quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conduzimos ou somos conduzidos?


Noutro dia estava a chegar a casa no meu carro do século XXI e parada num semáforo com uma fila do mesmo século, pus-me a pensar nos carros que tive. E fiquei nostálgica! Recuando muitos anos, mas mesmo muitos, pensei nos cartuchos de música que os meus pais tinham no carro...do tamanho de um actual livro de bolso, com uma pega numa das extremidades, faziam o furor da altura. Músicas do Demis Roussos, Nana Mouskouri, Bee Gees e muitos mais, eram a novidade do momento. E quando chegavam ao fim não era preciso rebobinar, começavam outra vez! Parecia magia. Depois vieram as cassetes. Que grande evolução. Podíamos gravar as nossas músicas, na ordem que mais gostávamos, e podíamos misturar bandas, tudo na mesma cassete. Era fabuloso. Quando acabava um lado era só virar e ouvir o outro repleto de  músicas que nos faziam encher os pulmões e cantar desalmadamente. O mais aborrecido era quando a fita rebentava de tanto ser ouvida. Enrolava-se toda no rádio do carro e era uma aflição! Primeira operação: tentar tirar a cassete sem danificar demasiado a fita; segunda operação: abrir a cassete e enrolar a fita direitinha nas bobines; terceira operação: colar os bocados que partiram com fita-cola e reconstruir a cassete; quarta operação e última: tornar a ouvir no aparelho de radio do carro e esperar que não rebentasse outra vez. A música por vezes tinha uns pequenos saltos e cortes, mas isso não importava nada. Éramos especialistas na área e o que interessava era voltar a ouvir a "nossa" música. Uns anos mais tarde apareceram os CD e tudo mudou! Arrumamos as nossas "ferramentas" de arranjo de cassetes e deixamos de ser necessários. O CD não tem fita! Mas a música é fantástica, o som fabuloso e rapidamente as cassetes são esquecidas. Podemos continuar a gravar as nossas músicas à nossa maneira, e ocupam menos espaço no carro. Escolhemos o CD que queremos e é só encostar para trás e deliciarmo-nos a ouvir a música escolhida. Mais uma evolução sem dúvida. Neste momento, quando olho à minha volta sentada no interior do meu carro todo moderno, não vejo cartuchos, nem cassetes, nem CD's..agora já nem vejo nada, só ouço. Tudo está gravado numa pen drive escondida no interior de uma pequena caixa ao lado do condutor. Centenas de músicas todas juntas. Já não pego em caixas, só carrego com o meu dedo num botão do volante e escolho o nome da música, no ecrã que tenho por cima da consola. Prático e eficaz. 
Lembro-me ainda quando abria os vidros do carro com a mão, andando à roda com uma pequena manivela colocada na porta. E o que ela rodava! Às vezes até empancava e era preciso levantar ou baixar o vidro à mão. Depois apareceram os vidros eléctricos à frente e todos queríamos experimentar. Era um continuo subir e baixar de vidros, tal era a novidade. Mesmo quando chovia tínhamos que abrir os vidros, nem que fosse só um bocadinho!Num instante todos os carros começaram a ter vidros eléctricos e deixou de ter piada, e agora já ninguém liga à fantástica novidade que foram os vidros de abertura automática. Mas mais giro era nos dias de calor. Não se falava ainda em ar condicionado, nem nada parecido. A nossa refrigeração era automática: abríamos os vidros todos do carro, e lá íamos todos despenteados tal era a ventania produzida. Não se ouvia nada, nem música, nem pais. Quando parávamos nas filas de transito, olhávamos para o lado e víamos outras famílias despenteadas e cheias de calor. E que bom era parar...tentávamos compor um pouco a cabeleira e os ouvidos deixavam de zumbir. Mas pelo menos conseguíamos refrescar o ambiente do carro, mesmo em dias de calor abrasador. Agora isso é impensável. Vamos hermeticamente fechados nos nossos invólucros, indiferentes ao que se passa lá fora, com o nosso ar condicionado ligado. Eficaz e prático. 
E a alavanca do ar, quem se lembra? Nos dias de muito frio, tínhamos que sair de casa uns minutinhos antes para aquecer o carro. Era ligar, puxar o botão do ar e carregar um bocadinho no acelerador e deixar trabalhar o motor, para aquecer. Depois devagarinho, bem devagarinho, podíamos ir empurrando o botão do ar, e rezar para que o carro não fosse a baixo. Quantos murros no volante eu dei, após os minutos de espera. Mas não havia nada a fazer. Era voltar a fazer tudo de novo, até arrancar. E os espectadores que tínhamos à volta a ver o andamento da situação, e a dar palpites... Era uma cena digna de um filme! Procuro no meu carro o botão de ar, ou coisa parecida. Não há. Nem ignição tenho...é um botão vermelho que diz start, e só tenho que lá carregar para ligar o carro. Tão simples e tão eficaz!  A tecnologia é de facto imprescindível, pois promove a  nossa segurança, o nosso conforto e faz-nos estar mais disponíveis para o prazer de conduzir. Eu adoro conduzir. Tenho imenso prazer em sentar-me ao volante, meter as velocidades e sentir o carro responder aos meus pedidos. O domínio que temos da máquina é uma sensação avassaladora! Mas se pensarmos bem agora quase tudo é computorizado: as luzes dos faróis ligam e desligam sozinhas, o limpa-vidros começa a limpar mal sente umas gotas de chuva no vidro, os sensores de estacionamento avisam quando estou a ficar perto demais de algum carro ou objecto, as portas abrem e fecham à distância, e se me esquecer fecham sozinhas...existe um manancial de funções automatizadas que há coisas que eu já nem me lembro que existem! Ainda há quem tenha mudanças automáticas, estacionamento automático, comandos por voz...existem carros que fazem quase tudo sozinhos
O que fazemos nós lá dentro? Num futuro próximo vamos conduzir carros, ou serão os carros que nos vão conduzir? Como diz Virgílio Ferreira, no seu livro Escrever, a tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não invadem apenas a parte exterior do homem, mas também os seus domínios interiores. Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o ...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em Roma...sê Português!

Para compreender o título deste pequeno texto temos que recuar ao século XVIII e ao reinado de D.João V, de cognome o Magnânimo ou Rei-Sol Português. Portugal era nessa época uma das mais ricas e importantes nações europeias, e  era considerada uma potência mundial. Possuía embaixadas em todas as cidades e uma das mais importantes era sem duvida a embaixada em Roma, na Curia Romana (curia em latim medieval significa corte real). D. João V enviou em missão diplomática, como Embaixador extraordinário junto do Papa Clemente XI, André de Mello e Castro, Conde das Galveas. A sua entrada em Roma é feita com grande pompa e circunstância, com 6 luxuosos coches, retratando o que transportava o Embaixador, a vida de Hércules conseguindo um aplauso unniversal dos Romanos e de todas as Nações, que se acham naquella grande Corte, onde fez uma tão magnifica e pomposa entrada, que a não vio maior Roma....(D. António Caetano de Sousa)
Possuidor de vastos conhecimentos religiosos, e doutorado em Coimbra, ficou responsável por todos os assuntos eclesiásticos e todas as negociações com a Cúria Romana passavam por ele. Sob a sua égide a Embaixada Portuguesa promovia faustosas festas, cheias de luxo e requinte. Representava fielmente o espírito do monarca português que achava que Portugal era a maior potência mundial. No livro "Pátria Portuguesa"  de Júlio Dantas, podemos ler o diálogo entre o Cardeal de Lisboa e D. João V que espelha bem o espírito do monarca: Veio carta de André de Mello e Castro. Trata de vários assuntos. Diz que o título de Alteza Sereníssima para o Patriarca de Lisboa, será dificil de obter do Papa... Difícil? - D. João V, mordeu o beiço, carregou os sobrolhos, vincou duas rugas na testa alta, tornada mais alta ainda pela cabeleira vinda de França e repetiu: Dificil? Diga a André de Mello e Castro que eu não tenho Embaixadores, nem enviados extraordinários, para que se permitam achar dificil aquilo que eu desejo! Se Roma se vende caro, que a compre caro! Que atire oiro às mãos cheias a esses italianos, e quando já não tiver a quem dar, que o deite ao rio. Quero que os meus Ministros sejam espelho da minha grandeza, e não representantes de um Monarca arruinado! (...) O Cardeal tomou nota, imperturbável, com a pluma branca de ganso a tremer-lhe na mão. Era neste ambiente de grandeza e superioridade que os nobres portugueses viviam em Roma. 
Durante umas festividades da cidade, o embaixador André de Mello e Castro, para homenagear a origem lusa, decidiu dar entrada grátis a todos os portugueses residentes na cidade, nos espectáculos e recepções do teatro Argentina, localizado no Largo da Torre Argentina, onde se localizava também a embaixada portuguesa. Para obter o ingresso sem pagamento, os portugueses apenas tinham que declarar a sua nacionalidade e era-lhes prontamente franqueada a entrada no recinto. A noticia foi-se espalhando rapidamente pela cidade, e os súbditos romanos, que segundo Stendhal, tinham um soberano que fazia a felicidade deles no céu e a sua desgraça na terra, começaram a acorrer em grande número ao Teatro Argentina, afirmando que eram portugueses para não pagarem bilhete. A afluência foi de tal forma grande que a expressão fare il portoghese - passar por português - ficou famosa. Ainda hoje esta expressão é usada pelos italianos de forma depreciativa, para designar aqueles que usufruem de um serviço sem pagar, mas  o que a maioria não sabe é que a sua origem não define um subterfúgio de fuga a um pagamento, mas sim um antigo privilégio dos portugueses...que não tinham que pagar para entrar! De facto saber a origem das expressões populares é importante, pois ironicamente fare il portoghese retrata o comportamento astucioso dos romanos e não dos nascidos em terras lusas. Pena é, que este privilégio não tenha durado até aos nossos tempos!

Nota: Este acontecimento está retratado num livro intitulado o Barco Pescarejo de José Coutinhas (2005).

domingo, 8 de abril de 2012

O Douro sem fim!



"O Douro sublimado.(...) Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." É assim que Miguel Torga descreve o rio Douro e as suas vertentes, paisagem sublime e deslumbrante que deixa o comum dos viajantes sem palavras. Imersa nesta beleza natural está Sanfins do Douro, rodeada dos seus socalcos vinhateiros, Património da Unesco desde 15 de Dezembro de 2001. Duas explicações surgem para a origem do seu nome: uma relacionada com um culto cristão muito antigo a São Félix, tendo posteriormente derivado para Sanfins. A outra está relacionada com a sua posição geográfica, situada nos limites do Douro e Trás-os-Montes: "São os fins do Douro"! D. Fernão Sanchez, filho bastardo de D.Dinis, foi senhor das terras de Sanfins, por doação de seu pai em 1258. Localizada no Alto Douro e pertencendo ao Concelho de Alijó, esta Vila, é habitada desde os tempos pré-históricos. Vestígios arqueológicos como machados de pedra e de sílex (período neolítico), moedas cunhadas, pontes e estradas romanas, testemunham a sua passagem pelas terras de Sanfins. O saber e tradições de diferentes povos e culturas, espalhou-se pelas suas terras, e levou as suas gentes a explorar o ouro e outros metais existentes. Mas o bem mais precioso desta terra é o seu vinho, muitas vezes denominado de Néctar dos Deuses, onde se incluem o vinho Moscatel e o vinho do Porto. Ao longo de gerações o saber foi-se transmitindo e de facto a vinicultura é o orgulho das gentes de Sanfins!
Do alto do monte, Sanfins é vigiada pelo Santuário da Senhora da Piedade, local que proporciona uma vista panorâmica sem igual e possuidora de uma beleza natural deslumbrante. No segundo Domingo do mês de Agosto celebra-se a Romaria de Nossa Senhora da Assunção, orago da freguesia, segundo uma tradição com mais de dois séculos. Esta romaria arrasta multidões de toda a zona envolvente, e a disputa de quem transporta o andor é um dos momentos altos desta tradição popular. Entre os seus filhos mais ilustres destaca-se o Padre Manuel Nóbrega, que aí terá nascido por volta de 1517, e que foi fundador da cidade de São Paulo no Brasil, e a minha MÃE! Apesar de não ser sanfinense de origem, a minha mãe era-o de coração. Nascida em plena cidade do Porto, foi nesta terra perdida no meio das vertentes verdejantes do Douro, que ela passou a sua infância em casa dos padrinhos. Toda ela vibrava por Sanfins. Como dizem as suas gentes falar de Sanfins do Douro, da sua santa, da sua terra a um sanfinense é falar-lhe ao coração, pois tanto a sua devoção à santa como à terra, são ponto de honra. E nisso a minha mãe era sanfinense pura! Os seus olhos iluminavam-se sempre que dela falava, a sua voz transmitia pura alegria quando nos contava as suas histórias, a sua alma transbordava quando via imagens ou noticias das terras do fim do Douro. Deleite puro era o que sentia. Ainda hoje recordo com muita emoção a nossa visita a Sanfins. A minha mãe tornava-se criança: calcorreava as suas ruas, revivia os seus locais, reconhecia as suas gentes. Como ela dizia muitas vezes Sanfins...é diferente!



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nem Português, nem Espanhol!



Conta uma lenda brasileira (1) que na sexta-feira seguinte ao Reino Português se ter separado do Reino de Leão e Castela, o Rei Português mandou chamar os seu eruditos e declarou: agora que somos independentes, precisamos de uma língua própria! Vocês vão ter de a inventar! Mas atenção, quero que seja uma língua que permita que nós portugueses, possamos entender o que eles - Leoneses e Castelhanos - falam, mas eles não consigam entender  o que nós falamos! Os sábios reuniram durante muito tempo, discutiram, passaram noites sem dormir, e então, ao fim de um tempo surgiu o Português. E aconteceu o que o Rei pretendia: a maioria das pessoas que fala o português entende tudo o que dizem aqueles que falam o espanhol, mas o contrário não é verdade! Os brasileiros, quando descobriram que as diferenças eram pequenas, e numa tentativa de melhorar a comunicação com os seus vizinhos, inventaram o Portunhol. Um tipo de Português, ligeiramente diferente, que pode ser entendido por aqueles que falam português e pelos que falam espanhol. 
Lenda à parte, a verdade é que o Portunhol, é um dialecto que tem a sua origem na mistura de palavras portuguesas e espanholas, ambos línguas latinas, muito comum nas cidades de fronteira entre países lusófonos e hispânicos. Esta língua é falada nas cidades fronteiriças do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Neste último país existe mesmo um tipo de Portunhol, chamado Riverense, também conhecido por Fronteiriço
E é aqui que os estudiosos mais centraram a sua investigação pois apesar de todos os esforços das autoridades uruguaias para fazer desaparecer este dialecto ele mantém-se e teima em não desaparecer. Na actual região do Rio Grande do Sul, estabeleceram-se jesuítas espanhóis para promoveram a evangelização sob o jugo de Espanha. Os jesuítas pouco influenciaram a língua dos nativos (...) porque ao invés de fazerem os índios estudarem o espanhol, eram eles que aprendiam o guarani (Furtes Álvarez, 1964). Em 1680 os Portugueses fundaram a Colónia de Sacramento, junto ao Rio Plata, e começaram a desafiar o poder dos espanhóis nessa região. Após vários confrontos, ameaças e tratados, os portugueses recuaram territorialmente, mas mantiveram o desejo de conquista da região. Em 1816, Portugal conquista toda a Província Oriental do Paraguai, a chamada Província Cisplatina, e manteve o seu domínio até 1828, altura em que o Brasil já independente, reconhece o Uruguai como Nação. Mas a grande conquista portuguesa foi a influencia linguística. Segundo José Pedro Rona (1965), a invasão portuguesa (...) trouxe consigo um notável incremento da colonização portuguesa até aos últimos confins meridionais, nas margens do rio Plata. Obtida a independência definitiva, esta corrente colonizadora não decaiu, mas terminou por povoar com portugueses e brasileiros todo o norte do Uruguai. Portanto a base étnica, e em consequência, a linguística de toda esta zona, é portuguesa e não espanhola. Esta realidade era uma ameaça para a língua espanhola, reconhecida como língua nacional do Uruguai.
Entre 1867 e 1878 foram construídas numerosas escolas nas comunidades de fronteira com o Brasil, e fomentado o ensino do espanhol. Durante estes últimos séculos várias medidas foram implementadas pelas autoridades uruguaias, sem resultados. O Portunhol continua a ser falado por grande parte das populações de fronteira com o Brasil. A história de uma língua está indissoluvelmente unida à história do Povo que a fala (Alma Pedretti de Bólon, 1983). O Portunhol é uma língua  do quotidiano da população, vivida, sem controlo gramatical. O objectivo é fazer-se compreender, é comunicar. Parece ser uma constante brincadeira para quem a fala e para quem a ouve. São cometidos graves atropelos às duas línguas, enganos de semântica, mas o objectivo é sempre atingido: comunicar! Numa reunião no Paraguai, o Presidente Lula da Silva ao ser inquirido pelos jornalistas, respondeu em verdadeiro Portunhol amanhãna eu hablo. Si queden tranquilis; Carlos Menem, ex-presidente da Argentina numa reunião da Mercosul afirmou eu vou falar no idioma da Mercosul, que é o Portunhol; um jornalista  a comentar a eleição de Lula da Silva, disse el presidente Lula fue elecho. Até na poesia esta língua tem representação, como é exemplo disso, o poema de Mário Quintana, intitulado Edificante Poema Escrito em Portuñol:

Don Ramón se tomo um pifón:
bebia demasiado, don Ramón!
Y al volver cambaleante a su casa,
avistó em el camino:
um árbol
y um toro…
Pero como veia duplo, don Ramón
vio um árbol que era
y um árbol que no era,
um toro que era
y um toro que no era.
Y don Ramón se subió al árbol que no era:
Y lo atropelo el toro que era.
Triste fim de don Ramón!

Como diz um velho ditado português, o que não tem solução solucionado está, e contra tudo e contra todos, o Portunhol faz parte da cultura da América Latina, e tem um dia próprio: a última 6ªfeira do mês de Outubro.
Esta persistência da cultura popular sobre as decisões governamentais, faz-nos pensar, numa altura em que o Acordo Ortográfico, quer regulamentar a língua portuguesa!


Nota: Em vez de língua espanhola deveria estar escrito língua castelhana, mas como se trata de um texto que gira à volta de um dialecto popular, não alterei a designação para castelhana, mantendo o seu sentido mais popular


(1) não consegui comprovar a origem desta lenda, mas por ter uma ironia própria adequa-se à própria história do Portunhol, sempre inventivo e sem regras.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um Rei na cidade

A visita do Rei D. Manuel II à cidade do Porto em 1909. São 59 segundos de um filme raro que documenta um passado já longínquo.




Chapéus...havia muitos!



Ninguém se esquece da tão célebre frase de Vasco Santana, no filme "O Pátio das Cantigas" chapéus, há muitos seu palerma! E era verdade...mas actualmente a frase já não é tão verdadeira, e devia ser substituída por chapéus...havia muitos! De facto actualmente o chapéu caiu em desuso e são as mulheres que mais o utilizam como complemento de um traje formal ou de cerimónia. No dia a dia o chapéu não é usado! A palavra chapéu, deriva das palavras latinas caput (cabeça) e capellus (capuz), e posteriormente da antiga palavra francesa chapel mais recentemente chapeau. Inicialmente o chapéu surgiu como protecção da cabeça contra as adversidades do clima: chuva, frio, vento e sol. Na pré-história, teriam o formato de um gorro feito de peles de animais e eram privilégio dos homens responsáveis pela defesa da tribo ou do clã. Também poderiam ser de tecido, conhecidos como turbantes, já se conhecendo a sua existência no ano 4500 aC. Há cerca de 3000 aC, na Mesopotâmia surgem os chapéus que são uma mistura de capuz com elmo, que se foram aprimorando ao longo dos séculos transformando-se rapidamente num adereço de status social, militar e sacerdotal do antigo Egipto. A primeira representação conhecida de um chapéu, surgiu numa pintura num túmulo de Thebes, onde estava retratado um trabalhador com um chapéu de palha. No entanto é na Grécia Antiga que aparece num formato mais semelhante ao actual, contendo as partes principais do adorno e não sendo apenas uma tira a proteger a cabeça. Denominado de Pétaso grego teve origem no século IV, assim como o Píleo que era a versão sem abas. Para os Romanos, Pétaso foi substituído pela palavra latina capucho, tendo dado origem ao capacete.  Coroa, mitra, elmo, capacete ou chapéu tudo tem a função de proteger a cabeça, mas com significados diferentes. O chapéu deixou de ser apenas um objecto útil e passou a ser um símbolo social e de poder. Na Roma antiga, em 1000aC, os escravos não podiam usar qualquer tipo de chapéu, e quando conseguiam a carta de alforria, usavam um pequeno chapéu semelhante ao barrete, como sinal da sua liberdade. Este tipo de barrete foi posteriormente relembrado pelos Franceses Republicanos que utilizavam os bonnet rouge como símbolo da sua luta, na Revolução Francesa. Os chapéus existem por causa da necessidade, mesmo que simbólica, de preservar  a parte mais nobre do Homem: a cabeça, e portanto o pensamento(1). Tapar e proteger a cabeça é de facto um costume ancestral. 


No entanto este costume era privilégio masculino, já que até finais do século XVI, as mulheres que eram frequentemente obrigadas a cobrir a cabeça, faziam-no com mantilhas e véus. No final do século XVIII, e muito graças à Revolução Francesa, as mulheres começaram a usar chapéus como acessório de moda, desenvolvendo-se a partir de então o comércio de chapéus com a abertura de chapelarias, um pouco por todo o mundo. No entanto a mudança não foi muito bem aceite pelos homens e em Portugal, na Revista Contemporanea de Portugal e Brazil, de 1865 pode ler-se o seguinte texto: A decadência do véu é uma realidade (...) mas pouco a pouco ir-se-ha acreditando que o chapéu não chega a impossibilitar as damas de agradarem a Deos. E depois, o véu durava annos, e o chapéu dura um mês! (...) se o véu enfeitou as nossas mães, não é razão para ser immortal (...) o chapéu não é bastante sisudo, é francez, tem história elegante e tem feitio - tem feitio, o pérfido! - e deixa ver o rosto tentador, o endemoinhado inimigo da tranquilidade conjugal; com ele a esposa fica mais bonita: de véu não fica bonita nem feia, fica escondida (...) o chapéu é capaz de fazer perder casamento a alguns (...).

Ao longo dos tempos o chapéu foi-se tornando peça imprescindível do vestuário, e ultrapassou em muito o seu papel de protecção, tornando-se um utensílio de moda. Raro era o homem que saía de casa sem o seu chapéu e rara era a mulher de alto estatuto social que se apresentava sem o seu adorno de cabeça. Era também uma forma de comunicar: o tirar de um chapéu era sinal de respeito e também reconhecimento de superioridade social. Existem imensos tipos de chapéus, de diferentes tamanhos e feitios:
- Chapéu de coco, assim denominado por ter sido encomendado no século XIX, por um aristocrata inglês de nome Coke, que pretendia ter um chapéu mais pequeno e resistente, de forma a que pudesse caçar a raposa, sem que estivesse sempre a perder o seu chapéu, por embater nos ramos das árvores. Tornou-se símbolo da cultura urbana inglesa.
- Chapéu Panamá,  que apesar do nome tem origem no Equador. Feito de palha, deve a sua popularidade ao presidente Theodore Roosevelt, que  recebeu um como oferta, durante a inauguração do Canal do Panamá, e ignorando a sua origem, o denominou de chapéu do Panamá.
- Chapéu borsalino, de origem italiana, ficou com o nome do seu criador Giuseppe Borsalino, e surgiu em 1856 em França. É o típico chapéu masculino de feltro.
- Cartola ou originalmente chamado chapéu alto
- Boné, ainda muito utilizado pelas camadas mais jovens, surge de uma alteração da palavra francesa bonnet, que tem origem no latim obunnis (espécie de capa)
- Boina, muito utilizado em climas mais frios, o seu nome é de origem basca, e provem da palavra francesa bonnet 
Associo os chapéus aos meus avós tanto ao materno como ao paterno. Nenhum deles saía de casa sem o seu chapéu elegantemente colocado na cabeça. Enquanto o meu avô materno usava religiosamente o seu chapéu de abas largas, o meu avô paterno tinha uma adoração pelos seus chapéus borsalinos. Ainda me lembro de o ver escovar com esmero e imenso cuidado o feltro castanho, cinzento ou preto dependendo da fatiota que escolhesse. Dizia sempre que se saísse à rua sem o seu chapéu na cabeça, sentia-se nu! O que diria ele se se misturasse na multidão e visse tanta gente nua...

(1) A. Colonetti, G.Sassi M. M. Sigiani, Cosa ti sei messo in teste, Mazzotta, Milan 1991

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Nação Italiana em Lisboa

A Igreja do Loreto, também conhecida como a Igreja dos Italianos, está situada junto ao Largo do Chiado e à Praça de Camões, em frente ao Bairro Alto, na cidade de Lisboa. O culto à Nossa Senhora do Loreto, muito importante em Itália, foi introduzido em Portugal por mercadores venezianos e genoveses, no século XIV. Lisboa era nesta altura, uma das mais importantes cidades europeias, com um enorme fluxo comercial, atraindo inúmeros estrangeiros, particularmente italianos. Em 1517, após terem obtido permissão do Papa Leão X e do rei D. Manuel I, a comunidade italiana fundou a sua primeira Igreja, numa ermida de evocação a Santo António, que ficava contígua às antigas Portas de Santa Catarina, ainda na parte exterior das muralhas da cidade. Após obras de ampliação da pequena ermida, e tendo ficado sob administração directa do Papa Leão X (1518) e agregada à Basílica de São João de Latrão (Catedral do Bispo de Roma), o novo templo abriu ao culto a 8 de Janeiro de 1522, tendo-se celebrado a primeira missa já no reinado de D.João III. A Igreja do Loreto tornou-se rapidamente o pólo aglutinador de toda a comunidade italiana residente em Lisboa(1). Ao longo dos anos, esta comunidade foi recheando a sua Igreja com obras de arte de artistas italianos e com pinturas de frescos nos tectos e paredes. Para poderem financiar todos estes gastos, criaram uma taxa de 4% sobre todas as mercadorias italianas que chegavam a Lisboa, e que revertiam a favor da Igreja. 
Anos mais tarde, requereram que a Igreja do Loreto fosse elevada à categoria de Paróquia de todos os italianos residentes em Lisboa. A rejeição a  esta proposta pela parte do Cabido de Lisboa foi pronta, e foi feita queixa ao Papa Paulo III, que encaminhou o processo para o Tribunal da Rota (tribunal que funcionava como instância superior no grau de apelo junto da Sé Apostólica, para tutelar os direitos na Igreja), tendo este decidido que a criação de tal Paróquia só poderia ser aceite com o consentimento do Cabido de Lisboa. O certo é que 5 anos passaram, e o Cabido autorizou a criação da Paróquia do Loreto, sem nunca se ter sabido ao certo o que levou à mudança de atitude. Os italianos conseguiram finalmente o que há muito lutavam: uma Paróquia italiana em plena cidade de Lisboa. Era uma Paróquia que não tinha freguesia designada, já que eram seus paroquianos, todos os indivíduos da Nação Italiana residentes na cidade, independentemente do local onde vivessem. Segundo a opinião dos escritores da altura, a Igreja do Loreto, era um templo faustoso e digno do lugar que ocupava na cidade. Tornou-se um lugar singular onde os italianos integrados na vida lisboeta, tinham a possibilidade de regressar às suas origens e ouvir a sua língua materna. Sempre presididos por padres provenientes de Itália, aí eram baptizados, casavam e eram sepultados, sempre em solo italiano, dado que o local da Igreja era pertença da Nação Italiana. Em 29 de Março de 1651 um violento incêndio, reduz a Igreja a cinzas, tendo-se apenas salvado o cofre do Santíssimo Sacramento. Os prejuízos foram enormes, mas as obras de reconstrução começaram poucos dias depois e ao fim de 25 anos a Igreja estava novamente de pé. Todas as obras foram financiadas pelos habitantes da Nação Italiana. 
No dia 1 de Novembro de 1755, deu-se o grande terramoto de Lisboa, que dizimou milhares de pessoas. A Igreja do Loreto sofreu poucos danos estruturais com o terramoto, e a comunidade italiana que assistia à missa, pouco ou nada sofreu. Graças a esta Igreja, estou a escrever este texto, já que o meu 6º avô materno, de nome Francesco George Dragazzi, veneziano nascido em San Pietro de Castello, estava nesse dia a assistir à missa. Baptizou todos os filhos na Igreja do Loreto e aí foi sepultado. Na assento de baptismo do seu filho Caetano Alberto Dragazzi (meu 5º avô) pode-se ler...baptizei nesta Igreja Parochial da Naçam Italiana, Caetano Alberto (...).
Aqui fica a história pouco comum, de persistência e de querer de uma comunidade, que chegou até aos nossos dias...actualmente a Igreja do Loreto ainda é presidida por padres italianos. 

(1) Clio: Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003

sexta-feira, 30 de março de 2012

Profissões num Portugal antigo

Profissões que já desapareceram, outras que ainda existem...retrato de um Portugal antigo cheio de histórias que vão desaparecendo.





quarta-feira, 28 de março de 2012

Ponte de Cavez: A Fronteira


A notável Ponte de Cavez, localizada na freguesia com o mesmo nome, no Concelho de Cabeceiras de Basto, foi construída no século XIII. Há mais de sete séculos que esta fantástica construção de pedra simultaneamente separa e une o Minho a Trás-os-Montes. Esta magnífica obra é tradicionalmente atribuída a Frei Lourenço Mendes. Segundo Frei Luis de Sousa, Lourenço Mendes lançou-se na construção da Ponte de Cavez porque viu com os seus olhos o trabalho e o perigo com que se vadeava o rio (...) rio grosso de agoas e furioso a maior parte do anno, já que a ligação do Minho a Trás os Montes se fazia apenas por barco. Ao chamar para si a responsabilidade da construção de tamanha obra, Frei Lourenço, pensava que esta iria ter grande impacto na população quer a nível social como a nível espiritual. Mas os seus conterrâneos, ciosos dos seus bens materiais, e não acreditando que a ponte seria construída, negaram-se a participar nos trabalhos e nas despesas, por não quererem arriscar o seu precioso dinheiro e duvidarem da capacidade obreira do Frei. Foram por isso contratados trabalhadores de fora da freguesia, e a obra foi custeada por Frei Lourenço, graças aos donativos obtidos pelas suas pregações. No entanto foi D.Sancho II, que numa das suas jornadas a Trás-os-Montes, financiou o término da obra. A muito custo, a obra fez-se, e finalmente o Minho e Trás-os-montes têm a tão ambicionada ligação. Á vista da ponte terminada e de pé, a população em grande entusiasmo aclama o Mestre e sucedem-se os elogios ao autor da obra. O mestre Lourenço Mendes sente tamanha alegria que  morre fulminado por uma congestão debaixo debaixo dos arcos da sua ponte. Segundo a lenda, o povo agradecido, e com o apoio das autoridades civis e do clero, constrói ao Mestre um túmulo na própria ponte, onde grava a inscrição:  Esta é a Ponte de Cavez, e aqui jaz quem a  fez. 
São muitas as histórias que surgem à volta desta Ponte. Na sua margem direita do lado Minhoto, no final da Idade Média, terá existido uma gafaria  (local onde se tratavam os leprosos), que utilizava a água da Fonte de Águas Sulfurosas situada na margem esquerda, lado Transmontano, para o tratamento dos seus doentes. O povo ainda hoje diz que esta água, se for bebida na manhã de 24 de Agosto - dia de São Bartolomeu - antes de o raiar do sol, cura o corpo de todas as dores e doenças, tanto as presentes como as futuras. Na margem Minhota do rio Tâmega existe também, anexa ao solar nobre da Casa da Ponte,  uma capelinha dedicada a São Bartolomeu. Quando a 24 de Agosto, dia de São Bartolomeu, se realizava a romaria em honra do santo, minhotos e transmontanos envolviam-se em lutas e pancadaria. Antigamente o que fazia a divisão com Trás-os-Montes era o rio. Portanto diziam que o Santo pertencia àquela parte e que os do lado de cá os roubaram, diziam que ele tinha aparecido lá na fonte, que é do outro lado do rio. Depois houve a tradição da festa meter sempre aquela pancadaria. Os daqui tinham o santo mas não iam à água, os dacolá iam à água mas não vinham ao santo (feitor da Quinta da Casa da Ponte). De um lado e de outro da ponte, desafiavam-se mutuamente uns dizendo vinde à fonte e outros respondendo vinde ao santo. Pelo meio ainda existia a disputa pelas raparigas que se encontravam na Romaria. O assunto era sempre resolvido ao murro, à paulada e mesmo ao tiro (…) até Camilo várias vezes se refere ao local pois teria assistido a muitos encontros destemidos de varapau entre minhotos e transmontanos, sendo frequente a festa de S. Bartolomeu acabar com mortos (Almeida,1988).  São Bartolomeu tem os atributos de milagreiro e exorcista, e o exorcismo dos possuídos pelo demónio é outro ponto alto da Romaria. Por este facto, o santo é habitualmente representado com uma espada na mão e o demónio acorrentado aos pés, como se pode ver na imagem de madeira ainda hoje existente no interior da capela. Camilo Castelo Branco no seu conto "Como ela o amava" escrito em 1863, descreve muito bem o que presenciou quando esteve em Cavez em 1842: Aos 24 de Agosto, na povoação chamada Cavez cuja ponte sobre o Tamega, extrema pelo Norte as duas provincias de Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de São Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás. Vem aqui de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. (...) As mulheres é que por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espiritos infernais (...) gentis mocetonas eram aquelas que eu vi na igreja de Cavez, em 1842. Há quantos anos isto vai. Naquele tempo, até as mulheres com espirito ruim me pareciam boas. 
A minha história mistura-se com a história desta Ponte. Lugares como Moimenta, Cavez, Arosa, Gondiães fazem parte da minha história genética e desde 1601 (primeiro registo documentado) que a minha família paterna viveu nestas terras de fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes. As histórias foram passando de geração em geração, narrando namoros começados nas Romarias de São Bartolomeu, sofrimentos conquistados nas rixas com os de além rio e muitas outras situações do dia-a-dia que tiveram como palco as terras de Basto. Todas estas situações foram ainda vivenciadas pelos meus avós paternos, que nasceram em Cavez não muito longe da famosa Ponte e pelo meu pai, assíduo visitante destas terras durante as férias escolares. Cavez foi ainda palco de muitas férias em família,  e o rio Tâmega e a Ponte que o atravessa, presenciaram inúmeros momentos de pura felicidade, que tão bem seriam descritos pelas românticas palavras de Camilo.



terça-feira, 27 de março de 2012

Expressões Populares: regresso ao Passado


A utilização de expressões e palavras populares é tão comum no nosso dia a dia, que nem paramos para pensar no seu significado. A riqueza das suas origens é tão grande que vale a pena perder uns minutos do nosso precioso tempo para podermos perceber melhor o porquê da sua utilização.

Casa da mãe Joana - expressão de língua portuguesa que descreve um lugar ou situação onde vale tudo, não existe ordem e onde predomina a confusão, a desordem e a balbúrdia. A sua origem remonta ao século XIV e deve-se a Joana de Nápoles que viveu na Idade Média, entre 1326 e 1382, tendo sido Rainha de Nápoles e Condessa de Provença. Em 1346 passa a residir em Avignon, França, e no ano seguinte regulamentou os bordéis da cidade e uma das suas normas dizia que " o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar". Os bordéis passaram a ser designados por casa da mãe Joana.Transposta para Portugal passou a descrever um local onde todos podem entrar sem necessidade de autorização, onde todos fazem o que querem e onde não há qualquer disciplina ou organização.

De mãos a abanar - A origem para esta expressão está relacionada com os imigrantes que chegavam ao Brasil no século 19. Eles costumavam trazer da Europa ferramentas para o cultivo da terra, como foices e enxadas, além de animais, como vacas e porcos. Uma ferramenta poderia indicar uma profissão, uma habilidade, demonstrava disposição para o trabalho. O contrário, chegar de mãos a abanar, indicava preguiça e sem vontade para trabalhar. Actualmente, quando uma pessoa vai a uma festa, mandam os bons modos que leve um presente. Se não o faz, diz-se que chegou de mãos a abanar.

Dor de cotovelo - expressão popular que provém da imagem romântica de um sofredor de amor, sozinho num balcão de um bar, apoiado nos cotovelos a chorar um amor perdido. Por permanecerem muito tempo nesta posição os solitários românticos acabavam por ficar com dores nos cotovelos. Actualmente é comum usar esta expressão para designar o despeito provocado pelo ciúme, pela inveja ou mesmo a tristeza causada por uma decepção amorosa.

Para Inglês ver - Apesar de haver algumas versões para a origem desta expressão a mais aceite remonta ao tempo de D.Pedro IV. O Governo Regencial, que administrava o Brasil enquanto o príncipe D.Pedro II do Brasil não atingisse a maioridade, promulgou uma lei em 1831, que declarava livres todos os africanos que chegassem ao Brasil em navios traficantes de escravos, de forma a satisfazer os ingleses que lutavam ferozmente para que a escravidão fosse abolida. Os ingleses lideravam o consumo do café brasileiro. Mas o sentimento geral era de que a lei nunca seria cumprida, circulando na Corte e na Câmara dos Deputados, que o regente Feijó fizera uma lei apenas para Inglês ver. Esta expressão passou então a ser usada para designar leis que só existem no papel como também todas as coisas feitas apenas para preservar as aparências, sem que efectivamente ocorra.


Tirar o cavalinho da chuva - Esta expressão que significa desistir de um intento, perder ilusões, abandonar uma ideia, teve origem no inicio do século XIX. No interior o transporte mais comum era o cavalo. Quando uma visita era breve o cavalo era deixado ao relento, em frente à casa do anfitrião. Se visita fosse demorada o cavalo era colocado num local protegido da chuva. No entanto o convidado só poderia colocar o seu cavalo num local abrigado se o anfitrião quisesse prolongar a sua estadia e a visita fosse agradável dizendo "pode tirar o seu cavalo da chuva que você ainda vai por cá demorar". Com o tempo o sentido da expressão alterou-se e passou a designar situações em que se abandonava uma intenção ou um propósito, e a palavra cavalo adquiriu um sentido irónico passando a cavalinho.


Vai pentear macacos - Teve origem no provérbio português "mal grado haja a quem asno penteia", que aparece pela primeira vez registado num documento em 1651. Nessa época escovar ou pentear animais de carga como burros e jumentos era considerada uma tarefa inglória, pois estes animais não necessitavam de ter boa aparência para realizar o trabalho de carga a que estavam destinados. Vai pentear macacos é a adaptação brasileira desse ditado português . Os portugueses até meados do século XVII desconheciam o termo macaco, e utilizavam a palavra bugio para se referir a esse animal e criaram a expressão vai bugiar, que tem um significado semelhante ao vai pentear macacos, que ainda hoje é utilizada em Portugal e em algumas localidades no Brasil. Todas elas têm o mesmo significado.

Sem eira nem beira Refere-se a pessoas sem bens, sem posses. Eira é um terreno de terra batida ou cimento onde grãos ficam ao ar livre para secar. Beira é a beirada da eira. Quando uma eira não tem beira, o vento leva os grãos e o proprietário fica sem nada.  Esta expressão pode ter ainda outra explicação. Antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira como era chamada a parte mais alta do telhado. As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer este telhado , então construíam somente a tribeira ficando assim sem eira nem beira.


Ao Deus dará - Expressão que surgiu como resposta tradicionalmente dada aos que estendiam a mão à caridade pública. Ao pedido: "Uma esmolinha, pelo amor de Deus" - a resposta era invariavelmente "Deus dará", e que depois passou a ser "Deus o favoreça." Os autores portugueses Gomes Monteiro e Costa Leão, em "A Vida Misteriosa das Palavras", dizem que, no século XVII, viveu no Recife um negociante português que, de tanto usar aquelas duas palavras, passou a chamar-se Manuel Álvares Deus Dará. O nome passou para o seu filho, Simão Álvares Deus Dará, que exerceu o cargo de provedor-mor da Fazenda do Brasil. Estar ao Deus dará é estar na miséria, entregue à sorte, sem nenhuma ajuda dos homens e podendo contar apenas com a protecção celestial.


Fechado a sete chaves No século XIII, eram usadas arcas para guardar jóias e documentos da corte de Portugal. Cada arca tinha quatro fechaduras e era aberto por quatro chaves diferentes, distribuídas pelos altos funcionários do Reino. Com o tempo, as arcas caíram em desuso. E algo que antes estava bem fechado a quatro chaves, passou a ser fechado a sete chaves, devido ao misticismo associado ao número 7. Esse misticismo teve origem nas religiões primitivas babilónicas e egípcias, que faziam o culto dos sete planetas conhecidos na época. Assim, a expressão fechar a sete chaves está relacionada ao acto de guardar algo com segurança e sob sigilo absoluto.

 
Tintim por tintim - Expressão muito utilizada na língua portuguesa é utilizada para descrever alguma coisa com muito detalhe. Segundo o filólogo João Ribeiro, “tintim é a onomatopeia do tilintar de moedas”, ou seja, tintim é o barulho que uma moeda faz quando cai sobre outra. Na sua origem, a expressão tintim por tintim era usada para se referir a uma conta ou dívida paga até a última moeda. Assim, quando queremos obter informações precisas sobre algum facto ou situação, costumamos dizer: "Conte-me tudo, tintim por tintim”.


quinta-feira, 22 de março de 2012

O Caldo: alimento milagroso

A palavra Caldo provém da palavra latina caldus, que significa quente. No entanto caldo, para o comum dos portugueses, significa alimento liquido que se prepara cozendo em água substâncias alimentícias. A Enciclopédia define caldo como uma substancia liquida nutritiva, preparada pela coacção de carne ou de outra substancia alimentícia. Uma forma mais pomposa de dizer a mesma coisa! 
Na Idade Média, o caldo era o prato forte da refeição dos estratos populacionais mais pobres. Eram feitos à base de legumes e hortaliças secas. Mas esses caldos, em situações especiais e de acordo com as possibilidades económicas da família, eram enriquecidos com um naco de carne, que poderia ser de galinha, de vaca ou de porco. Essa carne servia apenas para dar sabor ao caldo, já que era retirada para ser usada posteriormente noutra refeição. Era principalmente apreciado um bom pedaço de toucinho ou uma peça de enchido, pelo sabor e pela gordura que introduziam no caldo, e especialmente por poder ser saboreado no final com um naco de pão. Com os legumes secos que entravam no caldo, com as castanhas que eram muito utilizadas, e sobretudo com cereais (cevada, milho e painço) todos eles farinados e em misturas mais ou menos variadas, confeccionavam-se depois as papas. Era esta uma forma de confecção milenar, e que por ser simples e nutritiva, se foi conservando ao longo de gerações. Nas classes mais favorecidas, o caldo também era usado, como base da refeição, mas obviamente mais enriquecido. No primeiro livro de culinária que há registo em Portugal, de nome "Livro da Cozinha da Infanta D. Maria", do século XVI, estranhamente não há qualquer referência ao caldo, apesar de ser a base da alimentação portuguesa...talvez por ser considerada a alimentação dos pobres! Em Portugal as primeiras receitas de caldo aparecem com a publicação em 1680 do livro "Arte da cozinha" de Domingos Rodrigues, cozinheiro de D. Pedro II.  São apresentados dois caldos, sendo um de galinha e outro à francesa (com junção de pão) também chamado de sopa. O caldo português, o mais enriquecido, rapidamente se espalhou pela europa gastronómica, e a primeira referência internacional surge em 1780 no livro intitulado "Cozinheiro moderno ou nova arte da cozinha", com a receita do caldo geral ou ordinário, além de vários caldos, bons para curar diversas doenças. No "Grande dicionário de Culinária" de Alexandre Dumas, publicado em 1873 após a sua morte, quando se refere ao caldo começa por escrever que não existe uma boa cozinha sem um bom caldo, considerando este como um ponto de partida para a excelência da cozinha francesa. Elogia ainda as mulheres portuguesas pela confecção do caldo. No seu livro intitulado "Cidade e as Serras", Eça de Queiróz descreve o deslumbramento do abastado Jacinto, fino parisiense, ante a degustação do caldo: Desconfiado provou o caldo, que era de galinha. Provou-o e levantou para mim uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom! (...) Estava precioso. O seu perfume enternecia. Mas o caldos não serviam apenas para a alimentação do dia a dia. Eram usados na Medicina da época e eram receitados frequentemente, pelos melhores médicos do reino. Na Historologia Médica de 1739, de José Rodrigues de Abreu, a receita para as queixas de tosse e dores das articulações era um caldo de farinha a que se devem juntar umas colheres de açúcar e uma ou duas gemas de ovos. Este caldo é celebre por toda a Europa, a que se devem juntar umas raizes de chicória. Nas Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, de 1863 pode-se ler o seguinte: creança de 6 anos atacada com angina diphtherica (...) fazer apenas dieta de caldos; creança de 4 anos com garrotilho (...) fazer caldos de tapioca seguidos de caldos de galinha; senhora com acessos de tosse (...) 2º e 3º dia caldos de farinha, de fécula e de aletria. Nos 3º e 4º dias juntar ovos ao caldo de leite.
Actualmente o nome caldo está em desuso, tendo sido substituído por sopa, mas ainda podemos ver a palavra caldo no nosso dia a dia. Dizemos muitas vezes quando as coisas correm mal que o caldo está entornado, referência à calamidade que era para uma família com fracos meios de subsistência, o facto de se entornar a refeição que tinham para o dia. 
Também em provérbios populares ele está presente: cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguémA sopa pode ter ganho a batalha dos tempos modernos, mas há uma pequena vingança do caldo: a mais conhecida sopa portuguesa é o CALDO verde!  

quarta-feira, 21 de março de 2012

Biblioteca Municipal do Porto: um lugar familiar

A Real Biblioteca Pública da cidade do Porto, actual Biblioteca Municipal do Porto, foi oficialmente inaugurada no dia 9 de Julho de 1833, por D. Pedro IV, Duque de Bragança. O País e em especial a cidade do Porto, atravessava nessa altura momentos de grande instabilidade, com as lutas liberais e grandes mudanças politicas, mas mesmo assim D. Pedro mandou publicar um Decreto na "Chrónica Constitucional do Porto" onde declarava que será estabelecida nesta mui antiga e mui leal cidade do Porto, uma livraria com o titulo de Real Bibliotheca Publica da Cidade do Porto. O Hospício dos Franciscanos, localizado na Cordoaria, acolheu a Biblioteca que só abriu as sua portas ao público 4 de Abril de 1842, remontando a esta época o retrato do rei que ainda hoje se conserva na Biblioteca. Mas foi o antigo convento de Santo António construído no século XVIII, doado à Câmara em 1839, que deu lugar a um edifício repleto de histórias e um sem fim de obras literárias. Os fundos primitivos foram constituídos pelas obras pertencentes às bibliotecas dos Conventos, incorporadas nos bens nacionais na sequência da legislação do Governo Liberal que suprimiu as Ordens e as Congregações religiosas, pelas colecções "sequestradas" a particulares conservadores, e também com um exemplar de toda e qualquer obra impressa em Portugal.  Ao longo dos anos as colecções da Biblioteca foram sendo sucessivamente enriquecidas por doações, permutas e aquisições. Em 1876, D. Luís transformou-a em Biblioteca Municipal. É uma das três principais Bibliotecas do País, sendo a maior e a mais antiga Biblioteca Pública Municipal Portuguesa, assumindo graças à riqueza do seu espólio, um carácter nacional e mesmo internacional, o que transcende o papel comum de uma biblioteca dita Municipal. Entrando na Biblioteca somos confrontados com mais de 20 quilómetros de livros para percorrer,cerca de um milhão e trezentos mil documentos, divididos em três pisos. As paredes são forradas com azulejos dos séculos XVI e XVIII, provenientes dos vários Conventos extintos. São corredores e corredores repletos de cultura e história que desembocam num claustro onde existe um relaxante jardim. Do seu espólio destacam-se pela sua importância e carácter único, o fundo manuscrito de Santa Cruz de Coimbra, uma Bíblia do século XIII e o Foral Manuelino do Porto de 1517. 
Como bibliotecários ilustres destacam-se Alexandre Herculano, que durante o Cerco do Porto, trabalha na organização da Biblioteca e Fulgêncio José Lopes da Silva, o meu avô! Pode parecer uma falta de modéstia minha colocar o meu avô, que chegou a 1º Bibliotecário em 1947, num patamar semelhante ao grande Alexandre Herculano! Mas foi o Sr. Fulgêncio que durante mais de 40 anos "viveu" aquela Biblioteca.Segundo as palavras do jornalista Ercílio de Azevedo, num artigo do Jornal "A Capital" de 29 de Janeiro de 1969 sem o Sr. Fulgêncio o velho edificio de S. Lázaro seria quanto muito um armazém de livros; com ele era um ser vivo e activo, dispensador de cultura e de vida aos que nele descobriam o mundo da sabedoria. Os estudiosos procuravam-no, os eruditos consultavam-no, os jovens acatavam os seus conselhos como se fossem versões fidedignas das tábuas da lei...estou em crer que não havia livro que a sua memória não tivesse catalogado (...) com ele aprendi a ter fé na vida, uma fé louca e absurda...e a descobrir o mundo do sonho na aridez do presente, nos longes do futuro e nas brumas da distância por entre os vagalhões da vida. O Sr. Fulgêncio, licenciado em Farmácia, vivia os livros como ninguém. Recebeu a medalha de Ouro da cidade do Porto pelos serviços prestados à cidade e tem no salão nobre da "sua" Biblioteca um quadro pintado por Agostinho Salgado, onde ficou imortalizado com o seu comprido casaco soerguido pelo braço, o chapelão preto e ondulado colocado de través, o jeito infantil de inclinar a cabeça sobre o ombro...só ali falta o "definitivo" que constantemente lhe ardia nos dedos requeimados. Como disse Jaime de Almeida no seu artigo intitulado "Morte de um Homem fora de moda" o Sr. Fulgêncio foi um Homem singular um pai e avô de quem se podem orgulhar".

terça-feira, 20 de março de 2012

Onde está o Senso Comum?


Senso Comum num grau incomum é o que o Mundo chama de Sabedoria  (Coleridge, Samuel). A expressão senso comum designa um conjunto de saberes e opiniões que uma determinada comunidade acumulou no decorrer do seu desenvolvimento. É um tipo de conhecimento que se acumula no nosso quotidiano e se baseia na tentativa e erro. É o senso comum que nos permite sentir uma realidade menos detalhada, menos profunda e imediata e vai do hábito de realizar um comportamento até à tradição que, quando instalada, passa de geração para geração. É um acto de agir e pensar que tem profundas raízes culturais e sociais. Esse saber comum constitui um património que herdamos das gerações anteriores e que partilhamos com todos os indivíduos da comunidade a que pertencemos. Os princípios do senso comuns são os chamados princípios imediatamente conhecidos de toda a gente: de identidade e não contradição, de razão suficiente, de causalidade, de finalidade e o primeiro principio básico e prático que manda fazer o bem e evitar o mal. Ou seja o princípio da sobrevivência!  Esta herança cultural que constitui o senso comum manifesta-se tanto em relação aos comportamentos ligados à sobrevivência imediata, o comestível e o não comestível, o perigo e a segurança, como em relação aos sentimentos e valores que organizam e situam o desenrolar da vivência dos homens, tais como o belo e o agradável, o bem e o mal, o justo e o injusto. 
O conhecimento vulgar ou popular, às vezes denominado senso comum, não se distingue do conhecimento científico nem pela veracidade nem pela natureza do objecto conhecido: o que os diferencia é a forma, o modo ou o método e os instrumentos do "conhecer" (E. Lakatos). Os provérbios populares são os exemplos vivos do senso comum, passado de geração em geração: "Espera de teus filhos, o que a teus pais fizeres"; "Água fervida alimenta a vida"; "Chuva em Janeiro e não frio, dá riqueza no estio";"Cuidados e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém"...
A vida moderna, de frenesim constante, está a deixar o senso comum para trás. As tradições não se passam, as gerações não convivem e o senso comum está a desaparecer aos poucos.Tudo está tão formatado, tão complicado que não há espaço para o saber antigo.Não interessa, não é cientifico, não está regulamentado... Já não se pára para pensar. Age-se num impulso. Tudo tem que ser resolvido rapidamente, pois tempo é dinheiro. Já não sabemos fazer nada sem recorrer a especialistas. Não resolvemos nenhuma situação sem pedir uma opinião; não tratamos uma pequena maleita de um filho sem recorrer ao hospital. O medo de falhar, de errar, de parecer mal perante a sociedade é tão grande e está tão incutido em nós que é melhor que a culpa seja de outrem se alguma coisa correr mal. Nada de correr riscos...Não vale a pena fazer um esforço e deixar a natureza humana mostrar a sabedoria. Como diz o ditado popular "quem mal entende, mal conta" e quando a tradição não é entendida e apreendida, não pode ser ensinada!  

domingo, 18 de março de 2012

O Dia do Pai

Amanhã é o Dia do Pai, dia 19 de Março! Apesar de eu achar que estes dias pré-programados são actualmente meramente comerciais, não deixo de lhes dar algum relevo pela história que "arrastam" consigo. Este dia, tal como o dia da Mãe, foram criados com a ideia de fortalecer laços familiares e homenagear aqueles que nos deram vida. Evoca-se como origem desta data a Babilónia, onde há mais de 4 mil anos, um jovem de nome Elmesu, moldou em argila um cartão, onde desejava sorte, saúde e longa vida ao seu Pai, em escrita cuneiforme, originalmente criada na antiga Suméria (região absorvida pela Babilónia anos mais tarde). No entanto, a institucionalização desta data é bem mais recente. Em 1909, a norte americana Sonora Louise Smart Dode, filha de um veterano da Guerra Civil, William Jackson Smart quis homenagear o seu pai, que criou 6 filhos sozinho, após a morte da esposa de parto, numa quinta a leste de Washington. Em 1910 Sonora enviou uma petição à Associação Ministerial de Spokane, onde recomendava a aceitação de um Dia Internacional do Pai. A ideia teve grande adesão da população local, tendo sido aceite pelas autoridades locais. O primeiro dia do Pai foi comemorado a 19 de Junho de 1910, data do aniversário do pai de Sonora, e a rosa foi escolhida como simbolo do evento: as vermelhas dedicadas aos pai vivos e as brancas ao que já tinham falecido. A comemoração deste dia difundiu-se na pequena cidade de Spokane, para todo o estado de Washington. Em 1924 o Presidente Calvin Coolidge apoiou publicamente a ideia de um dia Nacional do Pai, e finalmente em 1966 o Presidente Lyndon Johnson assinou uma proclamação presidencial, em que decretava o terceiro domingo de Junho como o Dia do Pai. Em 1972, Richard Nixon, introduziu o Dia do Pai, na Lei Americana. Em quase todos os países, este dia é actualmente comemorado,quase sempre em Junho. Entre as várias excepções estão Espanha e Itália (19 de Março), Brasil e África do Sul (2º domingo de Agosto), Rússia (23 de Fevereiro, quando é comemorado o dia dos Homens, e chamam-lhe o Dia Defensor da Pátria) e Austrália (2º domingo de Setembro). Na Alemanha não existe dia oficial para o Pai, mas costumam comemorá-lo no dia da Ascensão de Jesus (data variável conforme a Páscoa).

Em Portugal, o dia do Pai é comemorado no dia de São José, no dia 19 de Março, estando assim ligado às festividades religiosas. 
Desejo a todos os Pais, incluindo obviamente o MEU, um Feliz Dia do Pai, mas  principalmente desejo a todos os Pais, uma feliz vida todos os dias e não apenas a 19 de Março!