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terça-feira, 3 de julho de 2012

Margarida de Sabóia: uma italiana que foi Vice-rei de Portugal



O dia 1 de Dezembro de 1640 é um dia histórico para Portugal. O nosso país restaurava a sua independência face aos espanhóis e a dinastia Filipina chegava ao fim. O trono de Portugal era novamente ocupado por um descendente luso. D.João, Duque de Bragança tornou-se no vigésimo rei português iniciando a IV dinastia portuguesa, a dinastia de Bragança. Os anos anteriores foram muito conturbados. Com o desaparecimento de D.Sebastião  sem deixar descendência, na Batalha de Alcácer Quibir em 1578, o trono de Portugal foi ocupado pelo seu tio o Cardeal D.Henrique. Dois anos depois em 1580, o Rei-Cardeal morreu sem deixar herdeiro nomeado dando início a uma crise politica e social em Portugal. Chegou até nós uma quadra popular que define bem o descontentamento do povo português perante a ausência de um herdeiro legitimo: Que o Cardeal-rei D.Henrique, fique no inferno muitos anos, por ter deixado em testamento, Portugal aos castelhanos. Filipe II de Espanha, neto de D.Manuel e tio de D.Sebastião assumiu a pretensão ao trono português tendo apenas como opositor D.António, Prior do Crato e primo de D.Sebastião. Na Batalha de Alcântara, de 24 de Agosto de 1580, o pretendente português saiu derrotado e Filipe II de Espanha, I de Portugal, foi aclamado rei em 1581 nas Cortes de Tomar. Comprometeu-se a manter a independência de Portugal como país, a só nomear governadores portugueses, a respeitar os usos e costumes lusos e a manter a moeda nacional. O tempo foi passando e os seus sucessores rapidamente se esqueceram destas promessas e Portugal passou a ser mais uma província do reino de Espanha. É neste cenário de submissão ao poderio crescente dos espanhóis que surge o nome de Margarida de Sabóia, uma italiana que representava a Dinastia dos Filipes em Portugal. Filha de Carlos Emanuel I, Duque de Sabóia e da Infanta Cristina Micaela de Espanha , nasceu na cidade italiana de Turim a 28 de Abril de 1589. Neta pela parte materna de Filipe II de Espanha, tornou-se numa importante figura da aristocracia europeia. De acordo com uma aliança matrimonial, casou na cidade em que a viu nascer no dia 19 de Fevereiro de 1608 com Francisco de Gonzaga, futuro Duque de Mântua e Montferrat. Com a morte precoce do Duque Francisco, Margarida de Sabóia assumiu o cargo de Duquesa de Mântua, nome pelo qual ficaria conhecida para a história. Sem filhos varões vivos, Margarida tornou-se regente da filha Maria até esta ter idade para governar o ducado, após anos de luta contra outros pretendentes ao lugar deixado vago pelo marido. Tendo antepassados ligados à Casa Real Portuguesa, já que as suas avós materna e paterna eram ambas filhas do rei D.Manuel  (Isabel e Beatriz), foi nomeada em 1634 pelo rei Filipe IV, seu primo directo, Vice-rei de Portugal. Recebida a 10 de Novembro de 1634 em Madrid pelo monarca do reino de Espanha, onde se deslocou acompanhada do Duque de Olivares, o ministro preferido de Filipe IV. Rumou a Portugal no fim do mês de Agosto, com o correspondente a 8 mil escudos em ouro para as despesas de viagem, e com uma provisão que correspondia a 25 mil escudos anuais pelo cargo que ia ocupar. 
A Vice-rei Margarida de Mântua chegou a Portugal no ano de 1635 para onde se dirigiu com ideais de governação e poder. No entanto cedo se apercebeu que não passava de uma peça decorativa sem qualquer poder real. Margarida de Sabóia foi colocada em Portugal para vice-reinar e não para governar (António de Oliveira, Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino). O poder efectivo estava nas mãos do Marques de Puebla (Conselheiro de Estado e Governador da Fazenda de Castela)  e do seu  secretário  Gaspar Ruiz Escaray (Secretário de Estado do Conselho de Guerra), que vigiavam e controlavam todas as acções e decisões da Vice-rei de Portugal. A principal tarefa, que lhe tinha sido atribuida directamente pelo primo Filipe IV de Espanha e III de Portugal, era convencer os Ministros portugueses a aceitarem o aumento da carga fiscal de modo a obter uma renda fixa e  defender e recuperar o Brasil, entretanto nas mãos dos holandeses. Miguel de Vasconcelos, português e primeiro ministro de Margarida de Mântua, era também colaborador de Filipe III de Portugal. Era um homem odiado pelo povo português por defender o domínio filipino. Ao verificar que nada daquilo que decidia era cumprido e que eram cometidas irregularidades contra o povo português, particularmente por Miguel Vasconcelos e pelos outros ministros, Margarida de Mântua, escreveu a Filipe IV várias cartas a dar conhecimento de tais atitudes  e onde avisava o primo do perigo de perder o reino português caso não fossem interrompidas tais medidas. Pedia a Filipe III que moderasse os seus ministros e que fosse mais benevolente com o povo português completamente subjugado em impostos e  sofredor de injustiças constantes. Com a introdução do chamado imposto da quinta, que consistia em taxar a 5% todas as mercadorias e rendimentos do reino português, Margarida de Mântua com a sua intervenção conseguiu controlar um inicio de revolução no litoral sul de Portugal. Apesar dos avisos sobre o sofrimento em que vivia a maior parte da população portuguesa e das injustiças cometidas, nada foi feito para minorar o efeito das medidas tomadas. Quando surgiu a convocação dos nobres portugueses para prestarem serviço fora das fronteiras lusas, começou a ser posta em prática a ideia de uma revolução para expulsar os espanhóis. O chamado Grupo dos Conjurados, como ficaram conhecidos os quarenta elementos que dele faziam parte, começaram a planear o restabelecimento da independência portuguesa. Escolheram para futuro rei de Portugal, D.João, Duque de Bragança que tendo inicialmente recusado o convite foi convencido por sua mulher D.Luisa de Gusmão, que segundo o Conde de Ericeira, afirmou ser mais acertado morrer reinando do que acabar servindo. Também é atribuída a D.Luisa a famosa frase melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida. E assim as previsões de Margarida de Sabóia confirmaram-se e no dia 1 de Dezembro de 1640, Portugal reconquistava a independência que tinha perdido há 60 anos atrás . 
Quando os fidalgos invadem o paço D. Antão de Almada e D. Carlos de Noronha acercam-se da Duquesa de Mântua e comunicam-lhe que Portugal não reconhece outro rei senão D. João IV. A vice-rei tenta resistir e altivamente pergunta: Manda-me sair a mim? E de que maneira? Carlos de Noronha responde: Obrigando Vossa Alteza a que, se não quiser sair por aquela porta, tenha de sair pela janela. Face à situação em que se encontrava, e depois de ter visto o seu primeiro ministro Miguel Vasconcelos ser morto e atirado da varanda para o Terreiro do Paço, Margarida de Mântua rende-se. Mais tarde recebeu ordens para abandonar o Palácio e a pé acompanhada do seu séquito dirigiu-se para a casa real de Xabregas onde permaneceu sob a protecção de duzentos soldados portugueses. Poucos meses depois D.João IV libertou-a, enviando-a em liberdade para Castela. Após várias tentativas para falar com Filipe IV todas elas fracassadas, por intervenção do Duque de Olivares, e depois de ter passado por Mérida e Occanga, Margarida consegue ser recebida a 3 de Janeiro de 1642, pelo monarca que lhe concede vários privilégios: o governo da cidade de Vigevano, uma provisão de 36 mil ducados de prata anuais e 50 mil ducados para a sua viagem de regresso a Itália. Margarida abandonou Madrid a 5 de Julho de 1655 com destino à sua terra natal, mas perto da localidade espanhola de Miranda de Ebro, a viagem foi interrompida, por se apresentar muito debilitada. Chamado o alcaide local, Margarida confirmou o testamento que tinha sido feito em 1652. A Duquesa de Mântua morre a 26 de Junho de 1656 em Miranda de Ebro.Os seus restos mortais foram transportados para a cidade de Burgos, onde ficaram depositados no mosteiro de Las Vuelgas. Pouco conhecida na história de Portugal, esta mulher italiana de nascença, tornou-se Duquesa de Mântua, foi Vice-rei de Portugal e morreu  sem glória e longe da sua pátria, tudo por uma inebriante e efémera sensação de poder.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Escrita: a transmissão da memória

Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do acto de escrever. Esta frase de José Saramago ilustra bem o poder da escrita. A necessidade de comunicar, de transmitir informação e de manter na memória das novas gerações saberes antigos foi desde sempre uma das principais preocupações do Homem. Perpetuar as nossas memórias, faz-nos sentir de facto imortais. Era preciso algo para manter vivas todas as descobertas, todo o saber, toda a memória humana, e à medida que o Homem evoluía essa necessidade tornou-se mais premente. A vontade humana de se expressar levou ao aparecimento da escrita. No  quarto milénio a.C , na Mesopotâmia, nasce a escrita cuneiforme (do latim cuneus que significa cunha + forma com o mesmo significado em português) que é a forma de escrita mais antiga conhecida. Os Sumérios, que na altura habitavam na região sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, desenvolveram este tipo de escrita pela necessidade de registar a circulação de pessoas e bens.  Com recurso a um tipo de cunha - instrumento pontiagudo de forma triangular -  que utilizavam para gravar símbolos em placas de barro, desenvolveram uma escrita que chegou a possuir 350 caracteres cuneiformes. Arqueólogos descobriram recentemente bibliotecas na região da antiga Mesopotâmia, sendo a mais famosa aquela que pertenceu ao rei Assurbanipal, último rei sírio (668 a 627 a.C.), a chamada Biblioteca de Ninive, que continha milhares de textos escritos em tabuinhas de barro cozido, entre as quais se encontravam decretos e cartas reais, crónicas e textos religiosos, que se tornaram na principal fonte de conhecimento sobre a vida dos povos Sumérios.

A primeira pessoa a decifrar a escrita cuneiforme, mantendo viva a memória suméria, foi o alemão Georg Friendrich Grotefrend (epigrafista alemão) em 1802. Quase ao mesmo tempo desenvolvia-se no Antigo Egipto a escrita hieroglífica. A palavra hieróglifo, provém da conjugação de duas palavras gregas: hierós que significa sagrado e glýphein que é o mesmo que escrita. As mais antigas inscrições hieroglíficas datam do terceiro milénio a.C. sendo uma escrita monumental e religiosa, com cerca de 6900 caracteres,  que chegou até nós nas ruínas de templos religiosos e em túmulos. De difícil compreensão e tradução, foi apenas com a descoberta da Pedra de Roseta no ano de 1799 (descoberta pelo exército comandado por Napoleão Bonaparte na região de Roseta no Egipto) que foi possível entender na totalidade a escrita do antigo Egipto. Esta Pedra tem a particularidade de ter o mesmo texto - um decreto do rei Ptolomeu V promulgado no ano 196 a.C. - em três escritas diferentes: na escrita hieroglífica do antigo Egipto,  em demótico (variante escrita do egípcio tardio) e no grego antigo. Em 1803 foi feita a tradução do texto em grego antigo e em 1822 Jean-François Champollion (linguista e egiptólogo francês) anuncia a decifração dos textos egípcios. A memória dos antigos egípcios tinha sido finalmente recuperada. Cerca de 1100 a.C. os Fenícios desenvolveram um tipo diferente de escrita em que um símbolo significava um som , ou seja desenvolveram um alfabeto para uma escrita fonética.  A palavra alfabeto é de origem grega e conjuga as duas primeiras letras do abecedário helénico: alpha (a letra a do nosso abecedário) beta (a letra b do nosso abecedário). No entanto na escrita fenícia existiam duas letras com o nome de alef e bet! O alfabeto fenício tinha 19 caracteres e eram apenas consoantes.
Esta invenção foi um momento histórico  para a Humanidade. Esta escrita foi adoptada e aperfeiçoada pelos gregos por volta do ano 800 a.C, sendo a base de todos os alfabetos das línguas ocidentais. As consoantes utilizadas no alfabeto romano, foram criadas pelos fenícios e as vogais posteriormente acrescentadas pelos gregos. A escrita permitiu ao homem perpetuar o seu conhecimento e a sua cultura, e está na base de todo o progresso humano.  Escrever é lembrar-se (François Mauriac) e manter viva a memória de tempos idos fez de nós o que somos. Acumulando saberes, relembrando tradições, transmitindo conhecimento através da escrita conseguimos honrar aqueles que antes de nós procuraram esse saber e esse conhecimento. Milhares de anos passaram desde os primeiros registos escritos conhecidos, mas a memória de quem os realizou, permanece em nós graças à sua capacidade criativa de transmissão e de expressão. A memória das suas vidas não se perdeu e graças à sua forma de comunicação, chegou até nós, e proporcionou-nos uma nova visão do  nosso passado. Como disse Jean Clézio (escritor francês) a escrita é a única forma perfeita do tempo. 

domingo, 24 de junho de 2012

A viagem do Vinho do Porto



O Vinho do Porto também chamado de néctar dos Deuses, é conhecido mundialmente e não necessita de apresentações. É nas encostas agrestes e rochosas que ladeiam o rio Douro, que este afamado vinho começa a sua história. Numa região de montes que não deixam de crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não para de correr, pedaço de viril beleza (Miguel Torga)actualmente Património Mundial da Humanidade, nasce o vinho com o nome de cidade. Da mistura de sol e rocha, de água duriense e labor humano, nasce a vinha e se desenvolvem as uvas que vão dar origem ao néctar divino. Da pedra se fez terra, do sol bravo o licor generoso, que tem um ressaibo de brasa e de framboesa (Aquilino Ribeiro). Colhida a uva e pisado o mosto, inicia-se uma nova jornada para o famoso vinho. Transportado em pipas de madeira para envelhecer, aguarda a passagem do tempo armazenado nas históricas Caves de Vila Nova de Gaia, onde é depois engarrafado e enviado para todas as partes do Mundo. A história de vida do vinho do Porto não se alterou ao longo dos anos. A introdução da tecnologia veio alterar a sua produção, e da força humana passou-se a usar a força mecânica. Mas o vinho do Porto mantém o seu sabor único e incomparável. Como disse o grande escritor duriense Miguel Torga, o Douro (...) produz a única riqueza de que somos senhores exclusivos: o Porto, que o mundo assim conhece e saboreia, e imitam em todas as latitudes sem nunca igualar. A Região demarcada do Douro, foi a primeira região demarcada reconhecida no Mundo, criada durante o reinado de D. José I em 1756. Muito trabalho humano esteve envolvido na produção deste néctar dos Deuses ao longo dos anos. A apanha da uva é uma tarefa dura e monótona, realizada muitas vezes sobre condições climatéricas agrestes. O transporte das pipas de vinho do Alto Douro para Vila Nova de Gaia era inicialmente feito por barcos rabelos. Transformar o Douro numa estrada de vinho foi tão duro como navegar oceanos (Jaime Cortesão)Mais tarde passou a ser feito através de comboio, diminuindo o tempo do seu transporte e aumentando o número de pipas transportadas. O tempo é outro, as técnicas mudaram, o trabalho simplificou-se. Mas os homens e mulheres que deram ao Vinho do Porto o trabalho de uma vida inteira não devem ser esquecidos pois foi graças a eles que a viagem deste famoso vinho se iniciou. Datado de 1914, este filme realizado pela Invicta Filme, retrata de forma única todo o ciclo de produção do Vinho do Porto. Com quase 100 anos este documentário é um legado raro que devemos preservar.



terça-feira, 19 de junho de 2012

O Rio do Esquecimento

Percorrendo montanhas e planaltos, serpenteando por vales verdejantes e luxuriantes, o rio Lima nasce a uma altitude de 975 metros no monte galego de Talariño na Província de Ourense, para desaguar no oceano Atlântico junto à costa da portuguesa cidade de Viana do Castelo, após calcorrear aproximadamente 110 quilómetros. Viajando por paisagem galegas e minhotas, o Lima tem o privilégio de ter nas suas margens locais como Lindoso, Ponte de Lima e Ponte da Barca. (...) todo o Lima na grande extensão desde Ponte de Lima a Viana, é espraiado, com as margens atapetadas de verdura, matizado de lugarejos, cheio de vida, de sorrisos, de amor (António Costa, No Minho, 1874). Denominado de Limia na Galiza, deve provavelmente o seu nome à grande quantidade de lamarões (lamaçais) e lagoas que existiam na sua nascente, denominados de lymnas em grego e lymun em latim, donde derivou o nome Lima em português. De águas límpidas e calmas era conhecido pela fartura de salmões, trutas, lampreias e sáveis que as populações das suas margens pescavam em grande quantidade. Também denominado de Belion pelo geógrafo grego Estrabão, que significava nativo (os lusitanos foram também designados por belitanos), foi durante muito tempo designado por rio Lethes (latim) ou Oblivio (grego), o rio do Esquecimento. De acordo com a mitologia grega, as almas que chegavam ao mundo dos mortos, o Hades, e que depois do julgamento final vagueavam pelos Campos Elísios, deviam beber da água do Rio Lethes para que toda a memória da sua vida anterior fosse apagada. Só assim podiam voltar ao mundo dos vivos, ou seja, ressuscitar. De acordo com a tradição grega, o Lethes era um dos cinco rios do Hades, com águas de grande beleza e calma, situado a Ocidente, para lá do mundo conhecido (Conde de Bertiandos, 1898)Associado a esta mitologia, um acontecimento histórico veio ainda acentuar a ideia de que o rio Lima era de facto o rio Lethes ou do Esquecimento, que condenava todos aqueles que atravessassem ou bebessem as suas águas à perda das suas memórias. Na sua narrativa Estrabão geógrafo grego indica que nas cercanias do actual cabo Finisterra, se encontravam Celtas que para aí se haviam deslocado na companhia de Túrdulos, durante uma expedição guerreira (para a conquista conjunta da Galiza, século VII aC.). No entanto, e ainda segundo Estrabão, chegados ao rio Lima, mal o haviam passado gerou-se entre eles tal discórdia que, morrendo o chefe dos Túrdulos, e esquecidos da aliança que haviam feito, tiveram que ficar no mesmo sítio esquecendo o caminho para a sua antiga pátria. Por isso mesmo, explicava ainda Estrabão, ao Rio Lima se chama também Rio do Esquecimento (Joel CLETO, Monte Murado, Carvalhos, in A mais velha aliança, O Comércio do Porto, Revista Domingo, Porto, 11 de Fevereiro 2001)O rio Lima passou a ser uma fronteira intransponível e uma muralha natural de protecção contra os ataques e incursões dos povos inimigos. O medo e a superstição impediam os exércitos de passar para a outra margem do rio e durante anos as suas águas foram intransponíveis.  
No ano 137 aC. as legiões romanas comandadas por Decimus Junius Brutus, depois de terem conquistado a Lusitânia dirigiam-se para a Galiza no seu ímpeto conquistador. Chegados às margens do rio Lima os soldados romanos, cientes do nome do rio e do efeito mítico das suas águas desobedeceram por isso às ordens do seu comandante, quando este lhes ordenou que atravessassem para a outra margem. Nenhum soldado quis correr o risco de esquecer a sua vida passada, a sua família  ou a sua terra Natal. Assim, Decimus Junius Brutus viu-se obrigado a fazer a travessia sozinho. Uma vez chegado à margem norte, chamou os seus homens um a um pelos seus nomes, provando desta forma que as águas do Lima não conduziam ao esquecimento do passado (Conde de Bertiandos, 1898)O mito caiu e o rio Lima deixou de ser uma muralha intransponível, mas o nome manteve-se durante muitos mais anos. Almada Negreiros pintou uma tapeçaria em que retrata a legião romana a passar o rio do esquecimento que ele próprio descreve por palavras suas: Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento. Qualquer que seja o nome que se lhe atribua, o rio Lima é um rio repleto de história. Nas suas águas viajaram ao longo dos séculos homens e mulheres de diferentes origens e condições sociais e fizeram-se importantes trocas comerciais. 
Em 2003 foram recuperadas do seu leito duas pirogas  monóxilas (feitas de um único tronco de árvore) datadas do século IV e II aC. Estes achados estão claramente relacionados com uma tradição multimilenar (...) de passagem do rio (Francisco Alves e Eric Rieth, Lisboa 2007).
O rio Lima mais do que uma fronteira intransponível tornou-se numa via de comunicação e de ligação dos povos. Como muito bem descreve o Professor Eugénio de Castro Caldas este rio minhoto, transmite um sentimento que deveria fazer parte de todos de aqueles que são descendentes dos que viveram nas suas margens
Ser minhoto é ser Celta; 
Castrejo Galaico, pouco Lusitano; 
mais Suevo do que Vizigodo; nada Mouro.
Aragem do Atlântico sobre o Mediterrâneo.
Do berço de Portugal, não da colónia
Se perguntar se é bem ou mal,
julgo que é apenas tal e qual:
mais enxada do que charrua,
mais regadio do que sequeiro,
mais prado do que pousio,
mais trabalho do que terra.
De mitologia e de realidade, de memórias e tradições, de alegrias e de perdas estão repletas as águas deste rio, e apesar do nome que durante tantos anos ostentou, se pararmos perto das suas margens e em silêncio escutarmos com atenção o seu murmurar, decerto que ficaremos encantados com aquilo que tem para nos contar. Basta sabermos ouvir!


Nota: A imagem da piroga, da autoria de Francisco Alves e Miguel Aleluia, foi retirada do estudo de Francisco Alves e Eric Rieth, intitulado As pirogas 4 e 5 do Rio Lima, Lisboa 2007





domingo, 17 de junho de 2012

Madeira: Um jardim no Atlântico

A Ilha da Madeira, foi descoberta em 1419 pelos navegadores portugueses João Gonçalves Zarco e  Tristão Vaz Teixeira que tendo observado uma espécie de nevoeiro, que constantemente se lhes oferecia no mar, e sempre no mesmo sítio e direcção, suspeitaram o que poderia ser, e dirigindo-se para aquela parte, descobriram a Ilha da Madeira, a que deram este nome pelo alto e vasto arvoredo, de que a acharam coberta (Índice chronológico das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas dos portugueses, 1841). No entanto as ilhas da Madeira e de Porto Santo já seriam conhecidas antes dos portugueses lá chegarem. Na obra de um frade mendicante espanhol intitulada Libro del Conoscimiento datado de 1348-1349, as ilhas do Arquipélago da Madeira são referidas pelo nome de Leiname, Diserta e Puerto Santo. Território de uma deslumbrante beleza natural com um clima ameno de poucas variações térmicas ao longo de todo o ano, tornou-se num ponto de grande atracção turística. Ilustres personagens da história passaram por estas ilhas entre as quais se destacam: a Imperatriz Leopoldina da Áustria, futura mulher de D.Pedro, Imperador do Brasil em 1817; a Imperatriz Austro-Hungara Elizabeth, mais conhecida por Sissi, que se tornou visita assídua destas ilhas; a rainha Adelaide de Inglaterra em 1847; Imperador Carlos da Aústria, que aqui acabou por falecer em 1922; Whinston Churchil em 1950. Este jardim plantado no meio do vasto oceano Atlântico tem servido de inspiração para poetas e escritores ao longo dos séculos. O grande Luís de Camões faz-lhe referência no Canto V dos Lusíadas:

Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama;
Das que nós povoamos a primeira,
Mais célebre por nome do que por fama.
Mas nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe avantajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera,
De Cypro, Guido, Paphos e Cythera.

Actualmente o Arquipélago da Madeira é conhecido internacionalmente pelo seu famoso vinho, o Vinho da Madeira, o seu Carnaval e a famosa Festa da Flores, que se realiza todos os anos na primavera, tendo-se tornado num concorrido destino turístico. Relembrando tempos idos, este pequeno filme  produzido pelo americano James Fitz Patrick, datado de  1931, mostra-nos uma solarenga e paradisíaca ilha que apesar de ter sofrido alguma alterações típicas do passar do tempo, mantém intocável a sua beleza e hospitalidade tão característica do povo português.





segunda-feira, 11 de junho de 2012

Imagens com história: Fevereiro 1908


O dia 1 de Fevereiro de 1908, marcou para sempre a história de Portugal e dos portugueses. Neste dia, no Terreiro do Paço em Lisboa, eram assassinados o Rei D. Carlos e o seu filho, o príncipe herdeiro Luís Filipe. Manuel dos Reis da Silva Buiça, natural de Bouçoães, Valpaços, expulso do exército em 1898 por indisciplina, na altura professor primário do Colégio Nacional,  e Alfredo Luís da Costa, empregado comercial e editor, natural de Castro Verde, foram os autores do atentado. Portugal entra num período de grande convulsão política e social. D. Manuel II, único filho vivo de D. Carlos e D. Amélia, é coroado a 6 de Maio 1908 com apenas 18 anos. Mas o reinado é de curta duração, e a 5 de Outubro de 1910 parte para o exílio nos arredores de Londres, quando é instituída a República em Portugal.
Este pequeno filme, realizado por um anónimo e datado de 10 de Fevereiro de 1908, retrata o cortejo fúnebre de D. Carlos e de seu filho, Luís Filipe. Imagens que marcam um dos períodos mais violentos da história de Portugal.



      


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um enchido do século XV



As tradições normalmente não se questionam, mantêm-se e prolongam-se. No entanto é importante tentar saber o que está na sua base já que por detrás delas encontram-se muitas vezes pedaços da nossa história, que de outra forma seria difícil descobrir. As tradições culinárias, há anos enraizadas no nosso quotidiano encerram pequenos mistérios que vale a pena desvendar. Fazendo parte destes pedaços de história estão as alheiras. palavra alheira aparece referida pela primeira vez na 7.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva, de 1878 como alhèira (alliária), que significa planta (...) que tem o cheiro de alho. A sua definição como espécie de chouriço temperado com alhos que se fabrica em Trás-os-Montes, surge apenas na 10.ª edição (1949-1958) do mesmo dicionário. Tradicional enchido da culinária portuguesa feito à base de carne e gordura de porco, carne de aves, pão, azeite, banha, alho e colorau, são inegavelmente reconhecidas como um típico prato português. Actualmente muito espalhadas por todo o país, as alheiras mais conhecidas são as de Mirandela da região de Trás-os-montes, sendo consideradas uma das 7 Maravilhas Gastronómicas de Portugal. A origem deste tradicional iguaria remonta aos finais do século XV e inícios do século XVI. Nessa altura na região transmontana, existia uma grande comunidade de judeus, provenientes do reino de Castela donde tinham sido expulsos em 1492. Perseguidos pela Inquisição e facilmente reconhecidos por algumas das suas tradições, entre as quais a recusa de ingerir carne de porco, base da alimentação da época, criaram o chamado chouriço judeu. Não podendo estes comer carne de porco por imposição da sua fé, imaginaram um enchido, que, embora semelhante aos enchidos que por essa época eram o prato forte das gentes, não levasse a carne proibida (Abade de Baçal). Por não comerem carne de porco, e de forma a não serem facilmente identificados pela inquisição devido aos seus hábitos  alimentares diferentes, decidiram pegar noutros tipos de carnes e envolvê-las numa massa de pão para criar a alheira (Ferreira et al., 2006)Assim com estes enchidos visivelmente colocados nos fumeiros tradicionais, de recheio bem temperado que simulava na perfeição a carne de porco, os cristãos novos ou marranos como eram conhecidos, conseguiram ludibriar os fiscais da Inquisição e os seus vizinhos sempre prontos a denunciar quem não cumprisse as leis estabelecidas pela Igreja Católica. Com o consumo de alheiras, podiam comprovar a sua adesão à religião cristã, mostrando que não mais seguiam as leis judaicas que impunham o não consumo de carne de porco. Rapidamente as gentes de Trás-os-montes adoptaram estes enchidos de origem judaica, mas o seu recheio continha a verdadeira carne de porco, tornando-se num dos símbolos representativos da gastronomia regional. Criadas como subterfúgio para fugir à prisão ou mesmo à morte, as alheiras são actualmente consumidas por todo o país e relembradas pelos grandes escritores portugueses:  (...) as alheiras... Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou da Índia (Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso).

sábado, 2 de junho de 2012

O Homem que foi Santo António

Santo António de Lisboa ou de Pádua, padroeiro de Portugal, santo casamenteiro, defensor dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros, dos pobres e dos oprimidos. O Santo de nome António faz parte da história popular e religiosa do mundo Ocidental. A devoção popular colocou-o entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e atribui-lhe até aos dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas multiplicam-se pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome (José António de Souza, in Críticas de Santo António à situação socioeconômica de sua época). Apesar de amado e idolatrado por milhões de pessoas, poucas sabem a verdadeira história do homem que nasceu em Portugal no início do século XII, que foi considerado como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro  intelectual da Idade Média (José Antunes, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)Fernando Martins de Bulhões, assim é o seu nome de baptismo, nasceu no dia 15 de Agosto de 1191 ou 1195, na freguesia da Sé em Lisboa, numa casa junto à Catedral. Segundo filho de Martins de Bulhões e de Maria Teresa Taveira de Azevedo, teve três irmãos: Pedro, Maria (que também professou a vida religiosa) desconhecendo-se o nome da outra irmã. Quando Fernando nasceu, Portugal  ainda dava os primeiros passos como país independente. Regido por D.Sancho I,  o Povoador, o território português apresentava grande instabilidade fronteiriça, sendo frequentes as lutas contra os mouros. 
A capital do reino era Coimbra, cidade onde a cultura se desenvolveu e onde se respirava conhecimento e saber. A Escola do Mosteiro de Santa Cruz, era considerada uma das melhores Instituições de ensino da Idade Média, tendo-se também notabilizado pela sua excelente biblioteca (espólio actualmente pertencente à Biblioteca Municipal do Porto). Nascido no seio de uma família de origem nobre, Fernando cedo teve acesso à educação e à cultura. Com cerca de 7 anos entra para a Escola da Igreja de Santa Maria Maior, hoje Sé de Lisboa, sob a orientação dos cónegos Regrantes de Santo Agostinho, onde se iniciou no Trivium - gramática, lógica e retórica e no Quadrivium - aritmética,  geometria, astronomia e música. Aos 15 anos ingressa como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, dando assim início à sua formação religiosa. Sendo uma das mais poderosas e influentes Ordens religiosas em Portugal, permitiu a Fernando desenvolver o seu conhecimento em diversas áreas desde a Teologia à Filosofia, passando pelas Ciências Naturais. Aqui desenvolveu capacidade de meditação e contemplação, tornando-se num cónego Regente de Santo Agostinho, tendo recebido a murça  (vestimenta de cor que caracteriza as ordem religiosas que os cónegos utilizam por cima das batinas brancas) das mãos do então Prior D.Gonçalo Mendes. No fim do mês de Setembro de 1212, Frei Fernando ingressa no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, centro cultural, social e politico do país, onde encontra reunidas todas as condições para completar a sua instrução pessoal e religiosa. Bons professores não lhe faltaram. Conhecem-se, com grande probabilidade, alguns dos mais insignes que então leccionavam nestes mosteiros e até na primeira escola da catedral de Lisboa (José Antunes).Tornou-se sacerdote em 1218-1219. É também em Coimbra que teve a oportunidade de privar com os Frades Menores de São Francisco, que recusavam a riqueza, a posse de bens materiais e de grandes conventos, vivendo na pobreza e penitência, sobrevivendo graças a esmolas, tentando desta forma seguir os ideais de Francisco de Assis, o seu mentor.
Este contacto com os Franciscanos alterou a forma de Fernando ver a religião e o mundo que o rodeava. Quando em 1220, chegam a Coimbra os corpos de cinco frades franciscanos mortos em Marrocos onde tinham ido pregar a Boa Nova,  Frei Fernando troca o hábito e a murça de cónego Regrante de Santo Agostinho pela simples batina castanha e corda à cintura tão características dos Franciscanos. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência. Tinha cerca de 30 anos (Frei Acácio José Afonso Sanches)É nesta altura que desaparece Frei Fernando e nasce Frei António, nome escolhido em honra de Santo Antão, que em latim é Antonius, que dava o nome ao local onde viviam os  frades Franciscanos. Parte para África em missão apostólica no Inverno de 1220, mas adoece com gravidade, não chegando a cumprir nenhuma das funções a que estava destinado, e é enviado novamente para Portugal. A viagem de regresso foi atribulada e o navio que o transportava do Norte de África para Lisboa é desviado para o Sul de Itália por uma forte tempestade. Estávamos no início da Primavera de 1221, e Frei António desembarca na costa italiana da Sicília, sendo recolhido pelos Franciscanos italianos que o levaram para a cidade de Messina, onde esteve em convalescença. Em Maio de 1221, realizou-se na cidade de Assis, o Capitulo Geral dos Frades Menores, onde Frei António conheceu Francisco de Assis, que presidia ao encontro. Mas foi na cidade de Forli, que António deu a conhecer o seu maior dom: o dom da oratória. Sempre reservado e humilde, falava pouco e raramente emitia opinião. Em Setembro de 1222, numa cerimónia de ordenação de vários sacerdotes, o Superior do eremitério de Montepaolo pede ao irmão António que suba ao púlpito e diga tudo o que lhe seja sugerido pelo Espírito Santo. As primeiras palavras foram simples, mas, em seguida, tornam-se firmes, seguras e convincentes, a ponto de impressionarem todos os presentes. A notícia deste facto percorreu toda a região e, em pouco tempo, António foi nomeado pregador oficial da Ordem (Frei Acácio José Afonso Sanches).
Do Norte da Itália ao Sul de França, Frei António pregou e os seus discursos atraiam multidões. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como poder, Direito e Justiça (José Antunes). Homem extremamente culto, defensor da igualdade e da justiça social, tentava com os seus sermões alterar o poder que estava centralizado na sociedade medieval. Frei António dizia que a paz é a liberdade tranquila (...) eis que o teu rei vem a ti, para tua utilidade. Manso, para ser amado. Não para ser temido pela potência. São duas as virtudes próprias dum rei: a justiça e a piedade. Assim o teu rei é justo, enquanto distribui a justiça a cada um segundo as suas obras. E nem o próprio clero ficava de fora das suas críticas sociais: cairão (...) os clérigos que se mancharam com o sangue da luxúria e com a terra da pecúnia. E com eles cairão os unicórnios, os imperadores e reis deste mundo; e os touros, os bispos mitrados que têm na cabeça dois cornos como se fossem touros. Todos estes (...) cairão com os poderosos, que são os príncipes e potestades (aqueles que detêm o poder) deste século (...). Os seus sermões reflectem ser um profundo conhecedor das obras de Plínio, Cícero, Sêneca, Galeno e Aristóteles. A sua grande cultura tornou-o numa das mais respeitadas figuras da igreja Católica, chegando São Boaventura a dizer que possuía a ciência dos anjos. Foi o primeiro professor de Teologia da Ordem dos Franciscanos.
Também a sua obra escrita, Sermões Dominicais e Festivos, num total de setenta e sete sermões, está recheada de beleza e densidade de pensamento. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos textos dessas grandes colunas, dos primeiros sete séculos, que foram os Padres da Igreja. Impressionante, para o tempo, em ciências naturais e em humanidades (José Antunes). Frei António morre a 13 de Junho de 1231, com apenas 40 anos, por hidropsia (retenção de liquidos por mau funcionamento orgânico) num Convento de Clarissas em Arcella, próximo da cidade de Pádua para onde se queria dirigir. Cumprindo a sua vontade foi enterrado em Pádua. O seu túmulo encontra-se na Basilica de Santo António de Pádua, sendo visitado por milhares de fiéis todos os anos. Beatificado a 30 de Maio 1232 foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII a 16 de Janeiro de 1946. Nasceu Fernando em Portugal e morreu António em Itália. Nasceu homem e morreu santo, mas durante toda a sua vida defendeu ideais de justiça, liberdade e igualdade baseados no seu grande conhecimento e cultura, ainda tão pouco praticados nos nossos dias. Lembrado anualmente a 13 de Junho como santo milagreiro, deveria ser lembrado todos os dias pelos ideais sociais que defendia: Só haverá liberdade tranquila, ou seja paz, quando houver justiça. Fazem pleno sentido as palavras de Pio XII que perante a bula antoniana disse: Exulta, Lusitania felix ! Exulta, ó feliz Lusitânia! 


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Vila Nova e Porto no século XVII


A representação gráfica mais antiga e pormenorizada de Vila Nova, data do ano de 1669. Esta aguarela foi desenhada por Pier Maria Baldi, um pintor florentino que acompanhou Cosme de Médicis, na viagem que este realizou pela Europa, passando também por Portugal.








As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


Podemos ver no canto superior direito da gravura, o actual Mosteiro da Serra do Pilar, ainda sem a sua cúpula, no cimo do Monte da Meijoeira como era chamado na altura. Em baixo, mais à esquerda no meio de uma arvoredo junto ao rio podemos ver a antiga Igreja de Santa Marinha. No canto inferior direito da gravura, visualizamos um aglomerado de casas ao longo de uma rua perpendicular ao rio - a rua Direita. Trata-se da antiga povoação de Vila Nova, onde se distinguem alguns edifícios que ainda hoje existem.




As gravuras podem ser visualizadas no seu tamanho original clicando sobre elas com o botão do rato


De um local elevado de Vila Nova, Baldi retrata também a cidade do Porto, no ano de 1669. Podemos ver que no lado de Vila Nova, à esquerda da antiga igreja de Santa Marinha, não havia qualquer povoação. 


Aqui  ficam  duas  fabulosas  gravuras  que  retratam paisagens tão familiares num tempo longínquo.

Estas gravuras foram retiradas da BNP digital e o texto do livro intitulado Gaia e Vila Nova na Idade Média, arqueologia de uma zona ribeirinha, de Joaquim António Gonçalves Guimarães, com edição da Universidade Portucalense

terça-feira, 29 de maio de 2012

A história do Hino Nacional

Nos dias de hoje todos os países possuem dois símbolos que os identificam: a bandeira e o hino nacional. A bandeira, símbolo visível e ancestral de reinos e países, tem na sua origem o estandarte que representou desde sempre clãs, tribos, casas nobres e reais. A utilização de uma composição musical, como símbolo de uma nação, apenas começou a ser adoptada na Europa no século XIX. Até essa data os exércitos e as populações reconheciam toques e cantos guerreiros que representavam pequenas facções e não uma nação inteira. Existiam composições musicais que representavam o rei, mas quando o monarca morria, desapareciam com ele. A peça musical identificava apenas o monarca reinante. O sentimento nacional e a ideia nacional, o mesmo é dizer o nacionalismo, foram no século XIX, um princípio de acção essencial contra os estados opressores e estiveram também na origem da maior parte dos conflitos internacionais. Na Europa o facto nacional foi um dos agentes determinantes da sua transformação (René Rémond, historiador francês). A revolução francesa, alicerçada nos princípios universais de Jean Jacques Rousseau - liberdade, igualdade e fraternidade (Liberté, Egalité, Fraternité) foi o rastilho que incendiou toda a Europa e mudou drasticamente todo o cenário social e politico do velho continente. A vaga de apoiantes do nacionalismo foi crescendo e foi surgindo a necessidade de  tornar esse sentimento visível a todos. Nada melhor do que composições musicais num género de marcha militar acompanhadas de textos que proclamassem bem alto os feitos grandiosos das nações. Os hinos nacionais floresceram em toda a Europa durante o século XIX. Em Portugal a composição musical, considerada como primeiro hino nacional de Portugal foi composto em 1808, por Marcos António Portugal (compositor português e professor de música de D.Pedro IV e de D.Miguel) e intitulava-se Hymno Patriotico da Nação Portuguesa. Este hino foi inspirado na parte final da Cantata La Speranza o sia l`Augurio Felice , composta e oferecida pelo autor a D. João VI, príncipe regente, quando este ainda se encontrava no Brasil. A poesia do Hymno Patriótico teve diferentes versões face às circunstâncias e aos acontecimentos da época, tornando-se naturalmente generalizada e nacional pelo agrado da sua expressão marcial, que estimulava os ânimos aos Portugueses, convidando-os à continuação de acções heróicas. Com o regresso do Rei ao País, em 1821, o mesmo autor dedicou-lhe um poema que, sendo cantado com a música do Hino, rapidamente se divulgou e passou a ser entoado solenemente (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência).
Letra:                      
Eis Principe Excelso, os votos sagrados que os lusos honrados vêm livres fazer. Por vós pela Pátria, o sangue daremos. Glória só temos. Vencer ou morrer. Aos mares vos destes a bem dos vassalos; julgando livra-los do ímpio poder. Malgrado o Tirano, em breve vireis, os lusos fieis Vós mesmo reger. Um Deus vos escuta, ó Príncipe Caro: Deus é nosso amparo, não há que temer. 
     
Com a morte de D.João VI em 1826, Portugal entra num período de grandes convulsões sociais e politicas. Em 1834, no fim da Guerra Civil, D. Pedro IV, em homenagem à Carta Constitucional entretanto estabelecida, apresenta um novo hino ao país. O Hino da Carta, de sua autoria, foi considerado oficialmente como hino nacional em Maio de 1834,  identificando-se em pleno com a vida política e social dos últimos setenta anos da Monarquia em Portugal (Jorge Sampaio in Arquivo da Presidência). Foi esta composição musical o símbolo da nação portuguesa até Outubro de 1910.


       


Após a implantação da República, os republicanos tomaram como símbolo representativo deste novo regime a Portuguesa. Composta em 1890 por Alfredo Keil (compositor, pintor, poeta, arqueólogo português) com letra de Henrique Lopes Mendonça (militar, historiador, arqueólogo naval, professor e romancista português) surgiu como resposta carregada de cariz patriótico, ao ultimato britânico que impunha a retirada das tropas portuguesas das suas posições em África, no famoso Mapa cor-de-rosa. Com algumas alterações na música e na letra - onde hoje se diz contra os canhões, na letra original dizia-se contra os bretões (os ingleses) - A Portuguesa que actualmente conhecemos, foi aprovada em Conselho de Ministros em 16 de Julho de 1957, tendo sido reconhecida como um dos símbolos nacionais de Portugal na Constituição de 1976.


                           




   

domingo, 27 de maio de 2012

A magia do comboio

São os caminhos de ferro que hão-de unir os povos e que hão-de levar os benefícios da civilização a todos os pontos do globo. (...) O espectáculo magnifico de uma linha de caminho de ferro (...) exalta a imaginação (...) e cria entusiasmo no individuo mais indiferente e apático. As impressões são ainda mais vivas, aproximam-se do êxtase quando viajamos nos railways. (...) O movimento é insensível durante rápidos instantes, mas bem depressa se acelera (...) antes de pouco o movimento é rapidíssimo: os objectos próximos, as casas, as árvores nos fogem (...) julgamos animados os objectos que nos ficam para os lados. (...) É extraordinário! (O Atheneu,  edições 1-65, pág.11, 1850). A chegada do comboio revolucionou a vida das populações. Com um misto de medo e de fascínio foi integrado no quotidiano dos povos e tornou a distância mais curta. Miguel Torga chamou-lhe um navio de penedos a navegar num mar de mosto. Um meio de transporte que ainda hoje é escolhido por milhões de pessoas em todo o mundo. É quase axiomático que mesmo os piores comboios te levam através de lugares mágicos (Paul Theroux)



(O video resulta da compilação de vários excertos retirados do documentário produzido pela RTP intitulado 150 anos dos Caminhos de Ferro em Portugal)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Maria Pia: a menina que se tornou Rainha

Na cidade italiana de Turim, nasce no dia 16 de Outubro de 1847, uma menina filha de Victor Manuel I, rei de Piemonte e da Sardenha, e da Arquiduquesa da Áustria, D.Maria Adelaide de Habsburgo, a quem foi posto o nome de Maria Pia de Sabóia. Criada numa família defensora do liberalismo, e tendo perdido a mãe aos sete anos, Maria Pia cedo absorveu os ideais por que tinha lutado o seu avô Carlos Alberto, tornando-se numa criança independente, curiosa e ávida de conhecimento. Rodeada de carinho familiar e habituada ao luxo da corte de Piemonte, tornou-se numa bonita e inteligente adolescente, cobiçada e reconhecida nas grandes casas reais da Europa. O dia 11 de Setembro de 1861, marcará para sempre a vida desta pequena princesa. Nesse dia, em Portugal morre D.Pedro V, rei de Portugal, de febre tifóide. O seu irmão D.Luís, então com 23 anos, torna-se repentinamente o novo rei e é urgente garantir a descendência, já que apenas tinha irmãs, todas elas casadas com herdeiros de outras casas reais. A primeira escolha recai sobre uma das filhas da rainha Vitória, mas a lei britânica não permitiu o enlace dada a diferença de religião,   levando no entanto a rainha inglesa a afirmar que, eu sinto-me sempre bem sensibilizada por vós terdes sonhado com elas. Foi ainda colocada a hipótese da princesa Teresa, filha do Arquiduque da Áustria, logo posta de lado pelo seu pai, por ser menor de idade. A opção  seguinte recai sobre Maria Pia de Sabóia, então com 14 anos, e D. Luís apressa-se a pedir a sua mão em casamento a seu pai, Victor Manuel. Numa carta dirigida ao rei português, o pai de Maria Pia escreve: O pedido que Vossa Majestade acaba de me fazer da mão da minha filha tocou vivamente o meu coração de rei e de pai (...) antes de vos responder quis falar do assunto a minha filha que expressou o seu inteiro consentimento (...) é  um acto que será acolhido com entusiasmo na Itália onde a recordação ainda recente da nobre e afectuosa hospitalidade dada a meu pai (Carlos Alberto) por Portugal desperta tantas simpatias e faz bater todos os corações. 
Este enlace não foi muito bem visto por algumas cortes europeias, receosas de que o espírito liberal defendido pelo pai da noiva e a sua ligação a Napoleão III, pudesse por em causa a frágil harmonia existente nas cortes europeias. No entanto a reacção mais dura veio da amiga rainha Vitória que escreveu ao rei D.Luís dizendo que, como vós já fizestes a vossa escolha eu não tenho mais nada a dizer...esperamos sempre que ela possua todas as qualidades necessárias para vossa mulher e para uma rainha! Apesar de todos os receios devidos à sua extrema juventude, Maria Pia mostrou estar à altura do seu papel de futura rainha. O tempo de noivado foi preenchido com a de troca de cartas e telegramas enamorados, envio de retratos e de madeixas de cabelo em pequenos medalhões. Mesmo antes de se conhecerem pessoalmente já nutriam de grande afeição um pelo outro, partilhando gostos comuns tais como a leitura e a música. Na última troca de cartas Maria Pia escreve sou toda tua, para toda a vida e D.Luís refere que desejava que o nosso primeiro encontro fosse o menos observado possível (...) e de te poder dizer, enfim, eu estou junto da minha bem amada Maria. 
Mas os desejos do rei não foram realizados e a princesa Maria Pia (já rainha de Portugal, por ter casado por procuração a 27 de Setembro), chega a Lisboa a 5 de Outubro de 1862, a bordo da corveta Bartolomeu Dias, onde é recebida por milhares de pessoas delirantes numa cidade em festa. Foi a bordo dessa corveta que os noivos finalmente se conheceram, dando inicio a uma relação construída num amor verdadeiro. No dia seguinte, a rainha Maria Pia finalmente pisa solo português, e a primeira coisa que avista é a frase DA BELA ITÁLIA ESTRELA SOBERANA, SEJAIS BEM VINDA À PRAIA LUSITANA, da autoria de António Feliciano de Castilho (escritor português). A comitiva real segue depois em cortejo até à igreja de São Domingos, onde é realizada a cerimónia de rectificação do casamento, e o país permanece em festa por mais três dias, em honra do novo casal real. A nova rainha de Portugal, apesar dos seus quinze anos, rapidamente conquistou o coração dos seus súbditos, pelo seu porte majestoso, pela sua generosidade, revelando desde logo a sua cultura, a sua inteligência e a vontade de promover a educação no país que a acolheu como rainha. 
Deste  casamento iriam nascer D.Carlos I, futuro rei de Portugal, no dia 28 de Setembro de 1863 e D. Afonso, no dia 31 de Julho de 1865, Duque do Porto. Rainha sempre afável e conhecedora do protocolo rígido da corte portuguesa, manteve-se sempre atenta às questões politicas que envolviam o marido. Ficou célebre a frase que dirigiu ao Duque de Saldanha, líder de uma tentativa de golpe militar, no momento em foi apresentar desculpas ao rei: Se eu fosse o rei mandava-o fuzilar! Mãe sempre atenta e carinhosa, ocupou-se pessoalmente da educação dos seus filhos. No dia 2 de Outubro de 1873 D. Maria Pia passeava com os filhos na praia de Cascais, quando uma onda arrasta os dois príncipes para o mar. Sem pensar a rainha lança-se à água, na tentativa de salvar os filhos, mas foi graças à intervenção do ajudante do faroleiro da Guia, que os três se salvaram. A faceta de mãe era superior ao papel de rainha. Sempre atenta aos mais carenciados deixou obras notáveis: criou uma comissão para ajudar as vítimas do terrível inverno de 1876, tendo conseguido arrecadar 200 000$00 réis, proporcionando casas e roupas a todos os que tinham perdido os haveres nas grandes cheias; fundou a 1 de Novembro de 1877 a creche Victor Manuel na Tapada da Ajuda, para acolher as crianças com maiores necessidades; quando um terrível incêndio destruiu por completo o Teatro Baquet na cidade do Porto, em 1888, causando mais de uma centenas de vítimas, a rainha acompanhada do seu filho mais velho viajou de comboio numa noite de inverno, para poder assistir às exéquias das vítimas. Visitou todas as casas dos familiares das vitimas, pobres e ricas, distribuindo palavras de conforto e prestando apoio financeiro.
As gentes do Porto nunca mais se esqueceram da sua rainha, e homenagearam-na dando o seu nome ao hospital de pediatria do Porto, Hospital Real de Crianças Maria Pia, e à ponte de comboio que ligava as margens do Douro, a Ponte Maria Pia. No entanto não deixava de ser rainha e de se comportar como rainha. Os seus gastos eram considerados exorbitantes e foram muito criticados pelos políticos de então, ao que ela rapidamente respondeu com mais uma frase histórica quem quer rainhas, paga-as! No ano de 1889, surge a primeira tragédia na vida de Maria Pia. D. Luís morre no dia 19 de Outubro, e a rainha cai numa terrível depressão, e afasta-se para o Palácio da Ajuda onde fica a viver sozinha, cedendo o protagonismo o seu filho D. Carlos I, rei de Portugal e à sua mulher, a nova Rainha D. Amélia. Sabe-se que a relação entre a rainha-mãe e a rainha D. Amélia não era das melhores, mas a convivência era pacífica, a os netos eram a alegria da vida de Maria Pia. Como rainha-mãe vive uma vida mais discreta, continuando a desenvolver a sua obra social e de beneficência,  tendo recebido muitas condecorações nacionais e internacionais  pela sua acção benemérita. Mas é com 61 anos que sofre a maior tragédia da sua vida, quando a 1 de Fevereiro de 1908, vê morrer o seu filho Carlos, rei de Portugal, e o seu neto, príncipe herdeiro, Luís Filipe, num atentado perpetrado pela Carbonária. O Terreiro do Paço, que anos antes tinha sido palco da sua calorosa recepção, tornava-se no palco onde ocorreu o mais trágico acto da sua vida. Maria Pia cai num estado de dor e de agonia profunda, da qual nunca mais recupera. 
No dia 5 de Outubro de 1910, logo após a implantação da República em Portugal, e em companhia do seu único neto D. Manuel II, rei deposto, é exilada para a sua terra natal, a cidade de Turim. Estranha coincidência: chega a Portugal a 5 de Outubro de 1862, onde é aclamada como rainha por uma cidade exultante, e é obrigada a fugir de um país que tornou seu, 48 anos depois no mesmo dia 5 de Outubro. Morre na sua cidade natal e de exílio, com 63 anos no dia 5 de Julho de 1911 mas antes de falecer dita as seguintes palavras como desejo final: Chegou a minha vez de morrer. Como último desejo peço que me virem na direcção de Portugal, o país que me encheu de alegria o coração de menina e me tirou tudo o que de mais sagrado tinha quando mulher. Olhando para trás, reconheço que a minha vida foi marcada pela tragédia. Vi partir uma mãe cedo de mais (...). Não me consegui despedir do meu pai, enterrei um marido (...) um filho em quem depositava todas as esperanças, um neto adorado. Claro que também tive momentos de felicidade. Quando sonhava acordada (...) com príncipes e casamentos perfeitos, quando cheguei a Lisboa e o povo gritava o meu nome, quando viajava por essa Europa fora de braço dado com Luís, quando brincava no paço com os meus filhos ou quando estendia as mãos para ajudar os mais necessitados, abrindo creches e asilos. Mas mesmo nestas alturas havia quem me apontasse o dedo. Maria Pia a gastadora, a esbanjadora do erário público. A que dava festas majestáticas no paço, a que ia a Paris comprar os tecidos mais caros e as jóias mais exuberantes. Não percebiam eles que assim preenchia o vazio que, aos poucos, se ia instalando no meu coração (in Eu, Maria Pia de Diana de Cadaval)
Sepultada na Basílica de Superga, em Turim, ainda se aguarda a realização do seu último desejo: ser sepultada junto do seu marido e filhos, no Panteão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Cem anos passaram desde a sua morte, e o desejo da menina rainha que se fez mulher em Portugal, permanece por cumprir. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O gato: domesticado ou dono?

Não há animal que desperte mais emoções do que o gato! Amado e idolatrado por uns, detestado e temido por outros, este elegante felino acompanha o homem desde a antiguidade. O mais antigo ancestral do gato, de nome Miacis, foi um mamífero carnívoro que viveu há cerca de 40 milhões de anos. Predador de pequeno porte, de patas curtas, garras retrácteis e cauda longa, movimentava-se nos galhos das árvores. Ironicamente os paleontólogos e arqueólogos determinaram que a origem dos felinos e dos canídeos tem por base o Miacis! A subfamília dos Felinae ou dos Felinos, da qual fazem parte os gatos, surgiu há cerca de 12 milhões de anos, na África subsariana tendo-se posteriormente expandido até ao actual Egipto. Pesquisando os componentes genéticos de gatos selvagens da Europa, da Ásia, da África e do Oriente Médio, concluímos que realmente a domesticação começou na ilha de Chipre, com gatos provenientes do Crescente Fértil, região entre os rios Nilo, Tigre e Eufrates, onde se iniciou a agricultura (Stephen O'Brien, Director do Laboratório de Diversidade Genómica no Instituto Nacional de Saúde  Maryland, EUA).  Estátuas e pinturas encontradas no Egipto, indicam que a associação do homem com o gato se iniciou há cerca de 9.500 anos. Quando o homem deixou de ser nómada e começou a desenvolver a agricultura, os gatos iniciaram a sua aproximação e desde então traçaram um tipo de acordo tácito de cooperação com o homem. O gato representa a civilização, relação feita a partir da agricultura (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Exímios caçadores, eliminavam ratos e outros roedores que atacavam as colheitas, exercendo um importante papel social. Escavações arqueológicas demonstram que este pequeno felino passou a ser idolatrado no Egipto, tornando-se num animal sagrado. 
Bastet, a Deusa da fertilidade, era representada com corpo de mulher e cabeça de gato, e era uma das divindades mais veneradas no antigo Egipto. Os gatos tornaram-se tão idolatrados que quem matasse um destes felinos, era condenado à pena de morte, e os donos de um gato que morresse vestiam de luto e rapavam as sobrancelhas em sinal de respeito e dor. O amor dos egípcios era tão grande que foi decretada uma lei que proibia a sua exportação, e quem fosse apanhado a traficar gatos era punido com a pena de morte. São inúmeras as múmias de gatos ricamente ornamentadas encontradas nas escavações arqueológicas feitas no Egipto, Índia e Pérsia, e só no Museu Britânico podemos encontrar 192 dessas múmias. No entanto, e apesar da proibição, o gato foi clandestinamente transportado para outros territórios. Na Pérsia a sua veneração manteve-se, com a crença de que o gato era a encarnação de espíritos amigos criados especialmente para acompanhar o homem durante a sua travessia terrena. Prejudicando o gato, prejudicavam o homem. Pelo facto de serem caçadores notáveis, ágeis e auxiliarem no controlo da propagação de pragas e diversas doenças, os gatos tiveram uma posição privilegiada e uma coexistência pacifica com os homens durante vários séculos.
No início da Idade Média tudo se alterou e o estatuto do gato mudou. Associados a rituais de bruxaria, especialmente os de cor preta, foram vistos como espíritos maléficos pelas populações , chegando a ser queimados juntamente com as pessoas acusadas de praticar artes mágicas e de bruxaria. O gato só começou a ser visto de forma negativa a partir do cristianismo, na Idade Média. Essa ligação maligna foi feita justamente porque era um animal atribuído aos deuses pagãos (...) tudo que não era da religião católica era do mal e deveria ser queimado na fogueira. Profissões que tinham qualquer ligação com o gato também foram condenadas. As parteiras, por exemplo, usavam a deusa Bastet como símbolo e, por isso, foram denominadas de bruxas. No século 13, a perseguição foi ainda maior. Com a promulgação de bulas nas quais condenava os gatos, especialmente os de cor preta, associado ao satanismo, o papa Gregório IX determinou a exterminação de centenas de felinos  (António Brancaglion, egiptólogo e professor no Museu Nacional do Rio de Janeiro)Nesta altura foram mortos milhares de gatos por superstições, medos e ignorância. Mas o ridículo foi atingido quando o Papa Inocêncio VIII, durante o século XV, colocou o gato preto na lista dos que deveriam ser perseguidos e executados pela Inquisição! Só no final da Idade Média, os gatos puderam respirar fundo e gradualmente foram sendo novamente aceites nas casas para controlar as crescentes populações de ratos. Nos barcos tornaram-se mascotes pois permitiam que cargas de alimentos não fossem destruídas pelos roedores que infestavam os porões, ficando a ser conhecidos como gatos de navio. Com o passar do tempo o gato tornou-se um dos mais populares animais de companhia do homem, transformando-se por vezes em animal de luxo, tais foram as modificações genéticas que foram acontecendo ao longo dos últimos anos. 
Transformado em herói dos desenhos animados com o nome de Garfield, das histórias infantis como o Gato das Botas, ícone feminino como Hello Kitty ou como animais de companhia de figuras mundialmente famosas, o gato ganhou o seu estatuto na sociedade dos humanos. Eça de Queiroz no seu livro Os Maias descreve o gato, respeitosamente chamado Reverendo Bonifácio de forma impar: Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora o fiel companheiro de Afonso (...) recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D.Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio. (...) Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pêlo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia. E quando Afonso morre a descrição que Eça faz da dor do gato é soberba: era o gato! Era o Reverendo Bonifácio, que diante do quarto de Afonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente (...) com a cauda fofa a roçar o chão (...) esgadanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o de uma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer. 
O gato é de facto um animal fascinante. Perspicaz, astuto e independente, quem tem o prazer de com eles privar sabe que, não é um animal completamente domesticado. De facto eu costumo dizer que tive 3 gatos que me permitiram viver com eles, pois de dona pouco tive. Os gatos dominam o seu território, e permitem-nos a nós humanos partilhar o seu espaço. É uma espécie de acordo: nós fornecemos alimentos e mantemos o asseio do seu território, podemos fazer algumas festas quando tal nos é permitido, temos o privilégio de o ter em cima do nosso colo quando muito bem entendem e eles permitem-nos desfrutar da sua elegante e inteligente companhia. Sempre presentes, sem incomodarem; sempre atentos, fingindo que dormitam; irreverentes e brincalhões, tantos nos dão pequenas mordidelas como nos enternecem com os seu audíveis ronrons! Entram na nossa vida sorrateiramente como felinos que são e alojam-se no nosso quotidiano e no nosso coração irreversivelmente. No seu poema Ode ao gato, Pablo Neruda escreve Oh pequeno imperador sem orbe, conquistador sem pátria,  mínimo tigre de salão, nupcial sultão do céu das telhas eróticas,  o vento do amor  na intempérie reclamas quando passas e pousas quatro pés delicados  no solo,  cheirando,  desconfiando  de todo o  terrestre,  porque tudo é imundo  para o imaculado pé do gato. São donos e senhores de si, altivos e sobranceiros, mas dedicados e reconhecidos quando gostam e se tornam "donos" de algum ser humano. Como disse Mark Twain se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.