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domingo, 4 de maio de 2014

Um dia não chega!

A Mãe podia ser só minha. Mas tenho de a emprestar a tanta gente…(Luísa Ducla Soares, Poemas da Mentira e da Verdade). Esta frase tem tanto de deliciosa como de verdadeira.Hoje festeja-se o dia da mãe. Nunca dei muita importância a estes dias de festejo programado, em que parece que temos todos obrigação de homenagear alguém ou alguma coisa. Um dia não chega para homenagear, lembrar ou acarinhar alguém e muito menos uma mãe. Mas é interessante descobrir o que está pode detrás destes dias festivos, que são mundialmente lembrados. 
Desde sempre o homem homenageou a divindade feminina e o seu culto remonta ao inicio da nossa história. O culto à Deusa Mãe que já era feito na Pré-história, através da adoração de pequenas estatuetas que representavam a mulher, prolonga-se no Reino da Frígia (era o nome da região centro-oeste na antiga Àsia Menor -Anatólia, na actual Turquia, famoso pelos seus Reis lendários que povoaram a mitologia grega) e alicerça-se posteriormente nas civilizações romanas, egípcias e da Babilónia.

O mais antigo registo de comemoração do dia da mãe, chega-nos da antiga Grécia. As comemorações da chegada da Primavera eram feitas em honra da Deusa Rhea, designada como a Mãe de todos os Deuses do Olimpo. Na mitologia romana, é designada como Cibele, uma das manifestações da Deusa Mãe - Magna Mater, e as cerimónias em sua homenagem começaram cerca de 250 anos antes de Cristo, e duravam 3 dias, de 15 a 18 de Março. Estas celebrações foram posteriormente adoptadas pela Igreja Católica, passando a ser venerada Maria, a mãe de Jesus.
No século XVII, em Inglaterra, no quarto domingo da Quaresma (40 dias antes da Páscoa) era costume os ingleses visitarem a sua Igreja local a chamada Igreja Mãe, ou a Catedral mais próxima, para iniciarem as festividades da Quaresma. Este dia foi também posteriormente dedicado às Mães, sendo denominado Mothering Day, e todos aqueles que podiam visitavam as suas mães, oferecendo o tradicional Mothering cake. É curiosa a mistura que ao longo dos tempos se foi fazendo entre a mãe da Igreja e as próprias mães.

Mais recentemente em 1872, uma norte-americana de nome Julia Ward Howe, famosa abolicionista, activista social e poetisa, autora do Hino da Batalha da República da Guerra da Secessão Americana(cantado posteriormente por diferentes cantores e bandas, incluindo Judie Garland, os Stryper,  e os Smiths), sugeriu a criação de um dia das Mães, dedicado à Paz. Em Boston, durante vários anos celebrou o dia da Mãe, no segundo domingo de Junho. 



Mas foi outra norte americana, de nome Ana Jarvis, natural da Virgínia Ocidental, que instituiu o Dia da Mãe. Em 1905, ano em que morre a sua mãe, decide organizar uma festa, cujo simbolo era um cravo branco, para perpetuar a sua memória. Posteriormente quis que a festa fosse estendida a todas as mães, vivas ou mortas, com um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem as suas mães. A primeira celebração oficial ocorreu no dia 26 de Abril de 1910, quando o governador de Virgínia, William E. Glasscock, incorporou o Dia da Mãe no calendário de datas comemorativas do Estado. Outros estados norte-americanos rapidamente aderiram à comemoração, e em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, unificou a celebração em todos os Estados, decretando, por sugestão de Anna Jarvis, que o Dia da Mãe deveria ser comemorado no segundo domingo de Maio.  Actualmente mais de 40 países festejam o dia da Mãe nesta data. Portugal recentemente adoptou este dia, deixando cair o 8 de Dezembro, tradicionalmente considerado entre nós como o dia da Mãe. 

Mas um dia é curto...demasiado curto para permanecer na nossa memória. Nada melhor do que palavras para serem eternas:

Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
(...)
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
(...)
Fosse eu Rei do Mundo,
criava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade)



sexta-feira, 25 de abril de 2014

Revolução: repetição ou mudança?


A palavra revolução, anda actualmente na boca de toda a gente. E quando pensamos em revolução, associamos logo a movimentos políticos, a lutas sociais, a confrontos nas ruas e a momentos de grande tensão.

No entanto a palavra revolução é uma palavra antiga para uma ideia moderna (Dicionário da Filosofia Moral e Politica). Originalmente o termo revolução era usado na astronomia, para designar o movimento cíclico das estrelas, cujos trajectos se repetiam, impelidos pelas irresistíveis e potentes forças gravitacionais. Foi este o termo usado por Copérnico, para designar o movimento cíclico dos planetas em volta do Sol, como se pode confirmar pelo titulo da sua maior obra escrita: "Da Revolução das Orbes Celestes" que foi editado em 1543, em 6 volumes. 
Como metáfora politica era utilizada desde a Antiguidade Clássica, para definir a recorrência dos regimes, forçados a regressar sempre às mesmas formas de governar (Dicionário da Filosofia Moral e Politica).  

Esta definição etimológica da palavra revolução, mantém-se até ao século XVII, quando se dá a primeira revolução constitucional em Inglaterra, a chamada Gloriosa Revolução (1688-1689), a partir da qual a Coroa Britânica ficou dependente do Parlamento, evitando deste modo o absolutismo monárquico. 

Com as revoluções americana (1776) e francesa (1789-1799), no século XVIII, o significado da palavra revolução altera-se definitivamente, passando a ter o significado oposto do inicial. Revolução passa então a representar a ruptura com o modelo anterior, a mudança profunda, a alteração. A ideia da revolução como ruptura libertadora é reiterada no século XIX, que recupera da antiga definição o sentido de irresistibilidade e movimento (Dicionário da Filosofia Moral e Politica). Segundo Karl Marx as revoluções são as locomotivas da história, dando assim ênfase ao sentido de mudança da palavra.


Por isso é preciso ter cuidado quando utilizamos a palavra revolução, pois em diferentes contextos podemos estar a dizer que andamos às voltas e acabamos sempre no mesmo sítio, ou que mesmo a andar às voltas vamos acabar num sitio completamente diferente. Eu por mim sou sempre defensora da mudança, logo da revolução associada ao mês de Abril!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O simbolismo da gravata


Quando falamos em gravata, o nosso cérebro leva-nos rapidamente a pensar em etiqueta, formalidade, aperto, nó...De facto a gravata é visto como um acessório de vestuário, que a maioria dos homens e também algumas mulheres, usam diariamente. Uns usam-na por obrigação, por fazer parte do seu traje de trabalho, outros gostam de a usar e outros há que a detestam. Gostando ou não gostando, a gravata assumiu-se e faz parte das peças que estão guardadas no armário da roupa da maioria das pessoas. De tal forma ganhou importância que até foram desenvolvidas cruzetas especiais só para pendurar gravatas! Se é um facto que toda a gente a conhece, poucos são aqueles que sabem a sua história. Como é que um pedaço de tecido, fino, de cores diversas, sem aparente utilidade, se tornou numa peça de uso quase obrigatório? E mais do que isso, como se tornou esta tira de fabrico sintético, a ser símbolo de etiqueta e de formalidade? 

Se pesquisarmos a palavra gravata na enciclopédia ou num dicionário da língua portuguesa, não conseguimos ficar muito mais elucidados. Gravata é uma tira de tecido que se passa à volta do pescoço, geralmente sob o colarinho da camisa, e que se ata em nó ou laço à frente (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). No mínimo é estranho, que uma tira com um nó ou laço na frente tenha tido tanta popularidade, mesmo que muitas vezes obrigatória.

Mais estranho ainda é sabermos que o raio do nó da gravata, é difícil de fazer  e como se um não bastasse, existem vários tipos de nós com nomes pomposos - Windsor, meio-Windsor, Americano, o de Shelby também conhecido por nó de Pratt, que vieram complicar ainda mais a situação. Estranhamente o nó mais fácil de fazer, o chamado nó ordinário, denominado pelos franceses de petit noeud, é o menos conhecido e o menos usado. Com um nome destes é fácil de compreender porquê...ninguém que use uma tira de tecido apertada no colarinho da camisa, gosta de ter um nó com o nome de ordinário junto ao pescoço! 

No antigo Egipto, foram descobertas múmias que possuíam junto ao pescoço objectos feitos de ouro ou de cerâmica, muito semelhantes às actuais gravatas: tinham a forma de cordão que terminava num nó. Eram usados como amuletos e conhecidos pelo nome de Sangue de Ísis que tinha como função proteger os mortos dos perigos da eternidade. Também o exército chinês do Imperador Qin Shihuang, que foi o primeiro Imperador da China Unificada e que iniciou a grandiosa construção da Muralha da China, usava à volta do pescoço um tipo de cachecol com um nó como símbolo de prestígio e de status, por pertencerem à força militar do Imperador. Quando o seu túmulo foi aberto em 1974, as estátuas do famoso exército de terracota que foi construído como réplica exacta do seu exército, apresentavam todas elas panos com um nó à volta do pescoço. Também os romanos utilizavam o chamado focale que mais não era do que uma faixa de pano que os soldados romanos utilizavam para proteger o pescoço da armadura e do frio, que era feito em lã ou linho. O Imperador Trajano  mandou erigir no ano 113 dC, uma fabulosa coluna, a chamada Coluna de Trajano, onde estão representados  milhares de soldados muitos deles com o focale ao pescoço.

No entanto é aos croatas que devemos a introdução da gravata como peça de vestuário. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) em que estiveram envolvidas várias nações europeias por motivos religiosos, dinásticos, territoriais e comerciais, soldados croatas lutaram ao serviço da França. Após uma batalha contra o Império Habsburg, o exército francês foi recebido pelo Rei Luís XIV em Paris, e entre eles encontrava-se um regimento de soldados croatas, que usavam tiras de tecido colorido ao pescoço. Este enfeite de cor era feito de tecido rústico para os soldados e de algodão ou de seda para os oficiais, distinguindo assim as patentes militares. Por volta do ano 1635, cerca de seis mil soldados e cavaleiros vieram a Paris para dar suporte ao rei Luis XIV e ao Cardeal Richelieu. Entre eles, estava um grande número de mercenários croatas. O traje tradicional destes soldados despertou interesse por causa dos cachecóis incomuns e pitorescos enlaçados em seu pescoço. Os cachecóis eram feitos de vários tecidos, variando de material grosseiro para soldados comuns a seda e algodão para oficiais (La Grande Histoire de la Cravate, Flamarion, Paris, 1994). Os franceses encantaram-se com o colorido adereço, que denominaram de cravat que significa croata. O impacto deste pedaço de tecido foi tal que o próprio rei francês ordenou que o seu alfaiate particular produzisse uma peça semelhante à utilizada pelos croatas e a introduzisse no seu trajo real.
Em 1660 Carlos II de Inglaterra, regressou ao seu país para reclamar o trono, e com ele foram vários aristocratas ingleses que já tendo adquirido uso da cravat em França, iniciaram a moda nas ilhas britânicas.
O seu uso popularizou-se rapidamente pelos restantes países europeus e posteriormente pelo continente Americano.
Curiosamente o exército francês manteve até 1789, altura da Revolução Francesa, um regimento de elite a que chamava Cravate Royale. A palavra portuguesa gravata deriva da francesa cravate, que originalmente significa croata (cravat).

Um pedaço de tecido de origem bélica, foi transformado pelos franceses num adereço de vestuário, apenas porque acharam vistosa e apelativa uma tira colorida usada pelos soldados croatas. Bem descrito nas palavras de Nabuco de Araújo, ministro da Justiça e Senador do Império do Brasil de 1858 a 1878, está o simbolismo da gravata e a sua ligação a uma elite da sociedade: a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo. Sem nenhuma utilidade prática chegou até aos nossos dias e ainda hoje é usada por milhões de pessoas em todo o mundo. É sem dúvida uma questão que dá muito que pensar...




sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Os alimentos "tradicionais"



A gastronomia portuguesa é fabulosa! Por mais países que visite não encontro nem mais saber nem melhor magia em cozinhar os alimentos, do que em Portugal. Tanto na variedade de pratos, como no sabor com que os alimentos nos presenteiam, não há como a comida portuguesa! Saberes transmitidos de geração em geração mantêm a qualidade da nossa gastronomia. Os alimentos utilizados na confecção dos nossos tradicionais pratos, como a batata, o milho e o tomate, que fazem parte da nossa culinária há várias gerações, além de nos deliciarem com os seus sabores e odores,  têm também uma fantástica história para nos contar.

A Batata - o nome do nosso conhecido tubérculo tem origem no termo taíno batata (língua falada por um povo indígena pré-colombiano que habitava as Bahamas e as Grandes e Pequenas Antilhas do Norte, no Caribe). Alguns historiadores defendem que provém do termo quíchua papa (língua indígena da América do Sul ainda hoje falada por cerca de 10 milhões de pessoas, sendo uma das línguas oficiais da Bolívia, Perú e Equador). Este tubérculo da família das solanáceas tem a sua origem no altiplano dos Andes (planalto na zona central dos Andes, partilhado pelo Perú, Bolívia e Chile) na América do Sul. Cultivada desde tempos imemoriais, foram encontrados recentemente vestígios arqueológicos deste tubérculo dentro de cavernas no Canion Chica, a 2800 metros de altitude, perto do Perú, datados de 8.000 anos aC. Em 1570 foi trazida do Perú para Europa pelos conquistadores espanhóis apenas como mera curiosidade botânica. Só em 1760 é que a batata foi introduzida em Portugal, mas apenas em 1798, no reinado de D.Maria I, surge uma portaria a incentivar o seu cultivo na Arquipélago dos Açores. A primeira grande produtora de batata foi D. Teresa de Sousa Maciel e o seu filho, primeiro Visconde de Vilarinho e São Romão, gastrónomo, foi o grande impulsionador do cultivo e consumo da batata, tendo publicado dois livros intitulados Manual Prático do Cultivo da Batata e a Arte do Cozinheiro e do Copeiro, este em 1841. A batata passou rapidamente a ser a base da alimentação portuguesa.
Com o passar do tempo a batata tornou-se um dos vegetais mais utilizados na alimentação humana a nível mundial, sendo conhecidas actualmente mais de 3000 espécies. Uma recente pesquisa realizada no Perú, baseada no DNA, comprovou que todas as  variedades existentes da batata descendem de uma única variedade da planta originária do sul do Perú. Actualmente são produzidas por ano, a nível mundial, mais de 300 000 000 toneladas de batatas.

O Milho - é um cereal conhecido mundialmente, com excelentes qualidades nutricionais. É um dos alimentos mais nutritivos que existe, contendo na sua composição dezoito dos vinte aminoácidos conhecidos (apenas não contem a lisina e o triptofano). O seu nome provém da palavra latina miliu e é a variante domesticada do teosinto (gramínea silvestre semelhante ao milho mas de menor tamanho, considerada a sua ancestral). A domesticação do milho há 7500 a 12 000 anos atrás na área central da Mesoamérica (região que engloba o sul do México, a Guatemala, El Salvador, Belize e as regiões ocidentais da Nicarágua, Honduras e Costa Rica)Todas as evidências cientificas apontam para que seja de origem mexicana.
Os primeiros registos de cultivo de milho datam de 7 300 anos atrás. O seu nome indígena significava sustento da vida tal era a sua importância na alimentação. O milho foi a base da alimentação de várias civilizações ao longo dos tempos: da civilização Olmeca (civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas, que se desenvolveu de 1500 a 400 aC), Maia, Asteca e Inca, que reverenciavam este cereal na arte e na religião. Cerca de 2 500 aC o cultivo do milho começou-se a espalhar para as regiões circundantes à Mesoamérica e no século XVI com as grandes navegações e a colonização americana a cultura do milho expandiu-se para outras as partes do mundo. Em Portugal foi introduzido em meados do século XVI, entre os anos 1515 e 1525, inicialmente no baixo Mondego, propaga-se rapidamente para as zonas interiores e para o Sul do país. Para o distinguir dos cereais do tipo do milho já existentes em Portugal - o painço e o milho miúdo de menor dimensão - os portugueses designaram o novo cereal como milho graúdo ou milho de maçaroca. Esta nova aquisição torna-se muito mais rentável do que o painço, pois a maturação do grão bastante maior, faz-se em apenas quatro ou cinco meses. Rapidamente o milho graúdo tornou-se líder e senhor dos cereais em Portugal, e a sua introdução foi uma das maiores contribuições dos Descobrimentos para a arte da panificação portuguesa. A introdução do seu cultivo veio alterar gradualmente a paisagem do Norte do país, onde actualmente são cultivados mais de 18.000 hectares de milho, e até a arquitectura foi influenciada por este cereal, com a construção dos tão conhecidos espigueiros de pedra.

O Tomate - este conhecido fruto vermelho do tomateiro, é muitas vezes denominado erradamente como legume. Deve o seu nome à palavra tomatl da língua nauatle também denominado de asteca, falada por cerca de um milhão e meio de náuatles, povo indígena que habita a alta planície mexicana. A sua origem não é consensual. Enquanto a maioria dos botânicos afirma que a origem do cultivo e do consumo do tomate se deve à civilização Inca, outros afirmam que é proveniente do México, por o nome do tomate ter origem na língua local. Existe no entanto consenso quanto ao facto de este fruto ser cultivado e consumido pelas civilizações Inca, Maia e Asteca antes de ser levado para a Europa. Inicialmente considerado venenoso pelos europeus, pela sua associação às mandrágoras, planta da mesma família do tomate (Família das Solanaceae) usada em feitiçaria, era apenas utilizado como planta ornamental de jardim. A sua entrada na Europa, segundo os registos documentais existentes, fez-se através da cidade espanhola de Sevilha no século XVI. Consumido e cultivado em pequena quantidade no continente europeu, foi apenas no século XIX que o tomate começou a ser cultivado e consumido em grande escala pelos europeus. Inicialmente em Itália, onde os italianos lhe chamaram o pomo de ouro - il pomodoro, depois em França, Espanha e Portugal, quando finalmente os povos do sul da Europa afastaram a dúvida sobre a associação do tomate à feitiçaria. O fruto vermelho passou a ser um dos principais ingredientes da cozinha mediterrânica. 
Em 2012 Portugal produziu 1,2 milhões de toneladas de tomate, sendo o segundo maior produtor mundial deste saboroso fruto, só atrás do estado americano da Califórnia.

Em pouco mais de um século estes três exemplares tornaram-se parte da nossa história. Enraizados na cultura e tradições portuguesas ninguém diria que não existiram no nosso país desde sempre. Em tão pouco tempo os nossos ancestrais foram capazes de fazer nascer tradições e saberes à volta destes alimentos que ficarão para sempre ligados ao que é ser Português!


Nota: Imagem principal obtida em saborehistorias.blogspot.com

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Escova de Dentes

A escova de dentes faz parte do nosso dia-a-dia. Encontramos-nos com ela pelo menos uma três vezes por dia e nem nos passa pela cabeça deixar de a usar. Desde a infância somos ensinados a usar a nossa amiga escova, de forma a podermos manter uma adequada higiene oral. De diferentes tamanhos, de diferentes marcas, "vestidas" das mais diversas formas e de variadíssimas cores, a escova que nos esfrega os dentes anda na boca de toda a gente. Mas nem sempre foi assim...
A necessidade de limpar os dentes é tão antiga como o próprio homem. Escavações arqueológicos  encontraram num túmulo egípcio, com cerca de cinco mil anos, aquela que pode ser considerada a mais antiga escova de dentes. O artefacto descoberto  consistia num ramo de uma planta que apresentava a sua extremidade toda desfiada, de forma a que as fibras da madeira funcionavam como cerdas. 
Na região da antiga Babilónia foi descoberto um tipo de vara de mascar datada de 3500 aC, que fazia o papel de escova de dentes. Na literatura grega, romana e egipcía foram encontradas referências a um tipo de palitos de madeira usados para a limpeza dos dentes. Esses palitos eram mastigados até que as fibras da madeira se tornassem moles, de forma a poderem ser usadas para retirar os restos de alimentos dos dentes sem magoarem as gengivas. No século IV aC um médico grego de nome Diocles de Caristo, receitava aos seus pacientes folhas de hortelã para esfregar nos dentes e nas gengivas, de forma a poder combater o mau hálito e as infecções da boca, tão comuns na época. Na China, por volta de 1600 aC eram usados pequenos galhos de plantas aromáticas não só para a limpeza dos dentes mas também para refrescar a boca.
A importância que a saúde dos dentes assumiu na Roma antiga foi tal, que os nobres romanos possuíam escravos apenas com a tarefa de executar diariamente a sua higiene oral, através de uma mistura de areia, ervas e cinzas de ossos. Até o profeta Maomé recomendava aos seus seguidores a utilização de uma haste de madeira aromática que se fosse esfregada várias vezes produziria uma pasta que servia para limpar e clarear os dentes.
Por volta do ano 1490 os chineses inventaram o primeiro prototipo da escova de dentes actual: uma haste de bambú ou de um fino osso onde eram colocados vários pelos de porco na extremidade. Na Europa esta invenção foi também adoptada, mas os pelos de porco por serem muito duros e causarem lesões nas gengivas foram substituídos por pelos de crina de cavalo, bastante mais suaves.
No entanto, a invenção da escova de dentes é atribuída a um comerciante britânico de nome William Addis. Em 1770 foi preso por ter participado num motim e durante a sua permanência na prisão inventou a base daquilo a que nós hoje apelidamos de escova de dentes inspirando-se numa vassoura comum. Utilizando um fino osso de animal de uma das suas refeições, fez doze pequenos furos numa das extremidades, onde colou pequenos tufos de cerdas de javali. Quando saiu da prisão substituiu os pelos de javali, como antes os europeus já tinham feito, por pelos da crina de cavalo e iniciou a comercialização da primeira escova de dentes. A empresa Wisdom, criada por William Addis em 1780 para a produção de escovas de dentes, ainda existe hoje, sendo actualmente uma das maiores empresas de higiene oral do mundo. Como todas as invenções, a escova de dentes era de elevado preço sendo apenas acessível às camadas da população mais abastadas. 
Em 1935, Wallace Hume Carothers, químico e investigador dos Estados Unidos, criou um polímero a que deu o nome de nylon e foi esta descoberta que permitiu a expansão do uso da escova de dentes a outros segmentos da sociedade. A empresa Wisdom passou a produzir em 1939 escovas de dentes com cerdas de nylon, tornando o valor de cada uma bastante mais acessível. Mesmo assim o preço de cada escova era ainda bastante elevado. Em 1940 uma companhia americana lançou a escova de dentes Doctor West Miracle – Tuft, que era vendida a 50 centavos de dólar, o que hoje corresponderia a 8 dólares! Com o aumento da produção as escovas de dentes tornaram-se mais baratas e actualmente são acessíveis a todas as camadas da população. 
De simples varas de madeira transformaram-se em escovas de dentes ergonómicas, eléctricas e com uma panóplia de novas tecnologias, de tal forma que actualmente se torna difícil escolher uma! As escovas de dentes são essenciais à nossa higiene oral, mas não era necessário tornar-nos a vida tão difícil de cada vez que temos que tomar a decisão de comprar uma...
 

domingo, 14 de outubro de 2012

A Carpideira

A Carpideira, profissão exclusivamente feminina, tinha como única função chorar um defunto alheio. A carpideira tem uma tradição milenar. Esta profissional do choro e da dor era contactada para acompanhar os velórios e chorar pelos mortos, mediante um acordo monetário com a família do defunto. No Antigo Testamento, existem várias referências a mulheres profissionais do pranto e do luto, conhecidas pela alcunha de carpideiras, ou aquelas que são fontes de lágrimas: Considerai, e chamai carpideiras que venham; e mandai procurar mulheres hábeis, para que venham. E se apressem, e levantem o seu lamento sobre nós; e desfaçam-se em lágrimas os nossos olhos, e as nossas pálpebras destilem águas (Jeremias 9:17-19). Tinham como principal tarefa provocar uma atmosfera de tristeza, entoando cânticos fúnebres e chorando em voz alta e com grande encenação. A carpideira  aliava à técnica do choro e do cântico fúnebre as artes cénicas  Eram especialistas em representar e encenar situações que visavam provocar nas outras pessoas o choro e a dor. Na antiga Roma, não havia velório sem carpideiras e quantas mais houvessem, mais importante era a pessoa falecida.

Que mulher é essa
Contratada para chorar
Como se o choro fosse um canto,
Para a alma do morto levar.
Tem carpideira que canta,
Tem carpideira que chora...
Todas elas acalantam
A alma que vai embora.
Antiga profissão,
Que ainda hoje vigora,
Contratadas para chorar
No lugar de quem não chora. 

(Fernando Lima)

A ladainha, a encenação e a postura corporal tipicamente usadas pelas mulheres do luto está bem demonstrado neste pequeno filme.


Pouco se ouve falar actualmente das carpideiras apesar de ainda existirem  algumas escondidas nas mais recônditas aldeias portuguesas. Choraram durante séculos os mortos alheios e na história serão lembradas como as actrizes que representaram no palco da vida real!

domingo, 16 de setembro de 2012

O Dono do Mundo

Numa época de crise como aquela que estamos actualmente a passar, falamos essencialmente de uma coisa: dinheiro! O vil metal está no centro das atenções e é a causa de todos os problemas. Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente (William Shakespeare)De facto somos controlados por este velho senhor de nome Dinheiro, e como disse Thomas Fuller, clérigo e historiador inglês do século XVII, o dinheiro é o único monarca. Tal como qualquer outro monarca reinante que se preze, o nosso distinto governante virtual, foi adquirindo diversos nomes e alcunhas ao longo dos tempos. O seu nome de baptismo é curto, apenas Dinheiro, mas os seus sobrenomes e cognomes são tantos, que não há família real que consiga ombreá-lo. 

Cacau - corresponde a um dito usado com outros vocábulos: Aquilo com que se compra o cacau

Carcanhol - pensa-se que está relacionada com carcanhão, que é um nome dado à ostra, que por ser muito apreciada, se tornou muito valiosa.

Chapa - o dinheiro (moedas ou notas) é feito recorrendo a chapas que servem para a respectiva impressão

Chavo e Cheta - correspondem a antigas moedas de cobre


Baga, Caroço ou Grana - correspondem a sementes que produzirão novos frutos, tal como o dinheiro quando é bem gerido

Graveto - pequeno ramo de madeira usado para acender o fogo, fazendo referência à importância e valor do fogo no passado

Guita ou Guito - podem estar relacionadas com o cordel com que os feirantes   atavam as notas

Massa ou Pasta - referência à matéria com a qual se faz o pão e à argamassa com a qual se cobrem as paredes. Também o dinheiro nos permite comprar o pão ou pagar os materiais e os trabalhadores que nos fazem as casas

Nota ou  Papel - referência à própria forma do dinheiro quando imprimida em papel

Pataca - antiga moeda brasileira de prata que valia 320 réis, emitida pelo governo de portugal até ao século XIX. O nome pataca deriva-se da moeda de prata de oito reais mexicana. A pataca é actualmente a moeda oficial de Macau.

Paus - uma possível referência à valiosa madeira de Pau-preto, que durante a época de colonização serviu como moeda de troca em muitas transacções comerciais. 

Pilim - uma onomatopeia porque lembra o tilintar das moedas

Tusto - provavelmente um deturpação da palavra tostão, moeda de ouro cunhada pela primeira vez no reinado de D. Manuel I, equivalente a 1.200 réis

Vintém - antiga moeda brasileira de 20 réis

Detentor de um grande poder a sua fama ultrapassa fronteiras. O grande poeta Manuel Bocage definiu-o assim: 

Faço a paz, sustento a guerra
Agrado a doutos e a rudes, 
Gero vícios e virtudes,
Torço as leis,
Domino a Terra

Oscar Wilde afirmou quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza! E eu também!


Nota: Muitas das explicações dadas foram retiradas de Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (http://www.ciberduvidas.pt)
Foto de CLARICE COPPETTI

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Informação

Todos os dias somos bombardeados com noticias do mundo que nos entram pela casa dentro quase sem pedir licença. A rádio, a televisão, as redes sociais, as revistas e os jornais são o veiculo de propagação de informação. A avalanche de informação a que todos os dias estamos sujeitos é de tal forma avassaladora que já não procuramos a informação, fugimos dela. É difícil no mundo actual estarmos sem noticias. Tudo é noticia e tudo é global. O mundo tornou-se pequeno e quase que sabemos o facto antes dele acontecer! Mas a informação nem sempre foi tão fácil de obter. 

A primeira publicação regular que se tem conhecimento surgiu no século I, quando o Imperador Augusto instituiu a colocação no Forum Romano da Acta Diurna. Esta publicação, que inicialmente apenas enumerava as listagens de eventos ditados pelo Imperador era gravada em pequenas tábuas de pedra, foi instituída por Júlio César no ano 59 aC. Mas foi com Augusto que se tornou periódica e começou a divulgar diversas notícias sobre feitos militares, factos sociais, obituários e outros acontecimentos importantes. A Acta Diurna era afixada em locais públicos para ser lida por todos. No entanto o primeiro jornal em papel surgiu apenas no ano de 713 dC como panfleto manuscrito em Pequim, com o nome de Notícias Diversas. Na Idade Média eram comuns nas grandes cidades, as folhas escritas com noticias comerciais e económicas que eram distribuídas nos meios burgueses. Na cidade de Veneza estas folhas eram vendidas ao preço de uma gazzeta, a moeda local. Daqui teve origem o nome Gazeta, nome adoptado por muitos jornais publicados na Idade Média e que chegou até nós fazendo ainda parte do nome de muitos periódicos contemporâneos. 
A primeira publicação impressa regularmente surgiu em 1602, na cidade holandesa de Antuérpia, com o nome de Nieuwe Tijdinghen e tinha periodicidade semanal. Em 1621 surge em Londres o primeiro jornal de língua inglesa com o nome The Corante. Em 1638, também em Londres o Weekly News torna-se no primeiro jornal a publicar noticias internacionais, tendo sido logo seguido pelo jornal francês La Gazette, que tinha iniciado a sua publicação a 31 de Maio de 1631. Todos estes jornais tinham periodicidade semanal, quinzenal ou mesmo mensal. Só em 1650 surge o primeiro jornal diário com o nome de Einkommende Zeitungen (Notícias Recebidas) fundado na cidade alemã de Leipzig. O poder da informação foi crescendo e com ele o número de jornais publicados. Nos séculos XVIII e XIX as publicações impressas aumentaram exponencialmente e jornais como o inglês The Times (que começou a circular em 1785 com o nome de The Daily Universal Register), tornaram-se ícones da informação. 


Em Portugal o primeiro periódico impresso surgiu em 1641 e tinha como nome Gazeta em que se relatam as novas todas, que houve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de Novembro de 1641, com todas as licenças necessárias, também denominada Gazeta da RestauraçãoO seu objectivo era dar notícia dos acontecimentos da guerra com Espanha e da aclamação de D. João IV como Rei de Portugal, procurando igualmente auxiliar a consolidação da independência (Biblioteca Nacional). Em Janeiro de 1663 surge o primeiro periódico político português em Lisboa com o nome de Mercúrio Português, tendo desaparecido em 1667 A designação de mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, evocando o simbolismo do mensageiro dos deuses. Segundo os estudiosos da imprensa periódica, havia diferenças claras entre os mercúrios e as gazetas, apresentando estas últimas um carácter mais noticioso (Biblioteca Nacional). Mas foi só no dia 19 de Agosto de 1715 que o primeiro jornal oficial português inicia a sua publicação com o título de Noticias do Estado do Mundo, cujo redactor foi José Freire de Monterroio Mascarenhas. No entanto o segundo número publicado a 17 de Agosto já surge com o nome com que ficaria conhecido: a Gazeta de Lisboa,  título que se mantém até ao ano 1833 (com algumas alterações de nome pontuais ao longo dos anos). Com a Revolução Liberal no século XIX a imprensa em Portugal desenvolve-se rapidamente e novos periódicos começam a aparecer. A 18 de Abril de 1835 na Ilha de São Miguel  surge o diário Açoriano Oriental, que é o jornal mais antigo do país e o segundo mais antigo da Europa, só suplantado pelo sueco Post-och Inrikes Tidningar que surgiu em 1645. Grandes nomes do jornalismo português surgem no século XIX: O Comércio do Porto em 1854; o Diário de Notícias em 1864 (o primeiro jornal a ter pequenos anúncios, que lhe permitiu ser vendido a menor preço); o Primeiro de Janeiro em 1869; o Século em 1881 e o Jornal de Notícias em 1888. A informação tornava-se acessível a todos e as notícias circulavam rapidamente. 

O século XX tornou a informação ainda mais rápida e com o desenvolvimento de novas tecnologias a noticia impressa foi sendo suplantada pela noticia dada pelos meios audiovisuais. Os jornais, antigos senhores da informação, viram-se ameaçados pela facilidade da divulgação da informação pela televisão e rádios. No século XXI as redes sociais tornaram-se rainhas da comunicação. De pedras impressas, em pouco mais de dois mil anos, passamos a computadores portáteis, Ipads e Tablets onde temos o mundo à distancia de um dedo. A evolução foi fabulosa e o génio humano fantástico. Pena é que a qualidade da informação não tenha acompanhado a qualidade da sua propagação.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A estrela guia

Sentada sob um fantástico céu nocturno galego, dou por mim a olhar encantada para os cachos de estrelas resplandecentes que brilham ininterruptamente. Há quanto tempo não via tanta estrela no céu...as luzes das grandes cidades ofuscam o brilho das estrelas e impedem-nos de observar um dos mais belos cenários naturais: o céu estrelado. Lembrei-me de Van Gogh que afirmava que quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas. Olhar o céu nocturno é um espectáculo natural deslumbrante capaz de ultrapassar as mais belas pinturas e esculturas artísticas expostas pelos museus de todo o mundo. É de graça, não tem limite de entradas e pode ser visto em qualquer lugar do planeta e no entanto poucos são aqueles que a ele assistem. Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela (Bob Marley). Não olhamos para o nosso céu e não conhecemos as nossas estrelas. São tantas que me perco ao tentar inumerá-las.

Consigo identificar algumas constelações de estrelas pelo seu formato:  a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Cassiopeia e Estrela Polar e poucas mais. Estas grandes e luminosas esferas de plasma, tiveram durante séculos uma enorme importância para todas as civilizações em todo o mundo, como método de orientação. 

Em 1979 na região  do Vale de Ach (região alemã do Danúbio) foi encontrada uma imagem gravada num bloco de marfim, que reproduz a constelação de Orion, com cerca de 32 mil anos. Mas são imensos os registos pré-históricos que comprovam que a observação das estrelas é uma actividade antiga: pinturas rupestres, gravações em pedra, túmulos, artefactos e construções megalíticas. O homem desde sempre utilizou as suas estrelas e com elas conviveu, às vezes adorando-as, outras vezes temendo-as. Com o passar do tempo e através da capacidade de observação o homem percebeu que poderia utilizar as estrelas para sua orientação em viagens terrestres e marítimas. O mais antigo mapa estelar datado do ano 1534 aC, foi encontrado no antigo Egipto. O primeiro catálogo de estrelas foi elaborado pelos astrónomos gregos Aristilo e Timocrates, aproximadamente no ano 300 aC. 

Mas à medida que as civilizações foram evoluindo, com  a descoberta de sistemas de navegação mais complexos e elaborados, deixamos de olhar para cima e passamos a olhar para a frente. As estrelas passaram a ficar lá no cimo e apenas esporadicamente lhes damos uma olhadela rápida. Nietzsche afirmava que  enquanto sentires as estrelas como algo que está por cima de ti não possuis ainda o olhar do homem que sabe. E de facto assim é. As estrelas contam-nos histórias ancestrais e enviam-nos a sua luz carregada de passado. Os telescópios potentes que actualmente conhecemos permitem-nos ver a luz emitida por estrelas que muitas vezes já não existem, mas que mesmo assim nos enviam a sua história através do espaço. Só temos que saber ouvir e saber observar. A nossa história está a ser contada repetidamente em cada estrela que cintila no céu. Somos todos feitos do mesmo pó de estrelas (Carl Sagan) e quem sabe se a nossa tão procurada imortalidade não está na simples capacidade de saber observar uma estrela. Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna (Deepak Chopra, professor e escritor indiano).
 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Santos dos nossos dias


Não há dia que não tenha o nome de um santo qualquer. Se olharmos para as agendas antigas, a seguir à designação do dia aparece o nome de um santo, que a Igreja Católica achou por bem homenagear. Cada dia, cada santo. Existem por isso pelos menos 366 santos contabilizados pela Igreja dos católicos, já que os anos bissextos têm esse número de dias. Foi a Santo Osvaldo que calhou a sina de só ser homenageado de 4 em 4 anos, já que o dia de seu nome é 29 de Fevereiro. De origem dinamarquesa foi cónego de Winchester e arcebispo de York, descrito pelos seus pares como homem generoso, inteligente e um estudioso. Não descobri a causa da sua santidade, talvez por isso só seja lembrado de 4 em 4 anos...
Mas os nomes dos santos que mais facilmente identificamos, são aqueles que estão associados a dias festivos. São João, São Pedro e Santo António são nossos velhos conhecidos. Mas e São Valentim do dia dos Namorados e São Nicolau associado ao Pai Natal? O que sabemos destes santos? Que tradições e histórias estão por detrás dos homens?


São Valentim - sacerdote cristão do século III, viveu em Roma e foi contemporâneo do Imperador Cláudio II, cujo objectivo era constituir o maior exército possível, para manter a hegemonia dos romanos sobre o resto do mundo. Para levar a cabo tal façanha proibiu os casamentos entre os jovens romanos de forma a que estes se alistassem com maior facilidade e diminuísse o número de abandonos do exército. O sacerdote Valentim não acatou a ordem imperial e continuou a celebrar casamentos em segredo. Quando foi descoberto foi preso e condenado à morte. Durante o tempo do seu encarceramento, recebia flores e bilhetes com mensagens sobre a importância do amor. Diz a lenda que se apaixonou pela filha do carcereiro, de nome Astérias. Antes de morrer escreveu uma carta à sua apaixonada assinando no fim de seu Valentim, expressão ainda hoje utilizada pelos casais enamorados. Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro do ano 270, dia em que se celebra o dia dos Namorados.
No entanto este dia era para os pagãos a véspera do festival de lupercalia (de lupus que significa lobo, que reporta à lenda de Rómulo e Rémulo) festa anual celebrada na Roma antiga, em honra de Juno, deusa do matrimónio e de Pan, deus da natureza. Na Idade Média, o dia 14 de Fevereiro era  considerado o primeiro dia de acasalamento dos pássaros, e era tradição os apaixonados deixarem mensagens de amor na soleira da porta da pessoa amada. Actualmente o dia é celebrado um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Uma tradição com séculos de história.


São Nicolau - o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, nasceu por volta do ano 270 em Patara, capital da antiga Lícia (actual Turquia) filho de pais nobres. Quando os pais morreram distribuiu a sua fortuna pelos mais carenciados. Foi consagrado Bispo de Mira (actual Turquia) ainda muito jovem e desenvolveu a sua actividade apostólica na Palestina e no Egipto. Foi preso durante o reinado do Imperador Diocleciano que moveu uma perseguição aos cristãos, tendo sido libertado durante o reinado do Imperador Constantino. São-lhe atribuídos muitos milagres sendo considerado protector dos marinheiros, dos mercadores, dos estudantes e especialmente das crianças. Conta a lenda que gastou parte da sua herança de família a distribuir presentes pelas crianças mais carenciadas. Morreu a 6 de Dezembro do ano 342. Nesse dia, já na Idade Média era costume nos países nórdicos,  os criados da famílias mais abastadas, deixarem pequenos presentes às crianças em honra de São Nicolau. Foi também nestes países que se desenvolveu a tradição de deixar sapatinhos junto às lareiras para que o santo, também chamado de Velho Pai, pudesse deixar os presentes destinados às crianças. Esta tradição e o culto a São Nicolau espalharam-se por toda a Europa. Após a reforma da Igreja, os países que professaram o Protestantismo abandonaram esta tradição, passando a venerarem o Christkind (Menino Jesus) como aquele que oferecia as prendas às crianças no seu próprio dia de nascimento ou de Natal, o dia 25 de Dezembro. 


Mas a lenda de São Nicolau prevaleceu passando o Velho Pai a ser designado como Pai Natal, Père Noel ou Father Christmas, passando também a ser festejado no dia 25 de Dezembro. Apenas na Holanda se manteve a designação de Sinterklaas que significa São Nicolau. Pensa-se que foram emigrantes holandeses que levaram a tradição do culto a São Nicolau para os Estados Unidos da América no século XVII, onde Sinterklaas deu origem a Santa Claus, nome pelo qual ainda hoje é chamado o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho e que distribui as prendas na véspera de Natal. A  figura do Pai Natal ou de Santa Claus, como actualmente a conhecemos, é da autoria de um americano de nome Thomas Nast, cuja ilustração foi pela primeira vez publicada no jornal Harper's Weekly em 1866. Mas foi com uma campanha publicitária da famosa bebida americana Coca-Cola, em 1931, que o simpático velhinho passou a ser reconhecido mundialmente como o famoso Pai Natal.

Ao longo dos séculos as tradições foram-se mantendo, passando de geração em geração. Com o nome de São Nicolau, Santa Claus ou Pai Natal, o que importa é que a fantasia e o sonho se mantenham vivos no imaginário de todos, quer sejam crianças ou adultos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A luta pelas calças

Eu adoro calças! Aliás grande parte do meu guarda-roupa é composto por calças, de diferentes feitios, cores e tecidos. Práticas, fáceis de usar, permitem uma liberdade de movimentos, que dificilmente se conseguiria usando vestidos ou saias. De uso generalizado, as calças são uma peça de vestuário indispensável nos dias de hoje. Mas esta simples peça de tecido que recobre cada uma das pernas da linha da cintura até ao calcanhar, deu muito que falar no inicio do século XX. As calças foram durante muito tempo um privilégio exclusivo do homem ocidental, já que em muitas outras civilizações as mulheres já usavam calças desde há muitos séculos. 

Exemplos disso são as amazonas, mulheres guerreiras retratadas na mitologia grega, que usavam calças como única indumentária. Nas Crónicas de Viagem  - franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo 1245-1330, podemos ler o seguinte: A Caldéia, tem a sua língua própria, e nela os homens são bonitos, mas as mulheres são feias. (...) as mulheres andam descalças e vestem calças até ao chão. Nesta cidade vi muitas outras coisas, que não é preciso narrar! Na época Vitoriana, em Inglaterra, as mineiras de Wigan (cidade do Norte de Inglaterra), escandalizaram a sociedade britânica ao usarem calças por baixo das saias, que enrolavam à cintura enquanto trabalhavam. Com a industrialização, as mulheres trabalhadoras começaram a usar calças mas apenas e só como indumentária de trabalho. 

As primeiras calças desenhadas para o sexo feminino surgiram em 1909, quando o francês Paul Poiret, desenhou as jupe-coulottes (saia-calção) precursoras das calças femininas. A nova peça de roupa desencadeou severas criticas por todo o mundo ocidental. Uns indignavam-se pela forma como o tecido aderia ao corpo da mulher, outros diziam que tornava demasiado visíveis as formas femininas e outros ainda defendiam que era um autêntico atentado ao decoro. Em diferentes jornais de 1911, saíram as seguintes notícias: LISBOA -  apareceram ontem à tarde nas ruas mais frequentadas da capital, muitas senhoras trajando a nova moda de saia-calção. Por toda a parte essas senhoras foram vitimas de troças, as quais degeneraram em tremenda vaia. As senhoras de saia-calção foram obrigadas a refugiar-se em casas de amigas; ROMA - o Telegraph de Turim diz que uma senhorita que tentou sair a passeio vestida de jupe-coulotte, o novo traje que aqui denominam também de harém, foi corrida por muitos populares, que a vaiaram e perseguiram, injuriando-a. A malfadada foi obrigada a refugiar-se numa casa de família, de onde mandou buscar ao seu domicilio os trajes usuais; NOVA IORQUE - Nas avenidas Quinta e Broadway apareceram ontem diversas mulheres modelos vestindo jupe-coulottes. Os transeuntes acolheram-nas com pouca curiosidade. 
A indignação popular foi de tal ordem que até as lojas que exibiam nos seus manequins a nova peça de roupa, eram alvo de ruidosas manifestações.
Coco Chanel foi a grande responsável pela introdução das calças na indumentária feminina. Criadora de um estilo de moda muito próprio e arrojado para a época, libertou a moda feminina de muitos preconceitos e limitações. A primeira mulher a usar publica e orgulhosamente um par de calças clássicas foi a actriz Marlene Dietrich nos anos 30 do século passado, numa cena do filme Morroco, onde contracena com Gary Cooper. A pouco e pouco a mentalidade foi mudando e as calças foram ganhando o seu terreno na moda feminina, chegando mesmo a servir de tema para pequenas anedotas como a que foi publicada numa Revista de moda e que descreve uma conversa entre dois homens: 
- Mas então quem é que manda? Quem usa calças em tua casa não és tu? 
- Qual meu amigo! Hoje todos usam calças...até a minha sogra!
Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres realizaram muitos trabalhos   até então desenvolvidos pelos homens, onde o uniforme de trabalho eram as calças, tendo-se assim vulgarizado o seu uso pelo sexo feminino. As calças passaram a poder a ser utilizadas livremente e sem receio pelas mulheres, fazendo parte do seu quotidiano. Para trabalho ou para lazer, como traje de cerimónia ou de passeio, o pedaço de tecido que recobre as pernas deixou de ser de uso exclusivo dos homens e passou a ser de uso universal.  De boca de sino, de cinta subida ou descida, elásticas, de ganga ou de tecido, com pregas ou sem elas, é vê-las nas pernas de toda a gente. Já ninguém se lembra quando veste umas calças,  por todos os insultos e perseguições por que passaram todas aquelas mulheres que lutaram contra os preconceitos e as imposições religiosas do inicio do século XX. O simples acto de vestir umas calças serve de homenagem a todas elas, e um incentivo a todas aquelas que ainda hoje em pleno século XXI se vêm impedidas de vestirem livremente aquilo que querem e de que gostam. É inadmissível que alguém, homem ou mulher,  seja preso e sujeito a dez chicotadas por vestir uma peça de roupa, como sucedeu a uma jornalista sudanesa apenas por estar de calças. A liberdade é um direito inalienável e não pode haver politica, religião ou crenças e preconceitos absurdos, que impeçam cada um de exercer o seu direito de viver livremente e de se expressar quer por palavras, quer por acções ou simplesmente pela forma de vestir. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância (Simone de Beauvoir).

sábado, 28 de julho de 2012

O saber do povo



As superstições, os costumes, os jogos, os contos, as cantigas, as advinhas, as rimas infantis, as orações, as xácaras (narrativas populares) todas estas tradições que constituem o folclore, parecem na verdade à primeira vista objectos destituídos de importância, e próprios exclusivamente de espíritos ignorantes e rudes (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). As tradições populares são imprescindíveis para a cultura de um país, pois   transmitem o modo como as pessoas encaravam a natureza e como com ela conviviam, elucidam-nos sobre o passado e são a verdadeira obra do povo. O folclore, palavra portuguesa que derivou dos vocábulos ingleses folk (povo) e lore (saber tradicional), é a ciência das tradições, dos usos e costumes populares, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, canções, contos, provérbios, jogos e tantas outras actividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo. A UNESCO declarou que o folclore é sinónimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade, através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Onde está o nosso folclore? O que sabemos das nossas tradições e crenças populares? Para além das danças que quase todos os portugueses conseguem identificar como sendo o vira do Minho, os pauliteiros de Miranda, o corridinho do Algarve ou o bailinho da Madeira, onde está o resto do nosso folclore? Esquecido ou quase...essa parte essencial da cultura de cada nação, quase não existe em Portugal. As figuras do folclore português são desconhecidas. Se falarmos de duendes, gnomos, elfos e fadas facilmente os identificamos como fazendo parte do folclore da Irlanda, Inglaterra, Noruega e outros países nórdicos. Mas se falarmos de trasgos, mouras encantadas, olharapos, almazonas e tardos, poucos serão capazes de saber que fazem parte do nosso folclore e que tanto têm para contar. Será que é por serem nossos? Para compensar a ausência de divulgação dos nossos entes encantados aqui fica uma pequena apresentação de cada um deles:

Trasgos - é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, mais concretamente da região de Trás-os-montes. 
Aparentados com os trasnos galegos, são pequenos seres rebeldes, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.  Os trasgos perseguem principalmente as mulheres, fazendo-lhes variadas judiarias, quando elas estão na cama. Atiram pedras pela janela,  quebram as louças da cozinha (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Estas pequenas criaturas endiabradas arrastam os móveis, mudam as coisas de sítio, partem vidros e muitas travessuras especialmente durante a noite. Pela sua descrição, parecem corresponder aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, porém, ao contrário destes, os trasgos são praticamente desconhecidos nas sociedades modernas, ditas civilizadas, porquanto a sua sobrevivência está circunscrita a uma cultura popular estritamente oral, que sempre foi subalternizada pelas sociedades mediáticas (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)Na memória dos transmontanos mais idosos  os trasgos ainda estão bem vivos e são descritos como uma raça de figurinhas míticas, rebeldes e que adoram pregar partidas. Ainda hoje quando alguém faz alguma brincadeira ou é mais rebelde, os mais velhos dizem aquilo é um trasgo! Segundo as antigas crenças, são pequenas almas penadas, crianças que não foram baptizadas antes de morrer e que regressam às casas que habitavam para pregar partidas. Assim acontece, por exemplo, no concelho de Vimioso, onde existem as ruínas do chamado moinho dos trasgos, que foi abandonado pelo seu moleiro por não poder suportar as travessuras de um que com ele partilhou o mesmo habitáculo (Diabos, Diabritos e outros Mafarricos Alexandre Parafita, 2003). Em Vinhais existe uma curiosa história de uma mulher que incomodada por um trasgo na casa que habitava, decidiu mudar para outra habitação para fugir às travessuras constantes do pequeno ser rebelde. Quando estava nas mudanças encontra um menino de gorro vermelho que carregava um banco de cozinha. A mulher admirada pergunta: esse banco não é meu? Para onde o levas? E o pequeno ser responde: Então não estamos a mudar de casa? Para onde fores eu também vou! Quem não tem em si um pouco de trasgo?!

Olharapos - ou Olhapim (assim conhecidos em Trás-os-montes) são figuras gigantes que apenas possuem um grande olho na testa (Ciclope)
Nos contos e lendas transmontanas o olharapo é descrito como um ser antropófago, violento e feroz. O que lhe sobra em força e em tamanho  falta-lhe em produtividade e sobretudo em inteligência (Alexandre Parafita, investigador de Património Cultural Português)No concelho de Vinhais existe um provérbio ligeiramente diferente do que conhecemos e que diz: Na terra dos Olhapins quem tem dois olhos é rei. No entanto é muito interessante de ver que o número de olhos deste ser assustador varia de região para região: em Cabeceiras de Basto e em Guimarães os olharapos têm três olhos, dois na frente e um no cachaço, razão pela qual tanto vêem para trás como para diante (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882); em algumas regiões do Minho, têm quatro olhos, dois à frente e dois atrás. Figura assustadora dos contos populares, há quem diga que vivem num país distante, mas que podem aparecer de um momento para o outro...

Almazonas - também chamadas de Almajonas, são mulheres muito altas que carregam os filhos às  costas e que fazem parte das lendas portuguesas.
Descritas nas regiões da Beira e no Minho, como mulheres muito grandes e gordas, que deitam os seios para trás e assim alimentam os filhos às costas (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Perante uma mulher bem nutrida era muito comum dizer-se: aquilo é uma almazona. A palavra almazona, segundo Leite de Vasconcelos, tem origem em amazonas, a que foi acrescentado o l  por analogia a alma. Muito curiosa é a lenda que tem origem em Famalicão, e que faz a distinção entre Almazonas (mulheres grandes) e Allamóasque eram mulheres do reino da Allamanha, que traziam os filhos às costas  e nunca deixavam andar os homens com elas. Só uma vez por ano estes tinham permissão para se aproximarem das mulheres, mas ao fim de certo tempo eram expulsos. Quando nascia uma menina, ficavam com ela; quando nascia um menino mandavam-no para os homens. Os homens eram os Allamões, gente muito alta (Leite de Vasconcelos in Tradições Populares de Portugal, 1882). Provavelmente esta lenda tem origem nas invasões germânicas à Península Ibérica no século IV. Através da tradição oral a história chega até nós, tantos séculos depois!

Tardos - ou Trevor é um tipo de duende e é um ser mítico do folclore português. 
Também é chamado de pesadelo ou tardo moleiro, em algumas regiões do país. O tardo é conhecido por importunar as pessoas que estão a dormir causando pesadelos. Pode aparecer em figura de animal - cão, gato ou cabra - e quando aparece nos caminhos, nos regatos ou em cruzamentos tenta urinar em cima das pessoas, deixando-as entardadas (desorientadas) sem saberem que caminho tomar ou onde se encontram. Em Guimarães o tardo é considerado o diabo e só sai à noite. Um lavrador da Maia descreveu-o assim: o tardo não é o diabo. É um bicho mau tal e qual como um cachorro pequeno. Se alguém for por um caminho, de dia ou de noite, e o tardo lhe urinar nas pernas, a pessoa fica entardada e depois não sabe para onde há-de ir; só com o tempo é que se desentarda. O tardo aparece em qualquer caminho, mas nos regatos é pior. 

Figuras tradicionais quase esquecidas, que armazenam pedaços da história do nosso passado. O folclore é a obra do povo, e nós como povo que somos não devemos esquecê-lo. Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos (Albert Einstein).