito Grão Mestre da Ordem de Malta, e que o convida em 1724 a realizar as obras de pintura dos tectos e corredores do Palácio de La Valetta. O tempo que permanece em Malta, granjeia-lhe fama e permite-lhe  estabelecer contactos com a alta nobreza e ilustres figuras do clero, tais como Roque Távora e Noronha, cavaleiro de Malta e irmão do Deão da Sé do Porto. Nesta altura, Portugal sob o reinado de D. João V, é uma potência mundial, e  o Porto é uma cidade em franco desenvolvimento, quer  a nível comercial, quer a nível artístico, procurando especialistas na arte do barroco. Não se sabe ao certo quando chega Nasoni ao Porto, mas podemos ler num documento do Cabido da Sé que para se fazerem logo com perfeição e acerto todas as obras, e se evitar o perigo de se desmancharem e fazerem segunda vez, por falta de se preverem os erros, vieram não só de Lisboa,mas de outros Reynos, arquitectos e mestres peritos nas artes a que erão respectivas as obras. Veyo Niculau Nazoni, arquitecto e pintor florentino, exercitado em Roma, donde foi chamado a Malta para pintar o Palácio do Grão Mestre
Estávamos em 1725 e Nasoni ficou encarregado de trabalhos decorativos do interior da Sé. Foi ainda da sua autoria a galilé barroca que se encontra junto à fachada lateral da Sé (1ª obra de arquitectura conhecida de Nasoni) e o Chafariz de São Miguel. Quando terminou a sua obra na Sé do Porto, Nasoni escreveu  Niccolo Nasoni fiorentino, naturale della terra di S. Giovani Valdarno (...) de 1725 e ora 1731 e vene per mezzo del S.R. Girolamo Tavora Norogna. Se haviam dúvidas de quem o convidou a vir para a cidade do Porto, o próprio nos ajudou a esclarecer!
Em 1729, casa com uma conterrânea, de nome Isabel Castriotto Ricardi. O casamento será muito curto, já que em Julho de 1730, após o nascimento do seu primeiro filho José, a mulher morre de complicações após o parto. Pode-se ler no seu registo de óbito Isabel Nasoni, mulher de Nicolau Nasoni, pintor e morador na Rua Chã, faleceu com todos os sacramentos e não fez testamento. Morreu em 25 de Julho de setecentos e trinta, e foi sepultar à Sé. O Deão da Sé, Jerónimo de Távora, que se tornara amigo intimo de Nasoni, apresenta-lhe a dama de companhia de D. Micaela, sua mãe, que se tornará a sua futura esposa. Antónia de Mascarenhas Malafaia, natural de Santo Tirso, será a mãe dos seus cinco filhos: Margarida, António, Jerónimo, Francisco e Ana, que nasceram entre os anos de 1731 e 1737, e que se juntam a José, o seu primogénito. Nascem todos na freguesia da Sé, na cidade do Porto.
As Ordens religiosas eram inúmeras, nesta época na cidade do Porto, e três delas por estarem a passar por dificuldades económicas decidem juntar-se e formar a Irmandade de Clérigos Pobres de Nossa Senhora da Misericórdia, São Pedro e São Filipe Nery, mais tarde denominada Irmandade dos Clérigos. O seu Presidente era o Deão da Sé do Porto. Sem local de culto, nem onde exercer as suas actividades religiosas, desenvolvem diligências para tentar obter um local onde possam erguer a sua Igreja. Conseguem que lhes seja doado um terreno fora das portas da cidade, no chamado lugar da Cruz de Cassoa, perto do Olival, junto ao Adro dos Enforcados (assim chamado por ser aí que eram enterrados os criminosos sentenciados à forca). O projecto da construção da Igreja e do edifício dos Clérigos, composto por capela, hospital e diversas salas, é entregue a Nasoni. A construção começa a 23 de Junho de 1732 e a 28 de Julho de 1748, ainda sem a obra completa, realiza-se a primeira missa. A construção da Torre dos Clérigos inicia-se em 1754 e termina a 1763. A obra prima de Nasoni e o ex-libris da cidade do Porto, com 76 metros de altura e 225 degraus, apresentava-se aos seus habitantes. Segundo Teixeira de Pascoaes a Torre dos Clérigos representa o Porto espremido para cima.
Muitas outras obras são de sua autoria entre elas o Paço Episcopal, o Palácio do Freixo, a casa da Quinta da Prelada, a Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco, a frontaria da Igreja da Misericórdia, a Casa da Quinta de Ramalde, os trabalhos de restauro nas Sés de Lamego e Braga, a Igreja da Ordem do Terço, o Palácio de Bonjóia, o Chafariz e a escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, a fachada da Igreja do Senhor Bom Jesus em Matosinhos, o restauro da Igreja de Santa Marinha em Gaia, e o corpo central do Palácio de Mateus em Vila Real.
Nasoni mudou a cidade do Porto, deu-lhe um rosto diferente, uma alma barroca. Nasoni tornou-se portuense e viveu a sua cidade. Viveu o fim da sua vida com  dificuldades financeiras e morreu a 30 de Agosto de 1773. No seu registo de óbito podemos ler Nicolau Nasoni, viúvo que ficou de Antónia Mascarenhas Malafaia já defunta, morador na viela do Pai Ambrósio, desta freguesia de Santo Ildefonso do Porto; faleceu com todos os sacramentos nos trinta dias do mês de Agosto do ano de mil e setecentos e setenta e três anos,  e foi sepultado na Igreja dos Clérigos pobres, de sua Irmandade desta freguesia de Santo Ildefonso. O local da Igreja onde foi sepultado ninguém sabe ao certo, pois não há nenhuma placa com o seu nome no seu interior. Nem a Irmandade, que a Nasoni deve a sua Igreja, lhe prestou a devida homenagem.  As palavras de José Saramago no seu livro "Viagem a Portugal", descrevem bem aquele que deveria ser o sentimento de todo o portuense :  Na passagem entra nos Clérigos, olha-os de fora, pensa no que devem o Porto e o Norte a Nicolau Nasoni, e acha que é mesquinha paga terem-lhe posto o nome no cunhal duma rua que tão depressa começa logo acaba. O viajante sabe que raramente estas distinções estão na proporção da dívida que pretendem pagar, mas ao Porto competiriam outros modos de assinalar a influência capital que o arquitecto italiano teve na definição da própria fisionomia da cidade. Justo é que Fernão de Magalhães tenha aquela avenida. Não merecia menos quem navegou à volta do mundo. Mas Nicolau Nasoni riscou no papel viagens não menos aventurosas: o rosto em que uma cidade se reconhece a si própria.
Como seria a Sé do Porto nos seus tempos primeiros? Pouco menos que um castelo, em robustez e orgulho militar. Dizem-no as torres, os gigantes que vão até à altura superior do vão da rosácea. Hoje os olhos habituaram-se de tal maneira a esta compósita construção que já mal se repara na excentricidade do portal rococó e na incongruência das cúpulas e balaústres das torres. Ainda assim, é a galilé de Nasoni que mais bem integrada aparece no conjunto: este italiano, criado e educado entre mestres doutro falar e entender, veio aqui escutar que língua profundamente se falava no Norte português e depois passou-a à pedra. 
Como disse no inicio do texto esta história de vida não podia começar com era uma vez, mas antes com mais uma vez! Mais uma vez esquecemos a pessoa, a obra e a vida. Fica o nome de uma rua e de uma estação de metro como homenagem de uma cidade que tanto lhe deve.

Nota: Fotografia (e tratamento digital) do quadro de Nicolau Nasoni: Carlos Romão.

domingo, 22 de abril de 2012

De Cale a Gaia

O concelho de Gaia (...) anda esquecido dos portugueses. A esta palavra, Gaia, (...) liga-se apenas uma povoação que dista tantas léguas do Porto. Supõe-se que Gaia está imersa numa cheia de vinho e que, nesse tão histórico e tão lindo trato de terra portuguesa, só há armazéns vinícolas. E todavia se há concelho de Portugal digno de estudo, merecedor de ser passeado e preferido é Gaia: ele contem tudo - a azafama industrial e o remanso umbroso dos seus aspectos rurais, o tráfego ribeirinho e o sossego costeiro das praias, adormecendo na sua almofada de areia o rumor do trabalho; embarcadiços e exportadores, o gracioso tipo feminil da Madalena e o exemplar bretão do comércio exportador; zona comercial e zona agrícola, zona seca e zona molhada, a variedade, o contraste, a vida com o seu labor, as suas soalheiras, as encostas difíceis de luta e das colinas, sombras, flores e monumentos. É uma relíquia do passado arqueologico, historico, administrativo e um pégão (alicerce) do futuro ( Joaquim Leitão, in Mea Villa de Gaya,  1909). De facto as palavras de Joaquim Leitão poderiam ser transpostas para o ano 2012. O que se sabe de Gaia? Tradicionalmente vista como cidade sombra do Porto, albergue das famosas Caves do Vinho do Porto e...pouco mais. Mas Gaia é possuidora de uma história muito rica!
Na sua origem está um castro, localizado na margem sul do rio (ainda que existam correntes que contradizem esta) , que aquando da sua integração no Império Romano, tomou o nome de Cale ou Gale, já que no latim não existe distinção de som entre as letras c e g. Tal designação parece ter como raiz etimológica, a palavra celta Gall, com a qual os celtas se designavam a eles próprios (tal como surge em Galiza, Galway, Gália). O próprio nome do rio Douro, que banha a cidade poderá ter origem na palavra celta Dwr, que significa água. Durante o tempo da administração romana a grande maioria da população vivia na margem sul do rio Douro, existindo uma pequena minoria que vivia junto ao porto de águas fundas na outra margem, local da actual Miragaia. Segundo alguns historiadores, a designação de Portus Cale atribuída posteriormente à cidade do Porto, queria designar o porto (em latim portus) de Gaia (Cale). Independentemente de qual das margens era designada por Cale (a direita ou a esquerda) o nome de Portugal, provém da conjugação destas duas denominações: Portus e Cale.  O nome Cale aparece pela primeira vez no Itinerarium do Imperador romano Antonino Pio (138-161), que identifica as vias militares existentes. Na estrada romana que ligava Olissipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), Cale está descrita como sendo a última estação a sul do Douro, no termo da estrada, onde se fazia a travessia do rio. Foi nas margens do rio Douro que por diversas vezes se decidiram os destinos do território ao longo das sucessivas invasões sofridas: romanos, suevos, visigodos e mouros. 
No século IX, após o término do domínio mouro pela intervenção de Vímara Peres, surge uma figura lendária para Gaia, o Rei Ramiro. Segundo a Lenda, no ano de 932, o rei D. Ramiro raptou Zahara, a bela irmã do mouro Alboazar, que vivia no castelo de Cale. Este por sua vez, como vingança  raptou a rainha Gaia, com quem Ramiro era casado. Alboazar trouxe a raptada para o seu castelo e, quando Ramiro regressou a casa e não encontrou a mulher, combinou com o filho, D.Ordonho e outros vassalos ir libertar a rainha e castigar o mouro raptor. Embarcaram em naus e vieram até à margem, cobertos com panos verdes para se confundirem com as árvores. Para vencer  Alboazar , D. Ramiro disfarçou-se de romeiro e combinou com os seus companheiros de armas que acorressem ao castelo quando o ouvissem tocar uma trompa. Ramiro esperou  junto de uma fonte, perto do castelo. Uma donzela que servia a rainha veio buscar à fonte água a mando dela. Aí, encontrou o romeiro que lhe pediu água para beber, desejo que ela satisfez. Aproveitando a oportunidade, Ramiro lançou no recipiente da água a metade de um anel que havia em tempos repartido com a rainha. A rainha Gaia, ao encontrar o anel na bilha da água, mandou chamar o romeiro à sua presença. Apaixonada pelo mouro, e decidida a desfazer-se do marido cristão, prendeu-o num quarto, que foi aberto à chegada de  Alboazar , que sorrindo, lhe perguntou o que ele, um rei cristão, faria se tivesse nas suas mãos o seu inimigo. Tendo em mente o combinado com os seus homens Ramiro respondeu que o faria comer um capão, beber uma caneca de vinho, e depois coloca-lo-ía no topo da torre do castelo a tocar uma trompa até rebentar.  Alboazar  achou graça e garantiu-lhe que seria essa a sua morte. Abriu os portões do castelo convidando todos os moradores a assistir. Ramiro comeu, bebeu, foi conduzido ao alto do castelo e tocou a trompa até que as suas gentes, ao ouvir o sinal combinado, irromperam pelos portões abertos do castelo, chacinando as tropas do mouro desprevenidas e destruindo o castelo. O próprio Ramiro matou  Alboazar  e, tomando a sua mulher, embarcou, seguido pelos seus homens. A rainha, quando as naus se afastavam, começou a chorar olhando o castelo onde fora feliz. O rei perguntou porque chorava ela, vindo a saber que era por amor do bom mouro que tinha sido morto. Ramiro, doido de ciúmes, atou-lhe uma pedra ao pescoço, e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. D.Ramiro voltou para Leão onde se casou com a Zahara, entretanto baptizada, de quem teve vasta descendência. 
Ainda de acordo com essa tradição, a encosta que o rei teria subido em Gaia, denomina-se actualmente por Rua do Rei Ramiro e a fonte por fonte do Rei Ramiro. Nas armas da cidade de Gaia figuram uma torre encimada por um cavaleiro tocando uma trompa.  O Castelo de Gaia situava-se no que ainda hoje é designado por Monte de Gaia. A primeira referência surge com príncipe D.Afonso, filho de D.Dinis, a 4 de Janeiro de 1322; D.Pedro apoderou-se do castelo após a morte de D.Inês, altura em que surge o registo do primeiro alcaide do Castelo, de nome Rodrigo Anes de Sá, em 29 de Julho de 1357. O castelo sofre obras de remodelação em 1366, segundo o registo feito pelo abade do Mosteiro de Pedroso, que contribuiu com 20 carros de lenha, carros e bois para a execução da obra. Em 1385 os moradores do Porto, em desacordo com o alcaide Aires Gomes de Sá, assaltam o castelo e a destruição foi de tal forma grande que nunca mais houve um alcaide no castelo. O escrivão de D.João III, João de Barros, descreveu o castelo: Tem a cidade, o arrabalde de Vila Nova, cuja paróquia é Santa Marinha e junto dela está o Castelo de Gaia em um lugar alto e mui aprazível. Este castelo é já derrubado, que a cidade já derrubou. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César. E nele estavam umas pedras com o nome de Caio César. Mas foi na Guerra Liberal que o castelo sofreu a sua  destruição final . As forças de D.Miguel fortificaram-se na zona do castelo de Gaia, e daí bombardearam o Palácio das Carrancas, quartel general de D.Pedro. As forças leal a D.Pedro retaliaram e da bateria colocada nas Virtudes desfizeram o reduto miguelista, incluindo o que restava do tão maltratado castelo. 
Recuando ao século XI, depois de 1035, com a pacificação do território a sul do Douro, surgiram duas povoações na margem esquerda do rio: Gaia e Vila Nova, que após a fundação do Reino Portucalense se mantiveram autónomas. Gaia, denominado Concelho de Cima, recebeu o seu foral do Rei D.Afonso III em 1255 e Vila Nova, o Concelho de Baixo, recebeu do Rei D.Dinis o foral em 1288. Segundo a tradição estes dois concelhos eram separados pela Fonte dos Cabeçudos, localizada na actual Travessa Cândido dos Reis. O arqueólogo Gonçalves Guimarães (1995), descreve as profissões existentes nas duas povoações, Gaia e Vila Nova. Gaia tinha um barqueiro, um calafate, um estendeiro e um tanoeiro, enquanto Vila Nova tinha quatro carpinteiros, dois tendeiros, um marmeleiro, um cesteiro, um barbeiro e um oleiro. Contudo, são na sua maioria por natureza e tradição lavradores (NOGUEIRA, 1987).
No século XIX, mais uma vez Gaia e Vila Nova estiveram no centro de batalha durante a Guerra Peninsular e depois no Cerco do Porto, com o Douro novamente a marcar a fronteira. No final da Guerra Liberal, a 20 de Junho de 1834, Gaia e Vila Nova fundem-se, nascendo Vila Nova de Gaia. O seu primeiro Presidente do Município foi António da Rocha Leão, antigo mestre tanoeiro e fundador da casa de Comércio de Vinhos do Porto. No século XIX, Pinho Leal descreve no dicionário Portugal Antigo e Moderno, GAIA ou VILLA NOVA DE GAIA – villa, Douro, comarca e em frente do Porto, separada d’esta cidade apenas pelo Douro, e sobre a margem esquerda d’este rio, 1 800 fogos, 7 000 almas, … há n’esta villa grande numero de armazéns, que podem conter mais de 100 000 pipas. Vila Nova de Gaia tornou-se em meados do século XVIII numa terra de homens do mar, de artifices, mercadores e de homens de negócios. A localidade prosperava, começando a atrair cada vez mais estrangeiros, especialmente ingleses, que desenvolveram o comércio do Vinho do Porto com a construção de armazéns e companhias exportadoras de tão famoso vinho. A zona ribeirinha de Gaia, com as suas caves, tornou-se mundialmente conhecida. Quando, em 1886, foi inaugurada a ponte D. Luís I para ligar o Porto a Vila Nova de Gaia pela parte alta das duas cidades,  nas duas margens, foram abertas avenidas que alteraram o crescimento urbano. 
Ao longo da então chamada Avenida de Campos Henriques (actual Avenida da Republica), situada em Gaia, foram construídos palacetes edificados pela burguesia emergente. O crescimento populacional, económico e industrial deste novo concelho estava em franco progresso. Em 1841 é feito o primeiro pedido de elevação a cidade, durante o reinado de D. Maria II, que foi recusado. Vários pedidos se foram sucedendo à medida que a Vila aumentava de população e de importância, mas apenas a 28 de Junho de 1984 Vila Nova de Gaia foi elevada a cidade, mantendo no entanto a designação de Vila Nova. 
Actualmente com 168,7 km² de área, Vila Nova de Gaia é o maior concelho do Grande Porto. Subdividido em 24 freguesias, está limitado a norte pelo município do Porto, a nordeste por Gondomar, a sul por Santa Maria da Feira e Espinho e a oeste pelo oceano Atlântico. Este contexto permite-lhe ser um concelho de grandes contrastes, entre zonas interiores, rio e mar, bem como entre áreas urbanas, industriais e rurais (Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner). Da original Cale já pouco resta. Mas a história desta cidade está impressa nas pedras graníticas da zona ribeirinha, nos muros da Serra do Pilar,na alma das suas gentes e no vinho que leva a sua história a todo o mundo. Cale ou Gaia, não importa o nome que lhe é atribuído. Descrita por Almeida Garrett, Ramalho Urtigão, Luis Pereira Brandão e João Vaz, entre muitos outros, é terra com história e de muitas estórias.