sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Senhor do Tempo



A passagem do tempo sempre foi uma constante. O tempo flui ininterruptamente, sem contemplações. Como disse Alexander Pope o tempo a tudo vence. Obedeçamos, pois, ao tempo. E nós obedecemos! Desde os primórdios da vida o Homem sempre se modelou ao tempo: o nascer do sol iniciava um dia de trabalho e o pôr do sol determinava o seu fim. A luz solar promovia uma sensação de protecção e segurança. Esta foi a primeira noção de tempo do Homem: a duração da luz do sol! Para poder ter uma maior noção da passagem do tempo surgem os chamados medidores do tempo, os relógios ou horológios no português antigo. A primeira tentativa de medir o tempo terá ocorrido com a utilização da própria sombra. Pela observação, o homem  pré-histórico verificou que a sua sombra aumentava de tamanho até um determinado momento - o zénite solar - e que depois ia diminuindo até desaparecer, quando a noite se instalava. A utilização de uma simples vareta de madeira espetada na posição vertical no chão, permitia fazer as mesmas medições de uma forma mais correcta. Surgiram assim os primeiros relógios solares. 
A utilização de gnómons, instrumentos que quando colocados em cima de uma superfície plana produziam sombra, permitiram determinar a duração do dia através do comprimento ou da posição da sombra projectada pelo sol. O relógio de sol mais antigo, construído em pedra, data de 1500 aC no Egipto, durante o reinado do faraó Tutmosis III. Outro método de avaliação da passagem do tempo eram os relógios de água ou clepsidras, que consistiam em dois recipientes colocados em níveis diferentes: um superior, cheio de líquido e outro inferior vazio e marcado com escalas. A uni-los existia uma pequena abertura, que permitia a passagem controlada do líquido para o recipiente inferior, sendo o tempo avaliado pelo nível que o liquido ia progressivamente atingindo. A mais antiga clepsidra que há registo surge na cidade de Karnak, no Egipto, na era de Amenófis III, há aproximadamente  1400 aC, e encontra-se exposta no Museu Egipcio do Cairo. Mais tarde surgem as ampulhetas ou relógios de areia. A passagem da totalidade de finos grãos de areia de um recipiente de vidro superior para um inferior, corresponde sempre ao mesmo espaço de tempo, marcando assim um período temporal. Foi muito usado em navios, sendo a ampulheta que durava trinta minutos a mais comum. No ano 850 dC, surge o primeiro relógio mecânico, com um sistema de pesos e engrenagens, construído por um monge francês  de nome Gerbert d'Aurillac, que posteriormente foi elevado a Papa, com o nome de Silvestre II. A partir de então os relógios mecânicos começaram a difundir-se rapidamente, com o aparecimento de novos construtores que desenvolveram e aperfeiçoaram esta máquina viva, fabricante de horas (Jeronymo Preti, poeta italiano)
Mais tarde, pelo ano 1500, Pedro Henlein, apresentou ao mundo o primeiro relógio portátil, o relógio de bolso. O ovo de Nuremberga, assim denominado devido ao seu formato oval, foi desenvolvido na cidade de Nuremberga, na Alemanha. Todo de ferro, possuía uma corda que durava quarenta horas. Foi uma novidade que teve grande adesão da aristocracia europeia, tornando-se rapidamente num símbolo de poder económico e posição social. Muitas vozes se levantaram ao longo dos anos com o desenvolvimento do relógio, à medida que o tempo ia sendo cada vez mais controlado e controlador. François Rabelais, padre, escritor  e médico francês do Renascimento afirma que jamais me submeterei às horas: as horas foram feitas para o homem, e não o homem para as horas. Uma luta digna mas inglória! Mas foi apenas no ano de 1640 que Galileu Galilei, ao aplicar a Lei do Pêndulo ao relógio mecanico, permite uma medição precisa do tempo, e possibilita a introdução da contagem dos minutos e dos segundos. O primeiro relógio com o ponteiro dos minutos surge em 1670 e cinco anos mais tarde, em 1675 o relógio fica completo com a introdução do ponteiro dos segundos. O homem ficava cada vez mais dependente da passagem do tempo e a sua medição minuciosa, tornou a vida quotidiana mais frenética e acelerada. Friedrich Holderlin, poeta lírico e romancista alemão, numa tentativa de combater o espírito existente, cada vez mais dependente do movimento dos ponteiros do relógio, afirma: vamos esquecer que existe um tempo e não vamos contar os dias da vida! Mas o tempo não parou e os relógios mostram a sua passagem cada vez com mais precisão. Em 1814, o relojoeiro suíço, Abraham Louis Bréguet, em resposta a uma encomenda da princesa de Nápoles, Carolina Muret, irmã de Napoleão Bonaparte, cria o primeiro relógio de pulso. No entanto esta invenção é também atribuída em 1868, a Athoni Patek e Adrien Philippe, da firma  Patek-Philippe, que desenvolvem o modelo de relógio de pulso e revolucionam o mundo da relojoaria. Durante muitos anos  este modelo de relógio é exclusivo da moda feminina. 
Só em 1904, Louis Cartier com a colaboração do relojoeiro Edmond Jaegar, desenvolve a pedido do aviador e inventor brasileiro Santos Dumont, que necessitava de controlar os seus tempos de vôo, o relógio de pulso para homem. Mais simples, sem brilhantes e pela primeira vez com uma pulseira de couro, teve uma grande aceitação por parte do público masculino. Mas o principal impulso para o comércio dos relógios de pulso, foi a Primeira Guerra Mundial, quando os soldados necessitados de controlar as horas  de modo a concertar os ataques bélicos, começaram a usar este modelo de relógio. Actualmente tudo é controlado pelo mover dos ponteiros do relógio. Modelos mecânicos, de quartzo, atómicos, com apresentação analógica ou digital, estes mecanismos que dão vida às horas, aos minutos e aos segundos pelos quais sincronizamos o nosso dia-a-dia, nunca mais deixaram de existir. Não vivemos sem eles e cada vez mais dependemos do seu movimento continuo e infindável.  Marcel Proust dizia que os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem. Mas os dias, os meses e os anos passam e  cada vez mais os dias são iguais para os homens, como tão bem define Miguel Torga, no seu poema Tempo:

Tempo, definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
O passado,
Amargura maior, fotografada.
Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!
Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

terça-feira, 24 de abril de 2012

A dança das terras de Miranda

Pauliteiros de Miranda é o nome pelo qual é conhecido o grupo de oito homens que executam a dança tradicional de Miranda do Douro, terra de Trás-os-Montes, também conhecida por dança dos paus. O nome pauliteiro tem origem na palavra paulito, que significa pequeno pedaço de madeira ou pau pequeno. A sua origem não reúne consenso. Poderá ter sido na Idade do Ferro, na Europa Central em terras da Transilvânia, sendo inicialmente uma dança de espadas que se espalhou pela Europa até chegar à Península Ibérica. Estrabão, geógrafo, filósofo e historiador grego, descreve que os celtiberos se preparavam para os combates com danças guerreiras onde as espadas eram substituídas por pequenos paus, evitando assim riscos desnecessários. Alguns autores, como o Abade de Baçal, defendem que a sua origem está na dança pirrica (dança guerreira executada com armas na mão), tradicional dos antigos Gregos, que assim preparavam os homens para os combates. Posteriormente  esta dança foi usada para celebrar as colheitas e os solstício de Inverno e de Verão. Independentemente da sua origem é uma dança tradicional com características muito próprias: oito homens acompanhados de três músicos. A gaita de foles, o bombo e a caixa de guerra, são os instrumentos musicais responsáveis pela melodia de cada Lhaço, nome mirandês para designar a melodia, a letra e a coreografia de cada dança executada. Cada pauliteiro tem ainda um par de castanholas. O traje é também muito original sendo composto por : um chapéu decorado, um colete em sorrubeco (tecido grosso) trabalhado, uma camisa e uma saia em linho trabalhado, lenços, meias altas em lã pura e as botas em pele. Segundo a tradição popular, esta indumentária tenta recriar o traje guerreiro dos celtiberos. É de facto uma herança cultural que foi passando de geração em geração, até aos nossos dias. Usando a língua tradicional de Miranda, o mirandês posso afirmar que Ls Pauliteiros de Miranda son l'ourgulho de las sues gientes! (Os Pauliteiros de Miranda são o orgulho das suas gentes!)










segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um italiano do Porto



Nem sempre a cidade natal é a cidade do coração. Não escolhemos o local em que nascemos, mas podemos escolher aquele em que queremos viver. E Nasoni escolheu o Porto. Foi nesta cidade onde viveu durante quase 50 anos, onde fez e deixou obra, que casou, teve os seus filhos e morreu. Poderia ser uma história começada por Era uma vez, mas essas histórias têm um final feliz...
Niccolo Nasoni, nasceu em San Giovani Valdarno, na Toscana Italiana, a 2 de Junho de 1691, filho do feitor Giusepe Francesco Nasoni e de Margaretta Rossi. Cedo começou a demonstrar gosto pela pintura e pela arte. Em Siena inicia os seus estudos e tem por mestres o pintor Giuseppe Nicola Nasini (famoso pintor religioso, especialista em pintura barroca) e o arquitecto Franchim e Vicenzo Ferrati. Apenas com 21 anos fica responsável pelo catafalco (local onde se coloca o caixão) da Catedral de Siena, nas exéquias de Fernando de Medici. Ingressa por essa altura no Istituto dei Rozzi, prestigiada Academia de Artes de Siena, que em 1715 o escolhe para a execução dos trabalhos artísticos necessários para a recepção ao novo Arcebispo de Siena. Participa, uns anos mais tarde, na construção do "Carro de Marte", que desfila no cortejo realizado para a eleição do novo Grão Mestre da Ordem de Malta. Pintor ilusionista, domina a técnica da perspectiva, conferindo profundidade a superfícies planas. A sua capacidade de construção e a riqueza decorativa das suas obras, começam a destacá-lo no seio artístico e o seu nome começa a ser falado, entre as elites da sociedade. Entre eles, estão o Conde Francisco Picolomini e D. António Manuel Vilhena, português, que será eleito Grão Mestre da Ordem de Malta, e que o convida em 1724 a realizar as obras de pintura dos tectos e corredores do Palácio de La Valetta. O tempo que permanece em Malta, granjeia-lhe fama e permite-lhe  estabelecer contactos com a alta nobreza e ilustres figuras do clero, tais como Roque Távora e Noronha, cavaleiro de Malta e irmão do Deão da Sé do Porto. Nesta altura, Portugal sob o reinado de D. João V, é uma potência mundial, e  o Porto é uma cidade em franco desenvolvimento, quer  a nível comercial, quer a nível artístico, procurando especialistas na arte do barroco. Não se sabe ao certo quando chega Nasoni ao Porto, mas podemos ler num documento do Cabido da Sé que para se fazerem logo com perfeição e acerto todas as obras, e se evitar o perigo de se desmancharem e fazerem segunda vez, por falta de se preverem os erros, vieram não só de Lisboa,mas de outros Reynos, arquitectos e mestres peritos nas artes a que erão respectivas as obras. Veyo Niculau Nazoni, arquitecto e pintor florentino, exercitado em Roma, donde foi chamado a Malta para pintar o Palácio do Grão Mestre
Estávamos em 1725 e Nasoni ficou encarregado de trabalhos decorativos do interior da Sé. Foi ainda da sua autoria a galilé barroca que se encontra junto à fachada lateral da Sé (1ª obra de arquitectura conhecida de Nasoni) e o Chafariz de São Miguel. Quando terminou a sua obra na Sé do Porto, Nasoni escreveu  Niccolo Nasoni fiorentino, naturale della terra di S. Giovani Valdarno (...) de 1725 e ora 1731 e vene per mezzo del S.R. Girolamo Tavora Norogna. Se haviam dúvidas de quem o convidou a vir para a cidade do Porto, o próprio nos ajudou a esclarecer!
Em 1729, casa com uma conterrânea, de nome Isabel Castriotto Ricardi. O casamento será muito curto, já que em Julho de 1730, após o nascimento do seu primeiro filho José, a mulher morre de complicações após o parto. Pode-se ler no seu registo de óbito Isabel Nasoni, mulher de Nicolau Nasoni, pintor e morador na Rua Chã, faleceu com todos os sacramentos e não fez testamento. Morreu em 25 de Julho de setecentos e trinta, e foi sepultar à Sé. O Deão da Sé, Jerónimo de Távora, que se tornara amigo intimo de Nasoni, apresenta-lhe a dama de companhia de D. Micaela, sua mãe, que se tornará a sua futura esposa. Antónia de Mascarenhas Malafaia, natural de Santo Tirso, será a mãe dos seus cinco filhos: Margarida, António, Jerónimo, Francisco e Ana, que nasceram entre os anos de 1731 e 1737, e que se juntam a José, o seu primogénito. Nascem todos na freguesia da Sé, na cidade do Porto.
As Ordens religiosas eram inúmeras, nesta época na cidade do Porto, e três delas por estarem a passar por dificuldades económicas decidem juntar-se e formar a Irmandade de Clérigos Pobres de Nossa Senhora da Misericórdia, São Pedro e São Filipe Nery, mais tarde denominada Irmandade dos Clérigos. O seu Presidente era o Deão da Sé do Porto. Sem local de culto, nem onde exercer as suas actividades religiosas, desenvolvem diligências para tentar obter um local onde possam erguer a sua Igreja. Conseguem que lhes seja doado um terreno fora das portas da cidade, no chamado lugar da Cruz de Cassoa, perto do Olival, junto ao Adro dos Enforcados (assim chamado por ser aí que eram enterrados os criminosos sentenciados à forca). O projecto da construção da Igreja e do edifício dos Clérigos, composto por capela, hospital e diversas salas, é entregue a Nasoni. A construção começa a 23 de Junho de 1732 e a 28 de Julho de 1748, ainda sem a obra completa, realiza-se a primeira missa. A construção da Torre dos Clérigos inicia-se em 1754 e termina a 1763. A obra prima de Nasoni e o ex-libris da cidade do Porto, com 76 metros de altura e 225 degraus, apresentava-se aos seus habitantes. Segundo Teixeira de Pascoaes a Torre dos Clérigos representa o Porto espremido para cima.
Muitas outras obras são de sua autoria entre elas o Paço Episcopal, o Palácio do Freixo, a casa da Quinta da Prelada, a Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco, a frontaria da Igreja da Misericórdia, a Casa da Quinta de Ramalde, os trabalhos de restauro nas Sés de Lamego e Braga, a Igreja da Ordem do Terço, o Palácio de Bonjóia, o Chafariz e a escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, a fachada da Igreja do Senhor Bom Jesus em Matosinhos, o restauro da Igreja de Santa Marinha em Gaia, e o corpo central do Palácio de Mateus em Vila Real.
Nasoni mudou a cidade do Porto, deu-lhe um rosto diferente, uma alma barroca. Nasoni tornou-se portuense e viveu a sua cidade. Viveu o fim da sua vida com  dificuldades financeiras e morreu a 30 de Agosto de 1773. No seu registo de óbito podemos ler Nicolau Nasoni, viúvo que ficou de Antónia Mascarenhas Malafaia já defunta, morador na viela do Pai Ambrósio, desta freguesia de Santo Ildefonso do Porto; faleceu com todos os sacramentos nos trinta dias do mês de Agosto do ano de mil e setecentos e setenta e três anos,  e foi sepultado na Igreja dos Clérigos pobres, de sua Irmandade desta freguesia de Santo Ildefonso. O local da Igreja onde foi sepultado ninguém sabe ao certo, pois não há nenhuma placa com o seu nome no seu interior. Nem a Irmandade, que a Nasoni deve a sua Igreja, lhe prestou a devida homenagem.  As palavras de José Saramago no seu livro "Viagem a Portugal", descrevem bem aquele que deveria ser o sentimento de todo o portuense :  Na passagem entra nos Clérigos, olha-os de fora, pensa no que devem o Porto e o Norte a Nicolau Nasoni, e acha que é mesquinha paga terem-lhe posto o nome no cunhal duma rua que tão depressa começa logo acaba. O viajante sabe que raramente estas distinções estão na proporção da dívida que pretendem pagar, mas ao Porto competiriam outros modos de assinalar a influência capital que o arquitecto italiano teve na definição da própria fisionomia da cidade. Justo é que Fernão de Magalhães tenha aquela avenida. Não merecia menos quem navegou à volta do mundo. Mas Nicolau Nasoni riscou no papel viagens não menos aventurosas: o rosto em que uma cidade se reconhece a si própria.
Como seria a Sé do Porto nos seus tempos primeiros? Pouco menos que um castelo, em robustez e orgulho militar. Dizem-no as torres, os gigantes que vão até à altura superior do vão da rosácea. Hoje os olhos habituaram-se de tal maneira a esta compósita construção que já mal se repara na excentricidade do portal rococó e na incongruência das cúpulas e balaústres das torres. Ainda assim, é a galilé de Nasoni que mais bem integrada aparece no conjunto: este italiano, criado e educado entre mestres doutro falar e entender, veio aqui escutar que língua profundamente se falava no Norte português e depois passou-a à pedra. 
Como disse no inicio do texto esta história de vida não podia começar com era uma vez, mas antes com mais uma vez! Mais uma vez esquecemos a pessoa, a obra e a vida. Fica o nome de uma rua e de uma estação de metro como homenagem de uma cidade que tanto lhe deve.

Nota: Fotografia (e tratamento digital) do quadro de Nicolau Nasoni: Carlos Romão.

domingo, 22 de abril de 2012

De Cale a Gaia

O concelho de Gaia (...) anda esquecido dos portugueses. A esta palavra, Gaia, (...) liga-se apenas uma povoação que dista tantas léguas do Porto. Supõe-se que Gaia está imersa numa cheia de vinho e que, nesse tão histórico e tão lindo trato de terra portuguesa, só há armazéns vinícolas. E todavia se há concelho de Portugal digno de estudo, merecedor de ser passeado e preferido é Gaia: ele contem tudo - a azafama industrial e o remanso umbroso dos seus aspectos rurais, o tráfego ribeirinho e o sossego costeiro das praias, adormecendo na sua almofada de areia o rumor do trabalho; embarcadiços e exportadores, o gracioso tipo feminil da Madalena e o exemplar bretão do comércio exportador; zona comercial e zona agrícola, zona seca e zona molhada, a variedade, o contraste, a vida com o seu labor, as suas soalheiras, as encostas difíceis de luta e das colinas, sombras, flores e monumentos. É uma relíquia do passado arqueologico, historico, administrativo e um pégão (alicerce) do futuro ( Joaquim Leitão, in Mea Villa de Gaya,  1909). De facto as palavras de Joaquim Leitão poderiam ser transpostas para o ano 2012. O que se sabe de Gaia? Tradicionalmente vista como cidade sombra do Porto, albergue das famosas Caves do Vinho do Porto e...pouco mais. Mas Gaia é possuidora de uma história muito rica!
Na sua origem está um castro, localizado na margem sul do rio (ainda que existam correntes que contradizem esta) , que aquando da sua integração no Império Romano, tomou o nome de Cale ou Gale, já que no latim não existe distinção de som entre as letras c e g. Tal designação parece ter como raiz etimológica, a palavra celta Gall, com a qual os celtas se designavam a eles próprios (tal como surge em Galiza, Galway, Gália). O próprio nome do rio Douro, que banha a cidade poderá ter origem na palavra celta Dwr, que significa água. Durante o tempo da administração romana a grande maioria da população vivia na margem sul do rio Douro, existindo uma pequena minoria que vivia junto ao porto de águas fundas na outra margem, local da actual Miragaia. Segundo alguns historiadores, a designação de Portus Cale atribuída posteriormente à cidade do Porto, queria designar o porto (em latim portus) de Gaia (Cale). Independentemente de qual das margens era designada por Cale (a direita ou a esquerda) o nome de Portugal, provém da conjugação destas duas denominações: Portus e Cale.  O nome Cale aparece pela primeira vez no Itinerarium do Imperador romano Antonino Pio (138-161), que identifica as vias militares existentes. Na estrada romana que ligava Olissipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), Cale está descrita como sendo a última estação a sul do Douro, no termo da estrada, onde se fazia a travessia do rio. Foi nas margens do rio Douro que por diversas vezes se decidiram os destinos do território ao longo das sucessivas invasões sofridas: romanos, suevos, visigodos e mouros. 
No século IX, após o término do domínio mouro pela intervenção de Vímara Peres, surge uma figura lendária para Gaia, o Rei Ramiro. Segundo a Lenda, no ano de 932, o rei D. Ramiro raptou Zahara, a bela irmã do mouro Alboazar, que vivia no castelo de Cale. Este por sua vez, como vingança  raptou a rainha Gaia, com quem Ramiro era casado. Alboazar trouxe a raptada para o seu castelo e, quando Ramiro regressou a casa e não encontrou a mulher, combinou com o filho, D.Ordonho e outros vassalos ir libertar a rainha e castigar o mouro raptor. Embarcaram em naus e vieram até à margem, cobertos com panos verdes para se confundirem com as árvores. Para vencer  Alboazar , D. Ramiro disfarçou-se de romeiro e combinou com os seus companheiros de armas que acorressem ao castelo quando o ouvissem tocar uma trompa. Ramiro esperou  junto de uma fonte, perto do castelo. Uma donzela que servia a rainha veio buscar à fonte água a mando dela. Aí, encontrou o romeiro que lhe pediu água para beber, desejo que ela satisfez. Aproveitando a oportunidade, Ramiro lançou no recipiente da água a metade de um anel que havia em tempos repartido com a rainha. A rainha Gaia, ao encontrar o anel na bilha da água, mandou chamar o romeiro à sua presença. Apaixonada pelo mouro, e decidida a desfazer-se do marido cristão, prendeu-o num quarto, que foi aberto à chegada de  Alboazar , que sorrindo, lhe perguntou o que ele, um rei cristão, faria se tivesse nas suas mãos o seu inimigo. Tendo em mente o combinado com os seus homens Ramiro respondeu que o faria comer um capão, beber uma caneca de vinho, e depois coloca-lo-ía no topo da torre do castelo a tocar uma trompa até rebentar.  Alboazar  achou graça e garantiu-lhe que seria essa a sua morte. Abriu os portões do castelo convidando todos os moradores a assistir. Ramiro comeu, bebeu, foi conduzido ao alto do castelo e tocou a trompa até que as suas gentes, ao ouvir o sinal combinado, irromperam pelos portões abertos do castelo, chacinando as tropas do mouro desprevenidas e destruindo o castelo. O próprio Ramiro matou  Alboazar  e, tomando a sua mulher, embarcou, seguido pelos seus homens. A rainha, quando as naus se afastavam, começou a chorar olhando o castelo onde fora feliz. O rei perguntou porque chorava ela, vindo a saber que era por amor do bom mouro que tinha sido morto. Ramiro, doido de ciúmes, atou-lhe uma pedra ao pescoço, e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. D.Ramiro voltou para Leão onde se casou com a Zahara, entretanto baptizada, de quem teve vasta descendência. 
Ainda de acordo com essa tradição, a encosta que o rei teria subido em Gaia, denomina-se actualmente por Rua do Rei Ramiro e a fonte por fonte do Rei Ramiro. Nas armas da cidade de Gaia figuram uma torre encimada por um cavaleiro tocando uma trompa.  O Castelo de Gaia situava-se no que ainda hoje é designado por Monte de Gaia. A primeira referência surge com príncipe D.Afonso, filho de D.Dinis, a 4 de Janeiro de 1322; D.Pedro apoderou-se do castelo após a morte de D.Inês, altura em que surge o registo do primeiro alcaide do Castelo, de nome Rodrigo Anes de Sá, em 29 de Julho de 1357. O castelo sofre obras de remodelação em 1366, segundo o registo feito pelo abade do Mosteiro de Pedroso, que contribuiu com 20 carros de lenha, carros e bois para a execução da obra. Em 1385 os moradores do Porto, em desacordo com o alcaide Aires Gomes de Sá, assaltam o castelo e a destruição foi de tal forma grande que nunca mais houve um alcaide no castelo. O escrivão de D.João III, João de Barros, descreveu o castelo: Tem a cidade, o arrabalde de Vila Nova, cuja paróquia é Santa Marinha e junto dela está o Castelo de Gaia em um lugar alto e mui aprazível. Este castelo é já derrubado, que a cidade já derrubou. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César. E nele estavam umas pedras com o nome de Caio César. Mas foi na Guerra Liberal que o castelo sofreu a sua  destruição final . As forças de D.Miguel fortificaram-se na zona do castelo de Gaia, e daí bombardearam o Palácio das Carrancas, quartel general de D.Pedro. As forças leal a D.Pedro retaliaram e da bateria colocada nas Virtudes desfizeram o reduto miguelista, incluindo o que restava do tão maltratado castelo. 
Recuando ao século XI, depois de 1035, com a pacificação do território a sul do Douro, surgiram duas povoações na margem esquerda do rio: Gaia e Vila Nova, que após a fundação do Reino Portucalense se mantiveram autónomas. Gaia, denominado Concelho de Cima, recebeu o seu foral do Rei D.Afonso III em 1255 e Vila Nova, o Concelho de Baixo, recebeu do Rei D.Dinis o foral em 1288. Segundo a tradição estes dois concelhos eram separados pela Fonte dos Cabeçudos, localizada na actual Travessa Cândido dos Reis. O arqueólogo Gonçalves Guimarães (1995), descreve as profissões existentes nas duas povoações, Gaia e Vila Nova. Gaia tinha um barqueiro, um calafate, um estendeiro e um tanoeiro, enquanto Vila Nova tinha quatro carpinteiros, dois tendeiros, um marmeleiro, um cesteiro, um barbeiro e um oleiro. Contudo, são na sua maioria por natureza e tradição lavradores (NOGUEIRA, 1987).
No século XIX, mais uma vez Gaia e Vila Nova estiveram no centro de batalha durante a Guerra Peninsular e depois no Cerco do Porto, com o Douro novamente a marcar a fronteira. No final da Guerra Liberal, a 20 de Junho de 1834, Gaia e Vila Nova fundem-se, nascendo Vila Nova de Gaia. O seu primeiro Presidente do Município foi António da Rocha Leão, antigo mestre tanoeiro e fundador da casa de Comércio de Vinhos do Porto. No século XIX, Pinho Leal descreve no dicionário Portugal Antigo e Moderno, GAIA ou VILLA NOVA DE GAIA – villa, Douro, comarca e em frente do Porto, separada d’esta cidade apenas pelo Douro, e sobre a margem esquerda d’este rio, 1 800 fogos, 7 000 almas, … há n’esta villa grande numero de armazéns, que podem conter mais de 100 000 pipas. Vila Nova de Gaia tornou-se em meados do século XVIII numa terra de homens do mar, de artifices, mercadores e de homens de negócios. A localidade prosperava, começando a atrair cada vez mais estrangeiros, especialmente ingleses, que desenvolveram o comércio do Vinho do Porto com a construção de armazéns e companhias exportadoras de tão famoso vinho. A zona ribeirinha de Gaia, com as suas caves, tornou-se mundialmente conhecida. Quando, em 1886, foi inaugurada a ponte D. Luís I para ligar o Porto a Vila Nova de Gaia pela parte alta das duas cidades,  nas duas margens, foram abertas avenidas que alteraram o crescimento urbano. 
Ao longo da então chamada Avenida de Campos Henriques (actual Avenida da Republica), situada em Gaia, foram construídos palacetes edificados pela burguesia emergente. O crescimento populacional, económico e industrial deste novo concelho estava em franco progresso. Em 1841 é feito o primeiro pedido de elevação a cidade, durante o reinado de D. Maria II, que foi recusado. Vários pedidos se foram sucedendo à medida que a Vila aumentava de população e de importância, mas apenas a 28 de Junho de 1984 Vila Nova de Gaia foi elevada a cidade, mantendo no entanto a designação de Vila Nova. 
Actualmente com 168,7 km² de área, Vila Nova de Gaia é o maior concelho do Grande Porto. Subdividido em 24 freguesias, está limitado a norte pelo município do Porto, a nordeste por Gondomar, a sul por Santa Maria da Feira e Espinho e a oeste pelo oceano Atlântico. Este contexto permite-lhe ser um concelho de grandes contrastes, entre zonas interiores, rio e mar, bem como entre áreas urbanas, industriais e rurais (Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner). Da original Cale já pouco resta. Mas a história desta cidade está impressa nas pedras graníticas da zona ribeirinha, nos muros da Serra do Pilar,na alma das suas gentes e no vinho que leva a sua história a todo o mundo. Cale ou Gaia, não importa o nome que lhe é atribuído. Descrita por Almeida Garrett, Ramalho Urtigão, Luis Pereira Brandão e João Vaz, entre muitos outros, é terra com história e de muitas estórias.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Uma visita real


No dia 18 de Fevereiro de 1957, Isabel II de Inglaterra visita Portugal. A nação lusa estava ao rubro, com tão histórica visita. Tradicionalmente acolhedores, os portugueses esmeraram-se e engalanaram-se para receber a Rainha de um País historicamente amigo. Esquecido já estava o Ultimato inglês de 1890... Não há palavras que possam conter uma imagem completa, perfeita da histórica manhã (...) o sol, o dourado sol de Portugal não faltou. (...) a Rainha ia desembarcar (...) Eram 11 horas e 05 minutos. O milhão e meio de pessoas que aguardava a Rainha ouviu o sinal do desembarque (...). A rainha contemplou enternecida a beleza do quadro. Do seu rosto, transpareceu humanamente, a grande emoção que a dominava. De vestido de chantum azul royal cintado, um pequeno alfinete de diamantes ao peito, mimoso chapéu da cor do vestido, a sua figura gentilíssima insinuava-se no olhar de todos. A seu lado Filipe de Edimburgo em uniforme de gala de almirante de esquadra (...). Chegou o grande momento. Ágil e graciosa, Sua Majestade, pôs o pé em Portugal (...) foram uns segundos emocionantes. Portugal e Inglaterra como há seis séculos, selavam de novo um pacto sem fim. (Revista Municipal, nº72)
A visita da Rainha de Inglaterra foi a primeira grande reportagem da Rádio Televisão Portuguesa. Quando a rainha chegou, as primeiras imagens foram captadas por uma câmara Payard, pelo jornalista Helder Mendes. Um filme de 1 minuto e 46 segundos, sem som e sem edição, que ficou para a história. Com a colaboração da BBC a cobertura da visita foi integral, tendo chegado até nós este pequeno filme, que resume os 4 dias da recepção portuguesa a Sua Majestade.

 




quinta-feira, 19 de abril de 2012

A bebida que mudou o Mundo


O chá resulta da infusão de folhas, raízes ou flores em água quente, sendo actualmente a segunda bebida mais consumida em todo o Mundo, depois da água. O símbolo chinês para chá -    - tem duas formas completamente distintas de se pronunciar. Uma provém da palavra malaia do dialecto Amoy: Tê, enquanto que a outra derivação fonética tem origem no mandarim e no cantonês: Ch'a. Desta duplicidade fonética surgiram as duas grandes divisões linguísticas para dizer chá. A derivada de  é utilizada, entre outras, pela língua inglesa, castelhana, francesa, italiana e hebraica ; a derivada de ch'a é utilizada pela língua portuguesa, japonesa, russa, romena, turca entre muitas outras. Segundo uma lenda chinesa o chá teve origem há 5000 anos, na China, aquando do reinado do Imperador Shen Nung, um governante justo, amante das artes e da ciência, que era conhecido como o Curandeiro Divino. O Imperador, preocupado com as epidemias que devastavam o Império, decretou num edital  que todas as pessoas eram obrigadas a ferver a água antes de a consumirem. Certo dia, quando o governador chinês passeava pelos seus jardins, pediu aos seus criados que lhe fervessem água, enquanto descansava debaixo da sombra de uma árvore. Enquanto esperava que a água arrefecesse, algumas folhas vindas de uns arbustos caíram dentro do seu copo, atribuindo à água uma tonalidade acastanhada. O Imperador decidiu provar, surpreendendo-se com o sabor agradável e refrescante. Assim surgiu o chá!
Com lenda ou sem ela, o facto é que a origem do chá remonta à Dinastia Han  (206 a.C a 220 d.C)Escavações arqueológicas encontraram nos seus túmulos recipientes próprios para a sua preparação. Originalmente feita pelos monges budistas, que utilizavam as folhas de um arbusto - Caméllia Sinensis  - que crescia de forma selvagem na Cordilheira dos Himalaias, foi durante a Dinastia Tang na China (anos 618 a 906 d.C) que o chá se tornou a bebida oficial deste país. O primeiro livro sobre esta bebida, intitulado Ch'a Ching, foi escrito no século XIV por um monge budista de nome Lu Yu, que descreve os métodos de cultivo e de preparação do chá, usados no Império Chinês. O seu consumo espalhou-se rapidamente, tendo chegado ao Japão.  No século XV os japoneses, que adoravam o chá, chegaram a tornar o seu consumo numa religião, chamada de Chaísmo que se baseava na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. A filosofia do Chá é mero esteticismo (...) porque exprime, conjuntamente com a ética e a religião, todo o nosso ponto de vista a respeito do homem e da natureza. É higiene, porque impõe limpeza, é economia, porque revela o conforto que existe na simplicidade, mais do que no que é elaborado e caro; é geometria moral na medida em que define o nosso sentido de proporção face ao universo. Representa o verdadeiro espírito da democracia oriental, ao fazer de todos os seus partidários, aristocratas no gosto. (OKAKURA, Kakuzo in O Livro do Chá).
Quando em 1543 os portugueses chegaram ao Japão, depararam com esta bebida tão popular entre os japoneses, e para eles completamente desconhecida. A partir de 1560 o chá é trazido para o continente europeu pelos navegadores portugueses, tornando-se Portugal no primeiro país europeu a consumir chá. No entanto são os Holandeses, graças a um forte  sentido comercial, que importaram da China o primeiro carregamento de chá, no início do século XVII. O seu consumo rapidamente se espalhou da Holanda para os restantes países europeus, sendo exclusivo das famílias abastadas, já que os seu preço era elevado. Em 1650, o chá chegou ao continente americano, quando os holandeses o introduziram na sua colónia Nova Amsterdão, a actual cidade de Nova Iorque. Apesar de haver alguns textos que provam que  o chá terá sido introduzido em Inglaterra em 1579, por Christopher Borough, depois de uma expedição à Pérsia (segundo as enciclopédias britânicas), este era apenas consumido por trabalhadores, que quando não tinham alimentos para ingerir, bebiam um tipo de chá que se resumia a uma infusão de folhas de má qualidade ou mesmo folhas moídas, para enganar a fome. 
Foi apenas em 1662, com o casamento de Catarina de Bragança, filha do rei D.João IV e de D. Luisa de Gusmão, com o rei Carlos II, que o chá é introduzido na corte inglesa. Conta a história, que Catarina de Bragança tendo chegado a Inglaterra combalida e com dores de garganta, pede uma bebida quente, sendo-lhe oferecida cerveja para acalmar a dor. São as aias da princesa que preparam uma infusão de chá, bebida muito apreciada pela noiva portuguesa. Inicia-se aqui o romance eterno entre os ingleses e o chá, que se torna na bebida predilecta dos súbditos de sua majestade. Inicialmente restrita às classes altas, chegou a ter um imposto de 119%, o que tornou a sua aquisição impensável pelas classes menos abastadas. Só em 1784, quando o primeiro ministro inglês William Pitt baixou o imposto para 12,5%, na tentativa de combater o mercado negro que se tinha desenvolvido com a compra de chá, é que o seu consumo se generalizou a toda a população. 
Foi esta bebida que esteve na base da Boston Tea Party, quando a 13 de Dezembro de 1773 colonos na América protestaram contra o aumento do imposto sobre o consumo do chá e contra a exclusividade da sua venda pela Companhia Britânica das Índias Orientais, destruindo caixotes carregados de chá nas docas de Boston. Este facto  constituiu um ponto de partida para a Revolução Americana, tendo-se tornando um acontecimento ícone na História dos Estados Unidos.
No inicio do século XX, Thomas Sullivan, um comerciante americano, introduziu a utilização de chá em saquetas, método de infusão que se propagou rapidamente por todo o mundo. Em Inglaterra apenas começaram a ser comercializadas em 1970! Actualmente são conhecidos mais de 3 mil tipos de chá. Como curiosidade, em 1961, os ingleses consumiam por ano cerca de 4536 kg de chá por pessoa. É caso para dizer, the last will be the first!

terça-feira, 17 de abril de 2012

A ponte D.Maria II



A ponte Pênsil originalmente chamada de D.Maria II, ligava as margens das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia. Começou a ser construída  a 14 de Maio de 1841, para homenagear a Rainha D.Maria II, no 7º aniversário da sua coroação. Inaugurada a 17 de Fevereiro de 1843 foi a primeira obra permanente construída em Portugal sobre o Rio Douro. Para a sua travessia eram cobrados 5 reis por cada pessoa a pé, 20 reis por cada cavalo e 40 por um carro com uma junta de bois.  Cada cadeirinha de mãos pagava 60 reis. Os preços duplicavam à noite, passados três quartos de hora do pôr-do-sol, voltando às taxas normais três quartos de hora antes do nascer do sol. Manteve-se em funcionamento durante cerca de 45 anos, até ser substituída pela Ponte Luís I, construída ao seu lado. Foi desmontada em 1887 e actualmente apenas restam os dois pilares e a casa do Guarda Militar, que assegurava o pagamento de portagem para a sua travessia, na margem do Porto. Esta fotografia merece toda a atenção dada a sua particularidade de mostrar a extinta Ponte Pênsil a par da Ponte Luís I. É uma raridade fotográfica, já que as duas pontes coexistiram durante um curto período de tempo, entre 1886 e 1887. A imagem foi obtida por George Tait, a partir da margem de Vila Nova de Gaia.

O Telefone a seu dono!

Quando falamos sobre a história do telefone surge-nos logo um nome a ele associado: Bell. Alexander Graham Bell, um escocês nascido em Edimburgo em 3 de Março de 1847, ficou de facto para a história como o inventor de tão afamado engenho. Segundo rezam as crónicas, Bell professor de fisiologia vocal e especializado em locução, conheceu Thomas Watson na firma de Charles Williams Jr, que produzia aparelhos e dispositivos de telégrafos. Bell pretendia aperfeiçoar o seu telégrafo harmónico de forma a transmitir simultaneamente 6 a 8 mensagens em código Morse. Se eu pudesse fazer com que uma corrente eléctrica variasse de intensidade da mesma forma que o ar vibra, ao emitir um som, eu poderia transmitir a palavra telegraficamente, afirmava Bell. Na tentativa de conseguir alcançar a sua ideia,testou vários aparelhos, construiu vários tipos de telégrafos harmónicos, tendo como seu assistente Watson. Na noite de 2 de Junho de 1875, Watson puxou por uma das cordas do telégrafo harmónico, que estava demasiado apertada e o som foi ouvido no receptor da sala contigua onde se encontrava Bell. Estava descoberta a base para a invenção do telefone. No dia 10 de Março de 1876, foi feita a primeira transmissão de voz através do recém-inventado telefone: Graham Bell encontrava-se, no último andar de uma hospedaria em Boston e Watson trabalhava no piso térreo . O telefone tocou, Watson atendeu e ouviu a voz de Bell dizer: Senhor Watson, venha cá. Preciso falar-lhe. Em 14 de Fevereiro de 1876 a patente é registada em nome de Bell. Faltava espalhar a noticia da nova descoberta. Durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência Americana, realizada em Filadélfia, um protótipo do telefone foi levado para ser apresentado aos juízes da Feira, mas Bell não conseguiu demonstrar o seu funcionamento, tal foi o desprezo a que foi votado. 
Um dos ilustres visitantes da Feira, foi D.Pedro II, Imperador do Brasil, que conhecia o inventor por ter assistido uns anos antes a uma aula sua na Universidade de Boston para surdos-mudos. Ao ser cumprimentado por D.Pedro, aproveitou a sua presença e pediu-lhe que experimentasse o seu telefone. Utilizando um fio de cobre com o comprimento da sala, colocou o Imperador numa ponta com um auscultador e tendo ficado no lado oposto, numa sala mergulhada em silêncio, murmurou as seguintes palavras to be or not to be, that's the question e ouviu-se um grito admirado de D.Pedro olhando para o auscultador Meu Deus, isso fala!! Rapidamente o invento se popularizou e em menos de um ano foi criada a primeira empresa telefónica do mundo: Bell Telephone Company, em Boston, com 800 assinantes. A primeira rede pública surge a 26 de Abril de 1882 pela Empresa Edison Gower Bell Telephone Company of Europe. 
Em Portugal o primeiro ensaio foi feito a 24 de Novembro de 1877, entre a Estação do Cabo, em Lisboa e Carcavelos. Em 1882 a exploração da Rede Telefónica de Lisboa e Porto é concedida à empresa Edison Gover Bell, ficando o Estado Português responsável pelas linhas do resto da País. A primeira lista telefónica portuguesa, tinha apenas 15 subscritores, entre eles os Bombeiros Voluntários de Lisboa, o Hotel Central, o Teatro D.Maria II, o Coliseu dos Recreios e o Jornal Comércio de Portugal. Em 1887 a concessão passa para as mãos da Anglo Portuguese Telephone Company, criada em parceria com a Inglaterra especificamente para o serviço telefónico Português. Só em 1967 surgem os Telefones de Lisboa e Porto - TLP - passando o Estado Português a ser responsável por todas as linhas telefónicas do País.
E quando a história parece estar a caminhar para o seu fim, eis que voltamos ao início do século XIX, mais propriamente ao ano de 1808, altura em que nasce em Florença, António Meucci, o verdadeiro inventor do telefone!
Foi estudante de Engenharia Química e Industrial na prestigiada Academia de Florença. Depois de ter tido passagem pelo Teatro Pergola em Florença como técnico de cenários, é preso em 1833 por ter participado nos Movimentos pela Unificação da Itália.  Em 1835 emigra para Cuba, onde trabalha no Gran Teatro de Havana. É nesta cidade que um amigo médico lhe solicita ajuda para tratar de doentes com problemas de fala. Desenvolve um equipamento de aplicação de choques eléctricos, através de  pequenos eléctrodos colocados na língua dos pacientes. Numa das sessões Meucci, consegue ouvir no seu receptor o gemido de um doente que estava numa sala distante. Nesse momento apercebe-se que a voz pode ser propagada por impulsos eléctricos. Estávamos em 1849! Na tentativa de desenvolver a sua descoberta, viaja com a mulher para os Estados Unidos da América, fixando-se em Clifton perto de Nova Iorque, onde montou uma pequena fábrica de produção de velas. Com o lucro que ia obtendo, tentava aperfeiçoar a sua descoberta. Em 1860 a mulher adoece gravemente e fica acamada, e numa tentativa de se manter em contacto permanente com ela, sem deixar de trabalhar, desenvolve o telégrafo falante ou originalmente chamado telettrofono. Com ele consegue falar da sua fábrica para o quarto da sua mulher, sem ter que se deslocar. Estava descoberto o telefone, em 1860, quase 17 anos antes de Bell! 
Este invento foi noticiado no jornal de lingua italiana de Nova Iorque de nome L'Eco d' Italia. Segundo Meucci a sua invenção é constituída por um diafragma de vibração com uma haste magnética e electrificada, por um fio enrolado em torno dela. Quando o diafragma vibra, altera a corrente da haste magnética. Estas alterações,  quando atingem a outra extremidade da linha, causam vibrações semelhantes no diafragma que as recebe,  reproduzindo as palavras.Tentou que vários investidores patrocinassem o seu invento, sem sucesso, pois segundo os documentos da altura não viam grande utilidade num telégrafo que falasse. Como não tinha os 25 dólares necessários para registar a patente, entregou a proposta com a intenção de registo da patente, menos dispendiosa, a 28 de Dezembro de 1871, renovando o processo em 72 e 73. Num acidente durante uma viagem de barco a vapor, sofre queimaduras graves, tendo ficado internado durante vários meses no hospital. Para sobreviver a mulher, vende todos os protótipos do marido, por 6 dólares. Quando tenta reavê-los é-lhe dito que foram comprados por um jovem inventor...que até hoje não foi identificado. Não desistindo, Meucci constrói novamente os protótipos, mas quando tente novamente renovar o pedido de intenção de patente, é informado que uma patente de telefone já está registada. Iniciam-se anos de luta com Bell em tribunal para provar a autoria do seu invento, recheados de uma série de misteriosos acontecimentos (como o desaparecimento dos papéis do registo de intenção de patente) e injustiças, que não seriam credíveis se não estivessem tão bem documentados. O tribunal considerou que Meucci não descreveu todos os elementos de um telefone falante e (...) considerou que o dispositivo Meucci não era um telefone mecânico, consistindo apenas num bocal e num fone de ouvido conectado por um fio, e que além disso a invenção de Meucci foi apenas imaginação. António Meucci morre a 18 de Outubro de 1889, em Clifton, sem ter conseguido provar que a invenção do telefone tinha sido sua. Mas a memória faz perdurar a obra. Os anos passaram, mas Meucci não foi esquecido. Em 1990, numa cena do filme de Scorsese, o Padrinho III, a personagem interpretada por Joe Mantegna, Joey Zasa faz menção a Meucci, num dialogo com Michael Corleone: A Associação Meucci elegeu-te o homem italo-americano do ano. - O Meucci. Quem é Meucci? - É o  italo-americano que inventou o telefone. Ele fez isso um ano antes de Alexander Graham. A placa da matricula do Cadilac de Joey Zasa tinha o nome de Meucci. Também na série Sopranos, Tony Soprano, interpretada por James Gandolfini, diz no oitavo episódio da primeira série:  Antonio Meucci inventou o telefone, e ele foi roubado! Toda a gente sabe disso!
E como muita gente de facto sabia, o Congresso dos Estados Unidos da América, na resolução 269 de 15 de Junho de 2002, afirma que a vida e os feitos de  Antonio Meucci devem ser conhecidos e seu trabalho na invenção do telefone deve ser reconhecido. Se Meucci tinha sido capaz de pagar a taxa da patente tudo tinha sido diferente. Demorou mais de 120 anos, mas a justiça foi feita e a verdadeira história reposta. Não se pode negar o mérito da descoberta de Bell, mas como diz o ditado o seu a seu dono, sendo neste caso mais  o telefone a seu dono!

sábado, 14 de abril de 2012

O Douro nos anos 30

O rio Douro é a personagem central deste pequeno documentário de Manoel de Oliveira. Feito em 1930, é a sua primeira obra cinematográfica. Filmado com material amador, retrata a azáfama ribeirinha da cidade do Porto. Homens, mulheres e crianças que fazem do Douro o seu dia-a-dia. Um retrato único de um tempo distante.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Garfo: o proscrito



A hora da refeição sempre foi ao longo dos tempos, um momento de reunião da família, especialmente na última da noite, altura em que terminava o dia de trabalho. Na Idade Média, tanto no campo como na cidade, as famílias de origem mais humilde, faziam a sua refeição junto ao lume onde a preparavam. Não havia utensílios para comer. Uma tigela ou uma escudela servia para colocar os alimentos líquidos ou pastosos, que daí eram sorvidos ou comidos com a ajuda de uma colher de pau. Os alimentos sólidos, se existissem, eram normalmente colocados sobre uma grossa fatia de pão e assim ingeridos. Os únicos talheres existentes eram a colher e a faca, servindo esta para cortar os pedaços maiores de comida sendo  utilizada por todos. A bebida era servida numa pequena tigela, que circulava entre todos os membros da família. As famílias com algum poder económico, tinham muitas vezes um local próprio para comer. Uma mesa, toalha, faca, colher e tigela de melhor qualidade, eram utilizados. Mas o processo era o mesmo, apenas o número de utensílios era maior, e os donos da casa poderiam ter direito a beber e a comer com o seu próprio utensílio, enquanto os restantes eram partilhados. A comida sólida, essa era comida à mão, após ter sido cortada pelas facas existentes. Pobres, burgueses, nobres e reis, todos comiam à mão. (...) A mesma faca utilizada para caçar, para matar (...) era também utilizada à mesa. Essa prática pouco higiénica de espetar os alimentos com a faca e levá-los à boca, ainda é acompanhada da acção de pegar a comida com a mão (Sandro Dias, professor da História de Gastronomia). Na altura do Império Romano, o grau de nobreza na forma de comer, media-se pelo número de dedos que se levava à boca com a comida. As pessoas da alta burguesia nunca sujavam os dedos anelar e mindinho, usando apenas os outros três. Que os plebeus metam toda a mão na boca. Nós os nobres tocaremos a comida somente com três dedos... era esta a etiqueta à mesa!
Em meados do século XI, Theodora Anna Doukaina, princesa bizantina, casou com Domenico Selvo, o Doge (do latim Dux que significa chefe) de Veneza e levou para esta cidade muitos dos seus costumes. Entre eles estava o uso do garfo durante as refeições! A polémica instalou-se entre os venezianos e o costume trazido por tão bela princesa foi considerado demoníaco pela Igreja Católica. Não tocava os acepipes com as mãos, mas fazia com que os eunucos lhe cortassem os alimentos em pequenos pedaços. Depois mal os saboreava, levando-os à boca com garfos de ouro de dois dentes (São Pedro Damião)Moralistas católicos acreditavam que seu par de dentes lembrava o forcado com o qual a iconografia clássica representa o diabo. Criticavam sua função. Asseguravam que o alimento, dádiva de Deus, devia ser levado à boca directamente pelas mãos do homem. A princesa Teodora argumentava que o garfo era generalizado no Império do Oriente, tão cristão quanto Veneza, mas não obtinha sucesso (São Boaventura)Poucos anos depois a Princesa morre de uma doença degenerativa, o que foi visto como uma punição divina, pelo seu grande "pecado". Apesar de tudo isto, a utilização do garfo foi-se espalhando pela cidade e no século XV já era de uso comum por toda a Itália. No entanto no resto da Europa não era utilizado. Em 1533, Catarina de Médici, nascida em Florença, casa com o futuro Rei de França, Henrique II, tendo levado consigo o garfo, de uso corrente em Itália. Mais uma vez a polémica instalou-se. Considerada uma sofisticação desnecessária não foi aceite pelos nobres franceses e os cozinheiros diziam que o metal do garfo alterava o sabor dos alimentos. Apenas com o Henrique III, seu filho, o uso do garfo é instituído na Corte, e de uma forma individualizada, já que até então o mesmo garfo era usado por várias pessoas. Este talher considerado inicialmente demoníaco foi gradualmente sendo adoptado pelos membros da nobreza e do clero, e passou de desnecessário a imprescindível. A partir desse momento a etiqueta à mesa obrigava ao uso de variados tipo de garfos, e quanto maior fosse o seu número mais elegante era a família que recebia! A Inglaterra do século XVII ainda não conhecia esta novidade. No diário de Thomas Coryat, famoso viajante inglês pode ler-se o seguinte: Os italianos servem-se sempre de um pequeno instrumento para comer (...). A pessoa que (...) toca a carne com os dedos ofende as regras da boa educação, é olhada com suspeita e muito criticada. Come-se assim em toda a Itália. Os garfos são de ferro ou aço; os nobres usam de prata. Adoptei este costume e  conservo-o inclusive em Inglaterra. Os meus amigos, todavia, fazem troça (...)Em Portugal o garfo foi introduzido por D. Beatriz, mãe de D.Manuel I, pelo ano de 1450, tendo sido usado pela Corte de forma muito casual. No entanto o seu uso popularizou-se na Corte apenas em 1836, após o casamento de D. Maria II com D. Fernando de Saxe-Cobourg-Gota, quando este convenceu a Rainha a usar o novo utensílio de forma habitual. Rapidamente se espalhou pela aristocracia e pela burguesia, chegando posteriormente a toda a população. 

Actualmente o garfo, juntamente com a faca e a colher, faz parte do nosso quotidiano. Para compensar o  desgraçado do garfo pelas odisseias por que passou até chegar aos nossos dias, até  existe a expressão um bom garfo, que designa aquele que gosta de comer! Não deixa no entanto de ser irónico, que actualmente existam restaurantes que apresentem pratos com um serviço denominado Finger Food, ou seja para comer à mão!



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conduzimos ou somos conduzidos?


Noutro dia estava a chegar a casa no meu carro do século XXI e parada num semáforo com uma fila do mesmo século, pus-me a pensar nos carros que tive. E fiquei nostálgica! Recuando muitos anos, mas mesmo muitos, pensei nos cartuchos de música que os meus pais tinham no carro...do tamanho de um actual livro de bolso, com uma pega numa das extremidades, faziam o furor da altura. Músicas do Demis Roussos, Nana Mouskouri, Bee Gees e muitos mais, eram a novidade do momento. E quando chegavam ao fim não era preciso rebobinar, começavam outra vez! Parecia magia. Depois vieram as cassetes. Que grande evolução. Podíamos gravar as nossas músicas, na ordem que mais gostávamos, e podíamos misturar bandas, tudo na mesma cassete. Era fabuloso. Quando acabava um lado era só virar e ouvir o outro repleto de  músicas que nos faziam encher os pulmões e cantar desalmadamente. O mais aborrecido era quando a fita rebentava de tanto ser ouvida. Enrolava-se toda no rádio do carro e era uma aflição! Primeira operação: tentar tirar a cassete sem danificar demasiado a fita; segunda operação: abrir a cassete e enrolar a fita direitinha nas bobines; terceira operação: colar os bocados que partiram com fita-cola e reconstruir a cassete; quarta operação e última: tornar a ouvir no aparelho de radio do carro e esperar que não rebentasse outra vez. A música por vezes tinha uns pequenos saltos e cortes, mas isso não importava nada. Éramos especialistas na área e o que interessava era voltar a ouvir a "nossa" música. Uns anos mais tarde apareceram os CD e tudo mudou! Arrumamos as nossas "ferramentas" de arranjo de cassetes e deixamos de ser necessários. O CD não tem fita! Mas a música é fantástica, o som fabuloso e rapidamente as cassetes são esquecidas. Podemos continuar a gravar as nossas músicas à nossa maneira, e ocupam menos espaço no carro. Escolhemos o CD que queremos e é só encostar para trás e deliciarmo-nos a ouvir a música escolhida. Mais uma evolução sem dúvida. Neste momento, quando olho à minha volta sentada no interior do meu carro todo moderno, não vejo cartuchos, nem cassetes, nem CD's..agora já nem vejo nada, só ouço. Tudo está gravado numa pen drive escondida no interior de uma pequena caixa ao lado do condutor. Centenas de músicas todas juntas. Já não pego em caixas, só carrego com o meu dedo num botão do volante e escolho o nome da música, no ecrã que tenho por cima da consola. Prático e eficaz. 
Lembro-me ainda quando abria os vidros do carro com a mão, andando à roda com uma pequena manivela colocada na porta. E o que ela rodava! Às vezes até empancava e era preciso levantar ou baixar o vidro à mão. Depois apareceram os vidros eléctricos à frente e todos queríamos experimentar. Era um continuo subir e baixar de vidros, tal era a novidade. Mesmo quando chovia tínhamos que abrir os vidros, nem que fosse só um bocadinho!Num instante todos os carros começaram a ter vidros eléctricos e deixou de ter piada, e agora já ninguém liga à fantástica novidade que foram os vidros de abertura automática. Mas mais giro era nos dias de calor. Não se falava ainda em ar condicionado, nem nada parecido. A nossa refrigeração era automática: abríamos os vidros todos do carro, e lá íamos todos despenteados tal era a ventania produzida. Não se ouvia nada, nem música, nem pais. Quando parávamos nas filas de transito, olhávamos para o lado e víamos outras famílias despenteadas e cheias de calor. E que bom era parar...tentávamos compor um pouco a cabeleira e os ouvidos deixavam de zumbir. Mas pelo menos conseguíamos refrescar o ambiente do carro, mesmo em dias de calor abrasador. Agora isso é impensável. Vamos hermeticamente fechados nos nossos invólucros, indiferentes ao que se passa lá fora, com o nosso ar condicionado ligado. Eficaz e prático. 
E a alavanca do ar, quem se lembra? Nos dias de muito frio, tínhamos que sair de casa uns minutinhos antes para aquecer o carro. Era ligar, puxar o botão do ar e carregar um bocadinho no acelerador e deixar trabalhar o motor, para aquecer. Depois devagarinho, bem devagarinho, podíamos ir empurrando o botão do ar, e rezar para que o carro não fosse a baixo. Quantos murros no volante eu dei, após os minutos de espera. Mas não havia nada a fazer. Era voltar a fazer tudo de novo, até arrancar. E os espectadores que tínhamos à volta a ver o andamento da situação, e a dar palpites... Era uma cena digna de um filme! Procuro no meu carro o botão de ar, ou coisa parecida. Não há. Nem ignição tenho...é um botão vermelho que diz start, e só tenho que lá carregar para ligar o carro. Tão simples e tão eficaz!  A tecnologia é de facto imprescindível, pois promove a  nossa segurança, o nosso conforto e faz-nos estar mais disponíveis para o prazer de conduzir. Eu adoro conduzir. Tenho imenso prazer em sentar-me ao volante, meter as velocidades e sentir o carro responder aos meus pedidos. O domínio que temos da máquina é uma sensação avassaladora! Mas se pensarmos bem agora quase tudo é computorizado: as luzes dos faróis ligam e desligam sozinhas, o limpa-vidros começa a limpar mal sente umas gotas de chuva no vidro, os sensores de estacionamento avisam quando estou a ficar perto demais de algum carro ou objecto, as portas abrem e fecham à distância, e se me esquecer fecham sozinhas...existe um manancial de funções automatizadas que há coisas que eu já nem me lembro que existem! Ainda há quem tenha mudanças automáticas, estacionamento automático, comandos por voz...existem carros que fazem quase tudo sozinhos
O que fazemos nós lá dentro? Num futuro próximo vamos conduzir carros, ou serão os carros que nos vão conduzir? Como diz Virgílio Ferreira, no seu livro Escrever, a tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não invadem apenas a parte exterior do homem, mas também os seus domínios interiores. Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o ...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em Roma...sê Português!

Para compreender o título deste pequeno texto temos que recuar ao século XVIII e ao reinado de D.João V, de cognome o Magnânimo ou Rei-Sol Português. Portugal era nessa época uma das mais ricas e importantes nações europeias, e  era considerada uma potência mundial. Possuía embaixadas em todas as cidades e uma das mais importantes era sem duvida a embaixada em Roma, na Curia Romana (curia em latim medieval significa corte real). D. João V enviou em missão diplomática, como Embaixador extraordinário junto do Papa Clemente XI, André de Mello e Castro, Conde das Galveas. A sua entrada em Roma é feita com grande pompa e circunstância, com 6 luxuosos coches, retratando o que transportava o Embaixador, a vida de Hércules conseguindo um aplauso unniversal dos Romanos e de todas as Nações, que se acham naquella grande Corte, onde fez uma tão magnifica e pomposa entrada, que a não vio maior Roma....(D. António Caetano de Sousa)
Possuidor de vastos conhecimentos religiosos, e doutorado em Coimbra, ficou responsável por todos os assuntos eclesiásticos e todas as negociações com a Cúria Romana passavam por ele. Sob a sua égide a Embaixada Portuguesa promovia faustosas festas, cheias de luxo e requinte. Representava fielmente o espírito do monarca português que achava que Portugal era a maior potência mundial. No livro "Pátria Portuguesa"  de Júlio Dantas, podemos ler o diálogo entre o Cardeal de Lisboa e D. João V que espelha bem o espírito do monarca: Veio carta de André de Mello e Castro. Trata de vários assuntos. Diz que o título de Alteza Sereníssima para o Patriarca de Lisboa, será dificil de obter do Papa... Difícil? - D. João V, mordeu o beiço, carregou os sobrolhos, vincou duas rugas na testa alta, tornada mais alta ainda pela cabeleira vinda de França e repetiu: Dificil? Diga a André de Mello e Castro que eu não tenho Embaixadores, nem enviados extraordinários, para que se permitam achar dificil aquilo que eu desejo! Se Roma se vende caro, que a compre caro! Que atire oiro às mãos cheias a esses italianos, e quando já não tiver a quem dar, que o deite ao rio. Quero que os meus Ministros sejam espelho da minha grandeza, e não representantes de um Monarca arruinado! (...) O Cardeal tomou nota, imperturbável, com a pluma branca de ganso a tremer-lhe na mão. Era neste ambiente de grandeza e superioridade que os nobres portugueses viviam em Roma. 
Durante umas festividades da cidade, o embaixador André de Mello e Castro, para homenagear a origem lusa, decidiu dar entrada grátis a todos os portugueses residentes na cidade, nos espectáculos e recepções do teatro Argentina, localizado no Largo da Torre Argentina, onde se localizava também a embaixada portuguesa. Para obter o ingresso sem pagamento, os portugueses apenas tinham que declarar a sua nacionalidade e era-lhes prontamente franqueada a entrada no recinto. A noticia foi-se espalhando rapidamente pela cidade, e os súbditos romanos, que segundo Stendhal, tinham um soberano que fazia a felicidade deles no céu e a sua desgraça na terra, começaram a acorrer em grande número ao Teatro Argentina, afirmando que eram portugueses para não pagarem bilhete. A afluência foi de tal forma grande que a expressão fare il portoghese - passar por português - ficou famosa. Ainda hoje esta expressão é usada pelos italianos de forma depreciativa, para designar aqueles que usufruem de um serviço sem pagar, mas  o que a maioria não sabe é que a sua origem não define um subterfúgio de fuga a um pagamento, mas sim um antigo privilégio dos portugueses...que não tinham que pagar para entrar! De facto saber a origem das expressões populares é importante, pois ironicamente fare il portoghese retrata o comportamento astucioso dos romanos e não dos nascidos em terras lusas. Pena é, que este privilégio não tenha durado até aos nossos tempos!

Nota: Este acontecimento está retratado num livro intitulado o Barco Pescarejo de José Coutinhas (2005).

domingo, 8 de abril de 2012

O Douro sem fim!



"O Douro sublimado.(...) Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." É assim que Miguel Torga descreve o rio Douro e as suas vertentes, paisagem sublime e deslumbrante que deixa o comum dos viajantes sem palavras. Imersa nesta beleza natural está Sanfins do Douro, rodeada dos seus socalcos vinhateiros, Património da Unesco desde 15 de Dezembro de 2001. Duas explicações surgem para a origem do seu nome: uma relacionada com um culto cristão muito antigo a São Félix, tendo posteriormente derivado para Sanfins. A outra está relacionada com a sua posição geográfica, situada nos limites do Douro e Trás-os-Montes: "São os fins do Douro"! D. Fernão Sanchez, filho bastardo de D.Dinis, foi senhor das terras de Sanfins, por doação de seu pai em 1258. Localizada no Alto Douro e pertencendo ao Concelho de Alijó, esta Vila, é habitada desde os tempos pré-históricos. Vestígios arqueológicos como machados de pedra e de sílex (período neolítico), moedas cunhadas, pontes e estradas romanas, testemunham a sua passagem pelas terras de Sanfins. O saber e tradições de diferentes povos e culturas, espalhou-se pelas suas terras, e levou as suas gentes a explorar o ouro e outros metais existentes. Mas o bem mais precioso desta terra é o seu vinho, muitas vezes denominado de Néctar dos Deuses, onde se incluem o vinho Moscatel e o vinho do Porto. Ao longo de gerações o saber foi-se transmitindo e de facto a vinicultura é o orgulho das gentes de Sanfins!
Do alto do monte, Sanfins é vigiada pelo Santuário da Senhora da Piedade, local que proporciona uma vista panorâmica sem igual e possuidora de uma beleza natural deslumbrante. No segundo Domingo do mês de Agosto celebra-se a Romaria de Nossa Senhora da Assunção, orago da freguesia, segundo uma tradição com mais de dois séculos. Esta romaria arrasta multidões de toda a zona envolvente, e a disputa de quem transporta o andor é um dos momentos altos desta tradição popular. Entre os seus filhos mais ilustres destaca-se o Padre Manuel Nóbrega, que aí terá nascido por volta de 1517, e que foi fundador da cidade de São Paulo no Brasil, e a minha MÃE! Apesar de não ser sanfinense de origem, a minha mãe era-o de coração. Nascida em plena cidade do Porto, foi nesta terra perdida no meio das vertentes verdejantes do Douro, que ela passou a sua infância em casa dos padrinhos. Toda ela vibrava por Sanfins. Como dizem as suas gentes falar de Sanfins do Douro, da sua santa, da sua terra a um sanfinense é falar-lhe ao coração, pois tanto a sua devoção à santa como à terra, são ponto de honra. E nisso a minha mãe era sanfinense pura! Os seus olhos iluminavam-se sempre que dela falava, a sua voz transmitia pura alegria quando nos contava as suas histórias, a sua alma transbordava quando via imagens ou noticias das terras do fim do Douro. Deleite puro era o que sentia. Ainda hoje recordo com muita emoção a nossa visita a Sanfins. A minha mãe tornava-se criança: calcorreava as suas ruas, revivia os seus locais, reconhecia as suas gentes. Como ela dizia muitas vezes Sanfins...é diferente!