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domingo, 4 de maio de 2014

Um dia não chega!

A Mãe podia ser só minha. Mas tenho de a emprestar a tanta gente…(Luísa Ducla Soares, Poemas da Mentira e da Verdade). Esta frase tem tanto de deliciosa como de verdadeira.Hoje festeja-se o dia da mãe. Nunca dei muita importância a estes dias de festejo programado, em que parece que temos todos obrigação de homenagear alguém ou alguma coisa. Um dia não chega para homenagear, lembrar ou acarinhar alguém e muito menos uma mãe. Mas é interessante descobrir o que está pode detrás destes dias festivos, que são mundialmente lembrados. 
Desde sempre o homem homenageou a divindade feminina e o seu culto remonta ao inicio da nossa história. O culto à Deusa Mãe que já era feito na Pré-história, através da adoração de pequenas estatuetas que representavam a mulher, prolonga-se no Reino da Frígia (era o nome da região centro-oeste na antiga Àsia Menor -Anatólia, na actual Turquia, famoso pelos seus Reis lendários que povoaram a mitologia grega) e alicerça-se posteriormente nas civilizações romanas, egípcias e da Babilónia.

O mais antigo registo de comemoração do dia da mãe, chega-nos da antiga Grécia. As comemorações da chegada da Primavera eram feitas em honra da Deusa Rhea, designada como a Mãe de todos os Deuses do Olimpo. Na mitologia romana, é designada como Cibele, uma das manifestações da Deusa Mãe - Magna Mater, e as cerimónias em sua homenagem começaram cerca de 250 anos antes de Cristo, e duravam 3 dias, de 15 a 18 de Março. Estas celebrações foram posteriormente adoptadas pela Igreja Católica, passando a ser venerada Maria, a mãe de Jesus.
No século XVII, em Inglaterra, no quarto domingo da Quaresma (40 dias antes da Páscoa) era costume os ingleses visitarem a sua Igreja local a chamada Igreja Mãe, ou a Catedral mais próxima, para iniciarem as festividades da Quaresma. Este dia foi também posteriormente dedicado às Mães, sendo denominado Mothering Day, e todos aqueles que podiam visitavam as suas mães, oferecendo o tradicional Mothering cake. É curiosa a mistura que ao longo dos tempos se foi fazendo entre a mãe da Igreja e as próprias mães.

Mais recentemente em 1872, uma norte-americana de nome Julia Ward Howe, famosa abolicionista, activista social e poetisa, autora do Hino da Batalha da República da Guerra da Secessão Americana(cantado posteriormente por diferentes cantores e bandas, incluindo Judie Garland, os Stryper,  e os Smiths), sugeriu a criação de um dia das Mães, dedicado à Paz. Em Boston, durante vários anos celebrou o dia da Mãe, no segundo domingo de Junho. 



Mas foi outra norte americana, de nome Ana Jarvis, natural da Virgínia Ocidental, que instituiu o Dia da Mãe. Em 1905, ano em que morre a sua mãe, decide organizar uma festa, cujo simbolo era um cravo branco, para perpetuar a sua memória. Posteriormente quis que a festa fosse estendida a todas as mães, vivas ou mortas, com um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem as suas mães. A primeira celebração oficial ocorreu no dia 26 de Abril de 1910, quando o governador de Virgínia, William E. Glasscock, incorporou o Dia da Mãe no calendário de datas comemorativas do Estado. Outros estados norte-americanos rapidamente aderiram à comemoração, e em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, unificou a celebração em todos os Estados, decretando, por sugestão de Anna Jarvis, que o Dia da Mãe deveria ser comemorado no segundo domingo de Maio.  Actualmente mais de 40 países festejam o dia da Mãe nesta data. Portugal recentemente adoptou este dia, deixando cair o 8 de Dezembro, tradicionalmente considerado entre nós como o dia da Mãe. 

Mas um dia é curto...demasiado curto para permanecer na nossa memória. Nada melhor do que palavras para serem eternas:

Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
(...)
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
(...)
Fosse eu Rei do Mundo,
criava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade)



quinta-feira, 1 de maio de 2014

A liberdade de leitura


Ler é uma das mais belas ocupações humanas...abrir um livro, fixar o olhar na primeira folha e iniciar a viagem pelo mundo das palavras é magnífico! Adoro perder-me num livro. Desligar-me de tudo o que me rodeia, e sentir cada palavra, cada frase, cada descrição que me é oferecida. Sentir as emoções, viver os sentimentos, ouvir cada barulho, distinguir cada aroma e deixar-me ir através dos diferentes mundos que o livro me proporciona. Não existem impossíveis nos livros. Olhar para uma estante repleta de livros é como entrar numa máquina do tempo. Com o movimento da minha mão posso dar comigo na Grécia Antiga pegando na Apologia de Sócrates escrito por Platão, rapidamente passar para uma viagem ao futuro folheando Ao encontro com Rama de Arthur C. Clarke, como parar no tempo presente ao ler o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago. Cada livro é um presente repleto de conhecimento. Todos os livros deixam a sua marca. Como escreveu Imre Kertesz (escritor húngaro de origem judaica, Nobel da Literatura em 2002) a quantidade de livros que dormem em mim, bons e maus, de qualquer tipo. Frases, palavras, parágrafos, versos, que, à semelhança de inquilinos inquietos, voltam bruscamente à vida, errando solitariamente ou entoando na minha cabeça conversas brutais que eu sou incapaz de silenciar. 
Mas o simples acto de escolher um livro para ler, que agora nos parece banal, foi durante muitos séculos, um acto perigoso. Até à Idade Média, existiam muito poucos livros e aqueles que existiam, escritos em latim, estavam na posse de uma elite restrita, da qual faziam parte o clero e alguns elementos da nobreza, dado que a maior parte da população mundial era analfabeta. Em 1517, com a reforma protestante iniciada por Martinho Lutero, e com a tradução de alguns livros, entre eles a Bíblia, para as línguas que eram faladas em diferentes países europeus, os livros começaram a ser divulgados e com eles deu-se o inicio da alfabetização das populações. O conhecimento espalhou-se rapidamente através das palavras escritas. Ideias novas e opiniões divergentes começaram a ser escritas e lidas. Uma população com conhecimento é difícil de dominar e era necessário por isso controlar a informação. Em 1559, o Papa Paulo IV, promulgou o Index Librorum Prohibitorum, o chamado Índice dos Livros Proibidos, que consistia numa lista de publicações literárias consideradas pela Igreja Católica como perigosas e como tal proibidas. O redactor principal do Índice dos Livros Proibidos que foi usado por toda a Igreja dependente de Roma durante mais de 400 anos, foi um frade português de nome Francisco Foreiro (1522-1581). Todas as obras literárias eram assim sujeitas à censura da Igreja. Após avaliação poderiam ou não obter a informação de nihil obstat que significa nada impede, e após o qual obtinham o carimbo de o imprimatur ou seja, deixe ser impresso. Quem ousasse possuir as obras proibidas corria o risco de ser julgado pelos Tribunais da Inquisição como herege. Quem escrevesse livros que posteriormente fossem considerados perigosos poderia correr o risco de ser ser condenado à morte, tal como aconteceu a Giordano Bruno em 1600.
Entre 1559 e 1966, altura em que foi abolido pelo Papa Paulo VI, mais de 4000 títulos fizeram parte desta triste lista. Figuraram nela nomes como Maquiavel, Galileu, Kepler, Descartes, Voltaire, Victor Hugo e Jean-Paul Sartre. 
Actualmente ainda existem livros considerados perigosos, para as diferentes religiões e para os diferentes estados. Livros como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, foi banido de algumas bibliotecas dos EUA por dar a impressão de que o sexo promíscuo é legal; os livros da saga Harry Potter foram banidos dos Emirados Arabes Unidos e sofreu o protesto de lideres religiosos do Brasil e dos EUA, por incentivarem a bruxaria; Alice no País das Maravilhas, foi banido na China, por dar aos animais as mesmas qualidades dos humanos, colocando-os assim ao mesmo nível...
Tristes aqueles que se sentem ameaçados por palavras escritas. Como disse Unamuno ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros. E é tão bom ser diferente e original!!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Revolução: repetição ou mudança?


A palavra revolução, anda actualmente na boca de toda a gente. E quando pensamos em revolução, associamos logo a movimentos políticos, a lutas sociais, a confrontos nas ruas e a momentos de grande tensão.

No entanto a palavra revolução é uma palavra antiga para uma ideia moderna (Dicionário da Filosofia Moral e Politica). Originalmente o termo revolução era usado na astronomia, para designar o movimento cíclico das estrelas, cujos trajectos se repetiam, impelidos pelas irresistíveis e potentes forças gravitacionais. Foi este o termo usado por Copérnico, para designar o movimento cíclico dos planetas em volta do Sol, como se pode confirmar pelo titulo da sua maior obra escrita: "Da Revolução das Orbes Celestes" que foi editado em 1543, em 6 volumes. 
Como metáfora politica era utilizada desde a Antiguidade Clássica, para definir a recorrência dos regimes, forçados a regressar sempre às mesmas formas de governar (Dicionário da Filosofia Moral e Politica).  

Esta definição etimológica da palavra revolução, mantém-se até ao século XVII, quando se dá a primeira revolução constitucional em Inglaterra, a chamada Gloriosa Revolução (1688-1689), a partir da qual a Coroa Britânica ficou dependente do Parlamento, evitando deste modo o absolutismo monárquico. 

Com as revoluções americana (1776) e francesa (1789-1799), no século XVIII, o significado da palavra revolução altera-se definitivamente, passando a ter o significado oposto do inicial. Revolução passa então a representar a ruptura com o modelo anterior, a mudança profunda, a alteração. A ideia da revolução como ruptura libertadora é reiterada no século XIX, que recupera da antiga definição o sentido de irresistibilidade e movimento (Dicionário da Filosofia Moral e Politica). Segundo Karl Marx as revoluções são as locomotivas da história, dando assim ênfase ao sentido de mudança da palavra.


Por isso é preciso ter cuidado quando utilizamos a palavra revolução, pois em diferentes contextos podemos estar a dizer que andamos às voltas e acabamos sempre no mesmo sítio, ou que mesmo a andar às voltas vamos acabar num sitio completamente diferente. Eu por mim sou sempre defensora da mudança, logo da revolução associada ao mês de Abril!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um pequeno obstáculo


Há muito tempo que não escrevia...há momentos que nos fazem parar mesmo que a vontade não seja essa. Não foi por falta de tempo...esse tinha e tenho em excesso, mas o meu pensamento estava bloqueado, primeiro com a perspectiva de fazer uma cirurgia e depois pela imobilidade e incapacidade provocadas pela situação.   Uma paragem forçada, uma alteração repentina na azáfama do dia a dia, fez com que as ideias desaparecessem. Uma incapacidade temporária provocada por uma lesão na mão esquerda fez-me travar a fundo. Uma hora num bloco operatório e de repente tenho pela frente uns meses de recuperação. Uma simples alteração num dos tendões e num pequeno nervo da mão, transformou a minha vida e a vida de quem me rodeia. Desencadeou uma avalanche de sensações e sentimentos, ao mesmo tempo que vinha acompanhada de vários pequenos obstáculos que tinham que ser superados. Mas, como disse Albert Einstein, as dificuldades e obstáculos são fontes valiosas de saúde e força para qualquer sociedade, e acrescento eu, para qualquer indivíduo. E por isso cá estou novamente a tentar retomar o que tanto gosto de fazer. Procurar nos baús da história e em poeirentos livros repletos de magia, as tradições, os costumes e as descobertas que fizeram de nós o que actualmente somos. Tendo sido sujeita a uma intervenção cirúrgica dei por mim a pensar que num passado não muito longínquo, tudo era muito diferente. 

Na Idade Média a cirurgia, era considerada uma actividade pouco nobre, pelo que era praticada por indivíduos sem nenhuma formação académica, os chamados cirurgiões-barbeiros, que executavam apenas a limpeza de pequenas feridas e lesões externas, extracção de dentes e outras pequenas intervenções. A palavra Cirurgia provém do latim chirurgia, que teve por sua vez origem na palavra grega kheirourgia (kheír, que significa mão e érgon que designa trabalho). Cirurgia, etimologicamente, significa trabalho manual, arte, ofício, no qual se empregam as mãos para a sua execução. No entanto, desde a pré-história que se praticam actos de cirurgia, através de procedimentos que utilizavam a trepanação (abertura de um osso, mais comum nos ossos do craneo). No inicio do século XXI, arqueólogos que estudavam as ossadas de dois homens de Mehrgrh (um povo da Civilização do Vale do Indo) no Paquistão, concluíram que estes possuíam algum  conhecimento de medicina e odontologia, ao descobrirem indícios que um dente que tinha sido perfurado há 9.000 anos. No antigo Egipto foi descoberta uma mandíbula  datada de 2.750 aC, com duas perfurações logo abaixo da raiz do primeiro molar, indicando a realização de uma drenagem de um abcesso dentário. Perto do local onde estão edificadas as piramides, também no Egipto, escavações arqueológicas permitiram identificar um crânio humano que tinha sido sujeito a intervenções cirúrgicas.
Sushruta Samhita, um médico indiano que viveu em 600 aC é uma importante figura na história da cirurgia. Ele viveu, ensinou e praticou sua arte cirúrgica nas margens do rio Ganges, no norte da India. Foram numerosas as suas contribuições para ciência e arte da cirurgia, tendo identificado  a origem e tratamento de diversas doenças, sendo por muitos considerado o pai da Cirurgia. Muito do que conhecemos a respeito da cirurgia está contido numa série de volumes de sua autoria, conhecidos como as Susrutha Samhita. Considerado o mais antigo texto cirúrgico, nele estão descritos com pormenor, a exploração, o diagnóstico, tratamento e prognósticos de numerosas doenças.

No entanto, a cirurgia teve seus primeiros desenvolvimentos científicos no século XVI, com o francês Ambroise Paré  considerado o pai da cirurgia moderna, que além de esclarecer inúmeras questões de anatomia, fisiologia e terapêutica, substituiu a cauterização com ferro em brasa, pela utilização de fio de sutura e pinças para corrigir roturas de veias e artérias, tal como é hoje utilizado. Escreveu vários tratados de cirurgia, tendo feito a compilação de toda a sua obra em 1575, com 65 anos de idade, sob o título Les Oeuvres de M. Ambroise Paré, avec les figures et les portraits de l'Anatomie que des instruments de chirurgie et de plusieurs monstres. 
Foi cirurgião de Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Mais tarde, a descoberta da anestesia e a criação da antissepsia, no final do século XIX, impulsionou as técnicas cirúrgicas, cuja eficácia aumentou com a transfusão de sangue e a neurocirurgia, desenvolvidas entre as duas grandes guerras. Nos anos 50, a descoberta dos antibióticos garantiu maior eficácia aos procedimentos cirúrgicos. 
Actualmente com toda a tecnologia envolvida, realizam-se todo o tipo de cirurgias, incluindo transplantes de orgãos vitais. A evolução foi fabulosa e hoje uma simples cirurgia como aquela a que fui sujeita, é considerada de rotina, e possibilita a recuperação total de áreas danificadas. Apenas como curiosidade, se eu tivesse nascido nos finais do século XVIII, a minha lesão seria analisada da seguinte forma: quando se vulnerar, ou cortar totalmente um tendão, ou tendões, que servirem ao movimento de uma parte, se perderá o movimento dela, se não unir por primeira intenção, e o sujeito for velho. Quando a ferida do tendão não unir logo, e passar a chaga mediante a cicatriz, e contracção das fibras e prisão delas, é muito certo perder-se o movimento total ou parcial da parte. (...) há violentas dores, segue-se febre, vigilias, delirios e pode sobrevir aquele terribilissimo e mortal acidente convulsivo. Tratamento - administrar externamente um cozimento de malvas, violas, mangerona, flores de sabugo, de marcela e folhas de rosa e semelhantes; havendo muitas dores feito o cozimento em leite; não as havendo feito em água.(...) Aplicar por si só agua ardente, sempre quente, com  algum óleo de termentina (in Cirurgia classica, lusitana, anatomica, farmaceutica, medica, a mais moderna: segunda parte em que se da huma brevissima noticia anatomica do corpo humano, de Francisco  Luiz Ameno, 1780). Talvez a minha recuperação demorasse um pouco mais... 
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A tradição da "crise"


Portugal existe como nação há mais de 800 anos! Oito séculos de história repleta de grandes feitos e grandes conquistas épicas, plena de mitos, lendas e contos fantásticos, personagens reais que parecem saídas de filmes de Hollywood, Reis e Rainhas, guerras e conflitos, descobrimentos e invasões. Uma nação rica em história, tradições, costumes, potencial humano... e crises!Portugal chega ao século XXI como um país pobre, dependente de outros para sobreviver, necessitado de apoio económico, subserviente e humildemente resignado. Este pedaço de terra à beira mar plantado, nunca desabrochou. Manteve-se plantado, parado, estagnado. Oito séculos de história não nos ensinaram nada, não gravaram na memória de tantas e tantas gerações aquilo que não deveria ser repetido. Somos um país de crises. As crises que decorreram das guerras com os mouros, das lutas com Castela, da epopeia marítima e da construção de um Império ultramarino, que apesar de terem dado nome a Portugal, foram mal geridas e poucos dividendos trouxeram a um País que não soube aproveitar as oportunidades surgidas. A lenta industrialização ocorrida em Portugal no século XIX, que nos deixou irremediavelmente atrasados em relação às outras nações europeias. Um atraso que nunca mais conseguimos recuperar e que nos provocou graves dissabores económicos e sociais ao longo dos anos. As crises e vexames sucessivos por que passamos nos últimos anos da Monarquia, mostrando já os primeiros sinais de subserviência a outros estados europeus, que anos mais tarde se tornariam tão comuns. A ausência de um espírito aguerrido de defesa nacional, de orgulho patriótico e de profundo sentimento de pertença fez com que o nosso País ficasse sempre para trás. A esperança depositada no novo regime republicano, cedo se desmoronou. Seguiram-se 40 anos de uma ditadura, que nos fechou ao mundo, às inovações e ao desenvolvimento e nos deixou ainda mais isolados no último lugar do pelotão europeu. Anos de gastos excessivos pós Revolução do 25 de Abril, conduziram-nos a um descalabro económico e a um estender de mão aos países mais ricos da europa, como única forma possível, para podermos fugir mais uma vez à bancarrota e ao naufrágio total de um país repleto de marinheiros de água doce
Ao longo destes oito séculos de existência passamos por várias situações de crise financeira. Segundo um estudo de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (investigadores da Universidade de Maryland nos Estados Unidos) foram identificados vários episódios de bancarrota na história de Portugal, a maioria no século XIX. Oficialmente, poderemos contabilizar oito: em 1560 (considerada oficialmente a primeira situação de bancarrota em Portugal, durante a regência de Catarina da Áustria, viúva de D. João III), 1605 (no reinado de Filipe III de Castela),  1834 (no reinado de D.Miguel), entre 1837 e 1852 (no reinado de D. Maria II) e em 1892 (no reinado de D.Carlos I). Nesta última bancarrota do século XIX, o Jornal inglês The Economist escrevia no dia 6 de Fevereiro de 1892: Os mercados monetários da Europa estão a ficar cansados, e não sem razão, da constante solicitação por Portugal de novos empréstimos. No próprio interesse de Portugal era preferível que as suas facilidades de endividamento fossem, agora, restringidas.Tem sido evidente de há bastante tempo que o país estava a viver acima dos seus meios. Mais tarde ou mais cedo era inevitável que acabasse em bancarrota – e foi à bancarrota que Portugal agora chegou. Notícia assustadoramente actual apesar de ter sido escrita há mais de 100 anos! Como disse Karl Marx a história repete-se, primeiro como tragédia e depois como farsa. E Portugal está novamente a viver nesta farsa. No século XX a situação repetiu-se e como a tradição ainda é o que era cá estamos nós no século XXI, em plena crise financeira. A palavra crise já é uma tradição portuguesa e o facto de serem quase sempre da responsabilidade de uma pequena franja da sociedade portuguesa, as chamadas elites, também o é. Os anos passaram, as pessoas mudaram, mas os governantes que foram desfilando pelo palco do poder, pautaram-se, com raras excepções, pela falta de competência, cometeram sucessivos erros, tomaram decisões catastróficas, pouco servindo os interesses da nação, e transformaram Portugal num país endividado, empobrecido, desanimado e sem grandes perspectivas de futuro. 
Nunca o bem estar económico de tantos portugueses presentes e futuros foi tão ameaçado pelas decisões de tão poucos, disse Winston Churchill. Não conhecia ele o futuro que nos esperava. Antes usamos o dinheiro que resultou do filão de ouro que provinha das terras do Brasil, para construir catedrais,  palácios e outros monumentos de pedra. Há uns anos atrás utilizamos o dinheiro da Comunidade Europeia para construir estradas, pontes e mais alguns monumentos de pedra. Era lícito construir tudo isto, se as bases essenciais para o alicerçar de uma sociedade já existissem. Os erros mantêm-se, pois não há memória do passado. As tradições devem ser preservadas, mas esta não. O nosso fado é quebrar esta tradição e dar oportunidade à competência, ao saber, ao bom senso e à ética de bem governar.
Apostar no potencial humano em detrimento do poder económico, mudar mentalidades, apostar na educação e na cultura de um povo que tem de começar a acreditar em si próprio. Promover um futuro sem nunca esquecer as lições do passado. Não há nenhum caminho tranquilizador à nossa espera. Se o queremos, teremos de construí-lo com as nossas mãos (José Saramago). Espero que num futuro próximo possamos ser uma  nação projectada para o futuro, mas com memória de um passado de que nos podemos e devemos orgulhar!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O simbolismo da gravata


Quando falamos em gravata, o nosso cérebro leva-nos rapidamente a pensar em etiqueta, formalidade, aperto, nó...De facto a gravata é visto como um acessório de vestuário, que a maioria dos homens e também algumas mulheres, usam diariamente. Uns usam-na por obrigação, por fazer parte do seu traje de trabalho, outros gostam de a usar e outros há que a detestam. Gostando ou não gostando, a gravata assumiu-se e faz parte das peças que estão guardadas no armário da roupa da maioria das pessoas. De tal forma ganhou importância que até foram desenvolvidas cruzetas especiais só para pendurar gravatas! Se é um facto que toda a gente a conhece, poucos são aqueles que sabem a sua história. Como é que um pedaço de tecido, fino, de cores diversas, sem aparente utilidade, se tornou numa peça de uso quase obrigatório? E mais do que isso, como se tornou esta tira de fabrico sintético, a ser símbolo de etiqueta e de formalidade? 

Se pesquisarmos a palavra gravata na enciclopédia ou num dicionário da língua portuguesa, não conseguimos ficar muito mais elucidados. Gravata é uma tira de tecido que se passa à volta do pescoço, geralmente sob o colarinho da camisa, e que se ata em nó ou laço à frente (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). No mínimo é estranho, que uma tira com um nó ou laço na frente tenha tido tanta popularidade, mesmo que muitas vezes obrigatória.

Mais estranho ainda é sabermos que o raio do nó da gravata, é difícil de fazer  e como se um não bastasse, existem vários tipos de nós com nomes pomposos - Windsor, meio-Windsor, Americano, o de Shelby também conhecido por nó de Pratt, que vieram complicar ainda mais a situação. Estranhamente o nó mais fácil de fazer, o chamado nó ordinário, denominado pelos franceses de petit noeud, é o menos conhecido e o menos usado. Com um nome destes é fácil de compreender porquê...ninguém que use uma tira de tecido apertada no colarinho da camisa, gosta de ter um nó com o nome de ordinário junto ao pescoço! 

No antigo Egipto, foram descobertas múmias que possuíam junto ao pescoço objectos feitos de ouro ou de cerâmica, muito semelhantes às actuais gravatas: tinham a forma de cordão que terminava num nó. Eram usados como amuletos e conhecidos pelo nome de Sangue de Ísis que tinha como função proteger os mortos dos perigos da eternidade. Também o exército chinês do Imperador Qin Shihuang, que foi o primeiro Imperador da China Unificada e que iniciou a grandiosa construção da Muralha da China, usava à volta do pescoço um tipo de cachecol com um nó como símbolo de prestígio e de status, por pertencerem à força militar do Imperador. Quando o seu túmulo foi aberto em 1974, as estátuas do famoso exército de terracota que foi construído como réplica exacta do seu exército, apresentavam todas elas panos com um nó à volta do pescoço. Também os romanos utilizavam o chamado focale que mais não era do que uma faixa de pano que os soldados romanos utilizavam para proteger o pescoço da armadura e do frio, que era feito em lã ou linho. O Imperador Trajano  mandou erigir no ano 113 dC, uma fabulosa coluna, a chamada Coluna de Trajano, onde estão representados  milhares de soldados muitos deles com o focale ao pescoço.

No entanto é aos croatas que devemos a introdução da gravata como peça de vestuário. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) em que estiveram envolvidas várias nações europeias por motivos religiosos, dinásticos, territoriais e comerciais, soldados croatas lutaram ao serviço da França. Após uma batalha contra o Império Habsburg, o exército francês foi recebido pelo Rei Luís XIV em Paris, e entre eles encontrava-se um regimento de soldados croatas, que usavam tiras de tecido colorido ao pescoço. Este enfeite de cor era feito de tecido rústico para os soldados e de algodão ou de seda para os oficiais, distinguindo assim as patentes militares. Por volta do ano 1635, cerca de seis mil soldados e cavaleiros vieram a Paris para dar suporte ao rei Luis XIV e ao Cardeal Richelieu. Entre eles, estava um grande número de mercenários croatas. O traje tradicional destes soldados despertou interesse por causa dos cachecóis incomuns e pitorescos enlaçados em seu pescoço. Os cachecóis eram feitos de vários tecidos, variando de material grosseiro para soldados comuns a seda e algodão para oficiais (La Grande Histoire de la Cravate, Flamarion, Paris, 1994). Os franceses encantaram-se com o colorido adereço, que denominaram de cravat que significa croata. O impacto deste pedaço de tecido foi tal que o próprio rei francês ordenou que o seu alfaiate particular produzisse uma peça semelhante à utilizada pelos croatas e a introduzisse no seu trajo real.
Em 1660 Carlos II de Inglaterra, regressou ao seu país para reclamar o trono, e com ele foram vários aristocratas ingleses que já tendo adquirido uso da cravat em França, iniciaram a moda nas ilhas britânicas.
O seu uso popularizou-se rapidamente pelos restantes países europeus e posteriormente pelo continente Americano.
Curiosamente o exército francês manteve até 1789, altura da Revolução Francesa, um regimento de elite a que chamava Cravate Royale. A palavra portuguesa gravata deriva da francesa cravate, que originalmente significa croata (cravat).

Um pedaço de tecido de origem bélica, foi transformado pelos franceses num adereço de vestuário, apenas porque acharam vistosa e apelativa uma tira colorida usada pelos soldados croatas. Bem descrito nas palavras de Nabuco de Araújo, ministro da Justiça e Senador do Império do Brasil de 1858 a 1878, está o simbolismo da gravata e a sua ligação a uma elite da sociedade: a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo. Sem nenhuma utilidade prática chegou até aos nossos dias e ainda hoje é usada por milhões de pessoas em todo o mundo. É sem dúvida uma questão que dá muito que pensar...




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A padeira que se tornou heroína


A história de um país não se faz apenas de factos documentados e históricos. As lendas, os mitos e os actos heróicos de gente até então anónima fazem parte dessa mesma história. Pessoas do povo, gente comum, apenas imbuída de coragem e cheias de personalidade, com a qual todos nos identificamos, ajudaram a erguer este país e a pincelar com magia e feitos heróicos a imensa realidade histórica que por detrás de nós imerge. 
Brites de Almeida foi uma dessas personagens. A famosa Padeira de Aljubarrota, que nasceu Brites, ajudou a enaltecer o espírito guerreiro e independente dos portugueses de então e transformou-se num ícone de coragem e de amor destemido às terras que a viram nascer. De concreto pouco se sabe desta heroína de nome Brites. Terá nascido por volta de 1350  na cidade de Faro, filha de pais humildes e trabalhadores. Desde cedo terá mostrado pouco tendência para os trabalhos femininos, dando mais importância ao confronto físico e às lutas com armas. Segundo uns, era feia, alta e corpulenta, com força varonil, uma verdadeira virago de olhos muito pequenos, donde lhe veio a alcunha de Pisqueira. Acrescentam outros, ter revelado desde criança um génio irascível, temerário e desordeiro (Junta de Freguesia de Aljubarrota). A acrescentar a esta aparência masculina a nossa heroína possuía ainda seis dedos em casa mão! Bem cedo começaram as suas quezílias com o sexo oposto. O filho do alcaide de Faro, (...) requestava a rapariga e não encontrando facilidades no seu desígnio, procurou conquistá-la pela força; vendo-se ofendida e desrespeitada, atirou-lhe à cabeça uma bilha de barro, que bastante o feriu. Brites de Almeida com medo de qualquer perseguição saiu de Faro e fugiu para Lisboa (Junta de Freguesia de Aljubarrota)

Aos 26 anos ficou órfã de pai e mãe, e despendeu parte do que lhe deixaram em pagar a quem lhe ensinassem jogos de armas (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841). A notícia da sua valentia e destemida coragem foi-se espalhando e um soldado natural do Alentejo  pediu-a em casamento. Mas Brites era uma mulher diferente de todas as outras e propôs a condição de brigarem com armas prometendo-lhe a mão se fosse vencida. Aceite o desafio sucumbiu o malfadado namorado e ela teve que fugir (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841) mais uma vez para não ser presa. Embarcou rumo a Faro, mas os fortes ventos levaram o barco para mar alto onde foi capturado por um navio mouro, que a fez cativa. Vendida como escrava no mercado de mulheres em Argel, passou a pertencer a um mouro rico, que segundo alguns rumores da época trabalhava para o sultão. Como todos os heróis do cinema, a nossa heroína que ainda não se tinha tornado padeira, conseguiu fugir do harém do Sultão acompanhada de dois escravos também portugueses, após ter matado os seus senhores numa noite e ter conseguido encontrar uma barca e fazer-se ao mar. Acometidos de uma violenta tempestade e falecendo-lhe água e mantimentos veio ao quarto dia aportar meio morta às praias da Ericeira (Coreografia ou Memória Económica, Estadistica e Topográfica do Reino do Algarve, 1841). Tendo recuperado as suas forças e o seu alento e receando que a reconhecessem e lhe pedissem contas da morte que tinha feito, vestiu-se de homem e começou a fazer serviço de almocreve. A sua vida de condutora de bestas de carga foi também bastante acidentada. Neste seu novo mester envolveu-se (...) em várias desordens e tendo sido acusada de outro morticínio, a Justiça tomou conta dela, encarcerando-a em Lisboa (Junta de Freguesia de Aljubarrota). Mas mais uma vez a divina providência esteve do lado da nossa Brites e por não se ter conseguido provar o crime foi posta em liberdade. Cansada de tantas odisseias, rumou à pacata localidade de Aljubarrota, onde se tornou criada de uma padeira. Segundo nos conta Faustino da Fonseca (jornalista, escritor e politico português), no seu romance intitulado Padeira de Aljubarrota, Brites descobriu que um dos portugueses que fugiu com ela de Argel, era o marido da padeira, de quem nada sabia há longos anos. Grata por tão importante informação a padeira tornou-se grande amiga de Brites, ao ponto de lhe ter deixado a padaria quando morreu. E foi assim que a Brites de Faro se tornou numa padeira da vila de Aljubarrota. 

Tinha Brites de Almeida cerca de 40 anos quando se deu a Batalha de Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, que opôs as tropas portuguesas comandadas por D. João I de Portugal  e pelo Condestável Nuno Álvares Pereira e o exército castelhano, liderados por D. João I de Castela. O resultado foi uma estrondosa derrota dos castelhanos tornando-se o Mestre de Avis, o rei de Portugal. Durante a batalha de Aljubarrota, Brites de Almeida, por entre o povo da vila, assistia ansiosa ao desenrolar da batalha de qualquer ponto elevado das cercanias, e muito folgou ao ver a derrota dos espanhóis (Eduardo Marreca Ferreira in Aljubarrota, 1931). Após a derrota os soldados castelhanos debandaram em todas as direcções e foi nesta fuga desordenada que passaram junto à vila de Aljubarrota, onde a nossa padeira se lançou no encalço dos castelhanos com a sua pá na mão, perseguindo uns e matando outros. Consta que sete castelhanos, vendo tudo perdido, e para escaparem à geral carnificina, achando a casa da Pisqueira abandonada (por a padeira andar entretida a caçar castelhanos) se foram esconder dentro do forno. Foi ela ali dar com eles e agarrando na pá os matou. O seu nome ficou para sempre ligado a este acto heróico de luta contra os opressores castelhanos. 

Mito ou realidade fantasiada a verdade é que a Padeira de Aljubarrota era a imagem viva do sentimento que a população da altura sentia. Como escreveu Alexandre Herculano, este sucesso tradicional, quer real, quer fabuloso, tem em qualquer dos casos, um valor histórico, porque é um símbolo, uma expressão da ideia viva e geral aos portugueses daquele tempo, o ódio ao domínio estranho, o rancor com que todas as classes de indivíduos guerreavam aqueles que pretendiam sujeitá-los a esse domínio. Brites encarnou esse sentimento e tornou-se numa lenda portuguesa. Uma mulher do povo, corajosa, destemida que enfrentava tudo e todos sem receio algum.


O sonho da liberdade tornou-se realidade e foram mulheres e homens como a nossa Padeira, que também ajudaram a que ele se tornasse realidade. Rezam as crónicas que a famosa pá foi escondida dentro de uma parede dos Paços do Concelho, durante o novo domínio castelhano. Embora estes a tenham insistentemente procurado nunca a encontraram. A pá esteve assim oculta durante os sessenta anos do domínio filipino e só tornou a aparecer à luz do dia depois da gloriosa revolução que aclamou D. João IV, Rei de Portugal. Ainda hoje, em Aljubarrota, se mostra essa pá ao turista que a deseje ver. (Junta de Freguesia de Aljubarrota)
Mito ou realidade, quem nos dera agora, mais vinte como ela!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Os alimentos "tradicionais"



A gastronomia portuguesa é fabulosa! Por mais países que visite não encontro nem mais saber nem melhor magia em cozinhar os alimentos, do que em Portugal. Tanto na variedade de pratos, como no sabor com que os alimentos nos presenteiam, não há como a comida portuguesa! Saberes transmitidos de geração em geração mantêm a qualidade da nossa gastronomia. Os alimentos utilizados na confecção dos nossos tradicionais pratos, como a batata, o milho e o tomate, que fazem parte da nossa culinária há várias gerações, além de nos deliciarem com os seus sabores e odores,  têm também uma fantástica história para nos contar.

A Batata - o nome do nosso conhecido tubérculo tem origem no termo taíno batata (língua falada por um povo indígena pré-colombiano que habitava as Bahamas e as Grandes e Pequenas Antilhas do Norte, no Caribe). Alguns historiadores defendem que provém do termo quíchua papa (língua indígena da América do Sul ainda hoje falada por cerca de 10 milhões de pessoas, sendo uma das línguas oficiais da Bolívia, Perú e Equador). Este tubérculo da família das solanáceas tem a sua origem no altiplano dos Andes (planalto na zona central dos Andes, partilhado pelo Perú, Bolívia e Chile) na América do Sul. Cultivada desde tempos imemoriais, foram encontrados recentemente vestígios arqueológicos deste tubérculo dentro de cavernas no Canion Chica, a 2800 metros de altitude, perto do Perú, datados de 8.000 anos aC. Em 1570 foi trazida do Perú para Europa pelos conquistadores espanhóis apenas como mera curiosidade botânica. Só em 1760 é que a batata foi introduzida em Portugal, mas apenas em 1798, no reinado de D.Maria I, surge uma portaria a incentivar o seu cultivo na Arquipélago dos Açores. A primeira grande produtora de batata foi D. Teresa de Sousa Maciel e o seu filho, primeiro Visconde de Vilarinho e São Romão, gastrónomo, foi o grande impulsionador do cultivo e consumo da batata, tendo publicado dois livros intitulados Manual Prático do Cultivo da Batata e a Arte do Cozinheiro e do Copeiro, este em 1841. A batata passou rapidamente a ser a base da alimentação portuguesa.
Com o passar do tempo a batata tornou-se um dos vegetais mais utilizados na alimentação humana a nível mundial, sendo conhecidas actualmente mais de 3000 espécies. Uma recente pesquisa realizada no Perú, baseada no DNA, comprovou que todas as  variedades existentes da batata descendem de uma única variedade da planta originária do sul do Perú. Actualmente são produzidas por ano, a nível mundial, mais de 300 000 000 toneladas de batatas.

O Milho - é um cereal conhecido mundialmente, com excelentes qualidades nutricionais. É um dos alimentos mais nutritivos que existe, contendo na sua composição dezoito dos vinte aminoácidos conhecidos (apenas não contem a lisina e o triptofano). O seu nome provém da palavra latina miliu e é a variante domesticada do teosinto (gramínea silvestre semelhante ao milho mas de menor tamanho, considerada a sua ancestral). A domesticação do milho há 7500 a 12 000 anos atrás na área central da Mesoamérica (região que engloba o sul do México, a Guatemala, El Salvador, Belize e as regiões ocidentais da Nicarágua, Honduras e Costa Rica)Todas as evidências cientificas apontam para que seja de origem mexicana.
Os primeiros registos de cultivo de milho datam de 7 300 anos atrás. O seu nome indígena significava sustento da vida tal era a sua importância na alimentação. O milho foi a base da alimentação de várias civilizações ao longo dos tempos: da civilização Olmeca (civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas, que se desenvolveu de 1500 a 400 aC), Maia, Asteca e Inca, que reverenciavam este cereal na arte e na religião. Cerca de 2 500 aC o cultivo do milho começou-se a espalhar para as regiões circundantes à Mesoamérica e no século XVI com as grandes navegações e a colonização americana a cultura do milho expandiu-se para outras as partes do mundo. Em Portugal foi introduzido em meados do século XVI, entre os anos 1515 e 1525, inicialmente no baixo Mondego, propaga-se rapidamente para as zonas interiores e para o Sul do país. Para o distinguir dos cereais do tipo do milho já existentes em Portugal - o painço e o milho miúdo de menor dimensão - os portugueses designaram o novo cereal como milho graúdo ou milho de maçaroca. Esta nova aquisição torna-se muito mais rentável do que o painço, pois a maturação do grão bastante maior, faz-se em apenas quatro ou cinco meses. Rapidamente o milho graúdo tornou-se líder e senhor dos cereais em Portugal, e a sua introdução foi uma das maiores contribuições dos Descobrimentos para a arte da panificação portuguesa. A introdução do seu cultivo veio alterar gradualmente a paisagem do Norte do país, onde actualmente são cultivados mais de 18.000 hectares de milho, e até a arquitectura foi influenciada por este cereal, com a construção dos tão conhecidos espigueiros de pedra.

O Tomate - este conhecido fruto vermelho do tomateiro, é muitas vezes denominado erradamente como legume. Deve o seu nome à palavra tomatl da língua nauatle também denominado de asteca, falada por cerca de um milhão e meio de náuatles, povo indígena que habita a alta planície mexicana. A sua origem não é consensual. Enquanto a maioria dos botânicos afirma que a origem do cultivo e do consumo do tomate se deve à civilização Inca, outros afirmam que é proveniente do México, por o nome do tomate ter origem na língua local. Existe no entanto consenso quanto ao facto de este fruto ser cultivado e consumido pelas civilizações Inca, Maia e Asteca antes de ser levado para a Europa. Inicialmente considerado venenoso pelos europeus, pela sua associação às mandrágoras, planta da mesma família do tomate (Família das Solanaceae) usada em feitiçaria, era apenas utilizado como planta ornamental de jardim. A sua entrada na Europa, segundo os registos documentais existentes, fez-se através da cidade espanhola de Sevilha no século XVI. Consumido e cultivado em pequena quantidade no continente europeu, foi apenas no século XIX que o tomate começou a ser cultivado e consumido em grande escala pelos europeus. Inicialmente em Itália, onde os italianos lhe chamaram o pomo de ouro - il pomodoro, depois em França, Espanha e Portugal, quando finalmente os povos do sul da Europa afastaram a dúvida sobre a associação do tomate à feitiçaria. O fruto vermelho passou a ser um dos principais ingredientes da cozinha mediterrânica. 
Em 2012 Portugal produziu 1,2 milhões de toneladas de tomate, sendo o segundo maior produtor mundial deste saboroso fruto, só atrás do estado americano da Califórnia.

Em pouco mais de um século estes três exemplares tornaram-se parte da nossa história. Enraizados na cultura e tradições portuguesas ninguém diria que não existiram no nosso país desde sempre. Em tão pouco tempo os nossos ancestrais foram capazes de fazer nascer tradições e saberes à volta destes alimentos que ficarão para sempre ligados ao que é ser Português!


Nota: Imagem principal obtida em saborehistorias.blogspot.com

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Escova de Dentes

A escova de dentes faz parte do nosso dia-a-dia. Encontramos-nos com ela pelo menos uma três vezes por dia e nem nos passa pela cabeça deixar de a usar. Desde a infância somos ensinados a usar a nossa amiga escova, de forma a podermos manter uma adequada higiene oral. De diferentes tamanhos, de diferentes marcas, "vestidas" das mais diversas formas e de variadíssimas cores, a escova que nos esfrega os dentes anda na boca de toda a gente. Mas nem sempre foi assim...
A necessidade de limpar os dentes é tão antiga como o próprio homem. Escavações arqueológicos  encontraram num túmulo egípcio, com cerca de cinco mil anos, aquela que pode ser considerada a mais antiga escova de dentes. O artefacto descoberto  consistia num ramo de uma planta que apresentava a sua extremidade toda desfiada, de forma a que as fibras da madeira funcionavam como cerdas. 
Na região da antiga Babilónia foi descoberto um tipo de vara de mascar datada de 3500 aC, que fazia o papel de escova de dentes. Na literatura grega, romana e egipcía foram encontradas referências a um tipo de palitos de madeira usados para a limpeza dos dentes. Esses palitos eram mastigados até que as fibras da madeira se tornassem moles, de forma a poderem ser usadas para retirar os restos de alimentos dos dentes sem magoarem as gengivas. No século IV aC um médico grego de nome Diocles de Caristo, receitava aos seus pacientes folhas de hortelã para esfregar nos dentes e nas gengivas, de forma a poder combater o mau hálito e as infecções da boca, tão comuns na época. Na China, por volta de 1600 aC eram usados pequenos galhos de plantas aromáticas não só para a limpeza dos dentes mas também para refrescar a boca.
A importância que a saúde dos dentes assumiu na Roma antiga foi tal, que os nobres romanos possuíam escravos apenas com a tarefa de executar diariamente a sua higiene oral, através de uma mistura de areia, ervas e cinzas de ossos. Até o profeta Maomé recomendava aos seus seguidores a utilização de uma haste de madeira aromática que se fosse esfregada várias vezes produziria uma pasta que servia para limpar e clarear os dentes.
Por volta do ano 1490 os chineses inventaram o primeiro prototipo da escova de dentes actual: uma haste de bambú ou de um fino osso onde eram colocados vários pelos de porco na extremidade. Na Europa esta invenção foi também adoptada, mas os pelos de porco por serem muito duros e causarem lesões nas gengivas foram substituídos por pelos de crina de cavalo, bastante mais suaves.
No entanto, a invenção da escova de dentes é atribuída a um comerciante britânico de nome William Addis. Em 1770 foi preso por ter participado num motim e durante a sua permanência na prisão inventou a base daquilo a que nós hoje apelidamos de escova de dentes inspirando-se numa vassoura comum. Utilizando um fino osso de animal de uma das suas refeições, fez doze pequenos furos numa das extremidades, onde colou pequenos tufos de cerdas de javali. Quando saiu da prisão substituiu os pelos de javali, como antes os europeus já tinham feito, por pelos da crina de cavalo e iniciou a comercialização da primeira escova de dentes. A empresa Wisdom, criada por William Addis em 1780 para a produção de escovas de dentes, ainda existe hoje, sendo actualmente uma das maiores empresas de higiene oral do mundo. Como todas as invenções, a escova de dentes era de elevado preço sendo apenas acessível às camadas da população mais abastadas. 
Em 1935, Wallace Hume Carothers, químico e investigador dos Estados Unidos, criou um polímero a que deu o nome de nylon e foi esta descoberta que permitiu a expansão do uso da escova de dentes a outros segmentos da sociedade. A empresa Wisdom passou a produzir em 1939 escovas de dentes com cerdas de nylon, tornando o valor de cada uma bastante mais acessível. Mesmo assim o preço de cada escova era ainda bastante elevado. Em 1940 uma companhia americana lançou a escova de dentes Doctor West Miracle – Tuft, que era vendida a 50 centavos de dólar, o que hoje corresponderia a 8 dólares! Com o aumento da produção as escovas de dentes tornaram-se mais baratas e actualmente são acessíveis a todas as camadas da população. 
De simples varas de madeira transformaram-se em escovas de dentes ergonómicas, eléctricas e com uma panóplia de novas tecnologias, de tal forma que actualmente se torna difícil escolher uma! As escovas de dentes são essenciais à nossa higiene oral, mas não era necessário tornar-nos a vida tão difícil de cada vez que temos que tomar a decisão de comprar uma...
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A República


Amanhã comemora-se o dia 5 de Outubro, o dia da implantação da República. Há 102 anos deixamos de ser um país monárquico e passamos a ser regidos por republicanos. O Partido Republicano Português, criado em 1876, após um golpe de estado, destituiu a monarquia e implementou o regime republicano em Portugal. O seu objectivo era  devolver ao país o prestígio perdido e colocar Portugal na senda do progresso...102 anos depois ainda temos esse  mesmo objectivo!

Foi formado um Governo Provisório Português : Hoje, 5 de Outubro de 1910, às onze horas da manhã, foi proclamada a República de Portugal na sala nobre dos Paços do Município de Lisboa, depois de terminado o movimento da Revolução Nacional. Constituiu-se, imediatamente o Governo Provisório: Presidência, Dr. Joaquim Teófilo Braga. Interior, Dr. António José de Almeida. Justiça, Dr. Afonso Costa. Fazenda, Basílio Teles. Guerra, António Xavier Correia Barreto. Marinha, Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Estrangeiros, Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães. Obras Públicas, Dr. António Luís Gomes (Diário do Governo, 6 de Outubro de 1910). Com o novo regime politico, os símbolos nacionais também foram alterados. Na monarquia o rei tem um corpo físico e portanto é uma pessoa reconhecível e reconhecida pelos cidadãos. Mas a república é uma ideia abstracta (Nuno Severiano Teixeira)Foi criada uma Comissão a 15 de Outubro para desenvolver os novos símbolos que passariam a representar a nação: a bandeira, o hino e o busto da República.

Ao longo dos anos a história foi-se escrevendo e reescrevendo. Pedaços dessa história chegaram até nós graças ao empenho dos Arquivos e de muita gente anónima, que preservaram documentos e imagens que são de todos nós. Concordando ou discordando a história fez-se e hoje somos resultado dessas acções que a história nos conta. Aqui ficam alguns exemplos de documentos alusivos à Implantação da República no nosso país, que o Arquivo Distrital do Porto, digitalizou e disponibilizou para consulta. 


Telegramas enviados pelo Sr. Ministro do Interior – António José de Almeida,  respeitantes à proclamação da República. Indicação para nomeação de cargo (Governador Civil do Porto). Mensagem hostil referente a Pimentel Pinto, e à sua aceitação da implantação da República (Arquivo Distrital do Porto).



Pedido para que o Dr. Paulo Falcão assuma responsabilidades de Governador Civil do Porto (Arquivo Distrital do Porto).


Comunicação emitida pelo Sr. Ministro do Interior – António José de Almeida,  respeitante às alterações que as Câmaras Municipais deverão sofrer, especialmente, a sua substituição por Comissões Municipais (Arquivo Distrital do Porto).

Comunicação emitida pelo Sr. Ministro das Finanças - José Relvas, solicitando que os Governadores Civis reunissem o maior número de cidadãos com elevada influência na comunidade, com o intuito de lhes transmitir o estável estado em que as finanças públicas se encontravam. Solicita ainda que transmita às delegações da Caixa Geral de Depósitos orientações para tranquilizar os seus depositantes (Arquivo Distrital do Porto).

Não deixa de ser curioso  que o nome do Ministro das Finanças da altura, fosse José Relvas! A história às vezes prega-nos partidas...


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Vira do Minho


O Vira é a dança rainha do Minho, e faz parte do folclore português. Dispostos em roda os pares de braços erguidos, vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando fora ou virou. Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia.Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido. Mas este é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares,  ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros. Viana é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única. Chegamos à região de Braga e logo nos surge o  vira galego, despido da opulência primitiva, como o caracterizou, Pedro Homem de Mello (Semibreves, Música Tradicional Portuguesa). Neste pequeno filme da autoria de Michel Giacommeti, datado de 1970, podemos ver o famoso Vira do Minho dançado na sua forma mais rústica, onde as personagens principais são populares que se juntaram para o dançar. Sem vistosos trajes característicos, mas com a roupa de trabalho, sem grande organização mas com a beleza da simplicidade, este filme transmite-nos como teria sido dançado no passado o Vira do Minho. Tomaz Ribas, escritor, etnólogo e crítico de teatro português, considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau de Amores, em 1527, onde o dava como uma dança do Minho.


Nota: Imagem de Dom Paio Global

domingo, 23 de setembro de 2012

Viriato:O Herói Lusitano


Se a alma que sente e faz conhece,
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu. 
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste,
Assim se Portugal formou.

Assim era Viriato nas palavras do grande poeta português Fernando Pessoa, no seu livro a Mensagem. Herói lusitano do imaginário português, Viriato tornou-se uma personagem épica pela sua heróica resistência ao domínio e ao Império Romano. Muito se tem escrito sobre este homem que viveu na Lusitânia, mas muito pouco se sabe ao certo. O seu nome, Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura da palavra celta viriola (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade)Viriato é originário da Lusitânia Ocidental, que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela (Mons Herminius), que domina a região situada entre o Tejo e o Douro (Adolf Schulten, arqueólogo, historiador e filólogo alemão do século XIX)

Pouco se sabe da vida de Viriato: não se conhece o nome dos pais, nem tão pouco o seu ano de nascimento. Estima-se que tenha nascido por volta do ano 170 a 190 aC. Apesar de imortalizado por Brás Garcia Mascarenhas, (militar e poeta português do século XVI) na sua ode Viriato Trágico como um simples pastor, Viriato pertencia a um dos clãs aristocráticos dos Lusitanos, e não era um simples guardador de rebanhos, antes proprietário de cabeças de gado (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade). Fez-se bandoleiro, pertencente a Confrarias de Guerreiros, que saqueavam as regiões mais ricas das planícies do Sul. Nesta vida andava Viriato, quando o pretor romano Galba, furioso pelas derrotas que os lusitanos haviam imposto às legiões romanas (...) fingiu (...) sinceros desejos de paz, oferecendo-lhes férteis campos da Betica (actual Andaluzia) (...) muito superiores aos ásperos montes em que viviam. (...) Eles o julgaram sincero e em grande número se apresentaram desarmados nos lugares que haviam sido designados para concluir a proposta da convenção. Porém o traidor Galba, cercando-os com as legiões que tinha ocultas, os fez barbaramente acometer a assassinar (Archivo Popular, nº 20 de 12 de Agosto de 1836). Mais de 9.000 lusitanos foram mortos,  20.000 escravizados e enviados para a Gália e apenas cerca de 1.000 lusitanos sobreviveram. Entre eles encontrava-se Viriato. Conhecedor das técnicas de batalha dos romanos, dos anos de guerrilhas que com eles tinha travado, reuniu os sobreviventes do massacre, e começou por introduzir nos lusitanos a ordem e a disciplina, formando um exército. 
Conquistando progressivamente zonas como Segóbriga, Mancha e a Bética, tornou-se uma preocupação para os Romanos a partir de 143 a.C. Um dos combates mais importantes que travou contra as forças romanas foi o de Erisane (situada no sul da Andaluzia) onde em 141 aC. conseguiu fazer um cerco ao exército romano liderado por Fábio Máximo Serviliano. Este confronto foi decisivo por marcar o fim da resistência armada oposta a Roma, tendo Viriato obrigado Roma a um acordo com o Senado romano, onde os Lusitanos viam a sua independência reconhecida, passando Viriato a possuir o estatuto de amigo do povo romanoO seu casamento com a única filha de Astolpas, um grande proprietário da Bética, por quem se apaixonou, demonstra bem o carácter simples e despojado de Viriato. Apareceu vestido de guerreiro com a sua lança na mão, e durante o banquete recusou os manjares que lhe ofereceram. Não se banhou e não ocupou o seu lugar à mesa, criticando a ostentação do sogro. Embora a mesa estivesse repleta de manjares requintados e de todo o tipo de comidas, apenas tirou pão e carne e repartiu-os entre aqueles que tinham viajado com ele. Depois tirou alguma comida para si e ordenou-lhes que fossem buscar a noiva (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade).

Estrabão definiu a Lusitânia de Viriato como a mais poderosa das nações da Península Ibérica, a que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas. Viriato conseguiu não apenas a unificação  dos diferentes clãs lusitanos mas também comandar tranquilamente, sem cisões internas, durante oito a dez anos. Diodoro da Sicília, historiador e filósofo grego do século I a.C, afirmou que enquanto ele comandava, ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele. 
No entanto Roma não esqueceu o vexame que tinha sofrido às mãos de uns quantos bárbaros lusitanos, pelo que anula o tratado firmado e declara novamente guerra à Lusitânia. Roma envia novo general, de nome Servílio Cipião, para reiniciar os combates. Viriato, com a maior parte do seu exército já desmobilizado e com poucos meios de defesa, vê-se obrigado a recorrer a um novo tratado de paz. Envia três guerreiros de sua confiança, de nomes Audas, Ditalco e Minuros, para negociarem o acordo. Cipião recorre ao suborno dos companheiros de Viriato, que em troca de dinheiro e terras, assassinaram o seu chefe enquanto dormia.  Viriato perdeu a vida e os lusitanos perderam o seu grande líder e o seu sonho de liberdade. Roma, a super potência da época, que se intitulava arauto da civilização, venceu de forma inglória e apenas recorrendo à traição. Depois da morte de Viriato,  Roma rapidamente os subjugou ao seu poder e a Lusitânia de Viriato curvou-se ao domínio do império Romano. Viriato tornou-se um herói, imagem de liberdade e de respeito pela diferença. Líder justo, de simples costumes, de personalidade forte e carismática, corajoso e defensor da liberdade foi cantado e homenageado durante séculos. Chegaram até nós vários poemas que a ele se referem, como este de Brás Garcia de Mascarenhas:

Canto um Pastor, amores, e armas canto,
Canto o raio do monte, e da campanha,
Terror da Itália, e do mundo espanto,
Glória de Portugal, honra de Espanha:
Triunfante da Águia, que triunfando tanto,
Tanto a seus raios tímida se acanha,
Que à traição, só dormindo, o viu rendido,
Porque desperto nunca foi vencido.

Também Luís de Camõeso homenageou nos Lusíadas:

Este que vês, pastor já foi de gado
Viriato sabemos que se chama
Destro na lança mais que no cajado
Injuriada tem de Roma a fama.

Numa época que perdeu o valor da tradição épica como estruturante da identidade dos seus povos, importa relembrar a memória e o exemplo dos principais autores da sua História. (...) Se perdemos a consciência da nossa identidade colectiva, como podemos reivindicar o que quer que seja, como podemos reescrever a nossa História, como podemos edificar o futuro? (António Manuel de Andrade Moniz  in Viriato, herói lusitano: o épico e o trágico).
Pena é que tão poucos Viriatos existam...