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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Garfo: o proscrito



A hora da refeição sempre foi ao longo dos tempos, um momento de reunião da família, especialmente na última da noite, altura em que terminava o dia de trabalho. Na Idade Média, tanto no campo como na cidade, as famílias de origem mais humilde, faziam a sua refeição junto ao lume onde a preparavam. Não havia utensílios para comer. Uma tigela ou uma escudela servia para colocar os alimentos líquidos ou pastosos, que daí eram sorvidos ou comidos com a ajuda de uma colher de pau. Os alimentos sólidos, se existissem, eram normalmente colocados sobre uma grossa fatia de pão e assim ingeridos. Os únicos talheres existentes eram a colher e a faca, servindo esta para cortar os pedaços maiores de comida sendo  utilizada por todos. A bebida era servida numa pequena tigela, que circulava entre todos os membros da família. As famílias com algum poder económico, tinham muitas vezes um local próprio para comer. Uma mesa, toalha, faca, colher e tigela de melhor qualidade, eram utilizados. Mas o processo era o mesmo, apenas o número de utensílios era maior, e os donos da casa poderiam ter direito a beber e a comer com o seu próprio utensílio, enquanto os restantes eram partilhados. A comida sólida, essa era comida à mão, após ter sido cortada pelas facas existentes. Pobres, burgueses, nobres e reis, todos comiam à mão. (...) A mesma faca utilizada para caçar, para matar (...) era também utilizada à mesa. Essa prática pouco higiénica de espetar os alimentos com a faca e levá-los à boca, ainda é acompanhada da acção de pegar a comida com a mão (Sandro Dias, professor da História de Gastronomia). Na altura do Império Romano, o grau de nobreza na forma de comer, media-se pelo número de dedos que se levava à boca com a comida. As pessoas da alta burguesia nunca sujavam os dedos anelar e mindinho, usando apenas os outros três. Que os plebeus metam toda a mão na boca. Nós os nobres tocaremos a comida somente com três dedos... era esta a etiqueta à mesa!
Em meados do século XI, Theodora Anna Doukaina, princesa bizantina, casou com Domenico Selvo, o Doge (do latim Dux que significa chefe) de Veneza e levou para esta cidade muitos dos seus costumes. Entre eles estava o uso do garfo durante as refeições! A polémica instalou-se entre os venezianos e o costume trazido por tão bela princesa foi considerado demoníaco pela Igreja Católica. Não tocava os acepipes com as mãos, mas fazia com que os eunucos lhe cortassem os alimentos em pequenos pedaços. Depois mal os saboreava, levando-os à boca com garfos de ouro de dois dentes (São Pedro Damião)Moralistas católicos acreditavam que seu par de dentes lembrava o forcado com o qual a iconografia clássica representa o diabo. Criticavam sua função. Asseguravam que o alimento, dádiva de Deus, devia ser levado à boca directamente pelas mãos do homem. A princesa Teodora argumentava que o garfo era generalizado no Império do Oriente, tão cristão quanto Veneza, mas não obtinha sucesso (São Boaventura)Poucos anos depois a Princesa morre de uma doença degenerativa, o que foi visto como uma punição divina, pelo seu grande "pecado". Apesar de tudo isto, a utilização do garfo foi-se espalhando pela cidade e no século XV já era de uso comum por toda a Itália. No entanto no resto da Europa não era utilizado. Em 1533, Catarina de Médici, nascida em Florença, casa com o futuro Rei de França, Henrique II, tendo levado consigo o garfo, de uso corrente em Itália. Mais uma vez a polémica instalou-se. Considerada uma sofisticação desnecessária não foi aceite pelos nobres franceses e os cozinheiros diziam que o metal do garfo alterava o sabor dos alimentos. Apenas com o Henrique III, seu filho, o uso do garfo é instituído na Corte, e de uma forma individualizada, já que até então o mesmo garfo era usado por várias pessoas. Este talher considerado inicialmente demoníaco foi gradualmente sendo adoptado pelos membros da nobreza e do clero, e passou de desnecessário a imprescindível. A partir desse momento a etiqueta à mesa obrigava ao uso de variados tipo de garfos, e quanto maior fosse o seu número mais elegante era a família que recebia! A Inglaterra do século XVII ainda não conhecia esta novidade. No diário de Thomas Coryat, famoso viajante inglês pode ler-se o seguinte: Os italianos servem-se sempre de um pequeno instrumento para comer (...). A pessoa que (...) toca a carne com os dedos ofende as regras da boa educação, é olhada com suspeita e muito criticada. Come-se assim em toda a Itália. Os garfos são de ferro ou aço; os nobres usam de prata. Adoptei este costume e  conservo-o inclusive em Inglaterra. Os meus amigos, todavia, fazem troça (...)Em Portugal o garfo foi introduzido por D. Beatriz, mãe de D.Manuel I, pelo ano de 1450, tendo sido usado pela Corte de forma muito casual. No entanto o seu uso popularizou-se na Corte apenas em 1836, após o casamento de D. Maria II com D. Fernando de Saxe-Cobourg-Gota, quando este convenceu a Rainha a usar o novo utensílio de forma habitual. Rapidamente se espalhou pela aristocracia e pela burguesia, chegando posteriormente a toda a população. 

Actualmente o garfo, juntamente com a faca e a colher, faz parte do nosso quotidiano. Para compensar o  desgraçado do garfo pelas odisseias por que passou até chegar aos nossos dias, até  existe a expressão um bom garfo, que designa aquele que gosta de comer! Não deixa no entanto de ser irónico, que actualmente existam restaurantes que apresentem pratos com um serviço denominado Finger Food, ou seja para comer à mão!



terça-feira, 3 de abril de 2012

Um Rei na cidade

A visita do Rei D. Manuel II à cidade do Porto em 1909. São 59 segundos de um filme raro que documenta um passado já longínquo.




Chapéus...havia muitos!



Ninguém se esquece da tão célebre frase de Vasco Santana, no filme "O Pátio das Cantigas" chapéus, há muitos seu palerma! E era verdade...mas actualmente a frase já não é tão verdadeira, e devia ser substituída por chapéus...havia muitos! De facto actualmente o chapéu caiu em desuso e são as mulheres que mais o utilizam como complemento de um traje formal ou de cerimónia. No dia a dia o chapéu não é usado! A palavra chapéu, deriva das palavras latinas caput (cabeça) e capellus (capuz), e posteriormente da antiga palavra francesa chapel mais recentemente chapeau. Inicialmente o chapéu surgiu como protecção da cabeça contra as adversidades do clima: chuva, frio, vento e sol. Na pré-história, teriam o formato de um gorro feito de peles de animais e eram privilégio dos homens responsáveis pela defesa da tribo ou do clã. Também poderiam ser de tecido, conhecidos como turbantes, já se conhecendo a sua existência no ano 4500 aC. Há cerca de 3000 aC, na Mesopotâmia surgem os chapéus que são uma mistura de capuz com elmo, que se foram aprimorando ao longo dos séculos transformando-se rapidamente num adereço de status social, militar e sacerdotal do antigo Egipto. A primeira representação conhecida de um chapéu, surgiu numa pintura num túmulo de Thebes, onde estava retratado um trabalhador com um chapéu de palha. No entanto é na Grécia Antiga que aparece num formato mais semelhante ao actual, contendo as partes principais do adorno e não sendo apenas uma tira a proteger a cabeça. Denominado de Pétaso grego teve origem no século IV, assim como o Píleo que era a versão sem abas. Para os Romanos, Pétaso foi substituído pela palavra latina capucho, tendo dado origem ao capacete.  Coroa, mitra, elmo, capacete ou chapéu tudo tem a função de proteger a cabeça, mas com significados diferentes. O chapéu deixou de ser apenas um objecto útil e passou a ser um símbolo social e de poder. Na Roma antiga, em 1000aC, os escravos não podiam usar qualquer tipo de chapéu, e quando conseguiam a carta de alforria, usavam um pequeno chapéu semelhante ao barrete, como sinal da sua liberdade. Este tipo de barrete foi posteriormente relembrado pelos Franceses Republicanos que utilizavam os bonnet rouge como símbolo da sua luta, na Revolução Francesa. Os chapéus existem por causa da necessidade, mesmo que simbólica, de preservar  a parte mais nobre do Homem: a cabeça, e portanto o pensamento(1). Tapar e proteger a cabeça é de facto um costume ancestral. 


No entanto este costume era privilégio masculino, já que até finais do século XVI, as mulheres que eram frequentemente obrigadas a cobrir a cabeça, faziam-no com mantilhas e véus. No final do século XVIII, e muito graças à Revolução Francesa, as mulheres começaram a usar chapéus como acessório de moda, desenvolvendo-se a partir de então o comércio de chapéus com a abertura de chapelarias, um pouco por todo o mundo. No entanto a mudança não foi muito bem aceite pelos homens e em Portugal, na Revista Contemporanea de Portugal e Brazil, de 1865 pode ler-se o seguinte texto: A decadência do véu é uma realidade (...) mas pouco a pouco ir-se-ha acreditando que o chapéu não chega a impossibilitar as damas de agradarem a Deos. E depois, o véu durava annos, e o chapéu dura um mês! (...) se o véu enfeitou as nossas mães, não é razão para ser immortal (...) o chapéu não é bastante sisudo, é francez, tem história elegante e tem feitio - tem feitio, o pérfido! - e deixa ver o rosto tentador, o endemoinhado inimigo da tranquilidade conjugal; com ele a esposa fica mais bonita: de véu não fica bonita nem feia, fica escondida (...) o chapéu é capaz de fazer perder casamento a alguns (...).

Ao longo dos tempos o chapéu foi-se tornando peça imprescindível do vestuário, e ultrapassou em muito o seu papel de protecção, tornando-se um utensílio de moda. Raro era o homem que saía de casa sem o seu chapéu e rara era a mulher de alto estatuto social que se apresentava sem o seu adorno de cabeça. Era também uma forma de comunicar: o tirar de um chapéu era sinal de respeito e também reconhecimento de superioridade social. Existem imensos tipos de chapéus, de diferentes tamanhos e feitios:
- Chapéu de coco, assim denominado por ter sido encomendado no século XIX, por um aristocrata inglês de nome Coke, que pretendia ter um chapéu mais pequeno e resistente, de forma a que pudesse caçar a raposa, sem que estivesse sempre a perder o seu chapéu, por embater nos ramos das árvores. Tornou-se símbolo da cultura urbana inglesa.
- Chapéu Panamá,  que apesar do nome tem origem no Equador. Feito de palha, deve a sua popularidade ao presidente Theodore Roosevelt, que  recebeu um como oferta, durante a inauguração do Canal do Panamá, e ignorando a sua origem, o denominou de chapéu do Panamá.
- Chapéu borsalino, de origem italiana, ficou com o nome do seu criador Giuseppe Borsalino, e surgiu em 1856 em França. É o típico chapéu masculino de feltro.
- Cartola ou originalmente chamado chapéu alto
- Boné, ainda muito utilizado pelas camadas mais jovens, surge de uma alteração da palavra francesa bonnet, que tem origem no latim obunnis (espécie de capa)
- Boina, muito utilizado em climas mais frios, o seu nome é de origem basca, e provem da palavra francesa bonnet 
Associo os chapéus aos meus avós tanto ao materno como ao paterno. Nenhum deles saía de casa sem o seu chapéu elegantemente colocado na cabeça. Enquanto o meu avô materno usava religiosamente o seu chapéu de abas largas, o meu avô paterno tinha uma adoração pelos seus chapéus borsalinos. Ainda me lembro de o ver escovar com esmero e imenso cuidado o feltro castanho, cinzento ou preto dependendo da fatiota que escolhesse. Dizia sempre que se saísse à rua sem o seu chapéu na cabeça, sentia-se nu! O que diria ele se se misturasse na multidão e visse tanta gente nua...

(1) A. Colonetti, G.Sassi M. M. Sigiani, Cosa ti sei messo in teste, Mazzotta, Milan 1991

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Nação Italiana em Lisboa

A Igreja do Loreto, também conhecida como a Igreja dos Italianos, está situada junto ao Largo do Chiado e à Praça de Camões, em frente ao Bairro Alto, na cidade de Lisboa. O culto à Nossa Senhora do Loreto, muito importante em Itália, foi introduzido em Portugal por mercadores venezianos e genoveses, no século XIV. Lisboa era nesta altura, uma das mais importantes cidades europeias, com um enorme fluxo comercial, atraindo inúmeros estrangeiros, particularmente italianos. Em 1517, após terem obtido permissão do Papa Leão X e do rei D. Manuel I, a comunidade italiana fundou a sua primeira Igreja, numa ermida de evocação a Santo António, que ficava contígua às antigas Portas de Santa Catarina, ainda na parte exterior das muralhas da cidade. Após obras de ampliação da pequena ermida, e tendo ficado sob administração directa do Papa Leão X (1518) e agregada à Basílica de São João de Latrão (Catedral do Bispo de Roma), o novo templo abriu ao culto a 8 de Janeiro de 1522, tendo-se celebrado a primeira missa já no reinado de D.João III. A Igreja do Loreto tornou-se rapidamente o pólo aglutinador de toda a comunidade italiana residente em Lisboa(1). Ao longo dos anos, esta comunidade foi recheando a sua Igreja com obras de arte de artistas italianos e com pinturas de frescos nos tectos e paredes. Para poderem financiar todos estes gastos, criaram uma taxa de 4% sobre todas as mercadorias italianas que chegavam a Lisboa, e que revertiam a favor da Igreja. 
Anos mais tarde, requereram que a Igreja do Loreto fosse elevada à categoria de Paróquia de todos os italianos residentes em Lisboa. A rejeição a  esta proposta pela parte do Cabido de Lisboa foi pronta, e foi feita queixa ao Papa Paulo III, que encaminhou o processo para o Tribunal da Rota (tribunal que funcionava como instância superior no grau de apelo junto da Sé Apostólica, para tutelar os direitos na Igreja), tendo este decidido que a criação de tal Paróquia só poderia ser aceite com o consentimento do Cabido de Lisboa. O certo é que 5 anos passaram, e o Cabido autorizou a criação da Paróquia do Loreto, sem nunca se ter sabido ao certo o que levou à mudança de atitude. Os italianos conseguiram finalmente o que há muito lutavam: uma Paróquia italiana em plena cidade de Lisboa. Era uma Paróquia que não tinha freguesia designada, já que eram seus paroquianos, todos os indivíduos da Nação Italiana residentes na cidade, independentemente do local onde vivessem. Segundo a opinião dos escritores da altura, a Igreja do Loreto, era um templo faustoso e digno do lugar que ocupava na cidade. Tornou-se um lugar singular onde os italianos integrados na vida lisboeta, tinham a possibilidade de regressar às suas origens e ouvir a sua língua materna. Sempre presididos por padres provenientes de Itália, aí eram baptizados, casavam e eram sepultados, sempre em solo italiano, dado que o local da Igreja era pertença da Nação Italiana. Em 29 de Março de 1651 um violento incêndio, reduz a Igreja a cinzas, tendo-se apenas salvado o cofre do Santíssimo Sacramento. Os prejuízos foram enormes, mas as obras de reconstrução começaram poucos dias depois e ao fim de 25 anos a Igreja estava novamente de pé. Todas as obras foram financiadas pelos habitantes da Nação Italiana. 
No dia 1 de Novembro de 1755, deu-se o grande terramoto de Lisboa, que dizimou milhares de pessoas. A Igreja do Loreto sofreu poucos danos estruturais com o terramoto, e a comunidade italiana que assistia à missa, pouco ou nada sofreu. Graças a esta Igreja, estou a escrever este texto, já que o meu 6º avô materno, de nome Francesco George Dragazzi, veneziano nascido em San Pietro de Castello, estava nesse dia a assistir à missa. Baptizou todos os filhos na Igreja do Loreto e aí foi sepultado. Na assento de baptismo do seu filho Caetano Alberto Dragazzi (meu 5º avô) pode-se ler...baptizei nesta Igreja Parochial da Naçam Italiana, Caetano Alberto (...).
Aqui fica a história pouco comum, de persistência e de querer de uma comunidade, que chegou até aos nossos dias...actualmente a Igreja do Loreto ainda é presidida por padres italianos. 

(1) Clio: Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003

sexta-feira, 30 de março de 2012

Profissões num Portugal antigo

Profissões que já desapareceram, outras que ainda existem...retrato de um Portugal antigo cheio de histórias que vão desaparecendo.





quarta-feira, 28 de março de 2012

Ponte de Cavez: A Fronteira


A notável Ponte de Cavez, localizada na freguesia com o mesmo nome, no Concelho de Cabeceiras de Basto, foi construída no século XIII. Há mais de sete séculos que esta fantástica construção de pedra simultaneamente separa e une o Minho a Trás-os-Montes. Esta magnífica obra é tradicionalmente atribuída a Frei Lourenço Mendes. Segundo Frei Luis de Sousa, Lourenço Mendes lançou-se na construção da Ponte de Cavez porque viu com os seus olhos o trabalho e o perigo com que se vadeava o rio (...) rio grosso de agoas e furioso a maior parte do anno, já que a ligação do Minho a Trás os Montes se fazia apenas por barco. Ao chamar para si a responsabilidade da construção de tamanha obra, Frei Lourenço, pensava que esta iria ter grande impacto na população quer a nível social como a nível espiritual. Mas os seus conterrâneos, ciosos dos seus bens materiais, e não acreditando que a ponte seria construída, negaram-se a participar nos trabalhos e nas despesas, por não quererem arriscar o seu precioso dinheiro e duvidarem da capacidade obreira do Frei. Foram por isso contratados trabalhadores de fora da freguesia, e a obra foi custeada por Frei Lourenço, graças aos donativos obtidos pelas suas pregações. No entanto foi D.Sancho II, que numa das suas jornadas a Trás-os-Montes, financiou o término da obra. A muito custo, a obra fez-se, e finalmente o Minho e Trás-os-montes têm a tão ambicionada ligação. Á vista da ponte terminada e de pé, a população em grande entusiasmo aclama o Mestre e sucedem-se os elogios ao autor da obra. O mestre Lourenço Mendes sente tamanha alegria que  morre fulminado por uma congestão debaixo debaixo dos arcos da sua ponte. Segundo a lenda, o povo agradecido, e com o apoio das autoridades civis e do clero, constrói ao Mestre um túmulo na própria ponte, onde grava a inscrição:  Esta é a Ponte de Cavez, e aqui jaz quem a  fez. 
São muitas as histórias que surgem à volta desta Ponte. Na sua margem direita do lado Minhoto, no final da Idade Média, terá existido uma gafaria  (local onde se tratavam os leprosos), que utilizava a água da Fonte de Águas Sulfurosas situada na margem esquerda, lado Transmontano, para o tratamento dos seus doentes. O povo ainda hoje diz que esta água, se for bebida na manhã de 24 de Agosto - dia de São Bartolomeu - antes de o raiar do sol, cura o corpo de todas as dores e doenças, tanto as presentes como as futuras. Na margem Minhota do rio Tâmega existe também, anexa ao solar nobre da Casa da Ponte,  uma capelinha dedicada a São Bartolomeu. Quando a 24 de Agosto, dia de São Bartolomeu, se realizava a romaria em honra do santo, minhotos e transmontanos envolviam-se em lutas e pancadaria. Antigamente o que fazia a divisão com Trás-os-Montes era o rio. Portanto diziam que o Santo pertencia àquela parte e que os do lado de cá os roubaram, diziam que ele tinha aparecido lá na fonte, que é do outro lado do rio. Depois houve a tradição da festa meter sempre aquela pancadaria. Os daqui tinham o santo mas não iam à água, os dacolá iam à água mas não vinham ao santo (feitor da Quinta da Casa da Ponte). De um lado e de outro da ponte, desafiavam-se mutuamente uns dizendo vinde à fonte e outros respondendo vinde ao santo. Pelo meio ainda existia a disputa pelas raparigas que se encontravam na Romaria. O assunto era sempre resolvido ao murro, à paulada e mesmo ao tiro (…) até Camilo várias vezes se refere ao local pois teria assistido a muitos encontros destemidos de varapau entre minhotos e transmontanos, sendo frequente a festa de S. Bartolomeu acabar com mortos (Almeida,1988).  São Bartolomeu tem os atributos de milagreiro e exorcista, e o exorcismo dos possuídos pelo demónio é outro ponto alto da Romaria. Por este facto, o santo é habitualmente representado com uma espada na mão e o demónio acorrentado aos pés, como se pode ver na imagem de madeira ainda hoje existente no interior da capela. Camilo Castelo Branco no seu conto "Como ela o amava" escrito em 1863, descreve muito bem o que presenciou quando esteve em Cavez em 1842: Aos 24 de Agosto, na povoação chamada Cavez cuja ponte sobre o Tamega, extrema pelo Norte as duas provincias de Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de São Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás. Vem aqui de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. (...) As mulheres é que por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espiritos infernais (...) gentis mocetonas eram aquelas que eu vi na igreja de Cavez, em 1842. Há quantos anos isto vai. Naquele tempo, até as mulheres com espirito ruim me pareciam boas. 
A minha história mistura-se com a história desta Ponte. Lugares como Moimenta, Cavez, Arosa, Gondiães fazem parte da minha história genética e desde 1601 (primeiro registo documentado) que a minha família paterna viveu nestas terras de fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes. As histórias foram passando de geração em geração, narrando namoros começados nas Romarias de São Bartolomeu, sofrimentos conquistados nas rixas com os de além rio e muitas outras situações do dia-a-dia que tiveram como palco as terras de Basto. Todas estas situações foram ainda vivenciadas pelos meus avós paternos, que nasceram em Cavez não muito longe da famosa Ponte e pelo meu pai, assíduo visitante destas terras durante as férias escolares. Cavez foi ainda palco de muitas férias em família,  e o rio Tâmega e a Ponte que o atravessa, presenciaram inúmeros momentos de pura felicidade, que tão bem seriam descritos pelas românticas palavras de Camilo.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Biblioteca Municipal do Porto: um lugar familiar

A Real Biblioteca Pública da cidade do Porto, actual Biblioteca Municipal do Porto, foi oficialmente inaugurada no dia 9 de Julho de 1833, por D. Pedro IV, Duque de Bragança. O País e em especial a cidade do Porto, atravessava nessa altura momentos de grande instabilidade, com as lutas liberais e grandes mudanças politicas, mas mesmo assim D. Pedro mandou publicar um Decreto na "Chrónica Constitucional do Porto" onde declarava que será estabelecida nesta mui antiga e mui leal cidade do Porto, uma livraria com o titulo de Real Bibliotheca Publica da Cidade do Porto. O Hospício dos Franciscanos, localizado na Cordoaria, acolheu a Biblioteca que só abriu as sua portas ao público 4 de Abril de 1842, remontando a esta época o retrato do rei que ainda hoje se conserva na Biblioteca. Mas foi o antigo convento de Santo António construído no século XVIII, doado à Câmara em 1839, que deu lugar a um edifício repleto de histórias e um sem fim de obras literárias. Os fundos primitivos foram constituídos pelas obras pertencentes às bibliotecas dos Conventos, incorporadas nos bens nacionais na sequência da legislação do Governo Liberal que suprimiu as Ordens e as Congregações religiosas, pelas colecções "sequestradas" a particulares conservadores, e também com um exemplar de toda e qualquer obra impressa em Portugal.  Ao longo dos anos as colecções da Biblioteca foram sendo sucessivamente enriquecidas por doações, permutas e aquisições. Em 1876, D. Luís transformou-a em Biblioteca Municipal. É uma das três principais Bibliotecas do País, sendo a maior e a mais antiga Biblioteca Pública Municipal Portuguesa, assumindo graças à riqueza do seu espólio, um carácter nacional e mesmo internacional, o que transcende o papel comum de uma biblioteca dita Municipal. Entrando na Biblioteca somos confrontados com mais de 20 quilómetros de livros para percorrer,cerca de um milhão e trezentos mil documentos, divididos em três pisos. As paredes são forradas com azulejos dos séculos XVI e XVIII, provenientes dos vários Conventos extintos. São corredores e corredores repletos de cultura e história que desembocam num claustro onde existe um relaxante jardim. Do seu espólio destacam-se pela sua importância e carácter único, o fundo manuscrito de Santa Cruz de Coimbra, uma Bíblia do século XIII e o Foral Manuelino do Porto de 1517. 
Como bibliotecários ilustres destacam-se Alexandre Herculano, que durante o Cerco do Porto, trabalha na organização da Biblioteca e Fulgêncio José Lopes da Silva, o meu avô! Pode parecer uma falta de modéstia minha colocar o meu avô, que chegou a 1º Bibliotecário em 1947, num patamar semelhante ao grande Alexandre Herculano! Mas foi o Sr. Fulgêncio que durante mais de 40 anos "viveu" aquela Biblioteca.Segundo as palavras do jornalista Ercílio de Azevedo, num artigo do Jornal "A Capital" de 29 de Janeiro de 1969 sem o Sr. Fulgêncio o velho edificio de S. Lázaro seria quanto muito um armazém de livros; com ele era um ser vivo e activo, dispensador de cultura e de vida aos que nele descobriam o mundo da sabedoria. Os estudiosos procuravam-no, os eruditos consultavam-no, os jovens acatavam os seus conselhos como se fossem versões fidedignas das tábuas da lei...estou em crer que não havia livro que a sua memória não tivesse catalogado (...) com ele aprendi a ter fé na vida, uma fé louca e absurda...e a descobrir o mundo do sonho na aridez do presente, nos longes do futuro e nas brumas da distância por entre os vagalhões da vida. O Sr. Fulgêncio, licenciado em Farmácia, vivia os livros como ninguém. Recebeu a medalha de Ouro da cidade do Porto pelos serviços prestados à cidade e tem no salão nobre da "sua" Biblioteca um quadro pintado por Agostinho Salgado, onde ficou imortalizado com o seu comprido casaco soerguido pelo braço, o chapelão preto e ondulado colocado de través, o jeito infantil de inclinar a cabeça sobre o ombro...só ali falta o "definitivo" que constantemente lhe ardia nos dedos requeimados. Como disse Jaime de Almeida no seu artigo intitulado "Morte de um Homem fora de moda" o Sr. Fulgêncio foi um Homem singular um pai e avô de quem se podem orgulhar".

domingo, 18 de março de 2012

O Dia do Pai

Amanhã é o Dia do Pai, dia 19 de Março! Apesar de eu achar que estes dias pré-programados são actualmente meramente comerciais, não deixo de lhes dar algum relevo pela história que "arrastam" consigo. Este dia, tal como o dia da Mãe, foram criados com a ideia de fortalecer laços familiares e homenagear aqueles que nos deram vida. Evoca-se como origem desta data a Babilónia, onde há mais de 4 mil anos, um jovem de nome Elmesu, moldou em argila um cartão, onde desejava sorte, saúde e longa vida ao seu Pai, em escrita cuneiforme, originalmente criada na antiga Suméria (região absorvida pela Babilónia anos mais tarde). No entanto, a institucionalização desta data é bem mais recente. Em 1909, a norte americana Sonora Louise Smart Dode, filha de um veterano da Guerra Civil, William Jackson Smart quis homenagear o seu pai, que criou 6 filhos sozinho, após a morte da esposa de parto, numa quinta a leste de Washington. Em 1910 Sonora enviou uma petição à Associação Ministerial de Spokane, onde recomendava a aceitação de um Dia Internacional do Pai. A ideia teve grande adesão da população local, tendo sido aceite pelas autoridades locais. O primeiro dia do Pai foi comemorado a 19 de Junho de 1910, data do aniversário do pai de Sonora, e a rosa foi escolhida como simbolo do evento: as vermelhas dedicadas aos pai vivos e as brancas ao que já tinham falecido. A comemoração deste dia difundiu-se na pequena cidade de Spokane, para todo o estado de Washington. Em 1924 o Presidente Calvin Coolidge apoiou publicamente a ideia de um dia Nacional do Pai, e finalmente em 1966 o Presidente Lyndon Johnson assinou uma proclamação presidencial, em que decretava o terceiro domingo de Junho como o Dia do Pai. Em 1972, Richard Nixon, introduziu o Dia do Pai, na Lei Americana. Em quase todos os países, este dia é actualmente comemorado,quase sempre em Junho. Entre as várias excepções estão Espanha e Itália (19 de Março), Brasil e África do Sul (2º domingo de Agosto), Rússia (23 de Fevereiro, quando é comemorado o dia dos Homens, e chamam-lhe o Dia Defensor da Pátria) e Austrália (2º domingo de Setembro). Na Alemanha não existe dia oficial para o Pai, mas costumam comemorá-lo no dia da Ascensão de Jesus (data variável conforme a Páscoa).

Em Portugal, o dia do Pai é comemorado no dia de São José, no dia 19 de Março, estando assim ligado às festividades religiosas. 
Desejo a todos os Pais, incluindo obviamente o MEU, um Feliz Dia do Pai, mas  principalmente desejo a todos os Pais, uma feliz vida todos os dias e não apenas a 19 de Março!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Telegrafia em Portugal


Nunca pensei vir a interessar-me tanto por telegrafia! Mas de facto tenho actualmente um carinho especial por este tipo de telecomunicação, agora quase extinta. Tudo começou quando descobri que tive um trisavô de nome José Bento Dragazzi de Figueiredo que era telegrafista, e além de exercer esta profissão foi ainda inventor de um telégrafo! Fiquei fascinada e então procurei saber tudo o que podia sobre telegrafia.
Como é do  conhecimento geral a telegrafia foi inventada por Samuel Morse,  que nasceu em 27 de Abril de 1791, em  Charlestown, Massachusetts nos Estados Unidos. Em 1838, o famoso Código Morse começou a ser utilizado e a telegrafia começou a dar os primeiros passos. Mas foi só em 1844, que foi terminada a primeira linha telegráfica, entre Baltimore e Washington, e a primeira mensagem a ser transmitida foi "What hath God wrought!" ("Que obra fez Deus!"). Neste caso foi mesmo o Homem! O grande desenvolvimento da telegrafia deu-se no meio militar,tendo sido amplamente utilizada nas comunicações durante a 2ª Grande Guerra. Actualmente é ainda utilizada pelo radio amadores. Portugal foi um dos países pioneiros na utilização da telegrafia, no tempo de Fontes Pereira de Melo. Em 1855 foi lançado o primeiro cabo submarino entre Lisboa e os Açores, mas as primeiras linhas a serem inauguradas em 1856, foram entre o Terreiro do Paço e as Cortes e o Palácio das  Necessidades e Sintra, onde passava férias a família real. Em 1857 eram abertas ao público as linhas de telegrafia.
No final do século XIX já havia 8000 quilómetros de linhas telegráficas, com estações em Lisboa, Sintra, Mafra, Caldas da Rainha, Alcobaça, Elvas, Évora, Coimbra, Porto entre outras.

Voltemos então ao meu trisavô, de nome José Bento Dragazzi de Figueiredo, que nasceu no Forte da Graça, em Elvas no dia 21 de Julho de 1836. Seguindo as pisadas do pai, foi militar mas apenas durante 4 anos, pois a paixão pelas comunicações falou mais alto. Tornou-se telegrafista e foi como 2º Aspirante dos Telégrafos que desenvolveu um Transmissor Comutador de 3 direcções, que permitia comunicar com 3 estações diferentes simultaneamente. O aparelho foi testado nas estações de Sintra e Mafra, tendo obtido óptimos resultados pelo que começou a ser utilizado na Estação Principal em Lisboa. Por esta invenção foi premiado pelo Ministro das Obras Públicas com 18$000 réis, no dia 10 de Novembro de 1882, conforme noticiado no Diário de Notícias. Apresentou ainda ao Director Geral  dos Correios, Telégrafos e Faróis, o desenho de uma mesa, elaborada por ele, contendo um para-raios comutador duplo (evitava as descargas eléctricas que destruíam muitos dos aparelhos), um transmissor também de comutador duplo modificado e um translactor simplificado e modificado (que facilitava as comunicações). Estes aparelhos evitavam graves problemas aos serviços, permitindo que se tomasse conhecimento automático do que se passava nas outras estações urbanas quando estavam em comunicação directa. Foi dada pelo Ministro das Obras Públicas, uma verba de 20$000 réis para a construção desta mesa.
A notícia do Jornal termina comunicando que "estes aparelhos foram inventados por um empregado meramente prático e que, pela reforma de 7 de Julho de 1880, foi preterido por todos os empregados mais modernos de inferior classe e da sua; quando era Telegrafista de 4ª Classe, foi dado como incompetente e por demente por um membro da Comissão Classificadora...sendo um homem de distinta aptidão e não tendo uma única nota que manchasse a sua vida pública no decurso de 24 anos de serviço efectivo." A tenacidade venceu! O telégrafo Dragazzi foi construído a 31 de Dezembro de 1880. Está referenciado no Museu Internacional de Telecomunicações, na Alemanha. 
José Bento Dragazzi de Figueiredo faleceu a 28 de Maio de 1892, na freguesia da Sé no Porto. Como sua descendente directa é com enorme orgulho que aqui deixo este testemunho, pois nas minhas pesquisas foram poucas ou quase nenhumas as referências que eu encontrei ao seu nome. Mas a obra fica e o nome Dragazzi voltou a ser falado, nem que seja apenas por mim!