terça-feira, 17 de abril de 2012

A ponte D.Maria II



A ponte Pênsil originalmente chamada de D.Maria II, ligava as margens das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia. Começou a ser construída  a 14 de Maio de 1841, para homenagear a Rainha D.Maria II, no 7º aniversário da sua coroação. Inaugurada a 17 de Fevereiro de 1843 foi a primeira obra permanente construída em Portugal sobre o Rio Douro. Para a sua travessia eram cobrados 5 reis por cada pessoa a pé, 20 reis por cada cavalo e 40 por um carro com uma junta de bois.  Cada cadeirinha de mãos pagava 60 reis. Os preços duplicavam à noite, passados três quartos de hora do pôr-do-sol, voltando às taxas normais três quartos de hora antes do nascer do sol. Manteve-se em funcionamento durante cerca de 45 anos, até ser substituída pela Ponte Luís I, construída ao seu lado. Foi desmontada em 1887 e actualmente apenas restam os dois pilares e a casa do Guarda Militar, que assegurava o pagamento de portagem para a sua travessia, na margem do Porto. Esta fotografia merece toda a atenção dada a sua particularidade de mostrar a extinta Ponte Pênsil a par da Ponte Luís I. É uma raridade fotográfica, já que as duas pontes coexistiram durante um curto período de tempo, entre 1886 e 1887. A imagem foi obtida por George Tait, a partir da margem de Vila Nova de Gaia.

O Telefone a seu dono!

Quando falamos sobre a história do telefone surge-nos logo um nome a ele associado: Bell. Alexander Graham Bell, um escocês nascido em Edimburgo em 3 de Março de 1847, ficou de facto para a história como o inventor de tão afamado engenho. Segundo rezam as crónicas, Bell professor de fisiologia vocal e especializado em locução, conheceu Thomas Watson na firma de Charles Williams Jr, que produzia aparelhos e dispositivos de telégrafos. Bell pretendia aperfeiçoar o seu telégrafo harmónico de forma a transmitir simultaneamente 6 a 8 mensagens em código Morse. Se eu pudesse fazer com que uma corrente eléctrica variasse de intensidade da mesma forma que o ar vibra, ao emitir um som, eu poderia transmitir a palavra telegraficamente, afirmava Bell. Na tentativa de conseguir alcançar a sua ideia,testou vários aparelhos, construiu vários tipos de telégrafos harmónicos, tendo como seu assistente Watson. Na noite de 2 de Junho de 1875, Watson puxou por uma das cordas do telégrafo harmónico, que estava demasiado apertada e o som foi ouvido no receptor da sala contigua onde se encontrava Bell. Estava descoberta a base para a invenção do telefone. No dia 10 de Março de 1876, foi feita a primeira transmissão de voz através do recém-inventado telefone: Graham Bell encontrava-se, no último andar de uma hospedaria em Boston e Watson trabalhava no piso térreo . O telefone tocou, Watson atendeu e ouviu a voz de Bell dizer: Senhor Watson, venha cá. Preciso falar-lhe. Em 14 de Fevereiro de 1876 a patente é registada em nome de Bell. Faltava espalhar a noticia da nova descoberta. Durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência Americana, realizada em Filadélfia, um protótipo do telefone foi levado para ser apresentado aos juízes da Feira, mas Bell não conseguiu demonstrar o seu funcionamento, tal foi o desprezo a que foi votado. 
Um dos ilustres visitantes da Feira, foi D.Pedro II, Imperador do Brasil, que conhecia o inventor por ter assistido uns anos antes a uma aula sua na Universidade de Boston para surdos-mudos. Ao ser cumprimentado por D.Pedro, aproveitou a sua presença e pediu-lhe que experimentasse o seu telefone. Utilizando um fio de cobre com o comprimento da sala, colocou o Imperador numa ponta com um auscultador e tendo ficado no lado oposto, numa sala mergulhada em silêncio, murmurou as seguintes palavras to be or not to be, that's the question e ouviu-se um grito admirado de D.Pedro olhando para o auscultador Meu Deus, isso fala!! Rapidamente o invento se popularizou e em menos de um ano foi criada a primeira empresa telefónica do mundo: Bell Telephone Company, em Boston, com 800 assinantes. A primeira rede pública surge a 26 de Abril de 1882 pela Empresa Edison Gower Bell Telephone Company of Europe. 
Em Portugal o primeiro ensaio foi feito a 24 de Novembro de 1877, entre a Estação do Cabo, em Lisboa e Carcavelos. Em 1882 a exploração da Rede Telefónica de Lisboa e Porto é concedida à empresa Edison Gover Bell, ficando o Estado Português responsável pelas linhas do resto da País. A primeira lista telefónica portuguesa, tinha apenas 15 subscritores, entre eles os Bombeiros Voluntários de Lisboa, o Hotel Central, o Teatro D.Maria II, o Coliseu dos Recreios e o Jornal Comércio de Portugal. Em 1887 a concessão passa para as mãos da Anglo Portuguese Telephone Company, criada em parceria com a Inglaterra especificamente para o serviço telefónico Português. Só em 1967 surgem os Telefones de Lisboa e Porto - TLP - passando o Estado Português a ser responsável por todas as linhas telefónicas do País.
E quando a história parece estar a caminhar para o seu fim, eis que voltamos ao início do século XIX, mais propriamente ao ano de 1808, altura em que nasce em Florença, António Meucci, o verdadeiro inventor do telefone!
Foi estudante de Engenharia Química e Industrial na prestigiada Academia de Florença. Depois de ter tido passagem pelo Teatro Pergola em Florença como técnico de cenários, é preso em 1833 por ter participado nos Movimentos pela Unificação da Itália.  Em 1835 emigra para Cuba, onde trabalha no Gran Teatro de Havana. É nesta cidade que um amigo médico lhe solicita ajuda para tratar de doentes com problemas de fala. Desenvolve um equipamento de aplicação de choques eléctricos, através de  pequenos eléctrodos colocados na língua dos pacientes. Numa das sessões Meucci, consegue ouvir no seu receptor o gemido de um doente que estava numa sala distante. Nesse momento apercebe-se que a voz pode ser propagada por impulsos eléctricos. Estávamos em 1849! Na tentativa de desenvolver a sua descoberta, viaja com a mulher para os Estados Unidos da América, fixando-se em Clifton perto de Nova Iorque, onde montou uma pequena fábrica de produção de velas. Com o lucro que ia obtendo, tentava aperfeiçoar a sua descoberta. Em 1860 a mulher adoece gravemente e fica acamada, e numa tentativa de se manter em contacto permanente com ela, sem deixar de trabalhar, desenvolve o telégrafo falante ou originalmente chamado telettrofono. Com ele consegue falar da sua fábrica para o quarto da sua mulher, sem ter que se deslocar. Estava descoberto o telefone, em 1860, quase 17 anos antes de Bell! 
Este invento foi noticiado no jornal de lingua italiana de Nova Iorque de nome L'Eco d' Italia. Segundo Meucci a sua invenção é constituída por um diafragma de vibração com uma haste magnética e electrificada, por um fio enrolado em torno dela. Quando o diafragma vibra, altera a corrente da haste magnética. Estas alterações,  quando atingem a outra extremidade da linha, causam vibrações semelhantes no diafragma que as recebe,  reproduzindo as palavras.Tentou que vários investidores patrocinassem o seu invento, sem sucesso, pois segundo os documentos da altura não viam grande utilidade num telégrafo que falasse. Como não tinha os 25 dólares necessários para registar a patente, entregou a proposta com a intenção de registo da patente, menos dispendiosa, a 28 de Dezembro de 1871, renovando o processo em 72 e 73. Num acidente durante uma viagem de barco a vapor, sofre queimaduras graves, tendo ficado internado durante vários meses no hospital. Para sobreviver a mulher, vende todos os protótipos do marido, por 6 dólares. Quando tenta reavê-los é-lhe dito que foram comprados por um jovem inventor...que até hoje não foi identificado. Não desistindo, Meucci constrói novamente os protótipos, mas quando tente novamente renovar o pedido de intenção de patente, é informado que uma patente de telefone já está registada. Iniciam-se anos de luta com Bell em tribunal para provar a autoria do seu invento, recheados de uma série de misteriosos acontecimentos (como o desaparecimento dos papéis do registo de intenção de patente) e injustiças, que não seriam credíveis se não estivessem tão bem documentados. O tribunal considerou que Meucci não descreveu todos os elementos de um telefone falante e (...) considerou que o dispositivo Meucci não era um telefone mecânico, consistindo apenas num bocal e num fone de ouvido conectado por um fio, e que além disso a invenção de Meucci foi apenas imaginação. António Meucci morre a 18 de Outubro de 1889, em Clifton, sem ter conseguido provar que a invenção do telefone tinha sido sua. Mas a memória faz perdurar a obra. Os anos passaram, mas Meucci não foi esquecido. Em 1990, numa cena do filme de Scorsese, o Padrinho III, a personagem interpretada por Joe Mantegna, Joey Zasa faz menção a Meucci, num dialogo com Michael Corleone: A Associação Meucci elegeu-te o homem italo-americano do ano. - O Meucci. Quem é Meucci? - É o  italo-americano que inventou o telefone. Ele fez isso um ano antes de Alexander Graham. A placa da matricula do Cadilac de Joey Zasa tinha o nome de Meucci. Também na série Sopranos, Tony Soprano, interpretada por James Gandolfini, diz no oitavo episódio da primeira série:  Antonio Meucci inventou o telefone, e ele foi roubado! Toda a gente sabe disso!
E como muita gente de facto sabia, o Congresso dos Estados Unidos da América, na resolução 269 de 15 de Junho de 2002, afirma que a vida e os feitos de  Antonio Meucci devem ser conhecidos e seu trabalho na invenção do telefone deve ser reconhecido. Se Meucci tinha sido capaz de pagar a taxa da patente tudo tinha sido diferente. Demorou mais de 120 anos, mas a justiça foi feita e a verdadeira história reposta. Não se pode negar o mérito da descoberta de Bell, mas como diz o ditado o seu a seu dono, sendo neste caso mais  o telefone a seu dono!

sábado, 14 de abril de 2012

O Douro nos anos 30

O rio Douro é a personagem central deste pequeno documentário de Manoel de Oliveira. Feito em 1930, é a sua primeira obra cinematográfica. Filmado com material amador, retrata a azáfama ribeirinha da cidade do Porto. Homens, mulheres e crianças que fazem do Douro o seu dia-a-dia. Um retrato único de um tempo distante.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Garfo: o proscrito



A hora da refeição sempre foi ao longo dos tempos, um momento de reunião da família, especialmente na última da noite, altura em que terminava o dia de trabalho. Na Idade Média, tanto no campo como na cidade, as famílias de origem mais humilde, faziam a sua refeição junto ao lume onde a preparavam. Não havia utensílios para comer. Uma tigela ou uma escudela servia para colocar os alimentos líquidos ou pastosos, que daí eram sorvidos ou comidos com a ajuda de uma colher de pau. Os alimentos sólidos, se existissem, eram normalmente colocados sobre uma grossa fatia de pão e assim ingeridos. Os únicos talheres existentes eram a colher e a faca, servindo esta para cortar os pedaços maiores de comida sendo  utilizada por todos. A bebida era servida numa pequena tigela, que circulava entre todos os membros da família. As famílias com algum poder económico, tinham muitas vezes um local próprio para comer. Uma mesa, toalha, faca, colher e tigela de melhor qualidade, eram utilizados. Mas o processo era o mesmo, apenas o número de utensílios era maior, e os donos da casa poderiam ter direito a beber e a comer com o seu próprio utensílio, enquanto os restantes eram partilhados. A comida sólida, essa era comida à mão, após ter sido cortada pelas facas existentes. Pobres, burgueses, nobres e reis, todos comiam à mão. (...) A mesma faca utilizada para caçar, para matar (...) era também utilizada à mesa. Essa prática pouco higiénica de espetar os alimentos com a faca e levá-los à boca, ainda é acompanhada da acção de pegar a comida com a mão (Sandro Dias, professor da História de Gastronomia). Na altura do Império Romano, o grau de nobreza na forma de comer, media-se pelo número de dedos que se levava à boca com a comida. As pessoas da alta burguesia nunca sujavam os dedos anelar e mindinho, usando apenas os outros três. Que os plebeus metam toda a mão na boca. Nós os nobres tocaremos a comida somente com três dedos... era esta a etiqueta à mesa!
Em meados do século XI, Theodora Anna Doukaina, princesa bizantina, casou com Domenico Selvo, o Doge (do latim Dux que significa chefe) de Veneza e levou para esta cidade muitos dos seus costumes. Entre eles estava o uso do garfo durante as refeições! A polémica instalou-se entre os venezianos e o costume trazido por tão bela princesa foi considerado demoníaco pela Igreja Católica. Não tocava os acepipes com as mãos, mas fazia com que os eunucos lhe cortassem os alimentos em pequenos pedaços. Depois mal os saboreava, levando-os à boca com garfos de ouro de dois dentes (São Pedro Damião)Moralistas católicos acreditavam que seu par de dentes lembrava o forcado com o qual a iconografia clássica representa o diabo. Criticavam sua função. Asseguravam que o alimento, dádiva de Deus, devia ser levado à boca directamente pelas mãos do homem. A princesa Teodora argumentava que o garfo era generalizado no Império do Oriente, tão cristão quanto Veneza, mas não obtinha sucesso (São Boaventura)Poucos anos depois a Princesa morre de uma doença degenerativa, o que foi visto como uma punição divina, pelo seu grande "pecado". Apesar de tudo isto, a utilização do garfo foi-se espalhando pela cidade e no século XV já era de uso comum por toda a Itália. No entanto no resto da Europa não era utilizado. Em 1533, Catarina de Médici, nascida em Florença, casa com o futuro Rei de França, Henrique II, tendo levado consigo o garfo, de uso corrente em Itália. Mais uma vez a polémica instalou-se. Considerada uma sofisticação desnecessária não foi aceite pelos nobres franceses e os cozinheiros diziam que o metal do garfo alterava o sabor dos alimentos. Apenas com o Henrique III, seu filho, o uso do garfo é instituído na Corte, e de uma forma individualizada, já que até então o mesmo garfo era usado por várias pessoas. Este talher considerado inicialmente demoníaco foi gradualmente sendo adoptado pelos membros da nobreza e do clero, e passou de desnecessário a imprescindível. A partir desse momento a etiqueta à mesa obrigava ao uso de variados tipo de garfos, e quanto maior fosse o seu número mais elegante era a família que recebia! A Inglaterra do século XVII ainda não conhecia esta novidade. No diário de Thomas Coryat, famoso viajante inglês pode ler-se o seguinte: Os italianos servem-se sempre de um pequeno instrumento para comer (...). A pessoa que (...) toca a carne com os dedos ofende as regras da boa educação, é olhada com suspeita e muito criticada. Come-se assim em toda a Itália. Os garfos são de ferro ou aço; os nobres usam de prata. Adoptei este costume e  conservo-o inclusive em Inglaterra. Os meus amigos, todavia, fazem troça (...)Em Portugal o garfo foi introduzido por D. Beatriz, mãe de D.Manuel I, pelo ano de 1450, tendo sido usado pela Corte de forma muito casual. No entanto o seu uso popularizou-se na Corte apenas em 1836, após o casamento de D. Maria II com D. Fernando de Saxe-Cobourg-Gota, quando este convenceu a Rainha a usar o novo utensílio de forma habitual. Rapidamente se espalhou pela aristocracia e pela burguesia, chegando posteriormente a toda a população. 

Actualmente o garfo, juntamente com a faca e a colher, faz parte do nosso quotidiano. Para compensar o  desgraçado do garfo pelas odisseias por que passou até chegar aos nossos dias, até  existe a expressão um bom garfo, que designa aquele que gosta de comer! Não deixa no entanto de ser irónico, que actualmente existam restaurantes que apresentem pratos com um serviço denominado Finger Food, ou seja para comer à mão!



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conduzimos ou somos conduzidos?


Noutro dia estava a chegar a casa no meu carro do século XXI e parada num semáforo com uma fila do mesmo século, pus-me a pensar nos carros que tive. E fiquei nostálgica! Recuando muitos anos, mas mesmo muitos, pensei nos cartuchos de música que os meus pais tinham no carro...do tamanho de um actual livro de bolso, com uma pega numa das extremidades, faziam o furor da altura. Músicas do Demis Roussos, Nana Mouskouri, Bee Gees e muitos mais, eram a novidade do momento. E quando chegavam ao fim não era preciso rebobinar, começavam outra vez! Parecia magia. Depois vieram as cassetes. Que grande evolução. Podíamos gravar as nossas músicas, na ordem que mais gostávamos, e podíamos misturar bandas, tudo na mesma cassete. Era fabuloso. Quando acabava um lado era só virar e ouvir o outro repleto de  músicas que nos faziam encher os pulmões e cantar desalmadamente. O mais aborrecido era quando a fita rebentava de tanto ser ouvida. Enrolava-se toda no rádio do carro e era uma aflição! Primeira operação: tentar tirar a cassete sem danificar demasiado a fita; segunda operação: abrir a cassete e enrolar a fita direitinha nas bobines; terceira operação: colar os bocados que partiram com fita-cola e reconstruir a cassete; quarta operação e última: tornar a ouvir no aparelho de radio do carro e esperar que não rebentasse outra vez. A música por vezes tinha uns pequenos saltos e cortes, mas isso não importava nada. Éramos especialistas na área e o que interessava era voltar a ouvir a "nossa" música. Uns anos mais tarde apareceram os CD e tudo mudou! Arrumamos as nossas "ferramentas" de arranjo de cassetes e deixamos de ser necessários. O CD não tem fita! Mas a música é fantástica, o som fabuloso e rapidamente as cassetes são esquecidas. Podemos continuar a gravar as nossas músicas à nossa maneira, e ocupam menos espaço no carro. Escolhemos o CD que queremos e é só encostar para trás e deliciarmo-nos a ouvir a música escolhida. Mais uma evolução sem dúvida. Neste momento, quando olho à minha volta sentada no interior do meu carro todo moderno, não vejo cartuchos, nem cassetes, nem CD's..agora já nem vejo nada, só ouço. Tudo está gravado numa pen drive escondida no interior de uma pequena caixa ao lado do condutor. Centenas de músicas todas juntas. Já não pego em caixas, só carrego com o meu dedo num botão do volante e escolho o nome da música, no ecrã que tenho por cima da consola. Prático e eficaz. 
Lembro-me ainda quando abria os vidros do carro com a mão, andando à roda com uma pequena manivela colocada na porta. E o que ela rodava! Às vezes até empancava e era preciso levantar ou baixar o vidro à mão. Depois apareceram os vidros eléctricos à frente e todos queríamos experimentar. Era um continuo subir e baixar de vidros, tal era a novidade. Mesmo quando chovia tínhamos que abrir os vidros, nem que fosse só um bocadinho!Num instante todos os carros começaram a ter vidros eléctricos e deixou de ter piada, e agora já ninguém liga à fantástica novidade que foram os vidros de abertura automática. Mas mais giro era nos dias de calor. Não se falava ainda em ar condicionado, nem nada parecido. A nossa refrigeração era automática: abríamos os vidros todos do carro, e lá íamos todos despenteados tal era a ventania produzida. Não se ouvia nada, nem música, nem pais. Quando parávamos nas filas de transito, olhávamos para o lado e víamos outras famílias despenteadas e cheias de calor. E que bom era parar...tentávamos compor um pouco a cabeleira e os ouvidos deixavam de zumbir. Mas pelo menos conseguíamos refrescar o ambiente do carro, mesmo em dias de calor abrasador. Agora isso é impensável. Vamos hermeticamente fechados nos nossos invólucros, indiferentes ao que se passa lá fora, com o nosso ar condicionado ligado. Eficaz e prático. 
E a alavanca do ar, quem se lembra? Nos dias de muito frio, tínhamos que sair de casa uns minutinhos antes para aquecer o carro. Era ligar, puxar o botão do ar e carregar um bocadinho no acelerador e deixar trabalhar o motor, para aquecer. Depois devagarinho, bem devagarinho, podíamos ir empurrando o botão do ar, e rezar para que o carro não fosse a baixo. Quantos murros no volante eu dei, após os minutos de espera. Mas não havia nada a fazer. Era voltar a fazer tudo de novo, até arrancar. E os espectadores que tínhamos à volta a ver o andamento da situação, e a dar palpites... Era uma cena digna de um filme! Procuro no meu carro o botão de ar, ou coisa parecida. Não há. Nem ignição tenho...é um botão vermelho que diz start, e só tenho que lá carregar para ligar o carro. Tão simples e tão eficaz!  A tecnologia é de facto imprescindível, pois promove a  nossa segurança, o nosso conforto e faz-nos estar mais disponíveis para o prazer de conduzir. Eu adoro conduzir. Tenho imenso prazer em sentar-me ao volante, meter as velocidades e sentir o carro responder aos meus pedidos. O domínio que temos da máquina é uma sensação avassaladora! Mas se pensarmos bem agora quase tudo é computorizado: as luzes dos faróis ligam e desligam sozinhas, o limpa-vidros começa a limpar mal sente umas gotas de chuva no vidro, os sensores de estacionamento avisam quando estou a ficar perto demais de algum carro ou objecto, as portas abrem e fecham à distância, e se me esquecer fecham sozinhas...existe um manancial de funções automatizadas que há coisas que eu já nem me lembro que existem! Ainda há quem tenha mudanças automáticas, estacionamento automático, comandos por voz...existem carros que fazem quase tudo sozinhos
O que fazemos nós lá dentro? Num futuro próximo vamos conduzir carros, ou serão os carros que nos vão conduzir? Como diz Virgílio Ferreira, no seu livro Escrever, a tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não invadem apenas a parte exterior do homem, mas também os seus domínios interiores. Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o ...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em Roma...sê Português!

Para compreender o título deste pequeno texto temos que recuar ao século XVIII e ao reinado de D.João V, de cognome o Magnânimo ou Rei-Sol Português. Portugal era nessa época uma das mais ricas e importantes nações europeias, e  era considerada uma potência mundial. Possuía embaixadas em todas as cidades e uma das mais importantes era sem duvida a embaixada em Roma, na Curia Romana (curia em latim medieval significa corte real). D. João V enviou em missão diplomática, como Embaixador extraordinário junto do Papa Clemente XI, André de Mello e Castro, Conde das Galveas. A sua entrada em Roma é feita com grande pompa e circunstância, com 6 luxuosos coches, retratando o que transportava o Embaixador, a vida de Hércules conseguindo um aplauso unniversal dos Romanos e de todas as Nações, que se acham naquella grande Corte, onde fez uma tão magnifica e pomposa entrada, que a não vio maior Roma....(D. António Caetano de Sousa)
Possuidor de vastos conhecimentos religiosos, e doutorado em Coimbra, ficou responsável por todos os assuntos eclesiásticos e todas as negociações com a Cúria Romana passavam por ele. Sob a sua égide a Embaixada Portuguesa promovia faustosas festas, cheias de luxo e requinte. Representava fielmente o espírito do monarca português que achava que Portugal era a maior potência mundial. No livro "Pátria Portuguesa"  de Júlio Dantas, podemos ler o diálogo entre o Cardeal de Lisboa e D. João V que espelha bem o espírito do monarca: Veio carta de André de Mello e Castro. Trata de vários assuntos. Diz que o título de Alteza Sereníssima para o Patriarca de Lisboa, será dificil de obter do Papa... Difícil? - D. João V, mordeu o beiço, carregou os sobrolhos, vincou duas rugas na testa alta, tornada mais alta ainda pela cabeleira vinda de França e repetiu: Dificil? Diga a André de Mello e Castro que eu não tenho Embaixadores, nem enviados extraordinários, para que se permitam achar dificil aquilo que eu desejo! Se Roma se vende caro, que a compre caro! Que atire oiro às mãos cheias a esses italianos, e quando já não tiver a quem dar, que o deite ao rio. Quero que os meus Ministros sejam espelho da minha grandeza, e não representantes de um Monarca arruinado! (...) O Cardeal tomou nota, imperturbável, com a pluma branca de ganso a tremer-lhe na mão. Era neste ambiente de grandeza e superioridade que os nobres portugueses viviam em Roma. 
Durante umas festividades da cidade, o embaixador André de Mello e Castro, para homenagear a origem lusa, decidiu dar entrada grátis a todos os portugueses residentes na cidade, nos espectáculos e recepções do teatro Argentina, localizado no Largo da Torre Argentina, onde se localizava também a embaixada portuguesa. Para obter o ingresso sem pagamento, os portugueses apenas tinham que declarar a sua nacionalidade e era-lhes prontamente franqueada a entrada no recinto. A noticia foi-se espalhando rapidamente pela cidade, e os súbditos romanos, que segundo Stendhal, tinham um soberano que fazia a felicidade deles no céu e a sua desgraça na terra, começaram a acorrer em grande número ao Teatro Argentina, afirmando que eram portugueses para não pagarem bilhete. A afluência foi de tal forma grande que a expressão fare il portoghese - passar por português - ficou famosa. Ainda hoje esta expressão é usada pelos italianos de forma depreciativa, para designar aqueles que usufruem de um serviço sem pagar, mas  o que a maioria não sabe é que a sua origem não define um subterfúgio de fuga a um pagamento, mas sim um antigo privilégio dos portugueses...que não tinham que pagar para entrar! De facto saber a origem das expressões populares é importante, pois ironicamente fare il portoghese retrata o comportamento astucioso dos romanos e não dos nascidos em terras lusas. Pena é, que este privilégio não tenha durado até aos nossos tempos!

Nota: Este acontecimento está retratado num livro intitulado o Barco Pescarejo de José Coutinhas (2005).

domingo, 8 de abril de 2012

O Douro sem fim!



"O Douro sublimado.(...) Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." É assim que Miguel Torga descreve o rio Douro e as suas vertentes, paisagem sublime e deslumbrante que deixa o comum dos viajantes sem palavras. Imersa nesta beleza natural está Sanfins do Douro, rodeada dos seus socalcos vinhateiros, Património da Unesco desde 15 de Dezembro de 2001. Duas explicações surgem para a origem do seu nome: uma relacionada com um culto cristão muito antigo a São Félix, tendo posteriormente derivado para Sanfins. A outra está relacionada com a sua posição geográfica, situada nos limites do Douro e Trás-os-Montes: "São os fins do Douro"! D. Fernão Sanchez, filho bastardo de D.Dinis, foi senhor das terras de Sanfins, por doação de seu pai em 1258. Localizada no Alto Douro e pertencendo ao Concelho de Alijó, esta Vila, é habitada desde os tempos pré-históricos. Vestígios arqueológicos como machados de pedra e de sílex (período neolítico), moedas cunhadas, pontes e estradas romanas, testemunham a sua passagem pelas terras de Sanfins. O saber e tradições de diferentes povos e culturas, espalhou-se pelas suas terras, e levou as suas gentes a explorar o ouro e outros metais existentes. Mas o bem mais precioso desta terra é o seu vinho, muitas vezes denominado de Néctar dos Deuses, onde se incluem o vinho Moscatel e o vinho do Porto. Ao longo de gerações o saber foi-se transmitindo e de facto a vinicultura é o orgulho das gentes de Sanfins!
Do alto do monte, Sanfins é vigiada pelo Santuário da Senhora da Piedade, local que proporciona uma vista panorâmica sem igual e possuidora de uma beleza natural deslumbrante. No segundo Domingo do mês de Agosto celebra-se a Romaria de Nossa Senhora da Assunção, orago da freguesia, segundo uma tradição com mais de dois séculos. Esta romaria arrasta multidões de toda a zona envolvente, e a disputa de quem transporta o andor é um dos momentos altos desta tradição popular. Entre os seus filhos mais ilustres destaca-se o Padre Manuel Nóbrega, que aí terá nascido por volta de 1517, e que foi fundador da cidade de São Paulo no Brasil, e a minha MÃE! Apesar de não ser sanfinense de origem, a minha mãe era-o de coração. Nascida em plena cidade do Porto, foi nesta terra perdida no meio das vertentes verdejantes do Douro, que ela passou a sua infância em casa dos padrinhos. Toda ela vibrava por Sanfins. Como dizem as suas gentes falar de Sanfins do Douro, da sua santa, da sua terra a um sanfinense é falar-lhe ao coração, pois tanto a sua devoção à santa como à terra, são ponto de honra. E nisso a minha mãe era sanfinense pura! Os seus olhos iluminavam-se sempre que dela falava, a sua voz transmitia pura alegria quando nos contava as suas histórias, a sua alma transbordava quando via imagens ou noticias das terras do fim do Douro. Deleite puro era o que sentia. Ainda hoje recordo com muita emoção a nossa visita a Sanfins. A minha mãe tornava-se criança: calcorreava as suas ruas, revivia os seus locais, reconhecia as suas gentes. Como ela dizia muitas vezes Sanfins...é diferente!



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nem Português, nem Espanhol!



Conta uma lenda brasileira (1) que na sexta-feira seguinte ao Reino Português se ter separado do Reino de Leão e Castela, o Rei Português mandou chamar os seu eruditos e declarou: agora que somos independentes, precisamos de uma língua própria! Vocês vão ter de a inventar! Mas atenção, quero que seja uma língua que permita que nós portugueses, possamos entender o que eles - Leoneses e Castelhanos - falam, mas eles não consigam entender  o que nós falamos! Os sábios reuniram durante muito tempo, discutiram, passaram noites sem dormir, e então, ao fim de um tempo surgiu o Português. E aconteceu o que o Rei pretendia: a maioria das pessoas que fala o português entende tudo o que dizem aqueles que falam o espanhol, mas o contrário não é verdade! Os brasileiros, quando descobriram que as diferenças eram pequenas, e numa tentativa de melhorar a comunicação com os seus vizinhos, inventaram o Portunhol. Um tipo de Português, ligeiramente diferente, que pode ser entendido por aqueles que falam português e pelos que falam espanhol. 
Lenda à parte, a verdade é que o Portunhol, é um dialecto que tem a sua origem na mistura de palavras portuguesas e espanholas, ambos línguas latinas, muito comum nas cidades de fronteira entre países lusófonos e hispânicos. Esta língua é falada nas cidades fronteiriças do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Neste último país existe mesmo um tipo de Portunhol, chamado Riverense, também conhecido por Fronteiriço
E é aqui que os estudiosos mais centraram a sua investigação pois apesar de todos os esforços das autoridades uruguaias para fazer desaparecer este dialecto ele mantém-se e teima em não desaparecer. Na actual região do Rio Grande do Sul, estabeleceram-se jesuítas espanhóis para promoveram a evangelização sob o jugo de Espanha. Os jesuítas pouco influenciaram a língua dos nativos (...) porque ao invés de fazerem os índios estudarem o espanhol, eram eles que aprendiam o guarani (Furtes Álvarez, 1964). Em 1680 os Portugueses fundaram a Colónia de Sacramento, junto ao Rio Plata, e começaram a desafiar o poder dos espanhóis nessa região. Após vários confrontos, ameaças e tratados, os portugueses recuaram territorialmente, mas mantiveram o desejo de conquista da região. Em 1816, Portugal conquista toda a Província Oriental do Paraguai, a chamada Província Cisplatina, e manteve o seu domínio até 1828, altura em que o Brasil já independente, reconhece o Uruguai como Nação. Mas a grande conquista portuguesa foi a influencia linguística. Segundo José Pedro Rona (1965), a invasão portuguesa (...) trouxe consigo um notável incremento da colonização portuguesa até aos últimos confins meridionais, nas margens do rio Plata. Obtida a independência definitiva, esta corrente colonizadora não decaiu, mas terminou por povoar com portugueses e brasileiros todo o norte do Uruguai. Portanto a base étnica, e em consequência, a linguística de toda esta zona, é portuguesa e não espanhola. Esta realidade era uma ameaça para a língua espanhola, reconhecida como língua nacional do Uruguai.
Entre 1867 e 1878 foram construídas numerosas escolas nas comunidades de fronteira com o Brasil, e fomentado o ensino do espanhol. Durante estes últimos séculos várias medidas foram implementadas pelas autoridades uruguaias, sem resultados. O Portunhol continua a ser falado por grande parte das populações de fronteira com o Brasil. A história de uma língua está indissoluvelmente unida à história do Povo que a fala (Alma Pedretti de Bólon, 1983). O Portunhol é uma língua  do quotidiano da população, vivida, sem controlo gramatical. O objectivo é fazer-se compreender, é comunicar. Parece ser uma constante brincadeira para quem a fala e para quem a ouve. São cometidos graves atropelos às duas línguas, enganos de semântica, mas o objectivo é sempre atingido: comunicar! Numa reunião no Paraguai, o Presidente Lula da Silva ao ser inquirido pelos jornalistas, respondeu em verdadeiro Portunhol amanhãna eu hablo. Si queden tranquilis; Carlos Menem, ex-presidente da Argentina numa reunião da Mercosul afirmou eu vou falar no idioma da Mercosul, que é o Portunhol; um jornalista  a comentar a eleição de Lula da Silva, disse el presidente Lula fue elecho. Até na poesia esta língua tem representação, como é exemplo disso, o poema de Mário Quintana, intitulado Edificante Poema Escrito em Portuñol:

Don Ramón se tomo um pifón:
bebia demasiado, don Ramón!
Y al volver cambaleante a su casa,
avistó em el camino:
um árbol
y um toro…
Pero como veia duplo, don Ramón
vio um árbol que era
y um árbol que no era,
um toro que era
y um toro que no era.
Y don Ramón se subió al árbol que no era:
Y lo atropelo el toro que era.
Triste fim de don Ramón!

Como diz um velho ditado português, o que não tem solução solucionado está, e contra tudo e contra todos, o Portunhol faz parte da cultura da América Latina, e tem um dia próprio: a última 6ªfeira do mês de Outubro.
Esta persistência da cultura popular sobre as decisões governamentais, faz-nos pensar, numa altura em que o Acordo Ortográfico, quer regulamentar a língua portuguesa!


Nota: Em vez de língua espanhola deveria estar escrito língua castelhana, mas como se trata de um texto que gira à volta de um dialecto popular, não alterei a designação para castelhana, mantendo o seu sentido mais popular


(1) não consegui comprovar a origem desta lenda, mas por ter uma ironia própria adequa-se à própria história do Portunhol, sempre inventivo e sem regras.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um Rei na cidade

A visita do Rei D. Manuel II à cidade do Porto em 1909. São 59 segundos de um filme raro que documenta um passado já longínquo.




Chapéus...havia muitos!



Ninguém se esquece da tão célebre frase de Vasco Santana, no filme "O Pátio das Cantigas" chapéus, há muitos seu palerma! E era verdade...mas actualmente a frase já não é tão verdadeira, e devia ser substituída por chapéus...havia muitos! De facto actualmente o chapéu caiu em desuso e são as mulheres que mais o utilizam como complemento de um traje formal ou de cerimónia. No dia a dia o chapéu não é usado! A palavra chapéu, deriva das palavras latinas caput (cabeça) e capellus (capuz), e posteriormente da antiga palavra francesa chapel mais recentemente chapeau. Inicialmente o chapéu surgiu como protecção da cabeça contra as adversidades do clima: chuva, frio, vento e sol. Na pré-história, teriam o formato de um gorro feito de peles de animais e eram privilégio dos homens responsáveis pela defesa da tribo ou do clã. Também poderiam ser de tecido, conhecidos como turbantes, já se conhecendo a sua existência no ano 4500 aC. Há cerca de 3000 aC, na Mesopotâmia surgem os chapéus que são uma mistura de capuz com elmo, que se foram aprimorando ao longo dos séculos transformando-se rapidamente num adereço de status social, militar e sacerdotal do antigo Egipto. A primeira representação conhecida de um chapéu, surgiu numa pintura num túmulo de Thebes, onde estava retratado um trabalhador com um chapéu de palha. No entanto é na Grécia Antiga que aparece num formato mais semelhante ao actual, contendo as partes principais do adorno e não sendo apenas uma tira a proteger a cabeça. Denominado de Pétaso grego teve origem no século IV, assim como o Píleo que era a versão sem abas. Para os Romanos, Pétaso foi substituído pela palavra latina capucho, tendo dado origem ao capacete.  Coroa, mitra, elmo, capacete ou chapéu tudo tem a função de proteger a cabeça, mas com significados diferentes. O chapéu deixou de ser apenas um objecto útil e passou a ser um símbolo social e de poder. Na Roma antiga, em 1000aC, os escravos não podiam usar qualquer tipo de chapéu, e quando conseguiam a carta de alforria, usavam um pequeno chapéu semelhante ao barrete, como sinal da sua liberdade. Este tipo de barrete foi posteriormente relembrado pelos Franceses Republicanos que utilizavam os bonnet rouge como símbolo da sua luta, na Revolução Francesa. Os chapéus existem por causa da necessidade, mesmo que simbólica, de preservar  a parte mais nobre do Homem: a cabeça, e portanto o pensamento(1). Tapar e proteger a cabeça é de facto um costume ancestral. 


No entanto este costume era privilégio masculino, já que até finais do século XVI, as mulheres que eram frequentemente obrigadas a cobrir a cabeça, faziam-no com mantilhas e véus. No final do século XVIII, e muito graças à Revolução Francesa, as mulheres começaram a usar chapéus como acessório de moda, desenvolvendo-se a partir de então o comércio de chapéus com a abertura de chapelarias, um pouco por todo o mundo. No entanto a mudança não foi muito bem aceite pelos homens e em Portugal, na Revista Contemporanea de Portugal e Brazil, de 1865 pode ler-se o seguinte texto: A decadência do véu é uma realidade (...) mas pouco a pouco ir-se-ha acreditando que o chapéu não chega a impossibilitar as damas de agradarem a Deos. E depois, o véu durava annos, e o chapéu dura um mês! (...) se o véu enfeitou as nossas mães, não é razão para ser immortal (...) o chapéu não é bastante sisudo, é francez, tem história elegante e tem feitio - tem feitio, o pérfido! - e deixa ver o rosto tentador, o endemoinhado inimigo da tranquilidade conjugal; com ele a esposa fica mais bonita: de véu não fica bonita nem feia, fica escondida (...) o chapéu é capaz de fazer perder casamento a alguns (...).

Ao longo dos tempos o chapéu foi-se tornando peça imprescindível do vestuário, e ultrapassou em muito o seu papel de protecção, tornando-se um utensílio de moda. Raro era o homem que saía de casa sem o seu chapéu e rara era a mulher de alto estatuto social que se apresentava sem o seu adorno de cabeça. Era também uma forma de comunicar: o tirar de um chapéu era sinal de respeito e também reconhecimento de superioridade social. Existem imensos tipos de chapéus, de diferentes tamanhos e feitios:
- Chapéu de coco, assim denominado por ter sido encomendado no século XIX, por um aristocrata inglês de nome Coke, que pretendia ter um chapéu mais pequeno e resistente, de forma a que pudesse caçar a raposa, sem que estivesse sempre a perder o seu chapéu, por embater nos ramos das árvores. Tornou-se símbolo da cultura urbana inglesa.
- Chapéu Panamá,  que apesar do nome tem origem no Equador. Feito de palha, deve a sua popularidade ao presidente Theodore Roosevelt, que  recebeu um como oferta, durante a inauguração do Canal do Panamá, e ignorando a sua origem, o denominou de chapéu do Panamá.
- Chapéu borsalino, de origem italiana, ficou com o nome do seu criador Giuseppe Borsalino, e surgiu em 1856 em França. É o típico chapéu masculino de feltro.
- Cartola ou originalmente chamado chapéu alto
- Boné, ainda muito utilizado pelas camadas mais jovens, surge de uma alteração da palavra francesa bonnet, que tem origem no latim obunnis (espécie de capa)
- Boina, muito utilizado em climas mais frios, o seu nome é de origem basca, e provem da palavra francesa bonnet 
Associo os chapéus aos meus avós tanto ao materno como ao paterno. Nenhum deles saía de casa sem o seu chapéu elegantemente colocado na cabeça. Enquanto o meu avô materno usava religiosamente o seu chapéu de abas largas, o meu avô paterno tinha uma adoração pelos seus chapéus borsalinos. Ainda me lembro de o ver escovar com esmero e imenso cuidado o feltro castanho, cinzento ou preto dependendo da fatiota que escolhesse. Dizia sempre que se saísse à rua sem o seu chapéu na cabeça, sentia-se nu! O que diria ele se se misturasse na multidão e visse tanta gente nua...

(1) A. Colonetti, G.Sassi M. M. Sigiani, Cosa ti sei messo in teste, Mazzotta, Milan 1991

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Nação Italiana em Lisboa

A Igreja do Loreto, também conhecida como a Igreja dos Italianos, está situada junto ao Largo do Chiado e à Praça de Camões, em frente ao Bairro Alto, na cidade de Lisboa. O culto à Nossa Senhora do Loreto, muito importante em Itália, foi introduzido em Portugal por mercadores venezianos e genoveses, no século XIV. Lisboa era nesta altura, uma das mais importantes cidades europeias, com um enorme fluxo comercial, atraindo inúmeros estrangeiros, particularmente italianos. Em 1517, após terem obtido permissão do Papa Leão X e do rei D. Manuel I, a comunidade italiana fundou a sua primeira Igreja, numa ermida de evocação a Santo António, que ficava contígua às antigas Portas de Santa Catarina, ainda na parte exterior das muralhas da cidade. Após obras de ampliação da pequena ermida, e tendo ficado sob administração directa do Papa Leão X (1518) e agregada à Basílica de São João de Latrão (Catedral do Bispo de Roma), o novo templo abriu ao culto a 8 de Janeiro de 1522, tendo-se celebrado a primeira missa já no reinado de D.João III. A Igreja do Loreto tornou-se rapidamente o pólo aglutinador de toda a comunidade italiana residente em Lisboa(1). Ao longo dos anos, esta comunidade foi recheando a sua Igreja com obras de arte de artistas italianos e com pinturas de frescos nos tectos e paredes. Para poderem financiar todos estes gastos, criaram uma taxa de 4% sobre todas as mercadorias italianas que chegavam a Lisboa, e que revertiam a favor da Igreja. 
Anos mais tarde, requereram que a Igreja do Loreto fosse elevada à categoria de Paróquia de todos os italianos residentes em Lisboa. A rejeição a  esta proposta pela parte do Cabido de Lisboa foi pronta, e foi feita queixa ao Papa Paulo III, que encaminhou o processo para o Tribunal da Rota (tribunal que funcionava como instância superior no grau de apelo junto da Sé Apostólica, para tutelar os direitos na Igreja), tendo este decidido que a criação de tal Paróquia só poderia ser aceite com o consentimento do Cabido de Lisboa. O certo é que 5 anos passaram, e o Cabido autorizou a criação da Paróquia do Loreto, sem nunca se ter sabido ao certo o que levou à mudança de atitude. Os italianos conseguiram finalmente o que há muito lutavam: uma Paróquia italiana em plena cidade de Lisboa. Era uma Paróquia que não tinha freguesia designada, já que eram seus paroquianos, todos os indivíduos da Nação Italiana residentes na cidade, independentemente do local onde vivessem. Segundo a opinião dos escritores da altura, a Igreja do Loreto, era um templo faustoso e digno do lugar que ocupava na cidade. Tornou-se um lugar singular onde os italianos integrados na vida lisboeta, tinham a possibilidade de regressar às suas origens e ouvir a sua língua materna. Sempre presididos por padres provenientes de Itália, aí eram baptizados, casavam e eram sepultados, sempre em solo italiano, dado que o local da Igreja era pertença da Nação Italiana. Em 29 de Março de 1651 um violento incêndio, reduz a Igreja a cinzas, tendo-se apenas salvado o cofre do Santíssimo Sacramento. Os prejuízos foram enormes, mas as obras de reconstrução começaram poucos dias depois e ao fim de 25 anos a Igreja estava novamente de pé. Todas as obras foram financiadas pelos habitantes da Nação Italiana. 
No dia 1 de Novembro de 1755, deu-se o grande terramoto de Lisboa, que dizimou milhares de pessoas. A Igreja do Loreto sofreu poucos danos estruturais com o terramoto, e a comunidade italiana que assistia à missa, pouco ou nada sofreu. Graças a esta Igreja, estou a escrever este texto, já que o meu 6º avô materno, de nome Francesco George Dragazzi, veneziano nascido em San Pietro de Castello, estava nesse dia a assistir à missa. Baptizou todos os filhos na Igreja do Loreto e aí foi sepultado. Na assento de baptismo do seu filho Caetano Alberto Dragazzi (meu 5º avô) pode-se ler...baptizei nesta Igreja Parochial da Naçam Italiana, Caetano Alberto (...).
Aqui fica a história pouco comum, de persistência e de querer de uma comunidade, que chegou até aos nossos dias...actualmente a Igreja do Loreto ainda é presidida por padres italianos. 

(1) Clio: Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003

sexta-feira, 30 de março de 2012

Profissões num Portugal antigo

Profissões que já desapareceram, outras que ainda existem...retrato de um Portugal antigo cheio de histórias que vão desaparecendo.





quarta-feira, 28 de março de 2012

Ponte de Cavez: A Fronteira


A notável Ponte de Cavez, localizada na freguesia com o mesmo nome, no Concelho de Cabeceiras de Basto, foi construída no século XIII. Há mais de sete séculos que esta fantástica construção de pedra simultaneamente separa e une o Minho a Trás-os-Montes. Esta magnífica obra é tradicionalmente atribuída a Frei Lourenço Mendes. Segundo Frei Luis de Sousa, Lourenço Mendes lançou-se na construção da Ponte de Cavez porque viu com os seus olhos o trabalho e o perigo com que se vadeava o rio (...) rio grosso de agoas e furioso a maior parte do anno, já que a ligação do Minho a Trás os Montes se fazia apenas por barco. Ao chamar para si a responsabilidade da construção de tamanha obra, Frei Lourenço, pensava que esta iria ter grande impacto na população quer a nível social como a nível espiritual. Mas os seus conterrâneos, ciosos dos seus bens materiais, e não acreditando que a ponte seria construída, negaram-se a participar nos trabalhos e nas despesas, por não quererem arriscar o seu precioso dinheiro e duvidarem da capacidade obreira do Frei. Foram por isso contratados trabalhadores de fora da freguesia, e a obra foi custeada por Frei Lourenço, graças aos donativos obtidos pelas suas pregações. No entanto foi D.Sancho II, que numa das suas jornadas a Trás-os-Montes, financiou o término da obra. A muito custo, a obra fez-se, e finalmente o Minho e Trás-os-montes têm a tão ambicionada ligação. Á vista da ponte terminada e de pé, a população em grande entusiasmo aclama o Mestre e sucedem-se os elogios ao autor da obra. O mestre Lourenço Mendes sente tamanha alegria que  morre fulminado por uma congestão debaixo debaixo dos arcos da sua ponte. Segundo a lenda, o povo agradecido, e com o apoio das autoridades civis e do clero, constrói ao Mestre um túmulo na própria ponte, onde grava a inscrição:  Esta é a Ponte de Cavez, e aqui jaz quem a  fez. 
São muitas as histórias que surgem à volta desta Ponte. Na sua margem direita do lado Minhoto, no final da Idade Média, terá existido uma gafaria  (local onde se tratavam os leprosos), que utilizava a água da Fonte de Águas Sulfurosas situada na margem esquerda, lado Transmontano, para o tratamento dos seus doentes. O povo ainda hoje diz que esta água, se for bebida na manhã de 24 de Agosto - dia de São Bartolomeu - antes de o raiar do sol, cura o corpo de todas as dores e doenças, tanto as presentes como as futuras. Na margem Minhota do rio Tâmega existe também, anexa ao solar nobre da Casa da Ponte,  uma capelinha dedicada a São Bartolomeu. Quando a 24 de Agosto, dia de São Bartolomeu, se realizava a romaria em honra do santo, minhotos e transmontanos envolviam-se em lutas e pancadaria. Antigamente o que fazia a divisão com Trás-os-Montes era o rio. Portanto diziam que o Santo pertencia àquela parte e que os do lado de cá os roubaram, diziam que ele tinha aparecido lá na fonte, que é do outro lado do rio. Depois houve a tradição da festa meter sempre aquela pancadaria. Os daqui tinham o santo mas não iam à água, os dacolá iam à água mas não vinham ao santo (feitor da Quinta da Casa da Ponte). De um lado e de outro da ponte, desafiavam-se mutuamente uns dizendo vinde à fonte e outros respondendo vinde ao santo. Pelo meio ainda existia a disputa pelas raparigas que se encontravam na Romaria. O assunto era sempre resolvido ao murro, à paulada e mesmo ao tiro (…) até Camilo várias vezes se refere ao local pois teria assistido a muitos encontros destemidos de varapau entre minhotos e transmontanos, sendo frequente a festa de S. Bartolomeu acabar com mortos (Almeida,1988).  São Bartolomeu tem os atributos de milagreiro e exorcista, e o exorcismo dos possuídos pelo demónio é outro ponto alto da Romaria. Por este facto, o santo é habitualmente representado com uma espada na mão e o demónio acorrentado aos pés, como se pode ver na imagem de madeira ainda hoje existente no interior da capela. Camilo Castelo Branco no seu conto "Como ela o amava" escrito em 1863, descreve muito bem o que presenciou quando esteve em Cavez em 1842: Aos 24 de Agosto, na povoação chamada Cavez cuja ponte sobre o Tamega, extrema pelo Norte as duas provincias de Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de São Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás. Vem aqui de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. (...) As mulheres é que por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espiritos infernais (...) gentis mocetonas eram aquelas que eu vi na igreja de Cavez, em 1842. Há quantos anos isto vai. Naquele tempo, até as mulheres com espirito ruim me pareciam boas. 
A minha história mistura-se com a história desta Ponte. Lugares como Moimenta, Cavez, Arosa, Gondiães fazem parte da minha história genética e desde 1601 (primeiro registo documentado) que a minha família paterna viveu nestas terras de fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes. As histórias foram passando de geração em geração, narrando namoros começados nas Romarias de São Bartolomeu, sofrimentos conquistados nas rixas com os de além rio e muitas outras situações do dia-a-dia que tiveram como palco as terras de Basto. Todas estas situações foram ainda vivenciadas pelos meus avós paternos, que nasceram em Cavez não muito longe da famosa Ponte e pelo meu pai, assíduo visitante destas terras durante as férias escolares. Cavez foi ainda palco de muitas férias em família,  e o rio Tâmega e a Ponte que o atravessa, presenciaram inúmeros momentos de pura felicidade, que tão bem seriam descritos pelas românticas palavras de Camilo.



terça-feira, 27 de março de 2012

Expressões Populares: regresso ao Passado


A utilização de expressões e palavras populares é tão comum no nosso dia a dia, que nem paramos para pensar no seu significado. A riqueza das suas origens é tão grande que vale a pena perder uns minutos do nosso precioso tempo para podermos perceber melhor o porquê da sua utilização.

Casa da mãe Joana - expressão de língua portuguesa que descreve um lugar ou situação onde vale tudo, não existe ordem e onde predomina a confusão, a desordem e a balbúrdia. A sua origem remonta ao século XIV e deve-se a Joana de Nápoles que viveu na Idade Média, entre 1326 e 1382, tendo sido Rainha de Nápoles e Condessa de Provença. Em 1346 passa a residir em Avignon, França, e no ano seguinte regulamentou os bordéis da cidade e uma das suas normas dizia que " o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar". Os bordéis passaram a ser designados por casa da mãe Joana.Transposta para Portugal passou a descrever um local onde todos podem entrar sem necessidade de autorização, onde todos fazem o que querem e onde não há qualquer disciplina ou organização.

De mãos a abanar - A origem para esta expressão está relacionada com os imigrantes que chegavam ao Brasil no século 19. Eles costumavam trazer da Europa ferramentas para o cultivo da terra, como foices e enxadas, além de animais, como vacas e porcos. Uma ferramenta poderia indicar uma profissão, uma habilidade, demonstrava disposição para o trabalho. O contrário, chegar de mãos a abanar, indicava preguiça e sem vontade para trabalhar. Actualmente, quando uma pessoa vai a uma festa, mandam os bons modos que leve um presente. Se não o faz, diz-se que chegou de mãos a abanar.

Dor de cotovelo - expressão popular que provém da imagem romântica de um sofredor de amor, sozinho num balcão de um bar, apoiado nos cotovelos a chorar um amor perdido. Por permanecerem muito tempo nesta posição os solitários românticos acabavam por ficar com dores nos cotovelos. Actualmente é comum usar esta expressão para designar o despeito provocado pelo ciúme, pela inveja ou mesmo a tristeza causada por uma decepção amorosa.

Para Inglês ver - Apesar de haver algumas versões para a origem desta expressão a mais aceite remonta ao tempo de D.Pedro IV. O Governo Regencial, que administrava o Brasil enquanto o príncipe D.Pedro II do Brasil não atingisse a maioridade, promulgou uma lei em 1831, que declarava livres todos os africanos que chegassem ao Brasil em navios traficantes de escravos, de forma a satisfazer os ingleses que lutavam ferozmente para que a escravidão fosse abolida. Os ingleses lideravam o consumo do café brasileiro. Mas o sentimento geral era de que a lei nunca seria cumprida, circulando na Corte e na Câmara dos Deputados, que o regente Feijó fizera uma lei apenas para Inglês ver. Esta expressão passou então a ser usada para designar leis que só existem no papel como também todas as coisas feitas apenas para preservar as aparências, sem que efectivamente ocorra.


Tirar o cavalinho da chuva - Esta expressão que significa desistir de um intento, perder ilusões, abandonar uma ideia, teve origem no inicio do século XIX. No interior o transporte mais comum era o cavalo. Quando uma visita era breve o cavalo era deixado ao relento, em frente à casa do anfitrião. Se visita fosse demorada o cavalo era colocado num local protegido da chuva. No entanto o convidado só poderia colocar o seu cavalo num local abrigado se o anfitrião quisesse prolongar a sua estadia e a visita fosse agradável dizendo "pode tirar o seu cavalo da chuva que você ainda vai por cá demorar". Com o tempo o sentido da expressão alterou-se e passou a designar situações em que se abandonava uma intenção ou um propósito, e a palavra cavalo adquiriu um sentido irónico passando a cavalinho.


Vai pentear macacos - Teve origem no provérbio português "mal grado haja a quem asno penteia", que aparece pela primeira vez registado num documento em 1651. Nessa época escovar ou pentear animais de carga como burros e jumentos era considerada uma tarefa inglória, pois estes animais não necessitavam de ter boa aparência para realizar o trabalho de carga a que estavam destinados. Vai pentear macacos é a adaptação brasileira desse ditado português . Os portugueses até meados do século XVII desconheciam o termo macaco, e utilizavam a palavra bugio para se referir a esse animal e criaram a expressão vai bugiar, que tem um significado semelhante ao vai pentear macacos, que ainda hoje é utilizada em Portugal e em algumas localidades no Brasil. Todas elas têm o mesmo significado.

Sem eira nem beira Refere-se a pessoas sem bens, sem posses. Eira é um terreno de terra batida ou cimento onde grãos ficam ao ar livre para secar. Beira é a beirada da eira. Quando uma eira não tem beira, o vento leva os grãos e o proprietário fica sem nada.  Esta expressão pode ter ainda outra explicação. Antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira como era chamada a parte mais alta do telhado. As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer este telhado , então construíam somente a tribeira ficando assim sem eira nem beira.


Ao Deus dará - Expressão que surgiu como resposta tradicionalmente dada aos que estendiam a mão à caridade pública. Ao pedido: "Uma esmolinha, pelo amor de Deus" - a resposta era invariavelmente "Deus dará", e que depois passou a ser "Deus o favoreça." Os autores portugueses Gomes Monteiro e Costa Leão, em "A Vida Misteriosa das Palavras", dizem que, no século XVII, viveu no Recife um negociante português que, de tanto usar aquelas duas palavras, passou a chamar-se Manuel Álvares Deus Dará. O nome passou para o seu filho, Simão Álvares Deus Dará, que exerceu o cargo de provedor-mor da Fazenda do Brasil. Estar ao Deus dará é estar na miséria, entregue à sorte, sem nenhuma ajuda dos homens e podendo contar apenas com a protecção celestial.


Fechado a sete chaves No século XIII, eram usadas arcas para guardar jóias e documentos da corte de Portugal. Cada arca tinha quatro fechaduras e era aberto por quatro chaves diferentes, distribuídas pelos altos funcionários do Reino. Com o tempo, as arcas caíram em desuso. E algo que antes estava bem fechado a quatro chaves, passou a ser fechado a sete chaves, devido ao misticismo associado ao número 7. Esse misticismo teve origem nas religiões primitivas babilónicas e egípcias, que faziam o culto dos sete planetas conhecidos na época. Assim, a expressão fechar a sete chaves está relacionada ao acto de guardar algo com segurança e sob sigilo absoluto.

 
Tintim por tintim - Expressão muito utilizada na língua portuguesa é utilizada para descrever alguma coisa com muito detalhe. Segundo o filólogo João Ribeiro, “tintim é a onomatopeia do tilintar de moedas”, ou seja, tintim é o barulho que uma moeda faz quando cai sobre outra. Na sua origem, a expressão tintim por tintim era usada para se referir a uma conta ou dívida paga até a última moeda. Assim, quando queremos obter informações precisas sobre algum facto ou situação, costumamos dizer: "Conte-me tudo, tintim por tintim”.