Mostrar mensagens com a etiqueta Tradição. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tradição. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de maio de 2014

Um dia não chega!

A Mãe podia ser só minha. Mas tenho de a emprestar a tanta gente…(Luísa Ducla Soares, Poemas da Mentira e da Verdade). Esta frase tem tanto de deliciosa como de verdadeira.Hoje festeja-se o dia da mãe. Nunca dei muita importância a estes dias de festejo programado, em que parece que temos todos obrigação de homenagear alguém ou alguma coisa. Um dia não chega para homenagear, lembrar ou acarinhar alguém e muito menos uma mãe. Mas é interessante descobrir o que está pode detrás destes dias festivos, que são mundialmente lembrados. 
Desde sempre o homem homenageou a divindade feminina e o seu culto remonta ao inicio da nossa história. O culto à Deusa Mãe que já era feito na Pré-história, através da adoração de pequenas estatuetas que representavam a mulher, prolonga-se no Reino da Frígia (era o nome da região centro-oeste na antiga Àsia Menor -Anatólia, na actual Turquia, famoso pelos seus Reis lendários que povoaram a mitologia grega) e alicerça-se posteriormente nas civilizações romanas, egípcias e da Babilónia.

O mais antigo registo de comemoração do dia da mãe, chega-nos da antiga Grécia. As comemorações da chegada da Primavera eram feitas em honra da Deusa Rhea, designada como a Mãe de todos os Deuses do Olimpo. Na mitologia romana, é designada como Cibele, uma das manifestações da Deusa Mãe - Magna Mater, e as cerimónias em sua homenagem começaram cerca de 250 anos antes de Cristo, e duravam 3 dias, de 15 a 18 de Março. Estas celebrações foram posteriormente adoptadas pela Igreja Católica, passando a ser venerada Maria, a mãe de Jesus.
No século XVII, em Inglaterra, no quarto domingo da Quaresma (40 dias antes da Páscoa) era costume os ingleses visitarem a sua Igreja local a chamada Igreja Mãe, ou a Catedral mais próxima, para iniciarem as festividades da Quaresma. Este dia foi também posteriormente dedicado às Mães, sendo denominado Mothering Day, e todos aqueles que podiam visitavam as suas mães, oferecendo o tradicional Mothering cake. É curiosa a mistura que ao longo dos tempos se foi fazendo entre a mãe da Igreja e as próprias mães.

Mais recentemente em 1872, uma norte-americana de nome Julia Ward Howe, famosa abolicionista, activista social e poetisa, autora do Hino da Batalha da República da Guerra da Secessão Americana(cantado posteriormente por diferentes cantores e bandas, incluindo Judie Garland, os Stryper,  e os Smiths), sugeriu a criação de um dia das Mães, dedicado à Paz. Em Boston, durante vários anos celebrou o dia da Mãe, no segundo domingo de Junho. 



Mas foi outra norte americana, de nome Ana Jarvis, natural da Virgínia Ocidental, que instituiu o Dia da Mãe. Em 1905, ano em que morre a sua mãe, decide organizar uma festa, cujo simbolo era um cravo branco, para perpetuar a sua memória. Posteriormente quis que a festa fosse estendida a todas as mães, vivas ou mortas, com um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem as suas mães. A primeira celebração oficial ocorreu no dia 26 de Abril de 1910, quando o governador de Virgínia, William E. Glasscock, incorporou o Dia da Mãe no calendário de datas comemorativas do Estado. Outros estados norte-americanos rapidamente aderiram à comemoração, e em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, unificou a celebração em todos os Estados, decretando, por sugestão de Anna Jarvis, que o Dia da Mãe deveria ser comemorado no segundo domingo de Maio.  Actualmente mais de 40 países festejam o dia da Mãe nesta data. Portugal recentemente adoptou este dia, deixando cair o 8 de Dezembro, tradicionalmente considerado entre nós como o dia da Mãe. 

Mas um dia é curto...demasiado curto para permanecer na nossa memória. Nada melhor do que palavras para serem eternas:

Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
(...)
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
(...)
Fosse eu Rei do Mundo,
criava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade)



sábado, 1 de dezembro de 2012

O meu presente de Natal

O mês de Dezembro regressou! A sua chegada fria e invernosa, traz-me doces recordações. A imensidão de sensações, de cheiros e sabores que invadem o meu pensamento com a sua entrada no calendário é intensa e reconfortante. A memória que tenho dos preparativos em família para a noite de Natal é mágica. E essa magia ainda funciona... 


Olho para um canto e consigo voltar a ver a minha avó paterna, envolta em doces odores que emanavam do fogão onde panelas, tachos e formas pareciam ganhar vida e, em conjunto com as suas magníficas mãos de cozinheira, criavam uma afinada orquestra de aromas e paladares. Consigo vislumbrar o divinal leite creme bem queimadinho, o pudim de ovos recoberto de verdadeiro caramelo fumegante e o pequeno tesouro que ficava bem guardado num tacho de ferro, onde se escondia um desfiado bacalhau, que entrava em cena logo após o prato principal. Olhando um pouquinho mais para o lado, encanto-me ao relembrar a minha mãe, sempre alegre e bem disposta, corada de alegria, a fazer magia com o açúcar,  o leite, a canela, os ovos, o pão e vinho do Porto. De repente, a cozinha enchia-se de cheiros doces e apetitosos, que acompanhados dos cânticos de Natal entoados pela voz materna, criavam uma atmosfera única, plena de conforto, e encantamento, que nunca vou esquecer. Lá estavam os doces sonhos, que se espalhavam pela terrina com todas as formas e feitios tal como os verdadeiros sonhos de vida, as deliciosas rabanadas de leite que dispostas em travessas eram carinhosamente regadas com um molho de vinho do Porto, as rabanadas douradas que de tanto açúcar terem, cobriam o ar de candura, a famosa aletria recoberta com pequenos flocos de canela, que em conjunto criavam um verdadeiro arco-íris de doçura. Desviando os meus olhos para outro canto da divisão, observo o meu pai em amena cavaqueira com o pescado da Noruega. O bacalhau, rei e senhor das cozinhas neste mês natalício, vestia-se de gala e aparecia ricamente ornamentado na travessa rodeado de todos os seus súbditos: os ovos, as couves, as batatas, as cenouras e o fiel azeite pintalgado de alho. Aquilo que muitos chamam bacalhau com todos, parecia-me aos meus olhos de criança, um prato muito especial que só o meu pai sabia fazer, o que o transformava num super herói também da cozinha.

A azafama familiar era grande. Crianças e adultos todos contribuíam à sua maneira, para que o Natal fosse sempre tão especial. A árvore de Natal rodeada de embrulhos coloridos e vistosos fazia parte da festa, mas o verdadeiro presente foram estas memórias e estas recordações. Este presente que me foi dado ao longo dos anos em que fui criança, adolescente e mesmo durante parte da minha vida de adulta, não tem preço. Dos outros presentes poucas recordações possuo, mas estas doces e carinhosas lembranças, estarão sempre na minha memória e na dos meus irmãos. Mas como a tradição ainda é o que era, tentamos manter viva esta recordação nas gerações mais recentes. Agora olho em volta e já não vejo a minha avó paterna, nem a minha mãe, mas a magia continua bem presente em toda a tradição que tentamos manter viva. Os sonhos, o pudim, a aletria, as rabanadas, o bacalhau e até o pequeno tesouro do tacho de ferro estão sempre presentes. Até os cânticos de Natal permanecem vivos, apenas cantados por vozes diferentes. A magia ainda existe...e na noite de Natal se olharmos bem, fizermos silêncio e escutarmos com muita atenção ainda conseguimos sentir e ouvir aqueles que iniciaram esta magnífica tradição e nos deram o melhor presente que poderíamos ter recebido! 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A padeira que se tornou heroína


A história de um país não se faz apenas de factos documentados e históricos. As lendas, os mitos e os actos heróicos de gente até então anónima fazem parte dessa mesma história. Pessoas do povo, gente comum, apenas imbuída de coragem e cheias de personalidade, com a qual todos nos identificamos, ajudaram a erguer este país e a pincelar com magia e feitos heróicos a imensa realidade histórica que por detrás de nós imerge. 
Brites de Almeida foi uma dessas personagens. A famosa Padeira de Aljubarrota, que nasceu Brites, ajudou a enaltecer o espírito guerreiro e independente dos portugueses de então e transformou-se num ícone de coragem e de amor destemido às terras que a viram nascer. De concreto pouco se sabe desta heroína de nome Brites. Terá nascido por volta de 1350  na cidade de Faro, filha de pais humildes e trabalhadores. Desde cedo terá mostrado pouco tendência para os trabalhos femininos, dando mais importância ao confronto físico e às lutas com armas. Segundo uns, era feia, alta e corpulenta, com força varonil, uma verdadeira virago de olhos muito pequenos, donde lhe veio a alcunha de Pisqueira. Acrescentam outros, ter revelado desde criança um génio irascível, temerário e desordeiro (Junta de Freguesia de Aljubarrota). A acrescentar a esta aparência masculina a nossa heroína possuía ainda seis dedos em casa mão! Bem cedo começaram as suas quezílias com o sexo oposto. O filho do alcaide de Faro, (...) requestava a rapariga e não encontrando facilidades no seu desígnio, procurou conquistá-la pela força; vendo-se ofendida e desrespeitada, atirou-lhe à cabeça uma bilha de barro, que bastante o feriu. Brites de Almeida com medo de qualquer perseguição saiu de Faro e fugiu para Lisboa (Junta de Freguesia de Aljubarrota)

Aos 26 anos ficou órfã de pai e mãe, e despendeu parte do que lhe deixaram em pagar a quem lhe ensinassem jogos de armas (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841). A notícia da sua valentia e destemida coragem foi-se espalhando e um soldado natural do Alentejo  pediu-a em casamento. Mas Brites era uma mulher diferente de todas as outras e propôs a condição de brigarem com armas prometendo-lhe a mão se fosse vencida. Aceite o desafio sucumbiu o malfadado namorado e ela teve que fugir (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841) mais uma vez para não ser presa. Embarcou rumo a Faro, mas os fortes ventos levaram o barco para mar alto onde foi capturado por um navio mouro, que a fez cativa. Vendida como escrava no mercado de mulheres em Argel, passou a pertencer a um mouro rico, que segundo alguns rumores da época trabalhava para o sultão. Como todos os heróis do cinema, a nossa heroína que ainda não se tinha tornado padeira, conseguiu fugir do harém do Sultão acompanhada de dois escravos também portugueses, após ter matado os seus senhores numa noite e ter conseguido encontrar uma barca e fazer-se ao mar. Acometidos de uma violenta tempestade e falecendo-lhe água e mantimentos veio ao quarto dia aportar meio morta às praias da Ericeira (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841). Tendo recuperado as suas forças e o seu alento e receando que a reconhecessem e lhe pedissem contas da morte que tinha feito, vestiu-se de homem e começou a fazer serviço de almocreve. A sua vida de condutora de bestas de carga foi também bastante acidentada. Neste seu novo mester envolveu-se (...) em várias desordens e tendo sido acusada de outro morticínio, a Justiça tomou conta dela, encarcerando-a em Lisboa (Junta de Freguesia de Aljubarrota). Mas mais uma vez a divina providência esteve do lado da nossa Brites e por não se ter conseguido provar o crime foi posta em liberdade. Cansada de tantas odisseias, rumou à pacata localidade de Aljubarrota, onde se tornou criada de uma padeira. Segundo nos conta Faustino da Fonseca (jornalista, escritor e politico português), no seu romance intitulado Padeira de Aljubarrota, Brites descobriu que um dos portugueses que fugiu com ela de Argel, era o marido da padeira, de quem nada sabia há longos anos. Grata por tão importante informação a padeira tornou-se grande amiga de Brites, ao ponto de lhe ter deixado a padaria quando morreu. E foi assim que a Brites de Faro se tornou numa padeira da vila de Aljubarrota. 

Tinha Brites de Almeida cerca de 40 anos quando se deu a Batalha de Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, que opôs as tropas portuguesas comandadas por D. João I de Portugal  e pelo Condestável Nuno Álvares Pereira e o exército castelhano, liderados por D. João I de Castela. O resultado foi uma estrondosa derrota dos castelhanos tornando-se o Mestre de Avis, o rei de Portugal. Durante a batalha de Aljubarrota, Brites de Almeida, por entre o povo da vila, assistia ansiosa ao desenrolar da batalha de qualquer ponto elevado das cercanias, e muito folgou ao ver a derrota dos espanhóis (Eduardo Marreca Ferreira in Aljubarrota, 1931). Após a derrota os soldados castelhanos debandaram em todas as direcções e foi nesta fuga desordenada que passaram junto à vila de Aljubarrota, onde a nossa padeira se lançou no encalço dos castelhanos com a sua pá na mão, perseguindo uns e matando outros. Consta que sete castelhanos, vendo tudo perdido, e para escaparem à geral carnificina, achando a casa da Pisqueira abandonada (por a padeira andar entretida a caçar castelhanos) se foram esconder dentro do forno. Foi ela ali dar com eles e agarrando na pá os matou. O seu nome ficou para sempre ligado a este acto heróico de luta contra os opressores castelhanos. 

Mito ou realidade fantasiada a verdade é que a Padeira de Aljubarrota era a imagem viva do sentimento que a população da altura sentia. Como escreveu Alexandre Herculano, este sucesso tradicional, quer real, quer fabuloso, tem em qualquer dos casos, um valor histórico, porque é um símbolo, uma expressão da ideia viva e geral aos portugueses daquele tempo, o ódio ao domínio estranho, o rancor com que todas as classes de indivíduos guerreavam aqueles que pretendiam sujeitá-los a esse domínio. Brites encarnou esse sentimento e tornou-se numa lenda portuguesa. Uma mulher do povo, corajosa, destemida que enfrentava tudo e todos sem receio algum.


O sonho da liberdade tornou-se realidade e foram mulheres e homens como a nossa Padeira, que também ajudaram a que ele se tornasse realidade. Rezam as crónicas que a famosa pá foi escondida dentro de uma parede dos Paços do Concelho, durante o novo domínio castelhano. Embora estes a tenham insistentemente procurado nunca a encontraram. A pá esteve assim oculta durante os sessenta anos do domínio filipino e só tornou a aparecer à luz do dia depois da gloriosa revolução que aclamou D. João IV, Rei de Portugal. Ainda hoje, em Aljubarrota, se mostra essa pá ao turista que a deseje ver. (Junta de Freguesia de Aljubarrota)
Mito ou realidade, quem nos dera agora, mais vinte como ela!

domingo, 14 de outubro de 2012

A Carpideira

A Carpideira, profissão exclusivamente feminina, tinha como única função chorar um defunto alheio. A carpideira tem uma tradição milenar. Esta profissional do choro e da dor era contactada para acompanhar os velórios e chorar pelos mortos, mediante um acordo monetário com a família do defunto. No Antigo Testamento, existem várias referências a mulheres profissionais do pranto e do luto, conhecidas pela alcunha de carpideiras, ou aquelas que são fontes de lágrimas: Considerai, e chamai carpideiras que venham; e mandai procurar mulheres hábeis, para que venham. E se apressem, e levantem o seu lamento sobre nós; e desfaçam-se em lágrimas os nossos olhos, e as nossas pálpebras destilem águas (Jeremias 9:17-19). Tinham como principal tarefa provocar uma atmosfera de tristeza, entoando cânticos fúnebres e chorando em voz alta e com grande encenação. A carpideira  aliava à técnica do choro e do cântico fúnebre as artes cénicas  Eram especialistas em representar e encenar situações que visavam provocar nas outras pessoas o choro e a dor. Na antiga Roma, não havia velório sem carpideiras e quantas mais houvessem, mais importante era a pessoa falecida.

Que mulher é essa
Contratada para chorar
Como se o choro fosse um canto,
Para a alma do morto levar.
Tem carpideira que canta,
Tem carpideira que chora...
Todas elas acalantam
A alma que vai embora.
Antiga profissão,
Que ainda hoje vigora,
Contratadas para chorar
No lugar de quem não chora. 

(Fernando Lima)

A ladainha, a encenação e a postura corporal tipicamente usadas pelas mulheres do luto está bem demonstrado neste pequeno filme.


Pouco se ouve falar actualmente das carpideiras apesar de ainda existirem  algumas escondidas nas mais recônditas aldeias portuguesas. Choraram durante séculos os mortos alheios e na história serão lembradas como as actrizes que representaram no palco da vida real!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Vira do Minho


O Vira é a dança rainha do Minho, e faz parte do folclore português. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando fora ou virou. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia.Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido. Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares,  ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros. Viana é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única. Chegamos à região de Braga e logo nos surge o  vira galego, despido da opulência primitiva, como o caracterizou, Pedro Homem de Mello (Semibreves, Música Tradicional Portuguesa). Neste pequeno filme da autoria de Michel Giacommeti, datado de 1970, podemos ver o famoso Vira do Minho dançado na sua forma mais rústica, onde as personagens principais são populares que se juntaram para o dançar. Sem vistosos trajes característicos, mas com a roupa de trabalho, sem grande organização mas com a beleza da simplicidade, este filme transmite-nos como teria sido dançado no passado o Vira do Minho. Tomaz Ribas, escritor, etnólogo e crítico de teatro português, considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau de Amores, em 1527, onde o dava como uma dança do Minho.


Nota: Imagem de Dom Paio Global

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lisboa no inicio do século XX


Digo:
Lisboa
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como
Se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo
Da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver                        
(Sophia de Mello Breyner)



Para relembrar uma Lisboa já passada, uma Lisboa do início do século XX, este filme com uma fantástica sucessão de fotografias antigas, mostra-nos com uma espantosa realidade o que foi a vida na capital de Portugal no inicio do século passado. Pessoas, paisagens, edifícios e ambientes recriados nesta sucessão de imagens. Uma encantadora viagem ao passado...




Nota: Filme carregado no YouTube por maryto33

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Santos dos nossos dias


Não há dia que não tenha o nome de um santo qualquer. Se olharmos para as agendas antigas, a seguir à designação do dia aparece o nome de um santo, que a Igreja Católica achou por bem homenagear. Cada dia, cada santo. Existem por isso pelos menos 366 santos contabilizados pela Igreja dos católicos, já que os anos bissextos têm esse número de dias. Foi a Santo Osvaldo que calhou a sina de só ser homenageado de 4 em 4 anos, já que o dia de seu nome é 29 de Fevereiro. De origem dinamarquesa foi cónego de Winchester e arcebispo de York, descrito pelos seus pares como homem generoso, inteligente e um estudioso. Não descobri a causa da sua santidade, talvez por isso só seja lembrado de 4 em 4 anos...
Mas os nomes dos santos que mais facilmente identificamos, são aqueles que estão associados a dias festivos. São João, São Pedro e Santo António são nossos velhos conhecidos. Mas e São Valentim do dia dos Namorados e São Nicolau associado ao Pai Natal? O que sabemos destes santos? Que tradições e histórias estão por detrás dos homens?


São Valentim - sacerdote cristão do século III, viveu em Roma e foi contemporâneo do Imperador Cláudio II, cujo objectivo era constituir o maior exército possível, para manter a hegemonia dos romanos sobre o resto do mundo. Para levar a cabo tal façanha proibiu os casamentos entre os jovens romanos de forma a que estes se alistassem com maior facilidade e diminuísse o número de abandonos do exército. O sacerdote Valentim não acatou a ordem imperial e continuou a celebrar casamentos em segredo. Quando foi descoberto foi preso e condenado à morte. Durante o tempo do seu encarceramento, recebia flores e bilhetes com mensagens sobre a importância do amor. Diz a lenda que se apaixonou pela filha do carcereiro, de nome Astérias. Antes de morrer escreveu uma carta à sua apaixonada assinando no fim de seu Valentim, expressão ainda hoje utilizada pelos casais enamorados. Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro do ano 270, dia em que se celebra o dia dos Namorados.
No entanto este dia era para os pagãos a véspera do festival de lupercalia (de lupus que significa lobo, que reporta à lenda de Rómulo e Rémulo) festa anual celebrada na Roma antiga, em honra de Juno, deusa do matrimónio e de Pan, deus da natureza. Na Idade Média, o dia 14 de Fevereiro era  considerado o primeiro dia de acasalamento dos pássaros, e era tradição os apaixonados deixarem mensagens de amor na soleira da porta da pessoa amada. Actualmente o dia é celebrado um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Uma tradição com séculos de história.


São Nicolau - o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, nasceu por volta do ano 270 em Patara, capital da antiga Lícia (actual Turquia) filho de pais nobres. Quando os pais morreram distribuiu a sua fortuna pelos mais carenciados. Foi consagrado Bispo de Mira (actual Turquia) ainda muito jovem e desenvolveu a sua actividade apostólica na Palestina e no Egipto. Foi preso durante o reinado do Imperador Diocleciano que moveu uma perseguição aos cristãos, tendo sido libertado durante o reinado do Imperador Constantino. São-lhe atribuídos muitos milagres sendo considerado protector dos marinheiros, dos mercadores, dos estudantes e especialmente das crianças. Conta a lenda que gastou parte da sua herança de família a distribuir presentes pelas crianças mais carenciadas. Morreu a 6 de Dezembro do ano 342. Nesse dia, já na Idade Média era costume nos países nórdicos,  os criados da famílias mais abastadas, deixarem pequenos presentes às crianças em honra de São Nicolau. Foi também nestes países que se desenvolveu a tradição de deixar sapatinhos junto às lareiras para que o santo, também chamado de Velho Pai, pudesse deixar os presentes destinados às crianças. Esta tradição e o culto a São Nicolau espalharam-se por toda a Europa. Após a reforma da Igreja, os países que professaram o Protestantismo abandonaram esta tradição, passando a venerarem o Christkind (Menino Jesus) como aquele que oferecia as prendas às crianças no seu próprio dia de nascimento ou de Natal, o dia 25 de Dezembro. 


Mas a lenda de São Nicolau prevaleceu passando o Velho Pai a ser designado como Pai Natal, Père Noel ou Father Christmas, passando também a ser festejado no dia 25 de Dezembro. Apenas na Holanda se manteve a designação de Sinterklaas que significa São Nicolau. Pensa-se que foram emigrantes holandeses que levaram a tradição do culto a São Nicolau para os Estados Unidos da América no século XVII, onde Sinterklaas deu origem a Santa Claus, nome pelo qual ainda hoje é chamado o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho e que distribui as prendas na véspera de Natal. A  figura do Pai Natal ou de Santa Claus, como actualmente a conhecemos, é da autoria de um americano de nome Thomas Nast, cuja ilustração foi pela primeira vez publicada no jornal Harper's Weekly em 1866. Mas foi com uma campanha publicitária da famosa bebida americana Coca-Cola, em 1931, que o simpático velhinho passou a ser reconhecido mundialmente como o famoso Pai Natal.

Ao longo dos séculos as tradições foram-se mantendo, passando de geração em geração. Com o nome de São Nicolau, Santa Claus ou Pai Natal, o que importa é que a fantasia e o sonho se mantenham vivos no imaginário de todos, quer sejam crianças ou adultos.

sábado, 28 de julho de 2012

O saber do povo



As superstições, os costumes, os jogos, os contos, as cantigas, as advinhas, as rimas infantis, as orações, as xácaras (narrativas populares) todas estas tradições que constituem o folclore, parecem na verdade à primeira vista objectos destituídos de importância, e próprios exclusivamente de espíritos ignorantes e rudes (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). As tradições populares são imprescindíveis para a cultura de um país, pois   transmitem o modo como as pessoas encaravam a natureza e como com ela conviviam, elucidam-nos sobre o passado e são a verdadeira obra do povo. O folclore, palavra portuguesa que derivou dos vocábulos ingleses folk (povo) e lore (saber tradicional), é a ciência das tradições, dos usos e costumes populares, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, canções, contos, provérbios, jogos e tantas outras actividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo. A UNESCO declarou que o folclore é sinónimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade, através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Onde está o nosso folclore? O que sabemos das nossas tradições e crenças populares? Para além das danças que quase todos os portugueses conseguem identificar como sendo o vira do Minho, os pauliteiros de Miranda, o corridinho do Algarve ou o bailinho da Madeira, onde está o resto do nosso folclore? Esquecido ou quase...essa parte essencial da cultura de cada nação, quase não existe em Portugal. As figuras do folclore português são desconhecidas. Se falarmos de duendes, gnomos, elfos e fadas facilmente os identificamos como fazendo parte do folclore da Irlanda, Inglaterra, Noruega e outros países nórdicos. Mas se falarmos de trasgos, mouras encantadas, olharapos, almazonas e tardos, poucos serão capazes de saber que fazem parte do nosso folclore e que tanto têm para contar. Será que é por serem nossos? Para compensar a ausência de divulgação dos nossos entes encantados aqui fica uma pequena apresentação de cada um deles:

Trasgos - é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, mais concretamente da região de Trás-os-montes. 
Aparentados com os trasnos galegos, são pequenos seres rebeldes, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.  Os trasgos perseguem principalmente as mulheres, fazendo-lhes variadas judiarias, quando elas estão na cama. Atiram pedras pela janela,  quebram as louças da cozinha (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Estas pequenas criaturas endiabradas arrastam os móveis, mudam as coisas de sítio, partem vidros e muitas travessuras especialmente durante a noite. Pela sua descrição, parecem corresponder aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, porém, ao contrário destes, os trasgos são praticamente desconhecidos nas sociedades modernas, ditas civilizadas, porquanto a sua sobrevivência está circunscrita a uma cultura popular estritamente oral, que sempre foi subalternizada pelas sociedades mediáticas (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)Na memória dos transmontanos mais idosos  os trasgos ainda estão bem vivos e são descritos como uma raça de figurinhas míticas, rebeldes e que adoram pregar partidas. Ainda hoje quando alguém faz alguma brincadeira ou é mais rebelde, os mais velhos dizem aquilo é um trasgo! Segundo as antigas crenças, são pequenas almas penadas, crianças que não foram baptizadas antes de morrer e que regressam às casas que habitavam para pregar partidas. Assim acontece, por exemplo, no concelho de Vimioso, onde existem as ruínas do chamado moinho dos trasgos, que foi abandonado pelo seu moleiro por não poder suportar as travessuras de um que com ele partilhou o mesmo habitáculo (Diabos, Diabritos e outros Mafarricos Alexandre Parafita, 2003). Em Vinhais existe uma curiosa história de uma mulher que incomodada por um trasgo na casa que habitava, decidiu mudar para outra habitação para fugir às travessuras constantes do pequeno ser rebelde. Quando estava nas mudanças encontra um menino de gorro vermelho que carregava um banco de cozinha. A mulher admirada pergunta: esse banco não é meu? Para onde o levas? E o pequeno ser responde: Então não estamos a mudar de casa? Para onde fores eu também vou! Quem não tem em si um pouco de trasgo?!

Olharapos - ou Olhapim (assim conhecidos em Trás-os-montes) são figuras gigantes que apenas possuem um grande olho na testa (Ciclope)
Nos contos e lendas transmontanas o olharapo é descrito como um ser antropófago, violento e feroz. O que lhe sobra em força e em tamanho  falta-lhe em produtividade e sobretudo em inteligência (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)No concelho de Vinhais existe um provérbio ligeiramente diferente do que conhecemos e que diz: Na terra dos Olhapins quem tem dois olhos é rei. No entanto é muito interessante de ver que o número de olhos deste ser assustador varia de região para região: em Cabeceiras de Basto e em Guimarães os olharapos têm três olhos, dois na frente e um no cachaço, razão pela qual tanto vêem para trás como para diante (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882); em algumas regiões do Minho, têm quatro olhos, dois à frente e dois atrás. Figura assustadora dos contos populares, há quem diga que vivem num país distante, mas que podem aparecer de um momento para o outro...

Almazonas - também chamadas de Almajonas, são mulheres muito altas que carregam os filhos às  costas e que fazem parte das lendas portuguesas.
Descritas nas regiões da Beira e no Minho, como mulheres muito grandes e gordas, que deitam os seios para trás e assim alimentam os filhos às costas (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Perante uma mulher bem nutrida era muito comum dizer-se: aquilo é uma almazona. A palavra almazona, segundo Leite de Vasconcelos, tem origem em amazonas, a que foi acrescentado o l  por analogia a alma. Muito curiosa é a lenda que tem origem em Famalicão, e que faz a distinção entre Almazonas (mulheres grandes) e Allamóasque eram mulheres do reino da Allamanha, que traziam os filhos às costas  e nunca deixavam andar os homens com elas. Só uma vez por ano estes tinham permissão para se aproximarem das mulheres, mas ao fim de certo tempo eram expulsos. Quando nascia uma menina, ficavam com ela; quando nascia um menino mandavam-no para os homens. Os homens eram os Allamões, gente muito alta (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Provavelmente esta lenda tem origem nas invasões germânicas à Península Ibérica no século IV. Através da tradição oral a história chega até nós, tantos séculos depois!

Tardos - ou Trevor é um tipo de duende e é um ser mítico do folclore português. 
Também é chamado de pesadelo ou tardo moleiro, em algumas regiões do país. O tardo é conhecido por importunar as pessoas que estão a dormir causando pesadelos. Pode aparecer em figura de animal - cão, gato ou cabra - e quando aparece nos caminhos, nos regatos ou em cruzamentos tenta urinar em cima das pessoas, deixando-as entardadas (desorientadas) sem saberem que caminho tomar ou onde se encontram. Em Guimarães o tardo é considerado o diabo e só sai à noite. Um lavrador da Maia descreveu-o assim: o tardo não é o diabo. É um bicho mau tal e qual como um cachorro pequeno. Se alguém for por um caminho, de dia ou de noite, e o tardo lhe urinar nas pernas, a pessoa fica entardada e depois não sabe para onde há-de ir; só com o tempo é que se desentarda. O tardo aparece em qualquer caminho, mas nos regatos é pior. 

Figuras tradicionais quase esquecidas, que armazenam pedaços da história do nosso passado. O folclore é a obra do povo, e nós como povo que somos não devemos esquecê-lo. Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos (Albert Einstein).


sábado, 7 de julho de 2012

Barco Rabelo ou o Barco de Rabo


O barco Rabelo e o Rio Douro são amigos inseparáveis de longa data. O rio de mau navegar, como era conhecido aquele que banha as margens das cidades de Vila Nova de Gaia e do Porto, desenhou o barco de Rabo ou Rabelo. De águas traiçoeiras, com correntes rápidas e turbulentas, o Douro sempre tornou difícil a navegação nas suas águas. Parecia dizer a quem o pretendia utilizar como via de comunicação que aqui mando eu, e só navega nas minhas águas quem eu quero! De construção simples e tosca, o barco Rabelo conquistou o Douro. De fundo chato, boca aberta e com as tábuas do costado ligadas em trincado, a popa é mais alta que a proa para facilitar o manejo da espadela que serve de remo e de leme, governada pelo arrais ou feitor, que vai em cima de uma espécie de ponte - a apegada. Tem um único mastro onde arma uma grande vela. As dimensões usuais dos Rabelos situam-se entre os 19 e os 20 metros de comprimento, com 4,5 metros de boca (Museu da Marinha)Sem quilha e de fundo chato, a sua construção de tábuas sobrepostas (a chamada técnica da  tábua trincada ou de clinker built segundo os ingleses) construídos pelos próprios marinheiros de rio, tem origem nórdica. 

No Museu Marítimo de Oslo, estão expostos dois barcos Vikings, os chamados Drakkars, que segundo Armando Matos autor do livro O barco Rabelo, podem estar na origem dos nossos Rabelos. A origem deste barco confunde-se com o próprio rio. Estrabão, na sua obra intitulada a Geografia (considerada a primeira enciclopédia de geografia escrita em 17 volumes) refere a existência de magnis scaphis (grandes barcos) que subiam e desciam o rio Douro transportando pessoas e haveres, sendo a única forma de comunicação com as terras do interior. Desde o século XIII que existem relatos sobre as viagens destes históricos barcos, que percorrem incansavelmente e alheios aos perigos, as águas que serpenteiam as encostas verdejantes do Alto Douro e que desaguam na foz junto às cidades nortenhas de Porto e Gaia. Em três dias conseguia percorrer os 150 quilómetros que separavam a Régua do Porto (Museu da Marinha)São estes barcos estrambólicos que fazem o tráfego do Douro. carregam pipas, cortiça, casca, madeira, gente; e quando vem o inverno e anda o rio grande, o movimento nunca se interrompe. Os homens intrépidos de pé sobre a pégada - o nome da gaiola onde vai o arrais - manobram com precisão a espadela, metendo a charroa na água e imprimindo a direcção ao barco. É preciso fazê-lo sem um movimento falso, sem um segundo de hesitação nos sítios perigosos (...) entre montanhas de bronze que põem a alma negra e que estão à espera que se passe uma tragédia (...) tendo de descer lá do alto até ao Porto com aquelas pipas todas, agarrado à espadela, olho na água, olho nas pedras agudas como dentes...o barco oscila, põe-se de pé - e ele lá vem ,lá desce. Como se aguenta? Arriscando a vida (Maria Angelina e Raúl Brandão in Portugal pequenino, 1929)Para ultrapassar os perigosos rápidos do Douro, os Rabelos tinham que ser colocados na água com grande precisão, e quando apanhados pela força da corrente a tripulação esperava e rezava para que o rio de mau navegar os transportasse em segurança. 
Quando não havia corrente o barco de Rabo, recorria à sua vela e à ajuda de ventos favoráveis para poder navegar. Quando precisava de lutar contra a correnteza da água, recorria ao reboque: os tripulantes saiam do barco e com recurso a cordas arrastavam o barco escalando as margens rochosas e traiçoeiras do Alto Douro. Se navegasse junto a terrenos férteis e planos, faziam soar a buzina do barco Rabelo para alertar os agricultores locais da necessidade de ajuda ao mesmo tempo que em voz alta clamavam Eh boieiro!! Uma parelha de bois, seria então atrelada ao barco que subiria o rio a reboque da força animal. Muitos homens perderam a vida nesta perigosa travessia, apesar de toda a mestria e valentia que possuíam. O próprio Barrão Forrester (grande reformador do comércio do vinho do Porto) morreu junto ao Cachão da Valeira  em 1861, quando o barco Rabelo que o transportava virou, não se conseguindo salvar por causa do seu famoso cinto de dinheiro, que estando cheio o arrastou para o fundo. A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, publicou em 1792 alvarás onde legisla a actividade do barcos Rabelo, tal é a dimensão do transporte e o número de barcos existentes. Ficam assim determinados os limites de carga a transportar, dando ordem de extinção dos barcos de maior porte (aqueles com capacidade de transporte de 100 pipas ou mais) e a proibição de navegação nocturna, pelos riscos que esta implicava.
Associado ao barco Rabelo está o famoso Vinho do Porto. Transportado em pipas de madeira empilhadas nos Rabelos, desde as terras de socalco viradas para o Douro até às caves de Gaia, tornaram ainda mais famosos os barcos de Rabo. O colorido sóbrio e pitoresco, os trajes dos seus marinheiros e a grandeza da paisagem, transformaram-no numa das embarcações típicas mais conhecidas em todo o mundo (Museu da Marinha). Quando observamos actualmente o majestoso navegar deste belo e tosco barco, nas águas límpidas do Douro, com o seu porte altivo e gracioso, rapidamente esquecemos a luta que as gentes do rio tiveram ao longo dos anos para realizar a sua travessia. A eles devemos o sucesso do Vinho do Porto, a travessia de gentes e carga entre as remotas terras do Alto Douro vinhateiro e as cidades costeiras, durante longos anos. A eles devemos um olhar diferente sobre o tipico barco, que agora percorre o rio para deleite dos turistas mesclando-se com a beleza das pontes e das margens que vão desfilando ao logo da sua travessia. Alves Redol escreveu que cedo o homem descobriu o rio...aprendeu a lidar com os seus humores e a beneficiar das suas potencialidades. Depois o homem construiu o barco Rabelo, sem requintes de beleza, mas repleto de realidade e poesia!

Nota: As imagens a preto e branco utilizadas foram retiradas de etnografiaemimagens.blogspot.com 

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Rio do Esquecimento

Percorrendo montanhas e planaltos, serpenteando por vales verdejantes e luxuriantes, o rio Lima nasce a uma altitude de 975 metros no monte galego de Talariño na Província de Ourense, para desaguar no oceano Atlântico junto à costa da portuguesa cidade de Viana do Castelo, após calcorrear aproximadamente 110 quilómetros. Viajando por paisagem galegas e minhotas, o Lima tem o privilégio de ter nas suas margens locais como Lindoso, Ponte de Lima e Ponte da Barca. (...) todo o Lima na grande extensão desde Ponte de Lima a Viana, é espraiado, com as margens atapetadas de verdura, matizado de lugarejos, cheio de vida, de sorrisos, de amor (António Costa, No Minho, 1874). Denominado de Limia na Galiza, deve provavelmente o seu nome à grande quantidade de lamarões (lamaçais) e lagoas que existiam na sua nascente, denominados de lymnas em grego e lymun em latim, donde derivou o nome Lima em português. De águas límpidas e calmas era conhecido pela fartura de salmões, trutas, lampreias e sáveis que as populações das suas margens pescavam em grande quantidade. Também denominado de Belion pelo geógrafo grego Estrabão, que significava nativo (os lusitanos foram também designados por belitanos), foi durante muito tempo designado por rio Lethes (latim) ou Oblivio (grego), o rio do Esquecimento. De acordo com a mitologia grega, as almas que chegavam ao mundo dos mortos, o Hades, e que depois do julgamento final vagueavam pelos Campos Elísios, deviam beber da água do Rio Lethes para que toda a memória da sua vida anterior fosse apagada. Só assim podiam voltar ao mundo dos vivos, ou seja, ressuscitar. De acordo com a tradição grega, o Lethes era um dos cinco rios do Hades, com águas de grande beleza e calma, situado a Ocidente, para lá do mundo conhecido (Conde de Bertiandos, 1898)Associado a esta mitologia, um acontecimento histórico veio ainda acentuar a ideia de que o rio Lima era de facto o rio Lethes ou do Esquecimento, que condenava todos aqueles que atravessassem ou bebessem as suas águas à perda das suas memórias. Na sua narrativa Estrabão geógrafo grego indica que nas cercanias do actual cabo Finisterra, se encontravam Celtas que para aí se haviam deslocado na companhia de Túrdulos, durante uma expedição guerreira (para a conquista conjunta da Galiza, século VII aC.). No entanto, e ainda segundo Estrabão, chegados ao rio Lima, mal o haviam passado gerou-se entre eles tal discórdia que, morrendo o chefe dos Túrdulos, e esquecidos da aliança que haviam feito, tiveram que ficar no mesmo sítio esquecendo o caminho para a sua antiga pátria. Por isso mesmo, explicava ainda Estrabão, ao Rio Lima se chama também Rio do Esquecimento (Joel CLETO, Monte Murado, Carvalhos, in A mais velha aliança, O Comércio do Porto, Revista Domingo, Porto, 11 de Fevereiro 2001)O rio Lima passou a ser uma fronteira intransponível e uma muralha natural de protecção contra os ataques e incursões dos povos inimigos. O medo e a superstição impediam os exércitos de passar para a outra margem do rio e durante anos as suas águas foram intransponíveis.  
No ano 137 aC. as legiões romanas comandadas por Decimus Junius Brutus, depois de terem conquistado a Lusitânia dirigiam-se para a Galiza no seu ímpeto conquistador. Chegados às margens do rio Lima os soldados romanos, cientes do nome do rio e do efeito mítico das suas águas desobedeceram por isso às ordens do seu comandante, quando este lhes ordenou que atravessassem para a outra margem. Nenhum soldado quis correr o risco de esquecer a sua vida passada, a sua família  ou a sua terra Natal. Assim, Decimus Junius Brutus viu-se obrigado a fazer a travessia sozinho. Uma vez chegado à margem norte, chamou os seus homens um a um pelos seus nomes, provando desta forma que as águas do Lima não conduziam ao esquecimento do passado (Conde de Bertiandos, 1898)O mito caiu e o rio Lima deixou de ser uma muralha intransponível, mas o nome manteve-se durante muitos mais anos. Almada Negreiros pintou uma tapeçaria em que retrata a legião romana a passar o rio do esquecimento que ele próprio descreve por palavras suas: Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento. Qualquer que seja o nome que se lhe atribua, o rio Lima é um rio repleto de história. Nas suas águas viajaram ao longo dos séculos homens e mulheres de diferentes origens e condições sociais e fizeram-se importantes trocas comerciais. 
Em 2003 foram recuperadas do seu leito duas pirogas  monóxilas (feitas de um único tronco de árvore) datadas do século IV e II aC. Estes achados estão claramente relacionados com uma tradição multimilenar (...) de passagem do rio (Francisco Alves e Eric Rieth, Lisboa 2007).
O rio Lima mais do que uma fronteira intransponível tornou-se numa via de comunicação e de ligação dos povos. Como muito bem descreve o Professor Eugénio de Castro Caldas este rio minhoto, transmite um sentimento que deveria fazer parte de todos de aqueles que são descendentes dos que viveram nas suas margens
Ser minhoto é ser Celta; 
Castrejo Galaico, pouco Lusitano; 
mais Suevo do que Vizigodo; nada Mouro.
Aragem do Atlântico sobre o Mediterrâneo.
Do berço de Portugal, não da colónia
Se perguntar se é bem ou mal,
julgo que é apenas tal e qual:
mais enxada do que charrua,
mais regadio do que sequeiro,
mais prado do que pousio,
mais trabalho do que terra.
De mitologia e de realidade, de memórias e tradições, de alegrias e de perdas estão repletas as águas deste rio, e apesar do nome que durante tantos anos ostentou, se pararmos perto das suas margens e em silêncio escutarmos com atenção o seu murmurar, decerto que ficaremos encantados com aquilo que tem para nos contar. Basta sabermos ouvir!


Nota: A imagem da piroga, da autoria de Francisco Alves e Miguel Aleluia, foi retirada do estudo de Francisco Alves e Eric Rieth, intitulado As pirogas 4 e 5 do Rio Lima, Lisboa 2007





quinta-feira, 14 de junho de 2012

As canções de acalentar

A cantiga de berço, o suave embalo e aconchego, nos braços das mães ou amas carinhosas, foi sempre em todos os povos o primeiro gesto de solidariedade com o recém-nascido (Melo, 1985). A canção de embalar é uma das mais antigas manifestações de expressão cultural dos povos, um costume sem idade e sem tempo, cuja existência é a mesma da primeira mulher que deu à luz o primeiro filho (Anabela Canez). O acto maternal de acalentar, o mesmo que embalar ou adormecer, é universal e independente do grau de civilização. A transmissão desta expressão poética da linguagem humana é feita de geração em geração, geralmente por mulheres, acolhendo a criança para acalmá-la e adormecê-la nos braços, no berço, na cesta, na rede (Leite de Vasconcelos,1907)O primeiro documento existente com referência à cantiga de acalento, data de 1400 a.C. tratando-se de um exemplar em escrita cuneiforme que remonta aos antigos povos da Suméria. Há registos de canções de acalento nos índios do Chiloé (província do Chile), nos Dindjie de Alasca, nos Sioux, no Haiti, nos Índios do Brasil, nos Árabes e Berberes, nos Bosquímanos e em várias ilhas da Oceania. No século IV aC Teócrito, poeta grego de maior destaque do período helenístico, descreve-nos uma canção de acalento cantada por Alcmena para seus filhos gémeos, Heracles e Íficles:
Dormi, meus meninos,
Um sono doce e brando;
Dormi, almas minhas,
Irmãos um do outro,
Filhos afortunados;
Repousai felizes,
E felizes chegai até amanhã de manhã. (Leite de Vasconcelos, 1907)
Aulo Pérsio Flaco, poeta satírico da Roma antiga, refere nos seus poemas do século I, o cantar de uma ama de leite e também Arnóbio de Sica faz referência a cantos para embalar crianças, chamando-lhes doces cantigas. Nos  séculos XII e XIII, o poeta italiano Dante Alighieri, apresenta alguns versos, com o termo  nanna e a sua congénere ninna, palavras melodiosas que fazem parte da maior parte das canções de berço, transmitindo a importância que os italianos davam e a poesia que empregavam no cuidado à primeira infância. Em França existem inúmeros registos de canções de acalento, sendo denominadas por berceuses, tal como em Inglaterra onde são conhecidas como lullaby. Segundo Leite de Vasconcelos, as canções de berço portuguesas têm os seus registos a partir do século XVI. Luís de Camões e Gil Vicente (onde podemos ver a repetição de sons onomatopeicos, tão característicos das canções de embalar) fazem referência às canções de berço nas suas obras:

O som dos gritos, que no berço dava,
Já como de suspiros me soava.
Com a idade e fado estava concertado:
Porque quando por caso me embalavam,
Se de Amor tristes versos me cantavam,
Logo me adormecia a natureza. in Luis de Camões, Canção XI


Ro, ro,ro
nosso Deus e Redentor,
não choreis, que dais dor
à Virgem  que os pariu
Ro ro ro   in Gil Vicente, Auto da  Sibila Cassandra, Cena II


Também num dos mais conhecidos romances da região de Trás-os-Montes, intitulado D.Silvana, há referência à cantiga de embalo, onde a condessa nina seu filho amamentando-o com ternura antevendo a sua morte ordenada pelo rei (Leite de Vasconcelos, 1907). Em 1872 é publicado o primeiro livro com uma relação de cantigas de ninar da autoria de Neves de Melo. Caracterizada pelo ritmo lento, marcada pela sensibilidade e ternura transmitidos pelo mais puro sentimento materno de protecção, a canção de embalar faz parte da cultura popular universal. O texto, a música, o balancear, a constante repetição de sons simples, conjugam-se numa forma única,  com o objectivo de embalar o sono do bebé. O saber popular, na sua ancestralidade imensa, cuidava de envolver o bebé em diferentes conselhos, rezas, protecção divina, num carácter de intimidade embaladora (Maria Isabel Ribeiro de Castro, 2008). As cantigas de acalento, além deste factor de protecção englobam ainda a necessidade do pequeno bebé se transformar num homem cumpridor das normas sociais e conhecedor dos sofrimentos humanos. Muitas vezes a mãe canta e alerta o bebé para os perigos, as preocupações e os problemas sociais, sempre com uma aura de protecção e conselho: 

Dorme, dorme, meu menino
Que a tua mãe tem que fazer,
Ela tem muito trabalho
E tem pouco que comer!

Meio de transmissão oral da cultura tradicional de geração em geração, as canções de embalar incorporam no seu seio mensagens de teor moral, pedagógico e psicológico e são por isso vivos documentos históricos de transmissão dos saberes, emoções, vivências, medos e costumes da época a que reportam. O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. (...) vão passando por todos os berços (...) e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos (Renato Almeida, História da Música Brasileira). No entanto a sua influência vai muito mais além do acalento e embalo. A voz humana, especialmente se for da mãe, o contacto físico e emocional transmitidos pela canção, permitem ao bebé que está em pleno desenvolvimento físico e cognitivo, receber as primeiras informações vindas do mundo exterior através da música. Todo o acto de embalar e de acalentar está imbuído de uma certa magia que só pela música pode ser transmitida. A transmissão de sensações, de saberes e de sentimentos tão profundos como protecção, amor e segurança   através da música, linguagem universal, permite ao bebé desenvolver-se com harmonia e equilíbrio. 
É preciso desenvolver uma inteligência sensível, encontrar caminhos para alegria e afirmar a vida na interligação. E se quisermos verdadeiramente fazer justiça às crianças, teremos de desafiá-las na sua graça e poder, através da sua própria cultura. (...) toda a criança gosta de música. Não será pois oportuno, favorecer-lhes a índole e levá-las a tocar o seu destino com confiança? (Lídia Hortélio, etnomusicóloga). De tradição popular ancestral a canção de embalar tornou-se num instrumento precioso de desenvolvimento infantil. Educar e formar com música já fazia parte do saber das nossas ancestrais. Independentemente de quem canta e embala, o que é verdadeiramente importante é que a cantiga de alento não deixe de existir no mundo mágico de um bebé em formação, como disse Guerra Junqueiro no seu poemaNo lugar vago deixado pela mãe, está agora o rosto meigo da ama que o acalenta e lhe canta cantigas de o fazer sonhar, canta-lhe cantigas de o embalar, canta-lhe cantigas de o adormentar. Ainda hoje tenho na memória a voz e as palavras doces cantadas pela minha mãe quando me trauteava canções de acalento. 
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Que a mamã vai-te cantar
Faz ó-ó, faz ó-ó, meu bebé
Fecha os olhos e deixa-te embalar!
Mantenhamos pois viva esta tradição imemorial e não deixemos que a voz cantada da mãe ou do cuidador desapareça dos ouvidos em formação dos nosso bebés.